Wednesday, July 31, 2013

You must die

  
The next whisky bar a noite avançada negra deserta ruídos de camiões na auto-estrada quem pode ir dormir sem ter salvo de alguma maneira o dia eu necessitava de falar a alguém e sufocava se pelo menos pudesse dizer o que me atormentava o que em mim se deslocara para fora do centro o desarranjo a desordem quem é que sem preconceitos sem pressa poderia show me the way ouvir e esperar e entender só que o mais difícil em questões de alguma gravidade às vezes questões de vida ou de morte mas a gente não o confessa é identificar o problema o sentimento a ferida o motivo do desajuste o grão de areia na engrenagem depois encontrar as palavras depois sabendo que nos ouvem ir construindo as frases as pessoas estão to the next little girl tão ocupadas metidas enterradas nos seus próprios delírios devaneios ilusões confusões hesitações dúvidas certezas engraçado dramático foi para mim ela achar piada ao que eu escrevia ter-se posto a falar comigo a rir tão à vontade como se de novo estivéssemos do mesmo lado da vida juntos a debater a filosofar sem consequências porque nada poderia abalar o edifício do nosso amor isto quando a mim me apetecia explicar aprofundar esclarecer por uma vez enfim finalmente talvez gemer ou chorar não sei que não era nada disso que nada era como ela pensava nada era como ela dizia tão convencida de estar certa de estar no caminho da verdade tão teimosa sempre inacessível aos argumentos de outros pontos de vista quando me chocava a incapacidade que ela manifestava de perceber as coisas mais simples o amor por exemplo ela falava do amor bla bla bla dizia jovialmente eu amo eu sei o que é o amor muito diferente da amizade não tem nada a ver eu ouvia e não acreditava no que ouvia de que lhe tinha servido ter vivido comigo tanto tempo não tinha aprendido nada ela dizia que se podia distinguir antes era amizade e a amizade é diferente do amor através dela eu estava a aprender tudo o que não sabia sobre a ambiguidade a impossibilidade de compreender os sentimentos as ideias os conceitos mais simples os próprios erros a ignorância estava a entender que transformamos deformamos tudo sem consciência de culpa nem do delírio ter companhia fazer companhia a alguém por exemplo claro que não é isso o amor dizia ela inocentemente como é possível perguntava-me eu confundir tudo simplificar grosseiramente o que se sente o que acontece entre duas pessoas mas eu próprio e toda gente o que fazíamos senão viver de ilusões erradamente um dia vais compreender mas nada posso fazer para salvar-te do equívoco para te ensinar I tell you sim um dia vais entender we must die à tua custa um dia aprenderás a não perder tempo porque o tempo escasseia um dia saberás que o amor é antes de mais nada uma ferida para a qual não há nome uma nostalgia que nenhuma presença nenhum regresso a casa pode completamente curar os beijos sim claro os lábios a boca claro que sim e os corpos evidentemente mas sem amizade sem cumplicidade sem poder estar em paz ao lado de quem nos quer protegidos pelo amor mesmo se em silêncio mesmo se a discutir e a discordar ou a duvidar mas ela não podia entender ou antes ela sabia bem que era assim mas preferia esquecê-lo e tentava encontrar outra solução para o vazio que inventava dizia que ele lhe enchia a alma iludida no entanto ela sabia que era capaz de agir sem se deixar atormentar pela ideia da ausência sem se deixar aterrorizar estupidamente pela distância a que estava de tudo o resto que não era o amor ah o medo infantil de ficar só abandonada desprezada menosprezada ela sabia tudo o que se pode saber mas quando começava a discutir parecia que lhe fugia a inteligência ficava só a teimosia e então eu ia-me embora preferia afastar-me não aguentava mais incapacidade cegueira incompreensão parvoíce tão tola às vezes meu deus como explicar-lhe se ela olhasse visse o que fazia o que tantas vezes tinha feito esquecida por momentos dos rostos severos que a puniriam que a expulsariam da casa da infância o destino dos outros e o nosso destino são coisas totalmente distintas as palavras as leis as regras aprendidas interferem com o que nós descobrimos e aprendemos e ficamos a saber we must die e doía-me o equívoco e doía-me a convicção com que ela acreditava erradamente na sua infelicidade nas suas obsessões nas suas ilusórias maneiras de escapar ao tédio e ao medo e ao amor quando parecia mais justo mais simples contentar-se e usufruir olha lembra-te estás sentada ao meu lado adormeceste o teu rosto tranquilo os teus cabelos sobre os ombros a tua camisa meio aberta e eu sou o teu anjo da guarda anjo diabólico por vezes mas enfim se não fosse ela estar sempre ausente sempre a sonhar com o que não tinha e a destruir o que lhe fora dado a sofrer com a ferida do amor que sentia e não queria sentir há pessoas assim não sabem estar só sabem ir e vir só sabem ter medo e arrastar-nos com elas na lama escorregadia dos erros sucessivos estás sentada ao meu lado repara bem olha para estas fotografias são dez mas se quiseres trago vinte e se quiseres trago mais cinquenta ou duzentas tu é que dizes prova-me mostra-me onde no teu rosto nos teus olhos que sorriem sem sobressaltos onde está a tua infelicidade aponta-me com o dedo para eu ver bem o que tu queres dizer e provar diz-me onde se revela a falta de amor onde se manifesta a amizade isolada dos outros sentimentos onde resplandecem as rugas da dúvida o desespero dos olhos ou da boca se eu não a tivesse conhecido a minha vida teria sido como não sei nem quero saber se errei que posso fazer agora só se pode quando muito tentar corrigir a minha vida foi transformada de qualquer modo era um risco que eu corria que sempre agora mesmo se corre eu olhava para ela inquieto não devia ser necessário explicar mas ao mesmo tempo é verdade que nas suas inexplicáveis contradições eu aprendia ia desvendando corrigindo somos todos como ela vivemos todos no erro e na confusão os receios não nos deixam nunca respirar as suspeitas o medo evidentemente the next little girl estamos organizados para fazer face à realidade e aos fantasmas só que a organização pode ser defeituosa não se adaptar ser criadora de confusões desajustes mal-entendidos infelicidades de terríveis consequências olha aqui ouve o que eu digo presta-me atenção vê-me por favor olha para mim uma parede frágil e transparente parece separar-nos uns dos outros mas a fina espessura é intransponível cada um no seu lado segue o seu caminho to the next whisky bar alheado do que se passa no destino dos outros incapaz de se interessar pelas palavras daqueles que não fazem parte da obsessão I tell you we must die e assim enquanto se me ia encurtando a existência eu perdia o meu precioso tempo já não dependia de mim nada dependia de mim nunca dependera certamente uma fotografia caiu de um livro mostrava-a tão triste tão triste que não me saía do pensamento magoava-me ela estava quase a chorar e eu não me lembrava show me the way de ter tirado whisky bar a fotografia embora reconhecesse o restaurante onde estávamos a almoçar e quando a vi o rosto dela três fotografias aliás a saltarem das páginas do livro no mesmo lugar três vezes o mesmo rosto a segundos ou minutos de intervalo fotografado vieram-me as lágrimas aos olhos e o sentimento de culpa como foi possível eu não me ter apercebido de tanta tamanha tão impressionante e visível tristeza quase em lágrimas meu deus o que é que se tinha passado o que é que eu tinha feito ou dito oh moon from Alabama o caminho to the next whisky bar ou era já o rosto da despedida do fim a dor de se sentir desprezada desamada não sei não conseguia lembrar-me escrevi-lhe a pedir desculpa não servia de nada eu sabia a lamentar a minha distracção perdoa-me a ligeireza tanta frieza tanta indiferença meu deus meu deus ela era uma criança solitária infeliz tinha essa cara de miúda abandonada e adoentada na esquina de uma rua eu sabia-o há muito tempo tão frágil tão franzina show me the way mas esquecia-me ou não acreditava nas minhas próprias intuições we must die deixei a cabeça descair na mesa e fiquei ali inerte sem querer pensar cheio de remorsos sem querer sentir a querer esquivar-me ao peso dos problemas da inquietação da dor que ameaçavam a minha noite o meu sono mas a água das lágrimas que parvoíce que infantilidade que surpresa corria-me pela face não fiquei consolado não me senti menos culpado sabia que era inútil ninguém me via eu estava só na casa desertada onde cada móvel me falava ainda dela se eu pudesse voltar atrás e corrigir mas não se viaja no tempo to the next little girl em sentido contrário oh não to the next whisky bar a nossa solidão os nossos erros esmagam-nos são definitivos nós queixamo-nos mas a verdade é que não atingimos nunca o limite do desespero não arriscamos o suficiente o medo de ser rejeitados reduzidos à nossa reconhecida insignificância e inutilidade paralisa-nos reduz-nos a escravos a cadáveres hesitantes camuflamos os desejos os sentimentos sem coragem sem sangue as nossas mãos capazes de suavemente tocar o rosto das raparigas de os acariciar como se uma brisa suave lhes lambesse a pele escondem-se cobardemente nos bolsos envergonhadas pois é isso um grande mal-entendido a existência uma bela confusão o caos as paixões ainda por cima o sexo confusões destruição morte pois um desastre mas às vezes acontece que pois eu sei mas a maior parte do tempo a ausência do amor o desamor o tédio a indiferença não sermos vistos nem tocados nem pensados nem imaginados suportamos todas as misérias depois um dia to the next whisky bar avançamos na noite escura aos tropeções os joelhos esmurrados a cabeça partida a sangrar to the next little girl e ela tem por nós uma piedade infantil maternal mas infantil o amor escorre-lhe dos olhos das mãos uma carícia uma ternura assim uma paixão assim oh meu deus adormecer nos seus braços inocentes repousar de tanto ter corrido e fugido com os seus dedos a riscar-nos os cabelos a vida então ah sim pois eu sei segredos invenções devaneios as laranjeiras em flor no jardim da casa as cerejeiras em flor nos campos da quinta a gente sabe as mãos infantis dela cheias de amor a gente sabe bem como é só que nem sempre e depois e depois um dia acaba-se a história.


Tuesday, July 30, 2013

CHOSES GÊNANTES


Un ignorant, devant une personne instruite, prend un air pédant, et cite des noms de gens célèbres.

Un homme récite ses propres poésies, que l’on ne trouve pas particulièrement belles, et rapporte les louanges que les gens en ont faites. C’est insupportable !


Sei Shônagon, Notes de Chevet, traduit
du Japonais par André Beaujard, Paris,
Gallimard, 1966, p. 120


Sunday, July 28, 2013

A Betty e eu


1

A Betty desapareceu. Tentei telefonar-lhe, não atendeu. Deve ter o telefone desligado. Hoje é terça-feira e há três dias que não sei nada dela. Telefonei para casa de uns amigos de um primo dela, onde ela me tinha dito que estaria quando voltasse de férias, mas eles nem sequer a conhecem, ficaram surpreendidos com a minha chamada. Eu mesmo fiquei embaraçado, que estupidez. Deve ter voltado de casa dos pais logo a seguir ao Natal, mas onde é que ela está? Mistério.

Porquê tantos segredos? Não entendo. Vamos separar-nos, está decidido. Falámos nisso antes das férias, mas sem tomarmos qualquer decisão. Pelos vistos tomou ela sozinha a decisão, sem me dizer nada. O diabo que a leve. E a mim também, que não tenho juízo e me presto a estas palhaçadas. É verdade que eu tenho pouca paciência para ouvir as longas e monótonas conversas com que ela me massacra à hora das refeições. Mas será razão para ela agir assim comigo?

2

Hoje é sábado. Eu ia a pé à National Gallery e ela telefonou-me. Não me quis dizer, porém, onde está. Se eu quiser, ameacei eu, arranjo um detective e em dois dias sei o teu paradeiro. Deve ter ficado assustada e decidiu tranquilizar-me. Vem almoçar comigo na segunda-feira.

3

Veio e começou com umas conversas esquisitas. Olhava para mim com olhos que eu não lhe conhecia, vindos de outra realidade. Que realidade? Não sei. Terá andado por aí com o outro, um colega com quem às vezes vai almoçar num restaurante perto do colégio? Diz que não, que está em casa de uma colega italiana. E não quer voltar, acha que devemos fazer uma pausa nas nossas relações. Peguei-lhe na mão, ela não a retirou. Acho-a indecisa, a pensar não sei em quê. Não é a Betty que eu conheci há um ano e meio, esta Betty é outra pessoa, parece perturbada, fora de si, meio baralhada. Tomámos um café com leite no Starbucks perto de Piccadilly e depois levei-a ao Metro. Enquanto caminhávamos pus-lhe a mão no ombro, ela disse que era melhor eu não o fazer porque agora já não estamos juntos. Eu ri-me. Ri-me, mas por dentro estava cheio de amargura e a achar a situação completamente estúpida. Custa-me a acreditar que as nossas relações tenham terminado assim, abruptamente, sem razão, sem uma conversa, sem explicações.

Porque veio almoçar comigo? Para me mentir? Para me esconder alguma coisa que não quer que eu saiba? Disse-me que um colega, um professor de História, a convidou a ir a Amesterdão numa viagem que ele tem de fazer com os alunos.
-        -  E tu vais? - perguntei eu.
-       - Talvez, ainda não decidi – respondeu ela.
Diz estas coisas para me impressionar, para me fazer sofrer ou para me preparar para alguma notícia que há-de vir depois? Não tenho a mínima ideia. Ela ainda tem a roupa quase toda em minha casa, porque não vai buscá-la? Perguntei-lhe e ela não respondeu, mudou de conversa, pôs-se a falar das aulas que dá no colégio, diz que tem muito que fazer, que os alunos são irrequietos e irresponsáveis, uns mal-educados. Não se interessam por nada e às vezes ainda vêm os pais queixar-se porque ela os obrigou a ficar no colégio de castigo depois das aulas por se terem portado mal. A arte não lhes suscita qualquer curiosidade, ela pede-lhes que desenhem umas maçãs e eles despacham tudo num instante, sem paciência, sem talento, sem interesse. Vou ouvindo o que ela diz, depois deixo-a na boca do Metro e vou para casa a pé. Fiquei confuso. Não entendo nada. Diabos me levem.


4

Hoje é quinta-feira. Tento telefonar-lhe, não responde. A minha vida é um inferno. Ontem cheguei a casa ao fim da tarde, vindo da Biblioteca, e encostei-me à parede a chorar. Abri uma garrafa de vinho, bebi dois copos, senti-me melhor. Mas as minhas noites tornaram-se insuportáveis, não consigo deixar de me interrogar sobre o paradeiro da Betty, sobre o que é que ela andará a fazer. Até quando é que vai durar esta tortura? Se pelo menos eu soubesse o que se passa e onde é que ela está. Mas não sei nada, restam-me as suspeitas e as suspeitas não me tranquilizam.


5

O fim-de-semana passou e ela não deu sinal de vida. Mas hoje, quarta-feira, recomeçou a telefonar-me. Eu ia na rua, tinha acabado de almoçar num restaurante perto da Biblioteca. Não queria nada, só queria saber se eu estava bem. Disse-lhe que sim e zanguei-me, proibi-a de continuar a telefonar-me. Já que não me dizes o que se passa, visto que me estás a tratar como se entre nós nada existisse nem nunca tivesse existido, deixa-me em paz, não me inquietes, não me aborreças. Talvez assim eu me habitue à ideia da nossa separação e comece a pôr em ordem a minha vida.


6

Hoje, quinta-feira, sem me avisar, veio cá a casa buscar roupa e uns sapatos. Eu tinha vindo almoçar a casa e dei com ela no quarto das visitas a separar camisas e saias e a meter tudo dentro de um saco de viagem vermelho. Mas a maior parte das coisas dela continua aqui e ela ainda não me devolveu a chave do apartamento. No fundo é como se estivesse de férias em qualquer lado e a minha casa continuasse a ser a casa dela. Esteve sentada no sofá da sala a conversar comigo e quando tentei beijá-la ela afastou-me. Estupor. Veio-me com uma conversa de doida: que agora finalmente é livre, faz o que lhe apetece, ninguém a pode impedir. A cabeça dela não está a funcionar bem. Eu nunca a privei de liberdade, antes pelo contrário, até fui eu que a livrei das obsessões maníacas da mãe, que a trata como se ela tivesse treze anos. E nem sequer sou ciumento.

Vestida de preto, parecia uma coruja a esbracejar. Eu estava atónito. Se ela bebesse diria que estava bêbeda. Acabou por ir-se embora era já de noite. As coisas insensatas que ela diz, a maneira que ela tem de falar comigo, os olhos esgazeados com que olha para mim. Está doida. Fui levá-la à boca do Metro de Victoria mas não abri a boca enquanto conduzia. Não estou a gostar nada desta fantochada. Aturar os caprichos desta sirigaita que se imagina uma grande artista começa a cansar-me e a parecer-me excessivo. É altura de tomar decisões. Não posso deixar esta mulher interferir abusivamente com a minha existência. Quando a conheci ela era carinhosa, parecia minha amiga. Neste momento é uma megera endiabrada, anda desvairada. Se ela não me tivesse tratado com tanta ternura quando eu a conheci eu nem sequer me tinha interessado seriamente por ela. Nesse tempo parecia uma rapariga sensata, bem educada, que merecia consideração. O que podia ter sido apenas uma breve aventura transformou-se numa relação amorosa, como se diz. O que é que eu trouxe à vida dela, o que é que ela trouxe à minha vida?

Tirei o saco do carro, deixei-a na boca do Metro e vim-me embora. Se ela não tivesse ainda as coisas dela em minha casa e já me tivesse devolvido a minha chave nunca mais a queria ver.

J. E. Soice


Saturday, July 27, 2013

Na rua à noite

Entre árvores e casas, na cidade quase deserta à noite,
passeio na rua da frente para trás enquanto a chuva cai.
As árvores perderam as folhas mas em silêncio
imaginam outras, as janelas dos edifícios fecharam-se
sobre o rosto de mais um dia. Passa por mim
e estende a mão um rapaz que conheci ontem no café,
grita-me absurdamente que a Margaret é que, ah ah.
Ah ah o quê? A mulher que estava comigo
quando eu o encontrei, a dado momento
voltou-se para ele e disse-lhe: tenho coisas sérias
a discutir com este senhor; por isso cale-se, não
nos aborreça. Mas ele, antes de se voltar
para os companheiros da sua mesa,
ainda nos perguntou se a política
internacional não nos interessava. Se quiséssemos
falar da independência do Quebeque, já sabíamos,
em todo o caso, quem devíamos procurar.
Poucos momentos antes tínhamos falado dos Rolling
Stones, foram os jornais que contaram a visita que Margaret
fez a Mick Jagger por ocasião de um concerto
de rock-and-roll. A mulher sentada ao meu lado não tinha
coisas sérias a discutir comigo, como se provou logo a seguir
pelo silêncio que sobreveio entre nós. E todavia
tinha saído da minha casa no dia anterior
sem responder a uma pergunta que lhe tinha feito:
por que te afastas, dissera-lhe eu, quando a minha mão
faz que procura o teu cabelo? Continuo
a passear na rua para a frente e para trás. É então
que aparece a rapariga de quem eu estava à espera.
Tinha-a visto dentro do café a beber cerveja com os amigos,
mas em vez de pedir-lhe que viesse fazer-me companhia,
tinha-me posto a caminhar na avenida, para cá e para lá.
Ela olha-me nos olhos. E eu, que passei a vida a esperar
que procurassem por mim aí. descubro
que já não quero encontrar o fio
da meada em que se emaranham os outros. Nenhum
vidro se parte em mim, nenhuma
porta se abre, larga e brusca,
fico parado a espantar-me e tenho
o lugar da alma vazio. Foi para
chegar aqui que aceitei discutir, estar sozinho,
privar-me, que perdi tardes inteiras a ver abanar
a erva e os pinheiros? Estava à espera do absoluto
porque não se vive para outra coisa
e compreendo que já não tenho braços
com que nadar ao seu encontro. Podia deitar-me
no chão e esperar que um automóvel me atropelasse,
mergulhar a cabeça na água da fonte para que o frio
me acordasse. Fiquei apenas distraído
a aprofundar o desencontro das sensações,
a fazer as contas aos anos que faltariam para morrer de vez.
Enganei-me na estrada, devia ter tomado por outro caminho.
Olhei para cima e devia ter olhado para baixo.
Seja como for, o irremediável ainda há-de ter remédio.
Não eram só os olhos, era o corpo todo, era a sua boca.
Mas como podia pensar nela com ela ali presente?
Se eu te amasse, se eu pudesse amar-te, ó rapariga.
Falhou-me o espírito nessa hora suprema por estar
de mais, esteve-se nas tintas para a complexidade
dos meus sentimentos. A beleza perfeita diante
de mim. E eu indiferente. As tardes
de chuva perderam a nostalgia que já tinham sido,
as ruas e as árvores deixaram de estar nítidas
na objectiva da máquina fotográfica. E se não
era isso, embaciaram-se com a minha descoberta.
Em que palma de mão hei-de pousar a minha,
seguro de sentir que me hei-de atormentar?
Fui sozinho a pé para casa depois de a ter mandado
embora e continuava a incomodar-me
o cheiro da carne queimada do jantar.
Deitar-me com ela à beira de mim mesmo, se fosse
possível. Mas ela sorri, abre-me o corpo e eu esvazio-me
do nada que cá tinha. Dêem-me alguém
com quem se possa a sério conversar e terei razões
para ainda dizer algum bem da existência.
O tempo que é preciso para que as searas ondulem ao vento,
como demora a modesta água da fonte a chegar ao mar.
Mas nós estendemos as mãos para o fogo
que nos havia de consumir e tudo o que nos fica
é a náusea doce desse cheiro cru. Até para arder
convém ter aprendido com as montanhas e os ventos
o tempo que demora uma folha de plátano a apodrecer.
Os livros que é preciso ter lido para interpretar
uma única frase, a solidão que se tem de conhecer
antes de ir ao encontro dos amigos. É contra mim mesmo,
ocioso, que em casa vou imaginando
as teias de aranha que me hão-de purificar
de me ter enganado. À medida que passam
os anos o príncipe aspira a governar; e no
entanto não se possui inteiramente o próprio destino.
Por que caem as folhas amarelas das árvores no Outono?
Ela ou alguém podia ter respondido: simplesmente
para que o verde tenha o seu lugar adequado na árvore
e para que nos desenhos das crianças o vermelho
nos surpreenda e faça sorrir. Cansado de mim
mesmo e de ouvir-me falar, lembrei-me subitamente
do antigo vizinho que encontrara à tarde. A rapariga
que vivia com ele tinha-se casado, ele abandonara
a literatura pela fotografia. Como tudo
no mundo em pouco tempo muda. E não sei
o que é que eu tinha na cara, porque ao partir
a mulher que estava com ele pôs-me a mão no ombro
e disse: coragem. Coragem? Aqui estou, apesar de tudo
disposto a prosseguir. Se a morte fosse agora,
não me apanhava a corrigir-me?


(João Camilo, O T de Tu, Edições Fenda, Coimbra, 1981)

Thursday, July 25, 2013

Theodor Fontane: Effi Briest

"Come again this afternoon to the dunes behind the mill. At old Mrs. Adermann's we can see each other without fear, as the house is far enough off the road. You must not worry so much about everything. We have our rights, too. If you will say that to yourself emphatically, I think all fear will depart from you. Life would not be worth the living if everything that applies in certain specific cases should be made to apply in all. All the best things lie beyond that. Learn to enjoy them."
"'Away from here,' you write, 'flight.' Impossible. I cannot leave my wife in the lurch, in poverty, along with everything else. It is out of the question, and we must take life lightly, otherwise we are poor and lost. Light-heartedness is our best possession. All is fate; it was not so to be. And would you have it otherwise—that we had never seen each other?"
Then came the third letter:
"Be at the old place again today. How are my days to be spent without you here in this dreary hole? I am beside myself, and yet thus much of what you say is right; it is salvation, and we must in the end bless the hand that inflicts this separation on us."
Innstetten had hardly shoved the letters aside when the doorbell rang.
In a moment Johanna announced Privy Councillor Wüllersdorf.
Wüllersdorf entered and saw at a glance that something must have
happened.
"Pardon me, Wüllersdorf," said Innstetten, receiving him, "for having asked you to come at once to see me. I dislike to disturb anybody in his evening's repose, most of all a hard-worked department chief. But it could not be helped. I beg you, make yourself comfortable, and here is a cigar."
Wüllersdorf sat down. Innstetten again walked to and fro and would gladly have gone on walking, because of his consuming restlessness, but he saw it would not do. So he took a cigar himself, sat down face to face with Wüllersdorf, and tried to be calm.
"It is for two reasons," he began, "that I have sent for you. Firstly, to deliver a challenge, and, secondly, to be my second in the encounter itself. The first is not agreeable and the second still less. And now your answer?"
"You know, Innstetten, I am at your disposal. But before I know about the case, pardon me the naïve question, must it be? We are beyond the age, you know—you to take a pistol in your hand, and I to have a share in it. However, do not misunderstand me; this is not meant to be a refusal. How could I refuse you anything? But tell me now what it is."
"It is a question of a gallant of my wife, who at the same time was my friend, or almost a friend."
Wüllersdorf looked at Innstetten. "Instetten, that is not possible."
"It is more than possible, it is certain. Read."
Wüllersdorf ran over the letters hastily. "These are addressed to your wife?"
"Yes. I found them today in her sewing table."
"And who wrote them?"
"Major von Crampas."
"So, things that occurred when you were still in Kessin?"
Innstetten nodded.
"So, it was six years ago, or half a year longer?"
"Yes."
Wüllersdorf kept silent. After a while Innstetten said: "It almost looks, Wüllersdorf, as though the six or seven years made an impression on you. There is a theory of limitation, of course, but I don't know whether we have here a case to which the theory can be applied."
"I don't know, either," said Wüllersdorf. "And I confess frankly, the whole case seems to turn upon that question."
Innstetten looked at him amazed. "You say that in all seriousness?"
"In all seriousness. It is no time for trying one's skill at pleasantry or dialectic hair-splitting."
"I am curious to know what you mean. Tell me frankly what you think about it."
"Innstetten, your situation is awful and your happiness in life is destroyed. But if you kill the lover your happiness in life is, so to speak, doubly destroyed, and to your sorrow over a wrong suffered will be added the sorrow over a wrong done. Everything hinges on the question, do you feel absolutely compelled to do it? Do you feel so injured, insulted, so indignant that one of you must go, either he or you? Is that the way the matter stands?"
"I don't know."
"You must know."
Innstetten sprang up, walked to the window, and tapped on the panes, full of nervous excitement. Then he turned quickly, stepped toward Wüllersdorf and said: "No, that is not the way the matter stands."
"How does it stand then?"
"It amounts to this—that I am unspeakably unhappy. I am mortified, infamously deceived, and yet I have no feeling of hatred or even of thirst for revenge. If I ask myself 'why not?' on the spur of the moment, I am unable to assign any other reason than the intervening years. People are always talking about inexpiable guilt. That is undeniably wrong in the sight of God, but I say it is also in the sight of man. I never should have believed that time, purely as time, could so affect one. Then, in the second place, I love my wife, yes, strange to say, I love her still, and dreadful as I consider all that has happened, I am so completely under the spell of her loveliness, the bright charm peculiarly her own, that in spite of myself I feel in the innermost recesses of my heart inclined to forgive."
Wüllersdorf nodded. "I fully understand your attitude, Innstetten, I should probably feel the same way about it. But if that is your feeling and you say to me: 'I love this woman so much that I can forgive her everything,' and if we consider, further, that it all happened so long, long ago that it seems like an event in some other world, why, if that is the situation, Innstetten, I feel like asking, wherefore all this fuss?"
"Because it must be, nevertheless. I have thought it over from every point of view. We are not merely individuals, we belong to a whole, and have always to take the whole into consideration. We are absolutely dependent. If it were possible to live in solitude I could let it pass. I should then bear the burden heaped upon me, though real happiness would be gone. But so many people are forced to live without real happiness, and I should have to do it too, and I could. We don't need to be happy, least of all have we any claim on happiness, and it is not absolutely necessary to put out of existence the one who has taken our happiness away. We can let him go, if we desire to live on apart from the world. But in the social life of the world a certain something has been worked out that is now in force, and in accordance with the principles of which we have been accustomed to judge everybody, ourselves as well as others. It would never do to run counter to it. Society would despise us and in the end we should despise ourselves and, not being able to bear the strain, we should fire a bullet into our brains. Pardon me for delivering such a discourse, which after all is only a repetition of what every man has said to himself a hundred times. But who can say anything now? Once more then, no hatred or anything of the kind, and I do not care to have blood on my hands for the sake of the happiness taken away from me. But that social something, let us say, which tyrannizes us, takes no account of charm, or love, or limitation. I have no choice. I must."
"I don't know, Innstetten."
Innstetten smiled. "You shall decide yourself, Wüllersdorf. It is now ten o 'clock. Six hours ago, I will concede, I still had control of the situation, I could do the one thing or the other, there was still a way out. Not so now; now I am in a blind alley. You may say, I have nobody to blame but myself; I ought to have guarded and controlled myself better, ought to have hid it all in my own heart and fought it out there. But it came upon me too suddenly, with too much force, and so I can hardly reproach myself for not having held my nerves in check more successfully. I went to your room and wrote you a note and thereby lost the control of events. From that very moment the secret of my unhappiness and, what is of greater moment, the smirch on my honor was half revealed to another, and after the first words we exchanged here it was wholly revealed. Now, inasmuch as there is another who knows my secret, I can no longer turn back."
"I don't know," repeated Wüllersdorf. "I don't like to resort to the old worn-out phrase, but still I can do no better than to say: Innstetten, it will all rest in my bosom as in a grave."
"Yes, Wüllersdorf, that is what they all say. But there is no such thing as secrecy. Even if you remain true to your word and are secrecy personified toward others, still you know it and I shall not be saved from your judgment by the fact that you have just expressed to me your approval and have even said you fully understood my attitude. It is unalterably settled that from this moment on I should be an object of your sympathy, which in itself is not very agreeable, and every word you might hear me exchange with my wife would be subject to your check, whether you would or no, and if my wife should speak of fidelity or should pronounce judgment upon another woman, as women have a way of doing, I should not know which way to look. Moreover, if it came to pass that I counseled charitable consideration in some wholly commonplace affair of honor, 'because of the apparent lack of deception,' or something of the sort, a smile would pass over your countenance, or at least a twitch would be noticeable, and in your heart you would say: 'poor Innstetten, he has a real passion for analyzing all insults chemically, in order to determine their insulting contents, and he never finds the proper quantity of the suffocating element. He has never yet been suffocated by an affair.' Am I right, Wüllersdorf, or not?"
Wüllersdorf had risen to his feet. "I think it is awful that you should be right, but you are right. I shall no longer trouble you with my 'must it be.' The world is simply as it is, and things do not take the course we desire, but the one others desire. This talk about the 'ordeal,' with which many pompous orators seek to assure us, is sheer nonsense, there is nothing in it. On the contrary, our cult of honor is idolatry, but we must submit to it so long as the idol is honored."

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In the evening of the same day Innstetten was back again in Berlin. He had taken the carriage, which he had left by the crossroad behind the dunes, directly for the railway station, without returning to Kessin, and had left to the seconds the duty of reporting to the authorities. On the train he had a compartment to himself, which enabled him to commune with his own mind and live the event all over again. He had the same thoughts as two days before, except that they ran in the opposite direction, beginning with conviction as to his rights and his duty and ending in doubt. "Guilt, if it is anything at all, is not limited by time and place and cannot pass away in a night. Guilt requires expiation; there is some sense in that. Limitation, on the other hand, only half satisfies; it is weak, or at least it is prosaic." He found comfort in this thought and said to himself over and over that what had happened was inevitable. But the moment he reached this conclusion he rejected it. "There must be a limitation; limitation is the only sensible solution. Whether or not it is prosaic is immaterial. What is sensible is usually prosaic. I am now forty-five. If I had found the letters twenty-five years later I should have been seventy. Then Wüllersdorf would have said: 'Innstetten, don't be a fool.' And if Wüllersdorf didn't say it, Buddenbrook would, and if he didn't, either, I myself should. That is clear. When we carry a thing to extremes we carry it too far and make ourselves ridiculous. No doubt about it. But where does it begin? Where is the limit? Within ten years a duel is required and we call it an affair of honor. After eleven years, or perhaps ten and a half, we call it nonsense. The limit, the limit. Where is it? Was it reached? Was it passed? When I recall his last look, resigned and yet smiling in his misery, that look said: 'Innstetten, this is stickling for principle. You might have spared me this, and yourself, too.' Perhaps he was right. I hear some such voice in my soul. Now if I had been full of deadly hatred, if a deep feeling of revenge had found a place in my heart—Revenge is not a thing of beauty, but a human trait and has naturally a human right to exist. But this affair was all for the sake of an idea, a conception, was artificial, half comedy. And now I must continue this comedy, must send Effi away and ruin her, and myself, too—I ought to have burned the letters, and the world should never have been permitted to hear about them. And then when she came, free from suspicion, I ought to have said to her: 'Here is your place,' and ought to have parted from her inwardly, not before the eyes of the world. There are so many marriages that are not marriages. Then happiness would have been gone, but I should not have had the eye staring at me with its searching look and its mild, though mute, accusation."




Dostoevsky: Notes from Underground


The thing with Dostoevsky’s “underground man” may be explained this way:

"I behaved nicely, as a great guy. True, Liza? You are a prostitute but I want you to understand that for me you are a real person, a wonderful girl, I am going to save you from a miserable life."

But later on it seems that he changed his mind:

"That’s what you thought, ah ah… But I am not a good guy at all, Liza, I know all the tricks about how to behave in order to look like a great guy but I am a bastard… You know what? I just wanted to seduce you so you would believe me and love me… Later on, having got you, I would oppress you and make you a docile slave of my disgusting will of power... "

Then he proves it, behaving as a bastard. And poor Liza leaves.
Then he misses her and runs after her but she disappeared forever and he is desperately alone. So, he really liked her.

He doesn’t want people to believe that he acted nicely and sincerely. He doesn’t believe that he is good; he is his own enemy and his most ruthless detractor. He needs to inform people who believed in his sincerity and integrity that he is a scoundrel.

All the book is about that. About deconstructing himself and about dropping the mask. He believes that indeed he is a man with a mask - it’s in our human nature, no special talent needed to be a rogue. But he cannot allow other people to be mislead by his mask, by what he looks like. Then he portraits himself all the time in the worst manner. It’s his way of being honest, his way of proving that he is a good guy after all.

"I am a bad guy, the worst you can find among people around. I am a liar, I am vain, I talk too much. But since I am the one who warns you about who I am, well, that kind of makes me a good guy too. Got it?"

But this book is first of all a ferocious attack on the optimism of science (it happened with many writers at that time and later and explains the return to subjectivism and the disbelief regarding an objective look at reality). It is a ferocious attack on psychology as a scientific way of understanding human behavior. That’s why the book spends so much time talking about human contradictions, opposing reality as it is and people as they are to the idealistic views of the politicians and system makers.

Dostoevsky questions our capacity of reforming ourselves, doubts our capacity of knowing anything and ourselves first of all. It’s a denunciation too of the way we interpret external behavior and connect it with truthful feelings and thoughts. Does Dostoevsky believe that we are good? It looks like he believes that we are bad: we sometimes know what is good and what would be the best for us and still we do evil and act impulsively against our own interest and disrespecting our great principles. Is knowledge possible? Is progress and a better society possible? Can human beings love other human beings? He talks about us being happy and what does he say about that? That we need first of all to be independent, free: independent of all science, of all systems, of our own belief that we are good and know how to do good. But to be independent isn’t also what makes us first of all interested in our own pleasure?

J. E. Soice

Sunday, July 14, 2013

About Sorrow

Let others be proud that no girl anywhere can resist their erotic power; we envy them not. We shall be proud that no secret sorrow escapes our attention, that no solitary sorrow is so prudish and so proud that we do not succeed in penetrating its innermost hideout! Which contest is the most dangerous, which requires the most skill and provides the greatest pleas­ure, we shall not investigate. Our choice is made: we love only sorrow. We are in quest only of sorrow, and wherever we find its trail we follow it, fearlessly, unwaveringly, until it dis­closes itself. For this fight we equip ourselves; we practice fighting daily.
It is true that sorrow sneaks about in the world so very se­cretively that only the person who has sympathy for it gains an intimation of it. One walks down the street; one house looks like the other. Only the experienced observer suspects that in this particular house things are quite otherwise at the midnight hour; then an unhappy person paces about, one who found no rest; he goes up the stairs, and his footsteps echo in the stillness of the night. People pass one another in the street; one person looks just like the next, and the next one is like al­most everyone else. Only the experienced observer suspects that deep within that one's head resides a lodger who has nothing to do with the world but lives out his solitary life in quiet home-industry work.
The exterior, then, is indeed the object of our scrutiny but not of our interest. In the same way, the fisherman sits and looks fixedly at the float; the float, however, does not interest him at all, but rather the movements down at the bottom. Therefore the exterior does indeed have significance for us, but not as a manifestation of the interior, but rather as a tele­graphic report that there is something hidden deep within.
When one looks long and attentively at a face, sometimes another face, as it were, is discovered within the face one sees. Ordinarily this is an unmistakable sign that the soul is hiding an emigrant who has withdrawn from the exterior face in order to watch over a buried treasure, and the route for the operation of observation is suggested by the fact that the one face seems to be within the other, which indicates that one must try to penetrate inward if one wants to discover anything.

Kierkegaard, “Silhouttes”, in Either/Or, Part I, Princeton University Press, 
1987, translated by Howard V. Hong and Edna H. Hong

Beethoven: Kreutzer Sonata (1. Adagio Sostenuto. Presto)

Beethoven and Tolstoy: The Kreutzer Sonata

'They played Beethoven's "Kreutzer Sonata". Do you know its first movement, the presto? You know it?' he burst out. 'Ah! It's a fearful thing, that sonata. Especially that movement. And music in general's a fearful thing. What is it? I don't know. What is music? What does it do to us? And why does it do to us what it does? People say that music has an uplifting effect on the soul: what rot! It isn't true. It's true that it has an effect, it has a terrible effect on me, at any rate, but it has nothing to do with any uplifting of the soul. Its effect on the soul is neither uplifting nor degrading - it merely irritates me. How can I put it? Music makes me forget myself, my true condition, it carries me off into another state of being, one that isn't my own: under the influence of music I have the illusion of feeling things I don't really feel, of understanding things I don't understand, being able to do things I'm not able to do. I explain this by the circumstance that the effect produced by music is similar to that produced by yawning or laughter: I may not be sleepy, but I yawn if I see someone else yawning; I may have no reason for laughing, but I laugh if I see someone else laughing.
'Music carries me instantly and directly into the state of consciousness that was experienced by its composer. My soul merges with his, and together with him I'm transported from one state of consciousness into another; yet why this should be, I've no idea. I mean, take the man who wrote the "Kreutzer Sonata", Beethoven: he knew why he was in that state of mind. It was that state of mind which led him to perform certain actions, and so it acquired a special significance for him, but none whatever for me. And that's why that kind of music's just an irritant - because it doesn't lead anywhere. A military band plays a march, say: the soldiers march in step, and the music's done its work. An orchestra plays a dance tune, I dance, and the music's done its work. A Mass is sung, I take communion, and once again the music's done its work. But that other kind of music's just an irritation, an excitement, and the action the excitement's supposed to lead to simply isn't there! That's why it's such a fearful thing, why it sometimes has such a horrible effect. In China, music's an affair of state. And that's the way it ought to be. Can it really be allowable for anyone who feels like it to hypnotize another person, or many other persons, and then do what he likes with them? Particularly if the hypnotist is just the first unscrupulous individual who happens to come along?
Tet this fearful medium is available to anyone who cares to make use of it. Take that "Kreutzer Sonata", for example, take its first movement, the presto: can one really allow it to be played in a drawing-room full of women in low-cut dresses? To be played, and then followed by a little light applause, and the eating of ice-cream, and talk about the latest society gossip? Such pieces should only be played on certain special, solemn, significant occasions when certain solemn actions have to be performed, actions that correspond to the nature of the music. It should be played, and as it's played those actions which it's inspired with its significance should be performed. Otherwise the generation of all that feeling and energy, which are quite inappropriate to either the place or the occasion, and which aren't allowed any outlet, can't have anything but a harmful effect. On me, at any rate, that piece had the most shattering effect; I had the illusion that I was discovering entirely new emotions, new possibilities I'd known nothing of before then. "Yes, that's it, it's got absolutely nothing to do with the way I've been used to living and seeing the world, that's how it ought to be," I seemed to hear a voice saying inside me. What this new reality I'd discovered was, I really didn't know, but my awareness of this new state of conscious¬ness filled me with joy. Everyone in the room, including Trukhachevsky and my wife, appeared to me in an entirely new light.
'After the presto they played the attractive but unoriginal andante with its rather trite variations, and then the finale, which is really weak. Then, at the request of members of the audience, they played things like Ernst's "Elegie", and various other brief encores. These were all quite pleasant, but none of them made one tenth of the impression on me that the presto had done. They all came filtering through the impression the presto had made on me. I felt cheerful and buoyant all evening. As for my wife, I'd never seen her looking as she did that evening. Her radiant eyes, her serenity, the gravity of her expression as she played, and that utterly melting quality, the weak, pathetic, yet blissful smile on her lips after they'd finished - I saw all this, but I didn't attach any particular significance to it, beyond supposing that she had experienced the same feelings as I had, and that she, like myself, had discovered, or perhaps rather remembered, emotions that were new and unfamiliar. The evening ended satisfactorily, and everyone went home.



Tolstoy, The Kreutzer Sonata, translated by 
David Mcduff, Penguin Boooks

Friday, July 12, 2013

A wretched fool (Goethe, Faust)

Faust:

I've studied now, to my regret,
Philosophy, Law, Medicine,
and—what is worst—Theology
from end to end with diligence.
Yet here I am, a wretched fool
and still no wiser than before.
I’ve become Master, and Doctor as well,
and for nearly ten years I have led
my young students a merry chase,
up, down, and every which way—
and find we can't have certitude.
This is too much for heart to bear!           
I well may know more than all those dullards,
those doctors, teachers, officials, and priests,
be unbothered by scruples or doubts,
and fear neither hell nor its devils—
but I get no joy from anything, either,           
know nothing that I think worthwhile,
and don't imagine that what I teach
could better mankind or make it godly.
Then, too, I don't have land or money,
or any splendid worldly honors.           
No dog would want to linger on like this!
That is why I've turned to magic,
in hope that with the help of spirit-power
I might solve many mysteries,
so that I need no longer toil and sweat           
to speak of what I do not know,
can learn what, deep within it,
binds the universe together,
may contemplate all seminal forces—
and be done with peddling empty words.

Goethe, Faust, Princeton University Press, 1984,
Edited and translated by Stuart Atkins