Saturday, November 09, 2013

Notas sobre a construção e interpretação do sentido nas obras literárias de ficção

Concentro-me no caso da narrativa, conto ou novela ou romance. As informações que constituem a narrativa são transmitidas pelo narrador. Mas o narrador nem sempre é uma personagem da história que conta. E mesmo quando o narrador é personagem da história que conta há sempre outros personagens envolvidos na acção, nos acontecimentos. Aristóteles fez na Poética  o elogio de Homero: o narrador das epopeias de Homero, em vez de ser o único a falar, dá a palavra aos personagens. Entende-se que numa época em que o drama era o género literário de mais prestígio Aristóteles faça o elogio da “dramatização” ou “representação” na apresentação dos acontecimentos e veja como menos eficaz e menos recomendável que o narrador fale sozinho na sua narrativa. Esta visão do que deve ser a narrativa foi a adoptada frequentemente por autores do século XIX: Flaubert e Henry James também eram de opinião que a narrativa é mais eficaz se o narrador der a palavra aos personagens em vez de falar sozinho. Porquê? Porque assim, segundo estes autores, se pode criar uma “ilusão de realidade” (“verosimilhança”) mais perfeita. Eles invocam outras razões: quando o narrador “representa” em vez de apenas “contar”, a história parece desenrolar-se naturalmente, a presença “incómoda “do narrador passa despercebida. 

O narrador é, no entanto, o responsável por tudo o que é dito na narrativa. O narrador pode narrar acontecimentos e pode narrar palavras. E de facto muitas vezes o narrador, em vez de dar a palavra directamente aos personagens, resume essas palavras na sua narração ou cita-as em discurso indirecto livre de modo a manter a ilusão da presença do personagem. Dessa maneira a narrativa dos acontecimentos e a caracterização directa ou indirecta dos personagens nunca escapa ao seu controle. Por outro lado, se há narradores, como Hemingway, que não entram na consciência das personagens e se limitam a descrever o seu comportamento visto de fora, muitos narradores, omniscientes, dizem o que se passa na consciência das personagens (“narrativa da corrente de consciência”).
As duas questões principais quando se trata de narrativas são estas: 1)quem é que fala na narrativa, qual é a voz que é responsável pelo que é contado ou dito?; 2) de que ponto de vista é que os acontecimentos são contados (vistos)? Observação importante: quem fala, seja o narrador ou uma personagem, pode estar a contar o que se passou adoptando a perspectiva ou ponto de vista de outra personagem. Voz e ponto de vista não coincidem obrigatoriamente. Uma das características da técnica narrativa que privilegia o “mostrar” (“showing”) sobre o “contar” (“telling”) consiste precisamente em adoptar de preferência o ponto de vista das personagens. Porquê ou para quê, com que consequências? É que se o ponto de vista adoptado é o das personagens ganha-se duplamente na construção do sentido, a intriga torna-se mais complexa e cheia de significação. No uso desta técnica uma personagem não se limita nunca a exprimir a sua opinião ou a dar forma à sua visão dos acontecimentos que lhe são exteriores, exercendo dessa forma de alguma maneira a função de narrador; ao mesmo tempo que “ajuda “o narrador a contar a história essa personagem está sempre a caracterizar-se a si própria. E aqui intervém a questão da “credibilidade” (“reliability”): aquilo que é ditoou pensado por uma personagem é interpretado pelo leitor tendo em conta a imagem que ele tem dessa personagem. Encarada deste modo, a criação do sentido da narrativa revela-se muito mais complexa do que poderia parecer à primeira vista.  Fazer falar as personagens e usar o seu ponto de vista dinamiza a história contada de maneira muito mais eficaz do que se o narrador fosse a única voz a contar os acontecimentos e a caracterizar as personagens.
Preferir “mostrar” os acontecimentos, isto é, mostrar as personagens em acção, aproxima a narrativa das obras dramáticas, onde não há narrador e nós vemos as personagens agir directamente diante de nós como na vida real. Mas essa preferência traz consigo alguns problemas: em vez de termos uma visão muito clara dos acontecimentos, que além de contados são também muitas vezes interpretados e comentados pelo narrador, no caso da narrativa que prefere “mostrar” em vez de “contar” o leitor é chamado a ter um papel muito mais activo, pois é ele que tem de interpretar o que lhe é “mostrado”. E surgem outras questões: o que é que permite ao autor de uma narrativa acreditar que o leitor interpretará o que lhe é mostrado “correctamente”? Correctamente significa aqui: de maneira tal que a história tenha o sentido que, mesmo não sendo assinalado directamente pelo narrador, é visado pela construção da intriga ou ”plot”. É uma questão que de maneira geral parece resolver-se satisfatoriamente. Porquê? Porque a experiência do autor e a do leitor na interpretação dos acontecimentos são em grande parte semelhantes devido a pertencerem ambos a comunidades (podia dizer-se: culturas, civilização) semelhantes ou idênticas. Mas há sempre uma certa margem de ambiguidade nos acontecimentos e também nas palavras ditas. E nenhuma discussão porá termo definitivamente a possibilidades de interpretação que divergem. A noção de “comunidade linguística” pode no entanto ajudar a resolver pelo menos parcialmente o problema: embora não exista um dicionário de comportamentos que teria valor científico e eliminaria a ambiguidade, o autor e o leitor podem entender-se o suficiente porque partilham experiências em grande parte empiricamente semelhantes.
Outro detalhe a  que se deve dar importância: as personagens e os acontecimentos em que se envolvem são inseparáveis e interferem mutuamente. As personagens da ficção são imitações ou reconstruções da pessoa. Na caracterização das personagens tem-se dado grande importância (os romances de Balzac são um excelente exemplo dessa prática, mas todos os autores de ficção, sobretudo do século XIX, sabem isso) ao aspecto físico, ao estatuto social, à maneira de vestir, aos objectos (incluindo a casa e a mobília), à  educação, à maneira de falar – e ao seu comportamento. O sentido dos acontecimentos é criado por neles agirem personagens caracterizadas de certa maneira, que são “certa pessoa” e não outra. Mas por outro lado os acontecimentos também contribuem para a criação da personagem: o homem é o que se revela ser no seu comportamento. Entende-se por isso que seja importante, para entender uma narrativa na sua coerência, prestar ao mesmo tempo atenção minuciosa aos acontecimentos enquanto portadores de sentido e às personagens enquanto investidas de certo sentido elas também.