Sunday, July 28, 2013

A Betty e eu


1

A Betty desapareceu. Tentei telefonar-lhe, não atendeu. Deve ter o telefone desligado. Hoje é terça-feira e há três dias que não sei nada dela. Telefonei para casa de uns amigos de um primo dela, onde ela me tinha dito que estaria quando voltasse de férias, mas eles nem sequer a conhecem, ficaram surpreendidos com a minha chamada. Eu mesmo fiquei embaraçado, que estupidez. Deve ter voltado de casa dos pais logo a seguir ao Natal, mas onde é que ela está? Mistério.

Porquê tantos segredos? Não entendo. Vamos separar-nos, está decidido. Falámos nisso antes das férias, mas sem tomarmos qualquer decisão. Pelos vistos tomou ela sozinha a decisão, sem me dizer nada. O diabo que a leve. E a mim também, que não tenho juízo e me presto a estas palhaçadas. É verdade que eu tenho pouca paciência para ouvir as longas e monótonas conversas com que ela me massacra à hora das refeições. Mas será razão para ela agir assim comigo?

2

Hoje é sábado. Eu ia a pé à National Gallery e ela telefonou-me. Não me quis dizer, porém, onde está. Se eu quiser, ameacei eu, arranjo um detective e em dois dias sei o teu paradeiro. Deve ter ficado assustada e decidiu tranquilizar-me. Vem almoçar comigo na segunda-feira.

3

Veio e começou com umas conversas esquisitas. Olhava para mim com olhos que eu não lhe conhecia, vindos de outra realidade. Que realidade? Não sei. Terá andado por aí com o outro, um colega com quem às vezes vai almoçar num restaurante perto do colégio? Diz que não, que está em casa de uma colega italiana. E não quer voltar, acha que devemos fazer uma pausa nas nossas relações. Peguei-lhe na mão, ela não a retirou. Acho-a indecisa, a pensar não sei em quê. Não é a Betty que eu conheci há um ano e meio, esta Betty é outra pessoa, parece perturbada, fora de si, meio baralhada. Tomámos um café com leite no Starbucks perto de Piccadilly e depois levei-a ao Metro. Enquanto caminhávamos pus-lhe a mão no ombro, ela disse que era melhor eu não o fazer porque agora já não estamos juntos. Eu ri-me. Ri-me, mas por dentro estava cheio de amargura e a achar a situação completamente estúpida. Custa-me a acreditar que as nossas relações tenham terminado assim, abruptamente, sem razão, sem uma conversa, sem explicações.

Porque veio almoçar comigo? Para me mentir? Para me esconder alguma coisa que não quer que eu saiba? Disse-me que um colega, um professor de História, a convidou a ir a Amesterdão numa viagem que ele tem de fazer com os alunos.
-        -  E tu vais? - perguntei eu.
-       - Talvez, ainda não decidi – respondeu ela.
Diz estas coisas para me impressionar, para me fazer sofrer ou para me preparar para alguma notícia que há-de vir depois? Não tenho a mínima ideia. Ela ainda tem a roupa quase toda em minha casa, porque não vai buscá-la? Perguntei-lhe e ela não respondeu, mudou de conversa, pôs-se a falar das aulas que dá no colégio, diz que tem muito que fazer, que os alunos são irrequietos e irresponsáveis, uns mal-educados. Não se interessam por nada e às vezes ainda vêm os pais queixar-se porque ela os obrigou a ficar no colégio de castigo depois das aulas por se terem portado mal. A arte não lhes suscita qualquer curiosidade, ela pede-lhes que desenhem umas maçãs e eles despacham tudo num instante, sem paciência, sem talento, sem interesse. Vou ouvindo o que ela diz, depois deixo-a na boca do Metro e vou para casa a pé. Fiquei confuso. Não entendo nada. Diabos me levem.


4

Hoje é quinta-feira. Tento telefonar-lhe, não responde. A minha vida é um inferno. Ontem cheguei a casa ao fim da tarde, vindo da Biblioteca, e encostei-me à parede a chorar. Abri uma garrafa de vinho, bebi dois copos, senti-me melhor. Mas as minhas noites tornaram-se insuportáveis, não consigo deixar de me interrogar sobre o paradeiro da Betty, sobre o que é que ela andará a fazer. Até quando é que vai durar esta tortura? Se pelo menos eu soubesse o que se passa e onde é que ela está. Mas não sei nada, restam-me as suspeitas e as suspeitas não me tranquilizam.


5

O fim-de-semana passou e ela não deu sinal de vida. Mas hoje, quarta-feira, recomeçou a telefonar-me. Eu ia na rua, tinha acabado de almoçar num restaurante perto da Biblioteca. Não queria nada, só queria saber se eu estava bem. Disse-lhe que sim e zanguei-me, proibi-a de continuar a telefonar-me. Já que não me dizes o que se passa, visto que me estás a tratar como se entre nós nada existisse nem nunca tivesse existido, deixa-me em paz, não me inquietes, não me aborreças. Talvez assim eu me habitue à ideia da nossa separação e comece a pôr em ordem a minha vida.


6

Hoje, quinta-feira, sem me avisar, veio cá a casa buscar roupa e uns sapatos. Eu tinha vindo almoçar a casa e dei com ela no quarto das visitas a separar camisas e saias e a meter tudo dentro de um saco de viagem vermelho. Mas a maior parte das coisas dela continua aqui e ela ainda não me devolveu a chave do apartamento. No fundo é como se estivesse de férias em qualquer lado e a minha casa continuasse a ser a casa dela. Esteve sentada no sofá da sala a conversar comigo e quando tentei beijá-la ela afastou-me. Estupor. Veio-me com uma conversa de doida: que agora finalmente é livre, faz o que lhe apetece, ninguém a pode impedir. A cabeça dela não está a funcionar bem. Eu nunca a privei de liberdade, antes pelo contrário, até fui eu que a livrei das obsessões maníacas da mãe, que a trata como se ela tivesse treze anos. E nem sequer sou ciumento.

Vestida de preto, parecia uma coruja a esbracejar. Eu estava atónito. Se ela bebesse diria que estava bêbeda. Acabou por ir-se embora era já de noite. As coisas insensatas que ela diz, a maneira que ela tem de falar comigo, os olhos esgazeados com que olha para mim. Está doida. Fui levá-la à boca do Metro de Victoria mas não abri a boca enquanto conduzia. Não estou a gostar nada desta fantochada. Aturar os caprichos desta sirigaita que se imagina uma grande artista começa a cansar-me e a parecer-me excessivo. É altura de tomar decisões. Não posso deixar esta mulher interferir abusivamente com a minha existência. Quando a conheci ela era carinhosa, parecia minha amiga. Neste momento é uma megera endiabrada, anda desvairada. Se ela não me tivesse tratado com tanta ternura quando eu a conheci eu nem sequer me tinha interessado seriamente por ela. Nesse tempo parecia uma rapariga sensata, bem educada, que merecia consideração. O que podia ter sido apenas uma breve aventura transformou-se numa relação amorosa, como se diz. O que é que eu trouxe à vida dela, o que é que ela trouxe à minha vida?

Tirei o saco do carro, deixei-a na boca do Metro e vim-me embora. Se ela não tivesse ainda as coisas dela em minha casa e já me tivesse devolvido a minha chave nunca mais a queria ver.

J. E. Soice


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