Thursday, March 05, 2015

Eu, ela e o cão

Nunca nada me fez só mal,  nem só bem. Tudo me tem feito sempre mal e bem. Hoje não sei que dizer, só te envio a fotografia do cão. Por mim não mandava. Mas o cão veio pôr-se ali à entrada da sala, na porta que dá para o jardim, e perguntou-me porque é que eu lhe tinha mentido. 
- O que é que estás para aí a contar, disse eu. 
- Disseste-me que ela hoje vinha, mas não veio nem vem. 
- Como é que sabes?
- Assim que olhei para ti esta manhã percebi logo que ela hoje não vinha. 
- Ela nunca pensou em vir. Sabes como são as miúdas, um pouco fúteis, não sabem o que dizem.
- Mas tu pensavas que ela vinha. 
- Nunca acreditei nisso a sério. Mas era uma possibilidade engraçada.
- Ela não é fútil, não inventes.
- OK, ela não é fútil, tens razão. Retiro o que disse. 
- As raparigas não sabem o sentido exacto das palavras. E tu exageraste, pediste de mais. Esperaste de mais. Em tão pouco tempo! Insensatez. A rapariga assustou-se. A pobre já nem podia respirar, não entendia nada, não sabia o que fazer. Tudo na vida dela tinha estado regulado até tu apareceres. Porque és tão impaciente, tão imprudente?
- E tu, porque te estás a meter onde não és chamado? A história de amor é minha, não tua. Eu assumo as responsabilidades, o prazer e a dor são meus. Tu não passas de um cão.
- Os cães também têm sentimentos. Vi-te meio triste. O orgulho não te vai servir de nada. 
- Estás enganado. Estou tão feliz como antes. Aliás ficas a saber que continuo a gostar muito dela, tanto como sempre. Nunca me aconteceu uma coisa assim. Nunca mais me vou esquecer da cara dela, das palavras que ela me escreveu.  Nunca ninguém me disse de maneira tão sincera e tão terna que me amava.  
- Pois, talvez. Tiras-me uma fotografia?
- Para mandares à tua namorada? Não me faças rir. As cadelas preferem os cães de carne e osso, uma fotografia não resolve nada. 
- Olha que eu perco a paciência e o respeito e mordo-te.
- Morde. Pensas que me importa? Hoje tanto se me dá.
- Ela não te sai do pensamento. Digo o nome dela? Começa por A.
- Caluda! Proibido dizer o nome. 
- Reprimido. Tanto pudor, tanto segredo. Sofres em silêncio. 
- Pensa o que quiseres, mas eu não sou nenhum romântico imbecilizado. Mind your own business. 
O cão olhou-me com ar misterioso, não sei se duvidava da minha sinceridade. Eu vim-me embora, sentei-me a ler. Tirei-lhe a fotografia, mando-ta aqui, ele parece que está a meditar. Um cão que pensa e fala não é coisa corrente. 

Enquanto te escrevia estava a ouvir os Madredeus. A hora que te espreita é só tua...  Coisas pequenas... e a menina... foge... o barquinho...  do Porto para Lisboa... foge a menina da beira-mar...  haja o que houver eu estou aqui... Mas não posso pôr a música muito alta porque, como tu dizes, eu sou “um amor clandestino” e por isso não tenho nem posso ter direito a nada. Posso dizer pela boca da Teresa Salgueiro que “queria mais alegria, isso que eu queria”, posso deixar essas palavras e a música como mensagem no teu telefone, mas é tudo. É muito ou pouco? É muito e é pouco. 

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