Saturday, July 27, 2013

Na rua à noite

Entre árvores e casas, na cidade quase deserta à noite,
passeio na rua da frente para trás enquanto a chuva cai.
As árvores perderam as folhas mas em silêncio
imaginam outras, as janelas dos edifícios fecharam-se
sobre o rosto de mais um dia. Passa por mim
e estende a mão um rapaz que conheci ontem no café,
grita-me absurdamente que a Margaret é que, ah ah.
Ah ah o quê? A mulher que estava comigo
quando eu o encontrei, a dado momento
voltou-se para ele e disse-lhe: tenho coisas sérias
a discutir com este senhor; por isso cale-se, não
nos aborreça. Mas ele, antes de se voltar
para os companheiros da sua mesa,
ainda nos perguntou se a política
internacional não nos interessava. Se quiséssemos
falar da independência do Quebeque, já sabíamos,
em todo o caso, quem devíamos procurar.
Poucos momentos antes tínhamos falado dos Rolling
Stones, foram os jornais que contaram a visita que Margaret
fez a Mick Jagger por ocasião de um concerto
de rock-and-roll. A mulher sentada ao meu lado não tinha
coisas sérias a discutir comigo, como se provou logo a seguir
pelo silêncio que sobreveio entre nós. E todavia
tinha saído da minha casa no dia anterior
sem responder a uma pergunta que lhe tinha feito:
por que te afastas, dissera-lhe eu, quando a minha mão
faz que procura o teu cabelo? Continuo
a passear na rua para a frente e para trás. É então
que aparece a rapariga de quem eu estava à espera.
Tinha-a visto dentro do café a beber cerveja com os amigos,
mas em vez de pedir-lhe que viesse fazer-me companhia,
tinha-me posto a caminhar na avenida, para cá e para lá.
Ela olha-me nos olhos. E eu, que passei a vida a esperar
que procurassem por mim aí. descubro
que já não quero encontrar o fio
da meada em que se emaranham os outros. Nenhum
vidro se parte em mim, nenhuma
porta se abre, larga e brusca,
fico parado a espantar-me e tenho
o lugar da alma vazio. Foi para
chegar aqui que aceitei discutir, estar sozinho,
privar-me, que perdi tardes inteiras a ver abanar
a erva e os pinheiros? Estava à espera do absoluto
porque não se vive para outra coisa
e compreendo que já não tenho braços
com que nadar ao seu encontro. Podia deitar-me
no chão e esperar que um automóvel me atropelasse,
mergulhar a cabeça na água da fonte para que o frio
me acordasse. Fiquei apenas distraído
a aprofundar o desencontro das sensações,
a fazer as contas aos anos que faltariam para morrer de vez.
Enganei-me na estrada, devia ter tomado por outro caminho.
Olhei para cima e devia ter olhado para baixo.
Seja como for, o irremediável ainda há-de ter remédio.
Não eram só os olhos, era o corpo todo, era a sua boca.
Mas como podia pensar nela com ela ali presente?
Se eu te amasse, se eu pudesse amar-te, ó rapariga.
Falhou-me o espírito nessa hora suprema por estar
de mais, esteve-se nas tintas para a complexidade
dos meus sentimentos. A beleza perfeita diante
de mim. E eu indiferente. As tardes
de chuva perderam a nostalgia que já tinham sido,
as ruas e as árvores deixaram de estar nítidas
na objectiva da máquina fotográfica. E se não
era isso, embaciaram-se com a minha descoberta.
Em que palma de mão hei-de pousar a minha,
seguro de sentir que me hei-de atormentar?
Fui sozinho a pé para casa depois de a ter mandado
embora e continuava a incomodar-me
o cheiro da carne queimada do jantar.
Deitar-me com ela à beira de mim mesmo, se fosse
possível. Mas ela sorri, abre-me o corpo e eu esvazio-me
do nada que cá tinha. Dêem-me alguém
com quem se possa a sério conversar e terei razões
para ainda dizer algum bem da existência.
O tempo que é preciso para que as searas ondulem ao vento,
como demora a modesta água da fonte a chegar ao mar.
Mas nós estendemos as mãos para o fogo
que nos havia de consumir e tudo o que nos fica
é a náusea doce desse cheiro cru. Até para arder
convém ter aprendido com as montanhas e os ventos
o tempo que demora uma folha de plátano a apodrecer.
Os livros que é preciso ter lido para interpretar
uma única frase, a solidão que se tem de conhecer
antes de ir ao encontro dos amigos. É contra mim mesmo,
ocioso, que em casa vou imaginando
as teias de aranha que me hão-de purificar
de me ter enganado. À medida que passam
os anos o príncipe aspira a governar; e no
entanto não se possui inteiramente o próprio destino.
Por que caem as folhas amarelas das árvores no Outono?
Ela ou alguém podia ter respondido: simplesmente
para que o verde tenha o seu lugar adequado na árvore
e para que nos desenhos das crianças o vermelho
nos surpreenda e faça sorrir. Cansado de mim
mesmo e de ouvir-me falar, lembrei-me subitamente
do antigo vizinho que encontrara à tarde. A rapariga
que vivia com ele tinha-se casado, ele abandonara
a literatura pela fotografia. Como tudo
no mundo em pouco tempo muda. E não sei
o que é que eu tinha na cara, porque ao partir
a mulher que estava com ele pôs-me a mão no ombro
e disse: coragem. Coragem? Aqui estou, apesar de tudo
disposto a prosseguir. Se a morte fosse agora,
não me apanhava a corrigir-me?


(João Camilo, O T de Tu, Edições Fenda, Coimbra, 1981)

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