Thursday, February 27, 2014

O poeta sem sentimentos



Eu sou um poeta sem sentimentos, disse
ele. Se estou contente, pode ser que me
vejam sorrir, mas não escrevo um poema.
E se o escrever não lhe dou mais importância
do que a um rabisco pintado no tédio da página.

Se o desespero me ameaça, tento entender onde
está o intruso, o erro ou o inimigo; e procuro
uma solução prosaica e eficaz para o problema.
De modo geral evito dramatizar e evito celebrar.

Não contem comigo para escrever poemas de
amor nem epitáfios, as excrescências da paixão
deixam-me silencioso em casa a meditar. O tempo
que estas coisas demoram a ser entendidas! O tempo
que demora a descobrir que conhecemos as coisas
pelo nome errado. Todas as confusões têm a sua
origem na linguagem e no conceito. E se o poema
não corrige o mal-entendido, para que serve a poesia?

Eu respeito a ignorância, mas lamento-a. Se a poesia
não nasce da ambição de conhecer, se o motor que a
faz progredir pelos caminhos traiçoeiros da linguagem
não é movido pela necessidade de corrigir o que está
errado, de perceber o que não se percebe, de separar
o que estava misturado, de fazer incidir nas trevas
um raio de luz, para que serve a poesia? Digam-me.

J. E. Soice

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