Monday, September 05, 2016

Exercício Poético

Quando chovia na cidade
sobre os tectos das casas
e os transeuntes, discretos,
silenciosos, nos olhavam,
a chapinhar na lama
as crianças gritavam.
Que secreta chama as
agitava? E tu, que eu
amava, quando vinhas
ter comigo, o teu rosto
alegrava-se, às vezes,
num sorriso. Eu gostava.
Na calçada caía a água
em catadupas do céu.
E, secretas, as mágoas,
cobertas por um véu.
Descíamos a avenida, indo
às vezes de mãos dadas.
Mas as sombras no teu rosto
nada de bom auguravam.
E eu, inocente e feliz,
como se não percebesse nada.
Mas na alma imprimiam-se
as futuras chagas.
Chovia na cidade e
chovia nas minhas mãos
que te acariciavam
numa ingénua ilusão.
E tu davas-te conta
de que eu era outro?
Não aquele que tu vias,
mas uma sombra perdida
na confusão das avenidas.
No meu coração chovia,
embora eu sorrisse
e te pegasse na mão
e o teu braço no meu
me levasse, como se
com paixão, entre
árvores e os automóveis ,
a caminho da solidão.
Esse tempo já passou,
é um tempo muito antigo.
Mas eu não me esqueci.
Não quero falar contigo,
não quero que oiças o
que eu digo. Tu já te foste
embora e eu estou aqui,
bem longe e noutro lado,
ausente de ti.
Este poema convencional,
feito com frases alheias,
é a minha homenagem
às feridas e às mágoas.
Consola-te, se me leres. Nem
sequer houve lágrimas.
E deixa a chuva cair,
ir caindo na cidade,
até se inundarem as ruas
com as nossas saudades.
(Junho, 2014)

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