Saturday, November 22, 2014

Júlio Dinis: retrato do Portugal do século XIX


Júlio Dinis é um romancista “lento”, minucioso. Sente-se que tem um prazer excessivo em descrever com grandes pormenores paisagens, interiores das casas, processos psicológicos. Hoje esta característica da sua obra poderá aparecer como um defeito, dificultando a leitura ou tornando-a maçadora. Mas na época em que surgiram, os seus romances revelavam um prazer na descrição dos comportamentos humanos e das relações sociais, e uma “ternura” pelo modo de vida idealizado pela burguesia (viver em paz, numa sociedade regulada por instituições estáveis, democratas e liberais, a caminho de algum conforto económico) que não encontramos em nenhum outro romancista português do século XIX. Só por isso vale a pena prestar-lhe atenção e dedicar ao estudo da sua obra algum tempo.

Os romances de Júlio Dinis são simultaneamente “romances de formação” da personalidade e “romances de formação” de uma nova sociedade, a sociedade liberal do século XIX português, que tal como é descrita nas páginas do autor das Pupilas do Senhor Reitor, de A Morgadinha dos Canaviais, de Uma Família Inglesa, parecia sonhar já com uma espécie de social democracia. Júlio Dinis pode ser caracterizado de romântico devido à maneira pacífica como nos seus romances se solucionam os conflitos sociais (políticos uns, religiosos e sentimentais outros) e devido à importância que ele confere, com algum optimismo, na caracterização das personagens, aos sentimento em geral e aos bons sentimentos e à boa índole das personagens que põe em cena em particular. Mas seria errado não se dar conta de que o romancista, apesar de ter morrido jovem, mostrou na sua obra ter um conhecimento lúcido tanto dos processos sociais e do sistema liberal em vias de implantar-se em Portugal como dos vícios das personagens que retrata. Nenhum outro romancista retratou a sociedade portuguesa com tanta esperança, detendo-se na descrição detalhada dos costumes, dos episódios da vida corrente, das contradições e dificuldades que encontram as suas personagens, e sempre a partir de um ponto de vista que apesar de crítico era optimista e tolerante.

Júlio Dinis refere-se tão em pormenor, obsessivamente, às qualidades morais das personagens que põe em cena, relacionando essas qualidades com os valores da sociedade em que elas evoluem, que a sua obra é um verdadeiro manifesto dos valores da burguesia como classe. A honestidade, a pureza dos sentimentos, a grandeza de carácter, o espírito de sacrifício, a tolerância, o sucesso sociais através do trabalho, são valores dominantes nesta sociedade idealizada por Júlio Dinis. São os valores de uma tradição humanista e cristã, mas Júlio Dinis pretende que é possível mantê-los e valorizá-los na nova sociedade saída do liberalismo. Consciente dos defeitos das suas personagens, o romancista apresenta-as no entanto como capazes de evoluir para além do erro, da injustiça, do vício, do interesse, dedicando muito tempo a tentar elucidar os processos que levam de um estado de espírito a outro e à revelação das consequências que acaba por ter no carácter e no comportamento de uma personagem a sua interacção com outras personagens.

As transformações políticas que na época de Júlio Dinis sofria a sociedade portuguesa eram enormes e importantes. A revolução liberal fora razão de grandes transformações no regime político, trazendo também, inevitavelmente, grande instabilidade às instituições e à existência das pessoas. Tais transformações tinham a ver essencialmente com o estatuto das classes sociais e não podiam deixar de tocar em valores e costumes de natureza religiosa. A intriga dos romances de Júlio Dinis incorpora personagens de todas as classes sociais, caracterizando-as com minúcia ideológica suficiente de modo a deixar-nos entender a sua visão do mundo. É por isso que os seus romances, descrevendo os conflitos e as transformações sociais em curso, são provavelmente hoje os retratos mais completos e mais serenos que possuímos da mentalidade da época e dos valores que regiam a sociedade portuguesa do século XIX.

Que Júlio Dinis tenha dado importância nos seus romances às diferenças existentes entre a cidade e o campo parece natural: a sociedade portuguesa podia ser provinciana de muitos pontos de vista, mas a existência de algumas cidades importantes permitiam estabelecer o contraste. A cidade parece ser o lugar da doença, embora algumas personagens vivam na contradição entre a nostalgia da cidade e o seu repúdio. Henrique e Augusto, na Morgadinha dos Canaviais, são exemplos disso. Se a cidade é o lugar da doença e o lugar onde são tomas as decisões politicas, o campo não é no entanto apenas o lugar da virtude e da saúde recuperada – e Júlio Dinis não deixa de o assinalar ao pôr em cena algumas personagens e conflitos mais brutais. Quando o conselheiro pede que não o avaliem pelo que ele parece ser na cidade e pretende ser uma pessoa diferente, mais pura, virtuosa e verdadeira, quando se encontra na aldeia, a corrupção do carácter é atribuída às exigências da vida política, que pelos vistos não se compadeceria com fraquezas românticas ou sentimentais. Júlio Dinis, embora não deixe de condenar com clareza o comportamento do conselheiro quando necessário, não deixa de dizer também que o sistema em si é bom e que são as pessoas, os indivíduos, que falham. Veja-se a este respeito o capítulo XXX de A Morgadinha, pss. 372/3.

Os retratos de mulheres na obra de Júlio Dinis parecerão hoje excessivamente tradicionais. A mulher desempenha um papel importante na vida dos homens e aparecerá frequentemente como um anjo virtuoso, idealizada em excesso. Mas não se pode ignorar que as mulheres de Júlio Dinis são capazes, com a sua inteligência, paciência, e outras qualidades normalmente associadas à maternidade, de acalmar as violências masculinas e de desmascarar a cegueira e os devaneios infantis dos homens.

Que os romances de Júlio Dinis sejam um bom testemunho dos conhecimentos da época em matéria de psicologia e de uma crença que hoje nos parecerá relativamente ingénua na psicologia como ciência da consciência ou da alma das personagens já se entendeu pelo que foi sugerido atrás. É interessante ver como Júlio Dinis relaciona o comportamento das personagens com os estados de espírito que acompanham esse comportamento. O romancista quer explicar o que acontece penetrando na consciência das personagens para melhor as justificar. O romance é assim uma forma literária onde se exibe uma ciência sobre a natureza humana que deixa entrever os avanços científicos da época de Júlio Dinis (que, como se sabe, era médico). Se repararmos bem, descobriremos frequentemente no romance do século XIX uma ambição de classificar que o aparenta às ciências humanas, embora romancistas como Machado de Assis revelem uma descrença irónica nas “verdades” e no pretenso rigor da ciência. Júlio Dinis pode sem esforço ser conotado com o romantismo. Mas a sua capacidade de restituir minuciosamente e pacientemente cenas da vida social, episódios das relações humanas, o processo do sentir ou os mecanismos do pensamento, são já provas evidentes de uma capacidade de representação realista que noutros autores está menos documentada. O seu interesse nos dramas íntimos da consciência, a sua preocupação com o modo de funcionamento das instituições, a atenção que deu a aspectos da sociedade portuguesa relacionados com o poder político e com a luta das classes, a importância que ele dá à educação parece denunciarem uma visão do romancista como pedagogo, antecipando de certo modo o projecto que no século XX será o dos neo-realistas.


Uma boa maneira de progredir no entendimento da obra de Júlio Dinis consiste em deter-se nas inúmeras frases de reflexão e nos comentários em que se vai denunciando e tomando forma coerentemente uma visão do mundo que parece clara. Deter-se nelas e começar a ver o resultado que se obtém quando as colocamos umas ao lado das outras. Muitas dessas frases são, na sua banalidade ou normalidade aparente, para nós hoje excessivamente evidente, indícios reveladores da ideologia do autor e da sua concepção do romance. Essas frases, detalhes do processo mais amplo da construção da intriga, reforçam a nossa crença na normalidade da existência em sociedade tal como ela se nos impõe. Por outro lado, Júlio Dinis torna mais evidentes certos lugares comuns da ideologia da nova sociedade burguesa: a crença na justiça, na honestidade, no amor, na família, no trabalho, no mérito, na lealdade, na tolerância, na educação, na inteligência e na sensibilidade. O papel que é atribuído ao carácter, à educação, às relações amorosas, à reforma social indicam que são estas as “zonas” da realidade que permitem a Júio Dinis imaginar uma sociedade a caminho do futuro e do progresso. Deter-se no texto do romance e desconstruí-lo permitirá entender a lógica que preside à imaginação do universo de ficção do autor e a lógica da própria visão do mundo da burguesia na época do liberalismo. 

(João Camilo)
Outubro 2008

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