Thursday, August 18, 2016

Janelas a mais (brincadeira literária)

Janelas a mais

(Brincadeira literária)

Personagens: o escritor e o editor. O escritor está sentado diante da secretária do editor.


Escritor - Bom, finalmente podemos conversar. Demorou, mas chegou o momento. Gostou do meu livro?
Editor - O seu manuscrito? Hmmm...  Assim assim. 
Escritor - Sempre o mesmo! Exigente, sincero. É assim que eu gosto. A lisonja é uma ofensa e não ajuda  ninguém a triunfar na vida.
Editor - É verdade. As pessoas vivem distraídas e a reboque dos jornais. Não se sabe pensar, acredita-se no que se lê, no que se ouve dizer. A educação literária dos jovens está nas mãos de meia dúzia de jornalistas pedantes e ignorantes. Não contem comigo para esse programa!
Escritor - É por isso que nós não progredimos. Somos um país de analfabetos culturais. Incensar a banalidade como se ela fosse coisa séria é convidar as pessoas a aspirar à mediocridade.  
Editor - Tem roda a razão. E não é só um problema da literatura. Em política é a mesma coisa. Jornalistas, jornais, uma cambada de ignorantes, uns imbecis. É o que temos.
Escritor - Escritores que ninguém realmente lê a sério têm amigos nos jornais e passam por génios da escrita contemporânea. Enfim, passam quando passam. Nem toda a gente se deixa enganar.  
Editor - Uma  vergonha, meu amigo, uma vergonha.  O Eça, se cá voltasse, continuava a ter matéria para novelas, contos e romances. 
Escritor - Ah, o Eça! O grande Eça! Mas leitores incautos e ignorantes compram livros porque querem educar-se, querem estar actualizados e ter em casa aquilo de que se fala. Compram gato por lebre. Não que eu ache os gatos inferiores às lebres, mas o meu amigo entende-me.
Editor - E esses grandes escritores não se cansam de dar entrevistas, contam quando escreveram o primeiro poema, aquilo com que sonham, falam do gato e do cão. Uma comédia. 
Escritor - Nem mais. (...) Mas olhe, trouxe aqui comigo outro romance que acabei recentemente para que me dê a sua opinião.
Tira o manuscrito da pasta e coloca-o em cima da secretária do editor. 
Editor - Mas nós ainda não publicámos o manuscrito seu que cá temos. 
Escritor - Eu sei... Tenho-me perguntado porquê. Mas enfim, não ignoro que a procura é muita e que os editores não têm tempo para dar vazão a tudo o que lhes submetem.  
Editor - É verdade, claro que é verdade.  Mas há outra coisa, que no fundo vem a ser a mesma coisa: os seus livros vendem-se mal. 
Escritor - Ah ah! Já esperava essa observação, confesso. Mas nesse caso ofereçam-nos! 
Editor - Ah ah, de facto! Que belo sentido de humor o seu. 
Escritor - Eu não tenho amigos nos jornais, é por isso que os meus livros se vendem mal.
Editor - Por isso e por alguma outra razão, provavelmente. Nunca se sabe bem. 
Escritor - Eu reconheço que não sou um escritor fácil. Não escrevo para funcionários públicos nem para advogados, não escrevo para médicos nem para os professores de liceu, que é gente chega a casa cansada, que mal tem tempo para pensar - e que deve ser quem compra mais livros.
Editor - Ora aí está uma explicação em que eu não tinha pensado. Mas enfim, oferecer os livros não nos resolvia o problema, nem a mi nem a si. 
Escritor - Pois não. As pessoas precisam de gastar dinheiro para sentir que o que compraram os enriqueceu de alguma maneira, distinguindo-os da massa anónima imbecilizada.
Editor - Pois é, acontece com os livros a mesma coisa que acontece com as saias, com os casacos, com as camisas - e até com os automóveis. Sem sinais exteriores de riqueza ou identidade diferenciada... Como é que hei-de dizer... Enfim, passa-se despercebido, é-se mal visto ou nem sequer se é visto. 
Escritor - Essa é boa! É-se mal visto ou nem sequer se é visto. Eh eh. Uma lógica inflexível a sua. 
Editor - Fala a experiência, meu amigo, não se espante. (...) Mas diga lá, então.
Escritor -Diga-me lá de que é que não gostou no meu romance, nesse que aí têm há quase um ano.
Editor - Difícil de dizer. Deixe-me pensar. (…) Por exemplo: no seu romance há janelas a mais, de onde alguém vê passar alguém ou simplesmente contempla a paisagem. É apenas um exemplo de coisas que se podem melhorar. Não dá. 
Escritor - Janelas a mais? Essa surpreende-me. E não dá o quê? Não percebo.
Editor - Não dá para cativar o leitor, percebe? O leitor é um animal sequioso de prazeres fáceis. A maior parte dos leitores, em todo o caso, aqueles que permitem a um escritor ir sobrevivendo e acreditando.
O Editor levanta-se, vai a um armário buscar o manuscrito do romance, volta a sentar.se. Folheia o manuscrito. Depois continua:
Editor - Ora vejamos. (…) V u-lhe dar alguns exemplos. Página dois: “pela janela, Joana viu Eduardo atravessar a rua”. Página três: “pelo vidro da janela via-se um avião  cortar o céu”. Cortar o céu, meu Deus? Você tem cada uma! 
Escritor (Cínico) Não estou a ver, mas continue lá a sua inquisição...
Editor - Página quatro: “a janela dava para um quintal e as galinhas”, etc., sem interesse. Página cinco: “Malaquias abriu a janela, respirou, fundo depois pousou o olhar na árvore em frente, já envolvida pela bruma da noite”, etc., etc…. Que raio de nomes você inventa! Onde é que foi buscar este Malaquias? É algum vizinho seu? Enfim, já está a ver o que eu queria dizer: há janelas a mais no seu romance. Mais um exemplo, ao acaso. Página vinte: “ à janela, Eduardo concentrava-se no que lhe acontecera essa manhã quando tinha ido comprar pão...”  Está a ver, não se pode abrir uma página sem encontrar uma janela no seu romance... 
Escritor - Ah ah. É que quem procura sempre encontra. Quem parece estar obcecado com as janelas é o meu caro amigo. Senão não as tinha visto... 
Editor - Elas estão lá, eu tinha de as ver!
Escritor - Sim, já percebi. Mas um leitor sem preconceitos, alguém que não esteja de pé atrás, alguém que esteja sem má fé a fazer uma leitura normal, nem se dá conta disso. Afinal todos os livros estão cheios de portas e de janelas. E porquê? Precisamente porque é sempre entre as portas e as janelas que se passa muita coisa. E pelas janelas vê-se o que uma porta fechada ou uma parede não deixam ver. Evidentemente.
Editor- Ora, meu amigo, leitor sem preconceitos e leitura normal são coisas que não existem senão no puro mundo dos conceitos que nunca foram postos à prova. E depois não estou de acordo consigo. Numa obra literária tudo conta. Da primeira à última palavra tudo o que lá está conta. Senão não estava lá. Se não fosse para contar, não estava lá!
Escritor  (Irritado, mas contendo-se) - Estamos a desconversar. 
Editor - Em resumo: tem de mudar o seu estilo, corrigir, aperfeiçoar a sua técnica de composição. Você até nem escreve mal. Mas é preciso originalidade, é preciso surpreender, chocar. Sem originalidade não se vai a lado nenhum em literatura.
Escritor - Jaja! E no entanto a realidade prova exactamente o contrário. As livrarias estão a abarrotar de livros sem originalidade nenhuma. Até parece que usaram todos o mesmo programa de computador para escrever livros originalíssimos que são todos parecidos uns com os outros. 
Editor - Fico na minha: um escritor que não se esmera a ser original, que não sente em si , no seu ser profundo, o germe da originalidade, na minha opinião não tem o direito de escrever. Ou que escreva, já que não pode passar sem escrever. Mas escreva diários e não publique, isto é, não torne público o que por natureza deve continuar privado. Você sabe quantas centenas de milhares de livros se publicam todos os anos pelo mundo fora? 
Escritor (Desconsolado) - Vivemos entre portas e janelas e o meu caro amigo acusa-me de usar e abusar de janelas no meu romance. Repare que mesmo o que se passa na rua se passa antes ou depois de termos entrado e saído de casa. Não se pode andar sempre na rua. E se se está em casa é preciso ar, é preciso respirar. E é preciso deixar entrar a luz. Está a ver? É uma fatalidade: as janelas aparecem por todo o lado no meu romance e nos romances de outros escritores porque ocupam um lugar importante na nossa maneira de viver. 
Editor - A arte é selecção, meu amigo, tem de ser composição. A partir de certo material, o material da experiência, é certo. Mas a vida é caos. E a arte é, ou em todo o caso deve ser: ordem! A arte e a vida são coisas diferentes. Aliás é você que está sempre a dizer isso: não se confunda a arte com a vida, não se confunda o romance ou o poema com a autobiografia. Já se esqueceu? Nem sei já quantas vezes o ouvi proclamar essa distinção do seu credo estético!  
Escritor (Sem se desanimar, aparentemente, o escritor pega no manuscrito que tinha posto em cima da mesa no início da conversa) - Talvez este livro, o meu novo romance, lhe interesse. Não há nele uma única janela, não há nele o mínimo vislumbre de uma porta. 
Editor - Aha ah! O que só confirma o que eu lhe dizia. Até você se deu conta de que havia janelas e portas a mais nos seus livros, que era preciso inovar. Ora bem!
Escritor - Tudo depende do assunto, do tema, daquilo de que se está a falar, é claro. O estilo, a técnica, a composição, tudo depende dos objectivos que se perseguem. 
Editor - Nem mais. Nesse ponto estamos inteiramente de acordo. 
(O editor estende a mão para  manuscrito
Editor - Mas deixe-me ver.
Escritor - Foi para lho mostrar que cá vim. Faz favor. (Passa o manuscrito ao editor).
Editor - Posso ficar com o manuscrito? 
Escritor - Claro. Mas dê uma vista de olhos antes de eu me ir embora. Para ter uma ideia. 
O editor  folheia o manuscrito ao acaso.
Editor - Não é possível! 
Escritor - O que é que há agora? Não gostou do que leu?
Editor - Não é isso, não é isso, homem! 
Escritor - É o quê, então? 
Editor - O seu livro passa-se no deserto!
Escritor - E então? 
Editor - Mudança radical de lugar de acção. Entre a cidade e o deserto as diferenças são abismais, temos de reconhecer.
Escritor (Cínico?) - Sim, é verdade. No deserto não há portas nem janelas. 
Editor - Pois não. Mas repare…. (Follheia o manuscrito) Já vejo que há por aqui muita areia. Esperemos que seja areia a mais desta vez.
Escritor - Que se fale de areia num romance que se passa no deserto não lhe parece normal? (Irónico) No deserto há muita areia, há areia por todo o lado. Eu nunca fui ao deserto, mas é o que se diz…
Editor - Deixe-me ver melhor. (Folheia e cita) Ora bem. Hmmm…  Logo na primeira página lemos isto: “A areia queimava-lhe os pés.”  Na segunda página: “O vento fazia voar a areia.” Na página três: “Nas dunas, com a suavidade das suas curvas longas mas discretas, a areia… ”, etc...  Você não perde uma ocasião de falar da areia. Outra obsessão. Quem sabe se você não está a atravessar um período de crise de assunto. Essas coisas acontecem aos melhores. No seu livro anterior era só janelas para aqui, janelas para ali. Agora é só areia por todo o lado. Temos de reconhecer que há um risco evidente de monotonia. E quem diz monotonia em literatura diz aborrecimento. 
Escritor - O meu romance anterior passava-se na cidade. Na cidade há casas, as casas têm janelas, além de terem portas. E as pessoas é da janela que observam e vêem o que se passa na rua ou na paisagem.
Editor - Na cidade também há automóveis, bicicletas, aeroportos, hospitais, sei lá…. E você mal fala nisso, se bem me pareceu… 
Escritor - Os automóveis, os aeroportos e os hospitais também têm janelas... Não me lembro em pormenor, mas de certeza que... 
Editor - São janelas a mais e o resto é esquecido ou peca por não ser mencionado… É uma obsessão, tudo indica
Escritor - Uma obsessão minha ou uma obsessão sua? Isto já parece um interrogatório em que eu tenho de me defender. Além de ser editor, o senhor parece tem minúcias despropositadas, obsessões e limitações de... de critico literário… Desculpe eu dizer isto, mas estou um pouco desiludido consigo.
Editor - Não tem mal. A falar é que a gente se entende, não é? Eu não tenho preconceitos...
Escritor - O livro que lhe trago passa-se no deserto. É natural que fale de areia.
Editor - Como se no deserto só houvesse areia. E os cactos? No deserto há plantas e flores, há muitos cactos em particular. O verde dos cactos contrasta com o amarelo da areia, mas você parece que só vê areia por todo o lado. Alguma vez foi ao deserto? Ou só viu fotografias?
Escritor - Ora. Estou a perder o meu tempo. Você folheou umas páginas em cinco minutos e está a avaliar o livro como se o tivesse lido… É o que eu dizia há pouco: o amigo deve ter sido crítico literário antes de ser editor. Mas não lhe vou levar a mal as suas observações, já nos conhecemos há muito tempo e eu sei que o seu sentido de humor às vezes pode ser enervante..
Editor - Ora aí está! Eu sabia que não nos íamos zangar. Mas entenda-me bem: no deserto a areia nem sequer é o essencial. Cada escritor, é natural, tem as suas obsessões, uma visão limitada da realidade no seu conjunto, da realidade como totalidade. Mas é preciso disfarçar, dissimular. Abrir os olhos para outras coisas, escapar à obsessão particular que pode destruir um livro em particular… 
Escritor - Dissimular o quê? Não entendo nada.
Editor - Disfarçar a obsessão, tentar fugir à mania do momento. Por excesso de concentração em certos aspectos da realidade...  corre-se o risco de não ver o mais importante. E não se chega a ser um grande escritor se não se fala do que é importante. A cegueira para um escritor é a morte antecipada. 
Escritor - Peço desculpa. O Castilho era cego e vem mencionado em todas as Histórias da Literatura. Não é que eu o admire, mas enfim....
Editor - Ah, o Castilho! A porrada que ele levou, coitado... Desancaram nele como quem bate em monte de palha na eira... 
Escritor -  O Jorge Luís Borges era cego e é considerado um grande escritor...
Editor - Ah ah! Mas o Borges era um cego que via. Ele via com os olhos do espírito. A grande diferença é essa. Os olhos do espirito são importantes.
Escritor - E que mais? Estou a cair em mim e não é possível !
Editor - O que é que não é possível, meu amigo?
Escritor - O senhor editor tem estado a divertir-se à minha custa. Não acredito que pense tudo o que me disse… Não pode ser! 
Editor - Pode ser e é, esteja seguro disso. Eu tenho muito que fazer, não posso perder tempo a divertir-me em brincadeiras inúteis ou de mau gosto. Não me leve a mal. Eu sei que não me leva a mal. Já nos conhecemos há tanto tempo!
Escritor - Olhe, tudo bem. Não há problema. Mas nesse caso acho que levo o manuscrito. E vou-me embora. Já lhe roubei muito tempo. 
Editor - Leve os dois manuscritos e reveja tudo. É melhor assim. Depois falamos. O seu primeiro livro, que nós publicámos há uns dez anos, sem ter feito grandes vendas, era um belo livro.Ainda hoje se lê sem muito enfado.
Escritor -Sem muito enfado? 
Editor - Com algum prazer, era o que eu queria dizer. 
Escritor - Queria dizer e não disse. (...) E se eu agora me zangasse e atirasse os dois manuscritos pela janela e eles fossem aterrar na areia do seu jardim aqui em baixo?
Editor - Está a ver? Eu aprecio sinceramente o seu sentido de humor, a sua falta de rancor e de susceptibilidade. Presto-lhe homenagem com toda a sinceridade, do fundo do coração. 
Escritor - E eu fico-lhe agradecido a si, evidentemente. Nem só de literatura  são feitas as boas relações. 
Editor - Sabe que o Flaubert ficava horas inteiras agarrado a uma frase só porque não queria repetir uma palavra na mesma página? O génio é isso: exigência, paciência, teimosia.
Escritor - Falemos de coisas sérias.
Editor - Além disso, se me permite mais uma observação, os seus livros são um pouco longos. Pense em reduzir um pouco, em desbastar. Ganha com isso. 
Escritor - Ah! São demasiado longos também? Hoje estou a aprender muita coisa. Garanto-lhe não considero o dia perdido.
Editor - E outra coisa an da, mais um pormenor: tente meter mais personagens ao barulho. Os seus romances têm poucas personagens.  
Escritor - (Continuando na tentativa de manter uma distância irónica) E que mais, já agora? Aconselhe-me, meu amigo. 
Editor - A dizer a verdade nos seus livros não se passa nunca nada de importante. Desculpe a observação quase ridícula, mas eu sei que a minha sinceridade lhe agrada. 
Escritor - Ah! Mais uma novidade? Cote-me, conte-me lá.
Editor - No seu romance que cá tínhamos há janelas de onde alguém vê alguém atravessar a rua ou assiste ao pôr do sol....Ou janelas de onde alguém observa, por exemplo, as janelas do prédio em frente. Mas não se sabe aonde vai esse alguém que atravessa a rua. Nem quem é exactamente a pessoa que está sempre a ver coisas da sua janela. Nem quem vive por detrás das janelas da casa em frente. Os seus personagens ou as suas personagens mal existem e nunca ou raramente se encontram e falam.  
Escritor - E acha isso inverossímil? Que as pessoas não se encontrem nem falem é assim tão inverossímil? 
Editor - Talvez não seja inverossímil. Mas é sufocante. A monotonia ameaça.
Escritor - Se eu escrever um romance sem areia e sem janelas, um romance em que as pessoas se encontram, em que se saiba aonde vai quem atravessa a rua e quem mora no prédio em frente...  acha sinceramente que lhe pode interessar? Eu já estou por tudo e gostava de lhe agradar. 
Editor - Não sei, só vendo, não é? Como é que se pode saber? O assunto não é tudo num romance. É preciso coerência, convicção, técnica. A técnica é que permite dar forma digna desse nome ao assunto, à convicção. Não acha? 
Escritor - De facto. Tem toda a razão. Só vendo a obra acabada é que só pode saber o que ela vale, o que vale o assunto da obra.
Editor (Começando a levantar-se) - Bom, foi uma conversa útil, é sempre um  prazer estar consigo. Mas como lhe tinha dito, agora tenho uma reunião com o meu gráfico. (...) Aqui tem os dois manuscritos. Proceda a uma revisão séria e depois falamos. Não desanime, dúvidas todos nós as temos, acontece. Mas um homem morre de pé, não se dá por vencido sem luta. 
Escritor (Levanta-se também) - Nesse ponto estamos de acordo outra vez.
Editor - Temos estado de acordo em quase todos os pontos, reconheça! E já agora: porque não vai viver uns tempos para o campo? Mudar de ares refresca as ideias e distrai.
Escritor - Estou inteiramente de acordo, consigo, é preciso de vez em quando mudar de ares e distrair-se. 
Já os dois de pé, o editor estende a mão ao escritor, que lhe recusa a sua. E tudo acontece agora rapidamente: o escritor pega nos dois manuscritos, aproxima-se da janela, dá uma gargalhada monstruosa. E enquanto se atira para o vazio grita:
Escritor - A minha obra será póstuma! 
O editor sobressalta-se, evidentemente. Depois volta a sentar-se, suspira, olha vagamente para a  janela. Acende um cigarro, dá um murro na mesa. E diz:

Editor - Outra vítima da obsessão com a imortalidade. As pessoas nunca mais aprendem.

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