Saturday, December 07, 2013

Elogio do poeta triste


O que eu apreciava nos
poemas do Bruno Béu era
que eles eram tão verdadeiros
como a falta de cor dos dias
quando nós estamos tristes
ou como a alegria de um sorriso
de criança quando ela está feliz.
Os poemas do Bruno constatam
mas não deformam aquilo de que
falam. Dizem, mas não solicitam
amor nem admiração. Amor talvez,
visto que todos nós necessitamos
de um olhar e de mãos que nos
redimam da falta de sentido das
coisas que, na nossa solidão sem
remédio, nos acontecem; mas êxtase
não, nem divagações pretensamente
infantis ou cheias de ingénuas sugestões
metafísicas. Os poemas do Bruno não
esperam por uma recompensa nem a
pedem. Mesmo Alberto Caeiro nunca
foi tão longe na sua ambição de repor
a verdade acima da retórica cheia de
trejeitos ridículos dos literatos que
merecem a adulação dos vaidosos
escrevinhadores dos jornais. Acerca
da existência todos nós podemos dizer
o que nos apetece e imaginar que o
mistério da vida alheia e da nossa
se elucida proferindo palavras sem
muito sentido para além do brilho
aparente do som das vogais e do
disfarce de uma sintaxe retorcida.
Mas haja bom senso, haja modéstia,
haja prudência: não nos mintam, digam
a verdade como ela é se tiverem palavras
e sabedoria para isso. E se não podem,
calem-se, deixem a vida ser o que ela
é sem explicações fantasiosas; até para
a loucura é preciso ter talento. Vá,
comam chocolate, por exemplo, ou
vão para a beira do rio ver passar os
barcos no horizonte. Deixem as crianças
crescer para a vida longe das vossas
idiotices e embustes. A poesia é outra
coisa. Cá de longe, Bruno, mando-te
um abraço e um sorriso cheio de melancolia
e de cumplicidade. Tu não és um poeta
conhecido nem celebrado (ser
celebrado e conhecido seria uma
ofensa à tua lucidez sem ilusões);
mas tudo o que tu dizes cai sobre nós
como a chuva miudinha e despretensiosa
dos dias de Inverno em que, longe do sol,
sem heroísmo, sem nos queixarmos, nós
fixamos o nosso olhar na simplicidade sem
metafísica de tudo o que apenas existe.

(SB, Dec. 7, 2013)

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