Sunday, August 07, 2016

Dilema

Dilema

1

Era um homem sem presente nem futuro. Só tinha passado. Mas viam-no no presente a cumprir todas as obrigações e sujeito a todas as necessidades, como as outras pessoas. O processo que o levara a semelhante evolução seria difícil de descrever e explicar. Ele próprio a única coisa que sabia dizer era que odiava a situação em que se encontrava. Gostaria de libertar-se dela enfim, de aceder ao presente, de poder sonhar com o futuro. Não podia, por ora. No futuro só vis a morte: ele e a morte, daqui a dez ou vinte anos como podia ter sido há dez ou vinte anos, um acontecimento imprevisto, uma surpresa de que nem sequer teria tido tempo de dar-se conta. Porque em segundos morre-se, no meio da consciência que se começa a ter de que se vai morrer. No presente só cia sombras, silhuetas, inconsistência, nada. Nada em que pudesse deter o olhar ou pôr a mão sem que o passado se intrometesse na percepção, na sensação, e tornasse impossível qualquer emoção nova, algum conhecimento da actualidade do corpo e do mundo.


2

Como foi que as coisas aconteceram? Ele vive de obsessões, a querer resolver o que não se resolveu, a tentar compreender o que não foi compreendido. Se morresse agora, morreria no passado, numa zona indeterminada do passado que tenta decifrar. Perguntam-lhe:
- O que é que há para compreender, para explicar? 
Ele cala-se, não responde. Depois diz: 
- Não sei.  
Não se pode interrogar uma pessoa de maneira tão directa. Não se deve. Uma vez ele perguntou a uma rapariga com quem saía às vezes:
- O que é que tu queres de mim?
Ela respondeu:
- Que pergunta é essa? Perguntas dessas não se fazem porque é impossível responder-lhes.
É o que ele pensa, também, acerca da obsessão com o passado. Não sabe explicar, não há explicação; ficou lá para trás, o espirito fixou-se em certos acontecimentos que aconteceram e nunca mais ficou disponível para o que aconteceria depois, para nenhum presente, para nenhum futuro. 


3

O espirito não está disponível para viver no presente. É uma maneira interessante de explicar as coisas. Não explica muito, mas permite ficar com uma ideia sobre o que se passa. O que foi que ele não conseguiu entender e agora passa o tempo a querer entender? Ele não sabe exactamente o que foi. Diz que o acontecimento que está na origem de tudo, que amarrou a si o espírito, a consciência, a inteligência, parece ter a ver com o amor ou com uma ilusão de amor. Mas que também pode ter a ver, de maneira mais geral, com a questão da identificação da verdade como coisa oposta à  mentira. Sem se dar conta, sem o ter querido, transformou-se num filósofo, perturbado por questões insolúveis. Insolúveis? Enquanto não acontecer a solução, mas depois já não. 


4

A questão da verdade. Que lhe ensinaram, que aprendeu na escola ou em casa, na rua ou no cinema, nos livros que leu? O que é a verdade? O que é a mentira? Por que razão tem importância distinguir a verdade da mentira? Que significa dizer a verdade, identificar a verdade, encontrar a verdade? Exemplos: o olhar pode mentir? as palavras que aparentemente dizem a verdade podem mentir? o rosto da mãe ou do pai ou do professor podem mentir? o amor pode ser uma mentira? Não há resposta, diz ele, que permita resolver o problema cientificamente, definitivamente. Não há nem haverá nunca uma regra que permita ultrapassar o problema. Temos de viver com a dúvida. Temos de perceber que não está ao nosso alcance chegar a uma conclusão. Embora ele às vezes diga: o problema só existe, só está em nós e nos perturba, na medida em que somos nós a fazer a pergunta e a querer responder-lhe; porque na realidade se não nos interrogarmos, se aceitamos o que é tal como é, o problema desaparece. A verdade e a mentira confundem-se. Não têm uma um rosto, outra um rosto diferente. O rosto da verdade e o rosto da mentira, em resumo, são idênticos, não se distinguem. E se não se distinguem como seria possível nós fazermos a distinção? 


5

Problema: então não há verdade nem há mentira? Então é tudo verdade e é tudo mentira? Ao mesmo tempo? Erro grave. O facto de a verdade e a mentira terem o mesmo rosto não significa que sejam a mesma coisa, que por detrás desse rosto, pura aparência, se esconde ou deixa entrever a mesma coisa. Não. É preciso é saber distinguir - e há quem saiba distinguir e quem não saiba.  Seja verdade, seja mentira, os sinais, a forma, são idênticos. Mas aquele que tem sabedoria percebe logo, ou acaba por entender mais tarde, o que aconteceu, isto é, sabe se está perante a verdade ou perante a mentira, percebe se é a verdade ou a mentira que lhe é proporcionado contemplar.


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Mas então, se é possível, se a algumas pessoas é possível distinguir no rosto idêntico da verdade e da mentira só a verdade ou só a mentira, por que razão é que ele não resolveu ainda o problema e continua amarrado ao passado, a episódios do seu passado em que a questão da verdade e da mentira não foi solucionada? O que é que está a acontecer? Porquê o fracasso? Ele explica: houve um tempo em que lhe pareceu que tudo era verdade; e mais tarde pareceu-lhe que tudo era mentira. Os acontecimentos eram os mesmos, o rosto deles, como a forma de uma palavra, eram idênticos. Ms ele ora via neles a verdade ora via neles a mentira. E tem sido esse o problema, o dilema: a alternância de convicções. O que ele vê ora é a verdade, ora é a mentira. Ele tem períodos de crença na verdade e períodos de crença na mentira. E quando imagina que chegou a uma conclusão definitiva e se prepara para voltar ao presente é surpreendido pela sua mudança brusca de opinião, por começar a ver o rosto que era o da verdade como sendo afinal o rosto da mentira - ou vice-versa. 


7

- Porque não deixar o problema por resolver, perguntou-lhe uma amiga a quem se tinha confiado.
Ele respondeu:
- Não posso, não está no meu poder tomar essa decisão, o problema só pode ter uma resposta, não duas. 
Ela, a amiga, insistiu:
- Mas por que razão não pode o enigma ter ao mesmo tempo duas soluções, isto é, ser ao mesmo tempo em parte verdade e em parte mentira, como tudo o que se diz, como tudo o que existe, de certo modo?
Ele não respondeu. Encolheu os ombros. Ela não podia entender que essa hipótese também já ele a tinha admitido, mas que acabara por voltar à questão primordial: ou é verdade ou é mentira; ou é essencialmente verdade ou é essencialmente mentira, mesmo se na verdade há algumas dúvidas, mesmo se na mentira há algumas dúvidas. 


8

Os amigos cansaram-se, fartaram-se de o aturar. Nunca está disponível, nunca está onde está. Convidam-no, por exemplo, e ele vai. Mas bruscamente desaparece, fica o corpo mas o espirito ausenta-se no passado onde continua a querer resolver o dilema. 
- Vamos deixar de o convidar, disse uma amiga a outra amiga, ele não nos ouve, não nos vê, não nos liga importância. Tanto se lhe dá estar connosco como estar sozinho em casa. 
- Não, coitado, não lhe faças isso, respondeu a outra amiga. Se o abandonamos de vez, perde-se a esperança de o ver regressar ao presente. Quem sabe se estando connosco, uma vez, inesperadamente, bruscamente, não se faz luz no seu espírito, não deixam de atormentá-lo a dúvida e o problema?   
A outra amiga respondeu:
- Quem sabe, de facto? 


9


Claro que ninguém sabe. Nem ele, que provavelmente já se habituou à situação e aprendeu a viver assim. A situação é clara: ele é um homem sem presente e sem futuro, escravo do passado. Mas, quem sabe, talvez um dia, antes de morrer, ele entenda que o problema só existiu porque ele se interrogava: foi verdade ou foi mentira? Talvez ele acabe por entender que é normal o que é verdade ser depois mentira e vice-versa, dependendo do seu estado de espírito e do tempo que está, de se dormiu bem ou dormiu mal, das pessoas com quem fala ou se cruzou na rua, do que se vai passando no mundo. Claro que se ele chegar a entender isso vai ficar cheio de pena e lamentar ter desperdiçado a sua existência a tentar resolver um problema que nunca teria existido se ele não pensasse que havia um problema a resolver.

SB, 14 de Maio, 2007

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