Wednesday, August 17, 2016

Na Livraria (Um pesadelo)



Na Livraria

Duas personagens: um homem, dono da livraria; e um rapaz que vem comprar um livro.
O dono da livraria está sentado a olhar para as estantes ou para o ar. A porta abre-se, o rapaz entra. O dono da livraria não se levanta.


Rapaz - Vinha ver se encontrava um livro.
Homem - Que livro?
Rapaz -Um qualquer. É para oferecer.
Homem - As estantes estão cheias de livros. É só dizer o que quer.
Rapaz - Sei lá. Um livro que fale um pouco do mar.
Homem - Bom, às vezes o mar está presente, é referido num livro. Outras vezes está ausente. Mas de uma maneira ou de outra quase todos os livros falam do mar. Ou alguém tem saudades do mar ou alguém tem vontade de ir ver o mar.
Rapaz - Nunca tinha pensado nisso, mas é capaz de ter razão. Só que eu estava a pensar num livro que conte a história de um homem que ao voltar do trabalho encontra uma rapariga na paragem do autocarro. A cena passa-se numa cidade à beira-mar. Ela estava à espera do autocarro. Acha que existe um livro assim?
Homem - Ao princípio não parecia. Mas agora já me dei conta: você sabe bem o que quer!
Rapaz - É um livro para oferecer. Queria que ela gostasse dele.
Homem - Todos os livros se podem oferecer e podem ser apreciados. É uma questão de gosto pessoal. Mas as pessoas a quem se oferecem livros, se quer saber, muitas vezes nem os lêem. Agradecem muito, sorriem, dão um beijinho, mas depois esquecem-se do livro numa estante e não o lêem. Eu digo isto mas não estou a criticar ninguém. No fundo o que é importante é o gesto de oferecer alguma coisa a outra pessoa.
Rapaz - O livro que eu quero é para oferecer a alguém que se ama muito.
Homem - O amor é assunto melindroso, meu amigo. No seu caso eu seria mais prudente. As palavras nunca são suficientemente claras e prestam-se a confusões e más interpretações. Ofereça-lhe um chocolate, é mais seguro. Ou um colar de pérolas. Mas neste último caso leve-a consigo à loja porque as mulheres são esquisitas e tem de ser ela a dizer o que quer. Não se meta em sarilhos, oferecendo-lhe um livro você arrisca-se a estragar tudo desde o princípio.
Rapaz - Ah ah. Não goze comigo. Mas sendo assim, olhe, dê-me um livro qualquer. Ao acaso e depois logo se vê. Ou escolha-me um de que tenha gostado. É que estou com pressa, tenho o carro mal estacionado.
Homem - O acaso não existe. E eu deixei de ler há tanto tempo que não me lembro de nenhum livro que lhe possa sugerir.
Rapaz (Olhando para o relógio) - Que horas é que tem?
Homem - Não se excite nem se enerve, temos muito tempo.
Rapaz -É que ela está à minha espera no carro.
Homem - Se se cansar de esperar que se vá embora. O que não falta por aí são mulheres.
Rapaz - O senhor, pelos vistos, não quer vender os livros que cá tem.
Homem - Tenha calma. Acho-o muito nervoso. Você é um rapaz novo, não há razão para estar tão preocupado.
Rapaz (Perplexo e irritado) - Sabe que mais? Vou-me embora.
O rapaz dirige-se para a porta, tenta abri-la, mas não consegue.
Homem - Impossível.
Rapaz - Impossível ir-me embora? Está a brincar comigo.
Homem - A porta está fechada, como viu.
Rapaz - Então abra-a. Estou farto desta conversa de doidos.
Homem - Não posso abri-la.
Rapaz - Não pode abrir a porta?
Homem - Quem entra aqui, nunca mais sai.
Rapaz -Essa é boa! Abra a porta, se faz favor. Não me faça perder mais tempo, a minha noiva está à minha espera.
Homem - Noiva? O caso é mais sério do que eu imaginava. Ui ui!
Rapaz - Abra a porta ou temos pancadaria.
Homem - Não posso. É uma maldição. Eu não tenho culpa. Mas não posso fazer nada.
Rapaz - Não me vendeu o livro e agora ainda me está a aborrecer. Por favor, abra a porta.
Homem - Que livro é que queria? Não chegou a dizer.
Rapaz - Já percebi que o senhor gosta de desconversar. Mas eu não tenho tempo, ela está à minha espera no carro.
Homem - O melhor teria sido não vir. Agora é tarde de mais.
Rapaz (Tentando adaptar.se à situação) - Pois é, agora é tarde de mais. (...) Mas tarde demais para quê? O senhor é doido?
Homem - Agora não há solução.
Rapaz - Tenho de ficar aqui, é isso? Até lhe passar a maluqueira? Olhe que eu chamo a polícia.
Homem - Ora, a polícia.
Rapaz - Sim, a polícia.
Homem - E onde é que está a polícia? Demasiado ocupada a vigiar as ruas e as loja. E você sabe tão bem como eu que a polícia está em crise. Não há dinheiro para pagar tanto polícia quando na realidade eles passam a maior tempo sem fazer nada.
Rapaz - Por favor, deixe-me ir embora. A minha nova deve estar preocupada.
Homem - A preocupação passa-lhe, não vale a pena inquietar-se.
Rapaz - Tenho de ficar aqui até quando, então?
Homem - Não, nem isso. Na realidade você também não pode ficar aqui.
Rapaz - Se eu percebo alguma coisa desta conversa....
Homem - Não há nada a perceber, meu amigo. E também não há solução.
Rapaz - Esta história vai-lhe ficar cara. Isto é um rapto.
Homem - Rapto? Qual rapto? É bruxedo, é magia, é um mistério para elucidar e resolver.
Rapaz (Tentando negociar) - Posso dar uma vista de olhos aos livros?
Homem - Aqui dentro os livros não têm páginas. Ou antes, têm páginas, mas estão todas em branco. Só depois de se comprar o livro é que as letras se revelam e o livro então toma forma. É parte do mistério sem solução. Mas não tem importância, não acha?
Rapaz (Perplexo, mas não se dando por vencido) - Só leio os títulos nas lombadas, não os tiro da estante. Prometo.
Homem - Como eu conheço os títulos todos de cor, os livros não têm títulos. Seria perigoso.
Rapaz - Seria perigoso os livros terem títulos?
Homem - Os livros têm títulos, mas os títulos estão protegidos, só eu é que os conheço.
Rapaz - O senhor é de facto uma criatura original.Nesta Lisboa monótona do século XX encontro enfim alguém que se diverte. Parabéns!
Homem - Oh, não tem de agradecer.
Rapaz - Eu não agradeci nada.
Homem - Pois não. De certo modo, no entanto, agradeceu. Eu parvo não sou. Ou acha que sou idiota?
Rapaz - Eu não acho nada nem quero saber mais nada. Quero ir-me embora. Mas já que estou aqui, quero levar o livro para oferecer à minha noiva. Ela faz anos.
Homem - Ela faz anos? Que bonito! Dê-lhe os parabéns da minha parte. Sinceros. Diga-lhe que eu, se pudesse, teria tido imenso prazer em oferecer-lhe o livro eu mesmo.
Rapaz - Obrigado. A sua amabilidade é apreciada. Mas não há solução, segundo entendi, pois não?
Homem - Não. Infelizmente não há nenhuma solução.
Rapaz - Posso sentar-me? Arranja-me uma cadeira? Quem sabe se conversando não vamos encontrar uma solução?
Homem - Infelizmente eu tenho de me ir embora. A minha mulher e a minha filha estão à minha espera para jantar.
Rapaz (Entrevendo uma saída) - Boa ideia. Vamos, então.
Homem - Eu vou, mas você não pode ir, infelizmente. Já lhe expliquei. Não há solução. Quem entra aqui nunca mais pode sair. É assim e contra isso eu não posso nada. Está acima da minha autoridade. Em resumo: é impossível.
Rapaz (Continuando a tentar escapar à loucura da situação) - Não posso ir consigo? Aproveitava quando o senhor abrisse a porta.
Homem - Eu não saio pela porta.
Rapaz - Não sai pela porta?
Homem - Não. Tenho de utilizar uma janela.
Rapaz - De acordo, eu não me importo de sair pela janela também.
Homem - Impossível. E não lhe posso explicar porquê. Isto não é uma livraria. Há aqui um mal-entendido. Mas você não tem culpa. Não é o primeiro a meter-se em sarilhos ao entrar aqui.
Rapaz - Estou mesmo farto desta conversa de doidos. Quando é que acaba este pesadelo? O que é que quer que eu faça. Diga.
Homem - Os pesadelos quando começam nunca mais têm fim.
Rapaz - Não há saída? Não há solução? Suicido-me?
Homem - Não exageremos. De qualquer modo a morte aqui dentro é um puro conceito, não existe. É como nos livros. Ninguém ama realmente, ninguém morre realmente. É tudo imaginação.
Rapaz - E a vida, aqui dentro, é o quê? Já agora gostava de entender.
Homem - Não tente entender. Seria pior para si e é inútil.
Rapaz - Não posso ir-me embora, não posso comprar um livro, não posso suicidar-me? Que divertido! Nesta Lisboa monótona...
Homem - Sim, já sei, nesta Lisboa monótona Vossa Senhoria encontrou finalmente uma pessoa que o divertiu. Muito agradecido pela gentileza.
Rapaz - Exactamente. E quer saber uma coisa? Eu não vim aqui para comprar um livro. A compra do livro era um pretexto.
O rapaz neste momento tira uma pistola do bolso e aponta-a para o homem. 
Rapaz - Abra a caixa e passe para cá todo o dinheiro que lá tem. Isto é um assalto à mão armada.
Homem - Não me faça rir.
Rapaz - Já lhe disse que estou com pressa. O dinheiro.
Homem - Aqui dentro não há dinheiro. Isto não é um comércio. É tudo ilusão, é um mal-entendido. Vou-m embora. Fique bem.
Ouve-se um estrondo, uma espécie de explosão, com muitas chamas e fumo. O homem desaparece entre as chamas e o fumo. Quando se pode ver o que se passa, o rapaz aparece sentado no chão, tem a cara enfarruscada. Levanta-se com dificuldade e dirige-se às estantes. Tenta tirar um livro, mas descobre que os livros e as estantes estão pintados na parede, não existem realmente. A luz apaga-se bruscamente. O mistério nunca será esclarecido. Leiam o Fausto de Goethe, talvez ajude. 

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