Monday, September 05, 2016

E agora tu


Agora estás a pensar em que
é que eu pensava quando te
tirei as fotografias. Eu não
estava a pensar em nada, creio.
Olhava para ti e a máquina
fotográfica, quase sem me pedir
autorização, ia disparando. Tu
fazias de conta que não te davas
conta de nada. Ou não davas,
estavas tão embebida na excitação
da nossa conversa. Primeiro falámos
na sala, depois falámos sentados ao
sol e no meio das árvores do jardim.
Eu tinha-te visto muitas vezes, mas
nunca te tinha visto de tão perto. E
sobretudo, sentada na minha frente ou
ao meu lado, agora era para mim, para
os meus olhos que tu estavas ali. E
pensavas talvez no que é que eu via
de tudo o que tu estavas a mostrar-me,
o que é que eu percebia de tudo o
que tu dizias e calavas. Mas eu estava
tão atento na contemplação do teu
rosto e dos movimentos das tuas mãos
e dos teus lábios, tão concentrado no brilho
malicioso e febril dos teus olhos que não
te posso dizer agora mais do que aquilo
que tu viste que eu vi nas fotografias que
te fui tirando. Eu não estava à tua espera
e tu tinhas vindo, aproximaste-te de mim
e começaste a falar. Eu, surpreendido, fui
respondendo ao que tu dizias e comecei a
sorrir. Tanta malícia, tanta inocência. O
que é que tu querias? Uma chama pode
ainda acender-se no meu corpo ou no
meu espirito anestesiado pela monotonia
da solidão. Mas de que me serviria a breve
chama, o frágil e ténue fogo em que te
queimarias o tempo de um suspiro ou
dois? Não devias ter-te acercado para
tão perto, não devias ter falado de amor
nem dos espelhos em que se vai observar
aquela que o homem olhou com o punhal
macio e hesitante do desejo. Não devias,
mas tu não sabes o risco que corres ao
acreditar que o amor, a paixão, o desprezo
pelas conveniências, te hão-de salvar de
um destino cinzento e aborrecido.
Eu estou-te agradecido, ainda assim.
Para quem não espera, enquanto dura
a alucinação transformam-se as cores
e as formas do mundo. Ouvi o sussurro
murmurado da água que corre da fonte
do amor e depois o silêncio que sobrevem
ao erro cometido. Mas que vou fazer agora
da dor de te ter perdido sem ter tido tempo
de te possuir? Repousa, não te atormentes
a imaginar o que aconteceu. Se falares, fala
suavemente, em surdina de novo, como tu
sabes. Eu tentarei não sucumbir, incomodado
pelo remorso e pela nostalgia despropositada
daquilo que podia ter continuado a acontecer
e acabou por não acontecer. Já não é tempo
de acontecer nada? Não adianta falar nem
queixar-se. Esquece. Deixa-me sorrir e pensar
em ti, tu, que ao apareceres de entre as árvores
com o teu sorriso e a tua imprevidência já
me distraíste o bastante da minha vida. Vá,
cala-te, vai para casa, esquece as fotografias.

SB 2014

No comments: