Monday, September 05, 2016

Episódios

On peut tout se permettre:
le rêve, la douleur, la haine.
Há crimes que não têm perdão?
Nós perdoamos tudo mais cedo
ou mais tarde. Eu preferia não ter
nada a ver com a lógica destas
coisas. Eu preferia não ter, a dizer
a verdade, nascido. Mas devo
ter contribuído para a propagação
do erro, ninguém escapa. Não,
não é o destino, é a incapacidade
de controlar os impulsos primários.
Os rios correm para o mar, de acordo.
Para onde é que haviam de correr?
E depois o que é que lhes acontece?
São devorados pela água salgada,
diluem-se na massa anónima da água,
perdem a individualidade. Morrem.
Na água salgada morrem. Água
salgada que um dia há-de invadir
os continentes e não restará terra
seca onde pôr os pés. Aprenderemos
a viver como os peixes? Não se deve
excluir nenhuma hipótese. Tem pouca
importância, no entanto, porque aconteça
o que acontecer, nós fomos apenas a
gota de água na chuva que caiu uma
noite por acaso nos campos que sem
o saberem sonhavam com árvores
e arbustos verdejantes, cheios de
viço. Ah, sim, a poesia. Eu venero
a poesia: o estilo, a voz solene das
profundidades; o riso feroz ou talvez
piedoso da inteligência que descobre
relações entre coisas que em si mesmo
não teriam, sem nós, qualquer espécie
de relação. Esta caneta não está a
escrever como devia, faz ruídos
estranhos quando acaricia o papel.
Por isso as minhas ideias acerca da
existência estão a ser postas em prática
de maneira muito imperfeita. Claro que
sim, dizia ela, e nunca mais me esqueci.
Tinha-me amado um dia, no longínquo
passado talvez, mas depois casou com
outro. E quando eu lhe perguntei se queria
que lhe mandasse as fotografias em que
parecia que nos havíamos de amar para
sempre, ela disse claro que sim, claro
que sim. E eu pensei: que parva, naquela
cabeça nunca entrou nenhuma ideia que
se aproveite, é mesmo tolinha, só pensa
em vestidos e malinhas de mão. Mas eu
não tinha razão, cada um de nós faz o que
pode para ir achando a vida uma aventura
muito divertida. Qual tragédia? Não há
tragédia, só há diferenças de opinião e
mal-entendidos. Estava um dia meio
cinzento e a caneta começou de novo
a escrever bem, percebeu que não lhe
servia de nada estar a agredir o papel e
a irritar-me. Era domingo. Não havia
esperança em particular, só em geral
e muito vagamente. Ela, aquela que
eu sabia que podia amar e que me havia
de amar recusou-se de antemão à
paixão e à dor, desapareceu entre as
outras pessoas anonimamente. Eu
continuava a pensar nela às vezes,
embora soubesse que não havia que
iludir-se, as coisas são o que são.
Estávamos em Fevereiro e assim
foi passando o tempo e para não me
esquecer tomei nota do que aconteceu.

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