Saturday, November 22, 2014

Júlio Dinis: retrato do Portugal do século XIX


Júlio Dinis é um romancista “lento”, minucioso. Sente-se que tem um prazer excessivo em descrever com grandes pormenores paisagens, interiores das casas, processos psicológicos. Hoje esta característica da sua obra poderá aparecer como um defeito, dificultando a leitura ou tornando-a maçadora. Mas na época em que surgiram, os seus romances revelavam um prazer na descrição dos comportamentos humanos e das relações sociais, e uma “ternura” pelo modo de vida idealizado pela burguesia (viver em paz, numa sociedade regulada por instituições estáveis, democratas e liberais, a caminho de algum conforto económico) que não encontramos em nenhum outro romancista português do século XIX. Só por isso vale a pena prestar-lhe atenção e dedicar ao estudo da sua obra algum tempo.

Os romances de Júlio Dinis são simultaneamente “romances de formação” da personalidade e “romances de formação” de uma nova sociedade, a sociedade liberal do século XIX português, que tal como é descrita nas páginas do autor das Pupilas do Senhor Reitor, de A Morgadinha dos Canaviais, de Uma Família Inglesa, parecia sonhar já com uma espécie de social democracia. Júlio Dinis pode ser caracterizado de romântico devido à maneira pacífica como nos seus romances se solucionam os conflitos sociais (políticos uns, religiosos e sentimentais outros) e devido à importância que ele confere, com algum optimismo, na caracterização das personagens, aos sentimento em geral e aos bons sentimentos e à boa índole das personagens que põe em cena em particular. Mas seria errado não se dar conta de que o romancista, apesar de ter morrido jovem, mostrou na sua obra ter um conhecimento lúcido tanto dos processos sociais e do sistema liberal em vias de implantar-se em Portugal como dos vícios das personagens que retrata. Nenhum outro romancista retratou a sociedade portuguesa com tanta esperança, detendo-se na descrição detalhada dos costumes, dos episódios da vida corrente, das contradições e dificuldades que encontram as suas personagens, e sempre a partir de um ponto de vista que apesar de crítico era optimista e tolerante.

Júlio Dinis refere-se tão em pormenor, obsessivamente, às qualidades morais das personagens que põe em cena, relacionando essas qualidades com os valores da sociedade em que elas evoluem, que a sua obra é um verdadeiro manifesto dos valores da burguesia como classe. A honestidade, a pureza dos sentimentos, a grandeza de carácter, o espírito de sacrifício, a tolerância, o sucesso sociais através do trabalho, são valores dominantes nesta sociedade idealizada por Júlio Dinis. São os valores de uma tradição humanista e cristã, mas Júlio Dinis pretende que é possível mantê-los e valorizá-los na nova sociedade saída do liberalismo. Consciente dos defeitos das suas personagens, o romancista apresenta-as no entanto como capazes de evoluir para além do erro, da injustiça, do vício, do interesse, dedicando muito tempo a tentar elucidar os processos que levam de um estado de espírito a outro e à revelação das consequências que acaba por ter no carácter e no comportamento de uma personagem a sua interacção com outras personagens.

As transformações políticas que na época de Júlio Dinis sofria a sociedade portuguesa eram enormes e importantes. A revolução liberal fora razão de grandes transformações no regime político, trazendo também, inevitavelmente, grande instabilidade às instituições e à existência das pessoas. Tais transformações tinham a ver essencialmente com o estatuto das classes sociais e não podiam deixar de tocar em valores e costumes de natureza religiosa. A intriga dos romances de Júlio Dinis incorpora personagens de todas as classes sociais, caracterizando-as com minúcia ideológica suficiente de modo a deixar-nos entender a sua visão do mundo. É por isso que os seus romances, descrevendo os conflitos e as transformações sociais em curso, são provavelmente hoje os retratos mais completos e mais serenos que possuímos da mentalidade da época e dos valores que regiam a sociedade portuguesa do século XIX.

Que Júlio Dinis tenha dado importância nos seus romances às diferenças existentes entre a cidade e o campo parece natural: a sociedade portuguesa podia ser provinciana de muitos pontos de vista, mas a existência de algumas cidades importantes permitiam estabelecer o contraste. A cidade parece ser o lugar da doença, embora algumas personagens vivam na contradição entre a nostalgia da cidade e o seu repúdio. Henrique e Augusto, na Morgadinha dos Canaviais, são exemplos disso. Se a cidade é o lugar da doença e o lugar onde são tomas as decisões politicas, o campo não é no entanto apenas o lugar da virtude e da saúde recuperada – e Júlio Dinis não deixa de o assinalar ao pôr em cena algumas personagens e conflitos mais brutais. Quando o conselheiro pede que não o avaliem pelo que ele parece ser na cidade e pretende ser uma pessoa diferente, mais pura, virtuosa e verdadeira, quando se encontra na aldeia, a corrupção do carácter é atribuída às exigências da vida política, que pelos vistos não se compadeceria com fraquezas românticas ou sentimentais. Júlio Dinis, embora não deixe de condenar com clareza o comportamento do conselheiro quando necessário, não deixa de dizer também que o sistema em si é bom e que são as pessoas, os indivíduos, que falham. Veja-se a este respeito o capítulo XXX de A Morgadinha, pss. 372/3.

Os retratos de mulheres na obra de Júlio Dinis parecerão hoje excessivamente tradicionais. A mulher desempenha um papel importante na vida dos homens e aparecerá frequentemente como um anjo virtuoso, idealizada em excesso. Mas não se pode ignorar que as mulheres de Júlio Dinis são capazes, com a sua inteligência, paciência, e outras qualidades normalmente associadas à maternidade, de acalmar as violências masculinas e de desmascarar a cegueira e os devaneios infantis dos homens.

Que os romances de Júlio Dinis sejam um bom testemunho dos conhecimentos da época em matéria de psicologia e de uma crença que hoje nos parecerá relativamente ingénua na psicologia como ciência da consciência ou da alma das personagens já se entendeu pelo que foi sugerido atrás. É interessante ver como Júlio Dinis relaciona o comportamento das personagens com os estados de espírito que acompanham esse comportamento. O romancista quer explicar o que acontece penetrando na consciência das personagens para melhor as justificar. O romance é assim uma forma literária onde se exibe uma ciência sobre a natureza humana que deixa entrever os avanços científicos da época de Júlio Dinis (que, como se sabe, era médico). Se repararmos bem, descobriremos frequentemente no romance do século XIX uma ambição de classificar que o aparenta às ciências humanas, embora romancistas como Machado de Assis revelem uma descrença irónica nas “verdades” e no pretenso rigor da ciência. Júlio Dinis pode sem esforço ser conotado com o romantismo. Mas a sua capacidade de restituir minuciosamente e pacientemente cenas da vida social, episódios das relações humanas, o processo do sentir ou os mecanismos do pensamento, são já provas evidentes de uma capacidade de representação realista que noutros autores está menos documentada. O seu interesse nos dramas íntimos da consciência, a sua preocupação com o modo de funcionamento das instituições, a atenção que deu a aspectos da sociedade portuguesa relacionados com o poder político e com a luta das classes, a importância que ele dá à educação parece denunciarem uma visão do romancista como pedagogo, antecipando de certo modo o projecto que no século XX será o dos neo-realistas.


Uma boa maneira de progredir no entendimento da obra de Júlio Dinis consiste em deter-se nas inúmeras frases de reflexão e nos comentários em que se vai denunciando e tomando forma coerentemente uma visão do mundo que parece clara. Deter-se nelas e começar a ver o resultado que se obtém quando as colocamos umas ao lado das outras. Muitas dessas frases são, na sua banalidade ou normalidade aparente, para nós hoje excessivamente evidente, indícios reveladores da ideologia do autor e da sua concepção do romance. Essas frases, detalhes do processo mais amplo da construção da intriga, reforçam a nossa crença na normalidade da existência em sociedade tal como ela se nos impõe. Por outro lado, Júlio Dinis torna mais evidentes certos lugares comuns da ideologia da nova sociedade burguesa: a crença na justiça, na honestidade, no amor, na família, no trabalho, no mérito, na lealdade, na tolerância, na educação, na inteligência e na sensibilidade. O papel que é atribuído ao carácter, à educação, às relações amorosas, à reforma social indicam que são estas as “zonas” da realidade que permitem a Júio Dinis imaginar uma sociedade a caminho do futuro e do progresso. Deter-se no texto do romance e desconstruí-lo permitirá entender a lógica que preside à imaginação do universo de ficção do autor e a lógica da própria visão do mundo da burguesia na época do liberalismo. 

(João Camilo)
Outubro 2008

Friday, November 21, 2014

Amália Rodrigues: Conta Errada

LADRÕES SEM UNIFORME

Em Abrantes - segundo informações que nos dá um amigo nosso, jurisconsulto inteligente - sucede este estranho caso:
Pela lei de 10 de Julho de 1843 só são obrigados ao imposto do pescado os pescadores que exercem a sua indústria em água salgada - e nos rios, somente até onde chegam as marés vivas no ano.
Ora em Abrantes entende-se de um modo ligeiramente torpe esta acção do fisco sobre a pesca: porque vinte homens, extremamente miseráveis, que pescavam no rio - onde não podiam chegar marés vivas - e alguns mesmos que não pescavam, foram obrigados a pagarem o imposto do pescado: uns não se defenderam desta extorsão, porque eram pobríssimos: outros não se defenderam em virtude da ideia popular na província, de que com o fisco paga-se sempre e nunca se questiona - porque naturalmente depois é-se obrigado a pagar mais.
Isto é puramente - numa linguagem talvez plebeia, mas sincera - um roubo.
Obrigar um pescador de rio a pagar o imposto do pescador do mar, é - além de uma confusão deplorável do velho e respeitável Oceano com qualquer fio de água que murmura e foge, - um sistema extremamente parecido com o que empregam as pessoas estimáveis, que nos metem a mão na algibeira e levam para casa o nosso lenço. Nós não desejamos embaraçar os negócios fiscais: somente nos parece que impor a qualquer cidadão o imposto do pescado, é um expediente extremamente complicado: e o fisco, que deve ser parcimonioso do seu tempo e dos seus recursos tem um meio mais singelo e mais expeditivo: é aproximar-se de qualquer e dizer-lhe pondo-lhe uma carabina ao peito:
- Passe para cá o que leva na algibeira!
Estes processos do fisco, que se repetem arbitrariamente em toda a província e que são sem dúvida um dos recursos do estado, parecem-nos imprudentes - porque estabelecem confusão: há por essas estradas isoladas, em certas vielas das cidades mal policiadas, nos pinheirais, nos sítios ermos e amados da sombra, uma espécie de cidadãos, de resto extremamente diligentes, que se deram por missão suspender por um momento as pessoas que passam, e com a maneira mais delicada, tirar-lhes o dinheiro, os relógios e outras insignificâncias. Por seu lado o fisco costuma deter os cidadãos, e sob qualquer pretexto - como por exemplo no caso de Abrantes, por ser pescador de água salgada - exigir-lhe uma quantia e entregar-lhe um recibo. Ora estes dois processos, o do fisco e o dos senhores ladrões, têm uma tal similitude, que pedimos ao governo - que distinga por qualquer sinal (um uniforme por exemplo) estas duas estimáveis profissões! para que não suceda que os cidadãos se equivoquem e que vão às vezes lançar a perturbação na ordem social, confundindo o facínora e o funcionário, - apitando contra o fisco e pedindo humildemente recibo ao salteador! Esperamos providências.
Eça de Queirós, As Farpas,1871

Saturday, May 03, 2014

The myth of academic peer review

The peer review process in the world of academic publishing.  The process by which, it is assumed, peers of an academic field review peers in that field.  The situation is fraught with meddling and distortion.  Blind review is truly blind – reviewers often fail to read their allocated papers in full.  Then come other issues: editorial limitations, concerns about timing, topicality and vested interests. Ever was the ivory tower shut from full view and inspection.
The peer review system also foists upon its readers a fundamental paradox: the good may well be rejected; the poor might well be accepted.  Capture the intellectual fashion of the moment and the editorial board will be won over.
Some of the best research in history has not found its way into the technocratic drivel of refereed literature.  The Stakhanovites that preside over academic institutions these days would have been puzzled to confront such publications as Darwin’s Origin of the Species.  In the US Supreme Court decision of Daubert v Merrell Dow Pharmaceuticals, Inc. (1993), it was held that, “Publication (which is but one element of peer review) is not a sine qua non of admissibility; it does not necessarily correlate with reliability, and in some instances well-grounded but innovative theories will not have been published.”
Little wonder then that cell biologist and Nobel Prize winner Randy Schekman of the University of California Berkeley, is fed up.  Having won this year’s prize in medicine, he has proclaimed an academic boycott of the holy trinity of science publishing.  “I am a scientist.  Mine is a professional world that achieves great things for humanity.  But it is disfigured by inappropriate incentives.”  Such incentives, argues Schekman in The Guardian (Dec 9),[1] come in the form of “professional rewards that accompany publication in prestigious journals – chiefly, NatureCell and Science.”

by BINOY KAMPMARK

Thursday, February 27, 2014

O poeta sem sentimentos



Eu sou um poeta sem sentimentos, disse
ele. Se estou contente, pode ser que me
vejam sorrir, mas não escrevo um poema.
E se o escrever não lhe dou mais importância
do que a um rabisco pintado no tédio da página.

Se o desespero me ameaça, tento entender onde
está o intruso, o erro ou o inimigo; e procuro
uma solução prosaica e eficaz para o problema.
De modo geral evito dramatizar e evito celebrar.

Não contem comigo para escrever poemas de
amor nem epitáfios, as excrescências da paixão
deixam-me silencioso em casa a meditar. O tempo
que estas coisas demoram a ser entendidas! O tempo
que demora a descobrir que conhecemos as coisas
pelo nome errado. Todas as confusões têm a sua
origem na linguagem e no conceito. E se o poema
não corrige o mal-entendido, para que serve a poesia?

Eu respeito a ignorância, mas lamento-a. Se a poesia
não nasce da ambição de conhecer, se o motor que a
faz progredir pelos caminhos traiçoeiros da linguagem
não é movido pela necessidade de corrigir o que está
errado, de perceber o que não se percebe, de separar
o que estava misturado, de fazer incidir nas trevas
um raio de luz, para que serve a poesia? Digam-me.

J. E. Soice

Friday, February 14, 2014

About the meaning of words again


The problem with words is the same as the problem we may have with any other type of behavior: each one of us has his or her memory of his or her own particular personal experience with words. 

The meaning of words in the dictionary needs to be taken in consideration. But getting knowledge of that stated “official” meaning of a word is just the beginning of a long process. Words and their meaning will become in some way always private and more or less sensitive property through our own experience of them and of life.

More important than the dispassionate meaning of words as stated in a dictionary is my personal feeling about words and what they are supposed to mean. Feelings, ideas, and thoughts mix with each other so easily. What counts then is the amount of total meaning of each word for me. Words become objects indeed. Like swords or like flowers.

We should be aware of this situation when we are dealing or communicating with others and most of the time we are not - or we are only partially aware of it. That may be an explanation for many conflicts and pain in our lives and for our failure in getting along with someone we thought we could get along with. We didn’t know enough about the previous life experiences of that person and about the meaning of words for her. Instead of inspiring good feelings, sympathy, curiosity and interest, we caused pain and discomfort unintentionally and without being aware of it.

It may happen that we did not have the time to get acquainted with someone we liked because the words we uttered and our behavior reminded her of previous experiences and were an immediate source of pain, suspicion and misunderstanding for her. She took us for what we are not and our behavior for what it was not.

How could we anticipate it? We were just candidly using words with the meaning we give them and behaving naively. We didn’t know enough about that person’s previous good or bad experiences with people or situations that she were reminded of when talking to us and getting acquainted wit us.

Are we all in one way or another traumatized by some previous experience in our life? Relationships are not an easy thing to deal with and to understand.

This is also a good way to explain why a poem or a novel or any literary text may be interpreted and felt so differently by different readers. Reading or listening cannot be understood independently of who and what we are and of all the past experience that made us who and what we are.

We are who and what we are and we are it all the time (everything is permanently moving and changing, yes, but even so we are something in particular differentiated from other things in particular). To any situation, including a relationship, we go with everything we are even if we will never know exactly and clearly what we are.

J. E. Soice


P. S. When I first met her she was talking to me. But very soon she started seeing me as someone else (who? I don't know) and talking to that ghost in her previous life, not to me. It seems that it happens all the time with all of us but we are not aware of it. Isn't it unfortunate?

Wednesday, February 12, 2014

RILKE: THE SEVENTH ELEGY


Not wooing, no longer shall wooing, voice that has outgrown it,

be the nature of your cry, but instead, you would cry out as purely as a bird

when the quickly ascending season lifts him up, nearly forgetting

that he is a suffering creature and not just a single heart

being flung into brightness, into the intimate skies. Just like him

you would be wooing, not any less purely—, so that, still

unseen, she would sense you, the silent lover in whom a reply

slowly awakens and, as she hears you, grows warm,—

the ardent companion to your own most daring emotion.


Oh and springtime would hold it—, everywhere it would echo

the song of annunciation. First the-small

questioning notes intensified all around

by the sheltering silence of a pure, affirmative day.

Then up the stairs, up the stairway of calls, to the dreamed-of

temple of the future—; and then the trill, like a fountain

which, in its rising jet, already anticipates its fall

in a game of promises. . . . And still ahead: summer.

Not only all the dawns o£ summer—, not only

how they change themselves into day and shine with beginning.

Not only thee days, so tender around flowers and, above

around the patterned treetops, so strong, so intense.

Not only the reverence of all these unfolded powers,

not only the pathways, not only the meadows at sunset,

not only, after a late storm, the deep-breathing freshness,

not only approaching sleep, and a premonition . . .

but also the nights! But also the lofty summer

nights, and the stars as well, the stars of the earth.

Oh to be dead at least and know them endlessly,

all the stars: for how, how could we ever forget them!


Look, I was calling for my love. But not just she

would come . . . Out of their fragile graves

girls would arise and gather . . . For how could I limits

the call, once I called it? These unripe spirits keep seeking

the earth.—Children, one earthly Thing

truly experienced , even once, is enough for a lifetime.

Don't think that fate is more than the density of childhood;

how often you outdistanced the man you loved, breathing, breathing

after the blissful chase, and passed on into freedom.


Truly being here is glorious. Even you knew it,

you girls who seemed to be lost, to go under - in the filthiest

streets of the city, festering there, or wide open

for garbage. For each of you had an hour, or perhaps

not even an hour, a barely measurable time

between two moments—, when you were granted a sense

of being. Everything. Your veins flowed with being.

But we can so easily forget what our laughing neighbor

neither confirms nor envies. We want to display it,

to make it visible. We want to display it,

to make it visible, though even the most visible

happiness can't reveal itself to us until we transform it, within.


Nowhere, Beloved, will world be but within us. Our life

passes in transformation. And the external

shrinks into less and less. Where once an enduring house was,

now a cerebral structure crosses our path, completely

belonging to the realm of concepts, as though it still stood in the brain.

Our age has built itself vast reservoirs of power,

formless as the straining energy that it wrests from the earth.

Temples are no longer known. It is we who secretly save up

these extravagances of the heart. Where one of them still survives,

a Thing that was formerly prayed to, worshipped, knelt before—

just as it is, it passes into the invisible world.

Many no longer perceive it, yet miss the chance

to build it inside themselves now, with pillars and statues: greater.


Each torpid turn of the world has such disinherited ones,

to whom neither the past belongs, nor yet what has nearly arrived.

For even the nearest moment is far from mankind. Though we

should not be confused by this, but strengthened in our task of preserving

the still-recognizable form.— This once stood among mankind,

in the midst of Fate the annihilator, in the midst

of Not-Knowing-Whither, it stood as if enduring, and bent

stars down to it from their safeguarded heavens. Angel,

to you I will show it, there! in your endless vision

it shall stand, now finally upright, rescued at last.

Pillars, pylons, the Sphinx, the striving thrust

of the cathedral, gray, from a fading or alien city.


Wasn't all this a miracle? Be astonished, Angel, for we

are this, O Great One; proclaim that we could achieve this, my breath

is too short for such praise. So. after all, we have not

failed to make use of these generous spaces, these

spaces of ours.. (How frighteningly great they must be,

since thousands of years have not made them overflow with our feelings.)

But a tower was great, wasn't it? Oh Angel, it was—

even when placed beside you? Chartres was great—, and music

reached still higher and passed far beyond us. But even

a woman in love—, oh alone at night by her window. . . .

didn't she reach your knee—?

                                                  Don't think that I'm wooing.

Angel, and even if I were, you would not come. For my call

is always filled with departure; against such a powerful

current you cannot move. Like an outstretched arm

is my call. And its hand, held open and reaching up

to seize, remains in front of you, open

as if in defense and warning,

Ungraspable One, far above.



(Translation by Stephen Mitchell)

Monday, February 10, 2014

Bizarre bizarre

From time to time I have the impression that the Internet, and Facebook in particular, is responsible for multiple forms of bizarre behavior and some sort of general madness.

Loneliness and incapacity of establishing normal relationships with others are developing to such an extent in modern societies - more and more submitted to all kinds of rules and types of control of behavior -  that Facebook and the Internet can be looked at as resulting from a desire of solving the in fact old problem of solitude.

Instead of solving the problem however what the Internet and Facebook are doing besides making some people very rich is most probably just creating other equally damaging problems. The illusion of being in touch with other people and with reality can develop in such a way through the use of the Internet that we are all living more or less in some kind of totally invented and weird personal world without being minimally aware of it.

- Hasn’t it been always so? - may ask the philosopher.

- Probably yes, but did people receive in the past from others (even through their apparently supportive silence) as many reasons as we may receive now to believe that their madness was not indeed one? 


To be convinced that expressing our opinion on everything really counts, is taken seriously, and has some impact on others, may just be a particular and treacherous aspect of how problematic it is to reconcile our existence as individuals with our existence in society.



P. S. I forgot to talk about Google. Google is becoming the ruler of the world. Fear it! As I read somewhere recently in the internet: as soon as some site becomes popular Google buys it and imposes its own rules. Youtube is now in their hands and the blog world too. And they are the ones who decide about what information deserves to be in the internet, eliminating other sources of information.Who are they exactly? Where did they get their money and their values, what is their ambition? Is it enough to have money and to be good in computer technology to be allowed so much power? Are the USA, unconsciously or intentionally, perverting the world, and is Google their new and most efficient tool to cynically destroy our best traditionally respected values? Will we all become robots submitted to the stupidity of some obscure powerful world rulers? No more private life, no more diversity of opinions and feelings, and if you think that your relationships with other people and your love life for example are immune to their influence you are dead wrong.

The Internet is not at all a bad thing in itself. It just happened with the Internet what happened with everything else: it's being controlled by money and by political power (and by people with a poor and limited understanding of many things). The permanent fight for democracy is a reality in USA, I sincerely believe it. But unfortunately democracy does not mean that the power is in the hands of the best. And the ideological, financial, corporative or political lobbies that in permanence are succeeding in imposing their values, their rules and interests to all of us are cynically perverting democracy and putting at risk different ways - more open and more intelligent - of understanding and defining what life and living in society is about.

Monday, January 27, 2014

A Poet! He Hath Put his Heart to School BY WILLIAM WORDSWORTH

 A poet!—He hath put his heart to school,

Nor dares to move unpropped upon the staff
Which art hath lodged within his hand—must laugh
By precept only, and shed tears by rule.
Thy Art be Nature; the live current quaff,
And let the groveller sip his stagnant pool,
In fear that else, when Critics grave and cool
Have killed him, Scorn should write his epitaph.
How does the Meadow-flower its bloom unfold?
Because the lovely little flower is free
Down to its root, and, in that freedom, bold;
And so the grandeur of the Forest-tree
Comes not by casting in a formal mould,
But from its own divine vitality.

Sunday, January 26, 2014

Acerca da ordem estabelecida


Quando ainda vivia em Aix-en-Provence fui uma vez a um hospício servir de intérprete a um emigrante português que era trabalhador rural. O senhor tinha feito a guerra no ultramar antes de emigrar para França e começara recentemente a tresloucar, vendo pelotões e esquadrões de soldados nas filas de saladas da quinta onde trabalhava. As autoridades francesas achavam que era melhor para ele regressar a Portugal e ser tratado lá. Não sei o que lhe aconteceu e espero que tenha saído com alguma saúde recuperada da confusão em que andava metido.

Agora, à distância de mais de vinte anos, posso compreender melhor os problemas que estavam a atormentar o trabalhador português, afastando-o da visão do mundo do senso mais comum. Parece-me evidente que os nossos modelos de organização do pensamento, os andaimes e as lentes mentais da nossa percepção da realidade, são limitados e se repetem com adaptações e modificações ligeiras em situações que aparentemente nada têm a ver umas com as outras.

Veio-me esta ideia ainda a propósito do que se passa com aquilo que designamos por literatura: os livros que se publicam e a maneira como são recebidos, avaliados, referidos nos jornais, nas revistas e nos estudos dos especialistas. No fundo, a escrita das histórias da literatura obedece a um padrão de organização semelhante ao que leva os militares, nos desfiles, a apresentar-se bem organizados em esquadrões, em pelotões e não sei em que outros mosaicos rigorosos e elegantes que desfilam harmoniosamente pelas avenidas das cidades em dias de festa com os seus tambores e bandeiras. Tudo obedece a um profundo e burguês, ou simplesmente humano, desejo de ordem - porque a ordem é protectora e consoladora, mostra o sentido como coisa clara, e por isso inspira tranquilidade e confiança no presente e no futuro. É por isso que alguns autores de poemas e de romances, que não couberam nos pelotões organizados pelos generais e marchais detentores da ideia da ordem literária enquanto viviam, só mais tarde, quando os costumes, as mentalidades e a própria noção de forma literária mudaram, são finalmente incorporados no património comum da humanidade. Mas entretanto não faltam nunca os soldados, os sargentos e os generais para ir preenchendo vistosamente os desfiles mundanos de cada estação ou época. Imagino que não foi por falta de esquadrões e pelotões de gente ordenadamente no seu lugar a cumprir a missão que o sistema lhe distribui ou permite levar a cabo que a crise se instalou e vai agora ameaçando os nossos destinos que pareciam tão imunes aos sobressaltos, à dúvida e à interrogação.

Pode pensar-se a mesma coisa a propósito dos pintores e da pintura, dos músicos e da música, dos filósofos e da filosofia, de todas as esferas da actividade humana, evidentemente. Foi devaneando estas coisas que também percebi hoje, melhor do que tinha percebido ontem, por que razão é que Lennie Tristano, genial pianista de jazz, mestre admirado por Bill Evans, não teve o mesmo sucesso popular que o também extraordinário autor de Waltz for Debby. É que Lennie Tristano é frequentemente um pianista que vai por caminhos onde a frase conhecida ou a linha melódica conhecida ou reconhecida não se deixam perceber tão facilmente como na música de Bill Evans. A sua procura do segredo ou da verdade enreda-se em fios mais complicados do que em Bill Evans, as soluções provisórias revelam-se-lhe soluções insatisfatórias - e o que parecia um achado acaba por se ir desdobrando noutras reflexões que não se vê ainda aonde nos levam. O rio, a narrativa que procura a sua ordem, o seu tema e o seu fim, vai correndo para uma meta que não se deixa adivinhar facilmente; o que era aparentemente uma conclusão renasce de novo como interrogação e a busca continua indefinidamente.

Foi ainda pensando estas coisas hoje que identifiquei melhor a linguagem, o tom e o respeito cheio de ternuras untuosamente eclesiásticas que muitas vezes parece que caracterizam a linguagem dos conferencistas nos colóquios dedicados à literatura, discursos que pessoalmente já acho tão ridículos, inúteis, insuportáveis e enfadonhos como a maior parte da literatura portuguesa contemporânea. Às vezes parece que estamos num concílio de padres, bispos e arcebispos, com os cardeais a darem as suas instruções ou a quererem corrigir o catecismo e impor a sua própria ortodoxia como verdade oficial. A vida real, a literatura, são outra coisa, mas nós afastamo-nos delas em devaneios de linguagem balbuciantes e a que escapa o essencial. Em Portugal é sempre o estilo que tende a dominar, mesmo em autores certamente respeitáveis por outras razões; a qualidade da experiência é que é frequentemente modesta ou pouco interessante. Não há nada a fazer, a maior parte dos portugueses gosta sobretudo é de estilo: frases bonitas, coisas com piada, mas pouca substância séria; o acesso à condição artística exige esse disfarce “superior”. Os professores e homens de letras a que me refiro, com a sua linguagem aparentemente especializada e muitas vezes de uma solenidade ridícula, infantil e oca, fazem de facto parte do pelotão fanhoso e insuportável que celebra nas suas igrejinhas, muito episcopalmente, a obra dos pobres escritores que na maior parte dos casos nem sequer terão nada a ver com as divagações insensatas de gente tão vaidosamente e religiosamente ensimesmada.

Nos jornais e nas salas  de aulas peroram vozes semelhantes, é tudo a mesma seita religiosa, eles falam uma espécie de dialecto que se institucionalizou e perdeu a noção do sentido das obras e do sentido das palavras usadas para falar delas. O método de análise pode parecer por vezes muito francês e influenciado por Derrida, mas os conferencistas perdem-se em balbuciares e variações barrocas ou delirantes sobre as obras que não levam muito longe, com uma espécie de incapacidade de se atacarem seriamente e convincentemente a um tópico ou problema que de facto nos diga respeito; eles e elas nem vêem realmente as palavras que estão no texto e se as vêem não as entendem. Ou temos de acreditar que os escritores só escrevem para proporcionar elucubrações virtuosas a críticos e professores meio vesgos? Domina em muitos casos (felizmente não em todos, ainda há gente séria e interessante) um jargão académico que ou foi mal entendido ou é pouco eficaz ou não vem a propósito - e é como se andássemos todos no liceu ainda a aprender com muita ordem formal - a dos pelotões e arcebispados literários - coisas inúteis ou erradas. Sem vermos o que de facto é importante. A aparente democratização da cultura trouxe para o domínio das letras e da reflexão em geral a superficialidade inofensiva das conversas de café. Com a internet temos, além disso, a conversa de café global. Há na pop cultura, que também invadiu a universidade, um comprazer-se arrogante e pretensioso no insignificante que desvirtua o seu interesse real. É esse o escândalo. Felizmente o número de obras-primas da literatura universal é inesgotável, de modo que é tudo uma questão de se terem os meios de fazer a escolha correcta e ignorar o ruído que nos invade a existência. Imagino que não é fácil. No que me diz respeito eu sei que demorei tempo a perceber as coisas com este distanciamento em relação aos métodos e costumes da minha profissão, à linguagem do ritual da minha "igreja".


Sunday, January 12, 2014

Déception

Son visage qu’une fois j’avais 
vu resplendir d’une lumière 
aussi pure que l’eau des froides 
fontaines s’était pourtant vite 
assombri. De sa joie et de sa 
douleur, que j’avais entrevues 
l’espace d’un instant, il n’était 
rien resté. Un masque pour aller,
inconnue, dans le monde, sans
rien laisser entrevoir de ce qui,
dans les profondeurs de l’être,
se dérobait, voilà ce qui était
resté de l’ancienne vérité. Déçu,
je me suis éloigné, n’en croyant
pas mes yeux. Comment me
consoler de l’avoir aussi vite
perdue, d’avoir assisté à sa
disparition ? Elle m’avait d’abord
laissé croire qu’elle avait une
âme et que son esprit, au-dessus
du vide qui toujours nous menace,
comme une étoile ne cesserait de
guider celui qui, dans son errance,
risquait la perdition. De son corps
je ne m'étais pas occupé, je l’avoue.
Mais l’âme s’étant absentée, le corps
occupait maintenant toute la place.
Qu’est-ce un corps, cependant, d’où
l’âme, seule preuve de l’être, s’est
éloignée ? Je n’arrivais pas à me
consoler de sa désertion. Pressé
par l’amertume, j’ai vite accéléré le
pas. Vaincu, je n’allais nulle part.

Johannes Edward Soice



Saturday, January 11, 2014

About the meaning of words


I wish I could talk to you and correct the misunderstanding. I do not dare. All words in our language are like boxes full of many possible meanings and because of that open to many interpretations. 

Words are a very dangerous stuff. I learned that with you recently.

Since what I have to say is clear, my words should say clearly what I think. Hélas, I am unable to exclude from the meaning of each of my words all the other possible meanings mingling in the same box and attached to that word.

How could you, the situation being what it is, detect the unique and exclusive meaning of each of my words and interpret what I say without allowing a word wrongly interpreted to pollute and destroy everything?

You will always have an excuse for misinterpreting what I say. You are bright and you are an astonishing human being, I have no doubts about that. But you don’t know me.

I have to admit that I don't know you either. Did I also misinterpret your words and your behavior? I have been thinking about that and I think I did.

Language is far from being a flawless tool. Besides, to interpret a person's behavior is not without risk. Fearing the consequences I remain silent and I have been avoiding you.

We could, little by little, peacefully, talking to each other, start to establish without ambiguity what the words mean for you and what the words mean for me. Then we would be able to avoid pain, misunderstanding, and stress. After all, don't we share some good common interests? And life is short, one day I will die and later on you will die too. But to keep talking we would need a sincere mutual interest in each other, time and persistence. In what regards the interest or curiosity that we may have in knowing each other I can only talk for myself, not for you. And time and persistence, unfortunately, is what we seem to lack more at this point. I will post this brief letter to you tomorrow when I go the bookstore to buy a novel by Knut Hamsun that I forgot on the plain when I returned from Europe. And I stop talking. You take care of yourself, sweet girl.

J. E. Soice

Language is behavior


Language is strongly related to our condition of individuals as members of a particular society. In other words: we cannot escape being build up by society. 

Language is behavior. The way you talk or write is a form of behaving. 

Writing or reading poetry, for example, is a form of social behavior. Your words and your syntax are your behavior.

The way the guys who arrogantly and self-confidently write in the newspapers about poetry or about fiction is frequently not very different from the way the police officers in the streets and in the freeway survey the respect of the law. They talk as if they were the law in literature without however having other credentials than the credibility that their newspapers may enjoy with his readers. It took me some time to get there but now I can say that I despise most of those clowns because they do not know enough about life outside their limited world to restrain from judging people and what people do; and because they are highly and dangerously responsible for a totally arbitrary but pretentious way of evaluating literature, having a negative influence in youngsters and in less educated people.

It is also true that some professors of literature at the university are not much better. That's why very soon literature will only be taught seriously in some monasteries to be reopened and where people like me will take refuge. But, please, let women not yet perverted by the current vulgarity create their own monasteries not too far away from ours so we can meet from time to time and enjoy life's pleasures and pains together.

J. E. Soice

Les Doutes d’Eurydice


S’il voulait vraiment m'avoir de retour 
il n’avait qu’à ne pas regarder en arrière. 
Je ne doute pas de sa sincérité quand il a 
voulu que je revienne. J’étais devenue une 
partie de lui-même, je lui manquais. Nous 
n’avions pas eu le temps de jouir de notre 
bonheur. Je lui ai été arrachée et il ne pouvait 
pas l’avoir prévu. Il ne s’y attendait pas. Il a 
souffert. Je le crois sincèrement. Puis le temps
est passé et il a, pendant un moment, fini par
se faire à l’idée de mon absence. Il a compris
qu’il pouvait, après tout, vivre sans moi et sans
moi continuer à chanter ses poèmes, à jouer de
sa lyre. Il a appris à se passer de moi, qui peut
l’en blâmer ? Oui, la souffrance revenait de
temps à autre, parfois le soir ou la nuit, quand
il se réveillait seul dans son lit, parfois le
matin quand le soleil était une invitation
cruelle à jouir de la vie. Puis, je l’ai déjà dit,
la souffrance s’est atténuée. Sa poésie, sa
musique lui suffisaient. Il continuait de plaire
et il pouvait plaire sans moi. Est-ce que je lui
manquais quand même ? Este-ce que lorsqu’il
se trouvait seul avec soi-même il lui arrivait
de pleurer ma disparition ? Aucune femme ne
pourrait, dans son cœur et dans son imagination,
me remplacer, je veux bien le croire. Et un jour
l’idée lui est venue de s’adresser à ceux qui
m’avaient prise et maintenant jouissaient de
ma compagnie. Nous n’avions pas eu le temps,
il est vrai, d’aller jusqu’au bout de notre amour.

Les dieux l’ont écouté, il les a convaincus, sa
douleur leur a semblé vraie. Ils ne voulaient
pas eux non plus se séparer de moi. Mais ils
ont fait preuve de générosité. Ils savaient que
de toute façon ils auraient toujours le dernier
mot et que mon absence ne serait jamais que
provisoire, n’est-ce pas ? Je reviendrais chez
eux tôt ou tard, le temps n’est d’ailleurs pas
pour eux la même chose que pour nous les
humains. Ils ont cédé, peut-être attendris,
et il lui a été accordé de venir me chercher.
Et il est venu. Il aurait mieux fait de rester
là où il était et de se contenter de son destin.

Les dieux lui avaient posé une condition : tu ne
douteras pas ; tu feras preuve de patience ; elle
marchera derrière toi mais tu te garderas bien
de regarder en arrière ; ne nous désobéis pas, tu
auras tout le temps de l’avoir pour toi tout
seul plus tard. Pourquoi l’ont-ils mis à l’épreuve ?
Étaient-ils jaloux ? Savaient-ils qu’il ne serait jamais
assez bon pour respecter ce qui avait été convenu ?
Voulaient.-ils qu’il mérite leur divine générosité ?
Je n’en sais rien moi-même, je l’avoue. Je ne peux
pas croire que j’ai été disputée par les dieux à
Orphée. Cela est possible, pourtant. Et lui il aurait
du être prudent, il aurait du se méfier des dieux et
de leur souvent joyeuse frivolité. Car ils ne tiennent
pas les humains en grande estime. Non, de moi il
n’avait pas besoin de se méfier, de moi il n’avait
rien à craindre. Je lui ai toujours été fidèle et
dévouée et à nouveau je me réjouissais d’aller à
sa rencontre. Je serais, comme avant, sa muse et
sa tendre et fière compagne. Il m’avait fallu, dans
mon esprit, me faire à l’idée de retourner dans le
passé, de reprendre mes humaines émotions, il est
vrai. Quel plaisir pourrais-je encore connaître, moi
qui avait accédé à une autre forme de l’être et ne
pouvais plus regarder ce qui était humain qu’avec
une sorte d‘incompréhension? Et à nouveau je
n’ échapperais pas à la douleur, car telle est notre
condition et notre nature que la souffrance finit
toujours par nous trouver et nous accabler. Je
serais à nouveau mise à l’épreuve. Le paisible état
de grâce que j’avais trouvé après la mort me serait
enlevé. Y a-t-il pensé, à tout ce que je faisais pour
lui ? Ou a-t-il pensé à lui-même seulement ? En
tout cas il aurait du se connaître soi-même mieux,
il aurait du se surveiller. Il ne l’a pas fait, ce qui ne
me surprend pas. Il vit dans le rêve de la musique
et de la poésie, la réalité lui est devenue étrangère.
Il s’est donc comporté comme un adolescent étourdi,
incapable à vrai dire d’attendre. Une fois encore,
exaspéré, il n’a pas résisté à la pression du désir. Et
il a tout gâché, il a tout perdu. Il a été puni. M’a-t-il
regardée parce qu’ayant douté de son amour il a
voulu se rassurer ? Me voir lui aurait fait comprendre
ce qu’il en était vraiment. Mais cela je ne veux pas
le croire. C’est connu: les hommes ne savent pas
toujours ce qu’ils veulent, tantôt ils aiment une
femme et ne peuvent pas vivre sans son amour,
tantôt ils s’en fatiguent, n’ont plus rien à lui dire,
ne font plus attention à elle ni à ce qu’elle dit.
Mais lui il était la poésie et la musique, de lui on
attendait une attention passionnée et sans failles
à la vocation de l’amour. Les jeux sont faits, inutile
de continuer à imaginer ce qui aurait pu être au lieu
de ce qui est arrivé. Il m’a à nouveau laissée derrière
lui et à nouveau il a réussi, probablement heureux,
à vivre, obsédé par sa musique et sa poésie, sans moi.
Sa punition aux mains des folles Bacchantes ne m'a
pas réjouie. Leur jalousie, leur dépit étaient insensés.
Mais les Muses qui ont recueilli sa tête dans le fleuve
l'ont vengé. Et je crois encore écouter la mélodie de sa
voix le soir, quand la nuit tombe sur les sombres forêts
et une douce nostalgie envahit mon coeur resté humain.

J. E. Soice

Monday, January 06, 2014

Cox Cable makes you pay for what they do not give you

What COX says about their service:

Monthly  payment: 61.99

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Download speed: Media: 3.05 MPS and Maximum 4.59 MPS

Upload speed: Media 5 MPS and Max 13.73 MPS


Wednesday, January 01, 2014

Comme une mère


La mort pourrait venir
maintenant. Elle n’a pas
de visage, je le sais.
Comme une mère qui
jamais ne peut se
séparer de son enfant,
elle habite chez nous
depuis toujours, dans
notre corps elle se cache.

Dans la grande maison
de la grande ville je
m’étais endormi. Puis
je m’étais réveillé. Dehors
le silence dans la rue
déserte. J’ai eu envie de
rentrer chez moi mais
je suis resté. Ce qui était
loin resterait lointain
où que je que me trouve.

Je voyais son visage
et ce n’était pas le
visage de la mort.
Je me souvenais de
ses yeux et ce n’étaient
pas les yeux de la mort.
Ça faisait si longtemps
que je ne m’étais senti
aussi proche de la vie.
Proche, mais incapable de
m’en rapprocher assez.
Je le savais. Je l’avais
accepté sans me plaindre.

J’ai voulu l’oublier,
m’en éloigner à jamais.
J’ai voulu croire que
tout n’était que le fruit
malsain de mon
imagination soulée
de solitude. J’ai voulu
m’en aller ailleurs et
ne pas savoir que je
l’avais connue ni
qu’elle ressemblait
peut-être à ma jeune
mère dans une photo
ancienne. Je ne savais
pas quoi faire ni ce que
je serais capable de faire.

Elle était venue de nulle
part et aussi vite elle était
disparue. Elle n’appartenait
pas à ce monde. Mais moi,
à quel monde est-ce que
j’appartenais ? Je le savais ?

Dans la grande maison
froide je m’étais réveillé.
Une autre femme dormait
dans la chambre et parfois
son chien allait lui lécher
le visage. La nuit me
semblait trop longue,
j’ai eu envie de m’en aller.
Mais ce qui était hors de
portée resterait, où que je
me trouve, hors de portée.
Et sans dormir j’ai attendu
le matin, je suis resté.

J. E. Soice