Sunday, March 01, 2015

Vamos a Budapeste?


H. – Lembras-te de quando nos conhecemos?

M. – Foi há muito tempo.

H. – Depois, durante alguns anos, ignorei-te. 

A. – Eu não me queixei. 

H. –  A minha vida era noutro sítio. Eu tinha uma relação com outra mulher. 

M. – Eu tinha uma relação com outro homem. 

H. – Eu gostei de ti.

M. – Não sei se é verdade. O que é gostar? Querias dormir comigo. 

H. – Eu tirei-te muitas fotografias, lembras-te? 

M. – Eu não te tinha pedido nada.

H. –  Ia tirando as fotografias e ia ficando seduzido. Naquela casa imensa, cheia de escadas, com quartos enormes e vista para o rio. 

M. – Depois levaste-me para o teu quarto. Fiquei surpreendida. 

H. –  Não me esqueci de nada.

M. – Foi há muito tempo.

H. – Tenho saudades. E remorsos.

M. – Remorsos?

H. –  Não soube amar-te.

M. – O que tu procuravas não era o amor.

H. – Agora eu lembrei-me. Estava a olhar para ti e lembrei-me. 

M. – Foi há muito tempo.

H. – Nunca me esqueci.

M. –  Levaste-me a jantar. Fomos de carro. Atravessámos uma ponte de pedra muito antiga.

H. –  Não me esqueci.

M. – Depois, quando chegou o momento de partir, fomos pela margem do rio até à grande cidade.

H. –  Tu ias sentada ao meu lado. Eu sabia. 

M. – Na grande cidade dormimos numa pensão perto de um torre antiga, mas tu nunca mais me tocaste. 

H. –  Eu sei. 

M. – Sentias-te culpado. 

H. –  Eu sei.

M. – Fiquei surpreendida, mas não me queixei. 

H. –  Eu sei.

M. – Dormiste comigo uma ou duas vezes e desinteressaste-te.

H. –  Havia outra mulher na minha vida. Pode ter sido por isso.

M. – Não sabes?

H. –  Não sei.

M. – E agora estás a olhar para mim.

H. –  Encontrámo-nos várias vezes, mas nunca falámos no que aconteceu naqueles três dias.  

M. – Eu não me queixo. Nunca me queixei. Provavelmente também me esqueci.

H. –  Amaste outros homens, tinhas de te esquecer.

M. – Amei? Devo ter amado. Mas o amor, os homens, neste momento não me interessam. 

H. –  Não sei se acredite em ti.

M. – É verdade. Juro-te.

H. –  Mas alguém te ama, tu amas alguém ainda.

M. – Não sei se estou feita para viver com outra pessoa. 

H. –  Queres ir comigo a Budapeste? 

M. – A Budapeste? Fazer o quê?

H. –  Nada. 

M. – Nada?

H. –  Nós não temos nada a fazer em Budapeste, nem eu nem tu. É por isso que devíamos lá ir. Ver como é.  

M. – Andamos a pé pelas ruas de Budapeste, sentamo-nos nos cafés. Tu e eu. Mas porquê eu? Vais sozinho e lá conheces outras pessoas.

H. –  Não gosto de viajar sozinho. 

M. – E se te aborreces-te na minha companhia? Como saber que não te vais irritar comigo, que não te vais desinteressar de mim outra vez? Ou eu aborrecer-me ao teu lado?

H. –  Não é impossível, mas parece-me improvável. Acabo de descobrir-te outra vez. 

M. – Hmmm....

H. –  You are so sweet. Estás tão bonita. Os teus olhos. O teu sorriso. Como é possível eu não ter ficado amarrado a ti a primeira vez, quando nos conhecemos?

M. – Really? Amarrado? Que exagero. Tu tinhas outra mulher na tua vida. 

H. –  Vamos a Budapeste e durante dez dias fazemos só o que nos apetece. 

M. – Parece simples.

H. –  É simples.

M. – Não sei.

H. –  Não te estou a propor futuro nenhum. Estou só a propor-te que durante dez dias te esqueças da tua outra vida, aquela que deixaste e a que regressarás. 

M. – As coisas que tu dizes...

M. – Conheces-me há tanto tempo. Estás a dar-me uma importância que eu não tinha previsto.

H. –  A primeira vez não te conheci. Passei por ti distraidamente. Não entendo como foi possível. 

M. – Foi possível.

H. –  És uma pessoa muito mais interessante do que eu tinha percebido. Não me dei conta disso. Fui um imbecil.

M. – Queres redimir-te agora?

H. – Quero.

M. – Porquê?

H. –  Fui um parvo a primeira vez. Menosprezei-te. 

M. – Acontece-nos a todos. Já te confessei que neste momento os homens não me despertam muito interesse. Tanto se me dá. Provavelmente não devia ser assim. Mas que posso fazer? Nada.

H. –  Quando se está seguro do amor de outra pessoa é fácil falar assim. 

M. – É possível. Mas não sinto nenhuma vontade de me comprometer. 

H. –  Não te comprometas. Anda comigo a Budapeste.

M. – Não sei.

H. –  Eu gosto de ti. Durante dez dias vou tratar-te tão bem que tu nunca mais te vais esquecer. Quando voltarmos e nos separarmos no aeroporto despedimo-nos e nunca mais voltamos a falar no assunto. Ficamos apenas amigos como antes de ir a Budapeste.

M. – As coisas que tu dizes.

H. –  Não acreditas em mim?

M. – Não sei se quero acreditar. Não sei se quero pensar nisso. 

H. –  Eu não te falei de amor. 

M. – Falaste de qualquer coisa que se assemelha àquilo a que as pessoas chamam amor. 

H. –  Não me interessa o que as outras pessoas pensam. Basta de submissão ao senso comum. O que é que as outras pessoas sabem da vida? 

M. – E tu, o que é que sabes da vida?

H. –  Sei.

M. – Tenho de me ir embora. Há um comboio dentro de dez minutos.

H. –  Promete-me que vais pensar no que eu te proponho.

M. – Talvez.

H. –  Não me desiludas. 

M. – Logo se vê.

H. –  Dez dias fora deste mundo de rotinas e de tédio. 

M. – Talvez, não sei. Tenho de ir.

H. –  Se recusares, um dia vais arrepender-te. Quando entenderes.

M. – Não sei. 

H. –  Promete-me que vais pensar nisso.

M. – Prometo. Adeus.



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