Saturday, May 11, 2013

Um animal de pele branca, imaculada



Mas então, disse ela, o que é que tu queres, diz-me lá de maneira clara, é reatar uma relação que já morreu ou esquecê-la? Eu ri-me e disse: não sejas tão positivista, o que é começar, o que é reatar, o que é acabar? Já tentaste saber onde começa e onde acaba um raio de luz? Experimenta e compreenderás melhor o que eu digo, a minha maneira de ver as coisas.

Falávamos ao telefone, às vezes horas, ela do outro lado do Atlântico, cheia de atenção e paciência, eu deste lado, sempre meio perdido no tempo. Então eu disse: nem as pessoas nem as relações são objectos sólidos inalteráveis, tudo está sempre em movimento, por isso não tem sentido dizer que uma relação acabou porque as relações só acabam quando as pessoas envolvidas nela estão todas mortas.

Ela não estava de acordo comigo e queria forçar-me a responder à sua pergunta, então eu cedi um pouco e expliquei: não há, humanamente falando, qualquer hipótese de reatamento, eu nada farei para que isso aconteça, seria esquecer que não consegui resolver os problemas do amor enquanto eles ainda tinham solução. Além disso, acrescentei eu, quando tenho saudades dela é uma coisa puramente literária, romantismo portanto, é como ter saudades de um morto, porque ela não existe, essa pessoa de que falamos mudou de máscara, já está noutra peça de teatro, aliás só existiu dois anos e depois desapareceu numa gruta, numa caverna, não sei onde, nunca mais a consegui encontrar e bem a procurei por todo o lado.

Sim, tenho remorsos de não ter estado mais presente eu próprio quando era necessário, teria sido bom para a nossa relação, mas devia haver uma razão para eu não a suportar, para eu me ausentar e me irritar e ficar mesmo irascível e sem paciência para as coisas que lhe interessavam a ela, para as interrupções dela quando eu estava a trabalhar, para as manias dela, para o seu snobismo ingénuo, para o autoritarismo dela. Tenho pena, sinto-me muito infeliz quando penso no desastre que foi a nossa relação, mas não creio que a culpa tenha sido só minha, ela nunca estava completamente onde parecia que estava, era uma criança mimada além disso, e tinha problemas de saúde complicados por vezes, asseguro-te que me sinto muito frustrado com o que aconteceu, mas tu como podes saber o que se passou entre nós, ninguém podia saber, nem eu mesmo sabia exactamente o que se estava a passar e nos havia de separar para sempre. Eu próprio quis essa separação e dizia-o, quando me vir livre de ti, quando desapareceres da minha vista, mas agora sinto-me estúpido, não entendo como pude comportar-me assim, como pude ser tão impaciente, estou perplexo.

E apesar de tudo o que já disse e do que sei e do que tu sabes, perguntas-me se eu ainda penso na possibilidade de a trazer outra vez para ao pé de mim, e eu explico tu falas assim porque ignoras que quando ela se foi embora já nem nos podíamos ver um ao outro, não que houvesse ódio, não sei explicar, era desinteresse, e ela, sempre prudente, sempre insegura ou vingativa, tinha já encontro marcado noutro sítio com outra pessoa para resolver o problema do seu futuro. Portanto, mesmo que eu quisesse que ela voltasse, de que é que me servia? De nada, ela nunca teve tempo para reflectir, várias vezes tomou decisões precipitadas, sai de uma relação e vai logo de cabeça atirar-se para outra, é como se a tivessem ofendido ou desprezado ou repudiado, o que é absurdo, se ela tivesse capacidade de esperar, se ela não estivesse cheia de terrores inexplicáveis na cabeça, se ela deixasse as coisas amadurecer, uma vez pelo menos, talvez ficasse mais tranquila, talvez acabasse por ser feliz.

Ao que eu digo tu respondes que eu estou a falar do que não sei, não tenho provas de nada, e mesmo que fosse verdade, dizes tu, mesmo se for verdade o que tu dizes, dormir com outro homem ou ir ao encontro de outro homem não pode ser o motivo da separação. As pessoas separam-se entre si sem interferência alheia e porque as relações já não funcionam, porque há um vazio a preencher, e não é por ter aparecido ou existir outra pessoa que isso acontece, de modo nenhum, é porque tudo acabou e já não há interesse em continuar. E se de facto surge alguém na história é porque é mais fácil, para sair depressa de uma relação, ir meter-se na cama de outra pessoa por uns momentos, e ninguém tem nada com isso, não sejas machista.

Eu dei uma gargalhada, não pude evitar, com que então as outras pessoas, as que deviam estar de fora ou a gente pensava que estavam de fora, não desempenham papel nenhum na nossa vida amorosa, tudo se passa só a dois, por favor, olha bem para o que se passa à tua volta, observa, e depois diz-me, dá-me conta dos resultados das tuas observações.

Positivista, repeti eu, és positivista e pronto, pois primeiro relações que estejam a funcionar de maneira perfeita é coisa que não existe, nem os melhores motores funcionam de maneira perfeita, nada no mundo funciona de maneira perfeita, o que é a perfeição, explica-me lá para ver se eu entendo, o que é uma relação perfeita entre duas pessoas, entre dois amantes por exemplo, isso, esse conceito, muda com as pessoas e com os continentes e com as situações, com os dias e com as noites.

Acredita, nenhuma relação é sólida como as pedras parece que são sólidas, como o ferro da ponte sobre o Tejo parece que é sólido, as relações são como a personalidade, como a ideia errada, fantasista, que nós temos daquilo a que chamamos o eu, daquilo de que falamos quando falamos das pessoas que somos. Na realidade nós e os outros não somos nada, niente, rien du tout, não, não somos blocos de sentido aglomerado, cimentado, enclausurado numa espécie de tijolo, desilude-te de vez, isso a que chamamos o eu, de que podemos dizer aquilo é um eu, é uma treta, uma ilusão, um produto comercial, sentimental, um produto, a commodity para consumo rápido. Nas relações entre as pessoas e naquilo que designamos por eu existem falhas, muitas falhas, muitos espaços vazios, imensas, inúmeras zonas obscuras, instáveis, impossíveis de isolar, de entender, de definir, é por isso que é sempre possível alguém introduzir-se num espaço que parecia reservado, ou privado e seguro, só de duas pessoas ou de uma pessoa, e estragar tudo, criar a desordem na nossa vida e o caos no nosso universo.

E além disso, continuei eu, o que é o vazio, o que é estar vazio, se eu te entendo bem então tenho de protestar outra vez e dizer que isso não pode servir de desculpa nem de explicação para a infidelidade ou para a ruptura, pois quem é que não tem em si espaços vazios, enormes, profundos espaços por preencher, eu próprio, certas noites, tento preencher esses espaços incómodos com um copo de vinho, por exemplo, e não me perguntes por que razão o vinho ajuda a preencher esses espaços vazios porque eu não te sei explicar, fico sentado numa cadeira, por exemplo, depois de ter bebido ou enquanto vou bebendo, e o vazio em mim tornou-se menos incómodo. Mas eu não sou o género de pessoa para abusar dessas soluções artificiais a fim de preencher os vazios que ocupam espaço dentro de nós sem realmente o ocuparem. Eu sei o que disse, que o vazio ocupa espaço, foi mesmo isso que tu ouviste, e de facto se não ocupasse espaço não podíamos referir-nos a ele como qualquer coisa que pode ser preenchida, para onde se pode ir e querer estar.

Ouve ainda o que eu digo, estava a pensar, se eu, em vez de preencher os meus espaços vazios com a ajuda de um copo de vinho ou de um whisky, tentasse preenchê-los ou escapar ao incómodo que eles me causam indo deitar-me na cama com alguém que goste de mim, ou lendo um livro, ou indo procurar uma rapariga a quem pagaria para se deitar comigo, ou conduzindo na auto-estrada sem parar durante toda a noite, o que é que isso provava acerca da minha relação comigo mesmo e com as outras pessoas, com o mundo e sobretudo com ela, com aquela que eu amava? O que é que isso provava senão que o vazio em nós é impossível de definir, de caracterizar, de identificar, e que ao agir, ao fazer fosse o que fosse, ao ir para a cama com uma desconhecida a quem pagara para estar comigo, ao deitar-me com alguém que me amasse ou que apenas tivesse tido vontade de mim, ao pintar um quadro, ao tirar uma fotografia, ao querer perder-me nos labirintos das auto-estradas quase desertas à noite, eu estava apenas a provar a existência do incómodo que o vazio provocava em mim?

A minha tentativa, talvez ingénua, talvez desesperada, de escapar a esse incómodo e a mim mesmo fazendo qualquer coisa que me afastasse da melancolia e do tédio e da solidão sem sentido pensas que poderia ter sido provocada pela imperfeição do amor que alguém tem ou devia ter por mim? Tu achas que pode? Há tanta coisa que me faz falta, que sempre me fez falta, algumas pessoas, por exemplo, e a pessoa que nunca encontrei, que nunca conheci, e que teria transformado a minha vida noutra vida, no entanto não me recordo de alguma vez a ter culpado a ela, àquela que eu amei e de quem esperava tanto e com quem dormia, àquela de quem tu falas porque ela é tua amiga, pela minha insatisfação existencial, pelo meu desajuste com a vida. Mas tu achas que eu devia ter percebido por que razão ela nunca estava contente, nunca estava totalmente feliz, por que razão ela fez as asneiras que fez, umas atrás das outras, repetidamente, como uma tonta ou uma desesperada, e achas que era obrigação minha protegê-la dos seus próprios erros, e que além disso eu devia ter evitado ou resolvido os problemas que não eram provocados por mim, aqueles que nasciam da sua instabilidade e imaturidade, das confusões que desorganizavam a sua cabeça. É possível que tenhas razão, é verdade que se podia esperar tudo isso de mim, mas pelos vistos eu não estive à altura da situação, lamento muito, e tu sabes que paguei um preço elevado por essa incapacidade, por esse erro.

Na tua opinião, já o disseste várias vezes, se ela sentia um vazio, ou vários vazios, sei lá, na sua vida, eu tinha responsabilidades nisso - porque era eu que vivia com ela, era a mim que ela amava. Dizes que eu tinha obrigação de ter visto e não vi, de ter percebido e não me importei. Por eu não me ter dado conta dos problemas que a atormentavam, ou por ter sido incapaz de fazer alguma coisa para modificar a situação, a minha relação com ela acabou por se deteriorar, é o que tu dizes. Eu entendo, eu percebo o que tu dizes e não protesto, está bem, sou culpado, não soube, não pude resolver os problemas que eram gerados pela sua personalidade, pela sua história familiar particular, até pela relação em que estávamos os dois. Mas insisto, repito, que se concluis acusando-me a mim de ser a razão, o responsável, a causa, com o meu comportamento, desses vazios, se eles existiram, e da ruptura e da infidelidade, da infelicidade, do abandono, do desastre, de tudo, de tudo, eu não posso estar de acordo. Eu não sou Deus.

Tu então voltaste à carga, disseste que eu ainda não te tinha dado uma resposta clara à pergunta, queres que ela volte ou queres que ela desapareça definitivamente da tua vida, disseste que eu estava a querer escapar-me com subterfúgios, e eu ri-me e disse essa tonta essa tola que eu amei como queres que eu a queira de novo a estragar-me, a envenenar-me a vida, ela era mesmo tola, mesmo tonta, e agora nem sequer sei onde ela está, nem o que está a fazer, creio que decidiu ajuizadamente ou desesperadamente ligar, antes que seja tarde de mais, o amor a alguns interesses comerciais e a uma paixão insaciável por uma cidade onde vivemos juntos durante algum tempo mas onde eu já não vivo. Projectos esses que já há algum tempo lhe queimavam as meninges, lhe perturbavam o cérebro de criança instável, a levaram a várias decisões aberrantes. Mas estou a falar do que não sei, eu sei lá onde ela está e com quem e a fazer o quê. Eu sei lá se ela é feliz ou infeliz. Nem quero saber. A passagem dela pela minha vida pode não ter acabado ainda porque eu lembro-me de tudo o que aconteceu, estupidamente até me lembro de quase tudo em pormenor, mas garanto-te que hei-de fazer o que puder para eliminar definitivamente da minha vida as consequências nefastas desse erro.  É verdade que posso amá-la, eu sei, há partes de mim que a amam ainda, mas essas partes de mim são as que gostam de lidar com o que não se resolveu, não se entende, não teve ainda ou não terá nunca solução, são zonas de mim mesmo, do que eu sei do mapa de mim mesmo, que me escapam ou tentam escapar à minha lucidez, por isso eu oiço o que elas dizem, anoto o que lá se passa, sinto o que lá se sente na medida do possível, mas não ligo muita importância, pois o meu raciocínio, a razão, impedem-me de continuar a alimentar ambições e projectos de vida que já percebi serem impossíveis e insensatos. Não me apetece sofrer mais do que o inevitável, entendes? O que não impede que eu sofra por não ter sabido ser aquele que se esperava que eu fosse, por não ter sido capaz de libertar uma mulher do peso, na sua vida adulta, de uma infância desordenada e solitária, eu sei, eu reconheço, nem sequer consegui introduzir alguma ordem, um mínimo de tranquilidade, na sua cabeça às vezes confusa, avariada, fraca de mais para os seus devaneios e aspirações pouco realistas. E no entanto, juro-te, amava-a, e por vezes ainda me lembro dela com saudades e como se fosse possível corrigir tudo, mas se me lembro dela assim é porque me esqueço de que ela, com o seu comportamento imoral, contaminou e destroçou recordações boas que eu tinha de lugares e de acontecimentos do passado, recordações e acontecimentos que eu pensava ingenuamente estarem ao abrigo da traição, protegidos da destruição.

E aí está, acrescentei eu elevando a voz, eu acho que continuei em grande parte a escrever para que tu leias o que eu escrevo, porque tu me dizes que é em situações de crise e de perigo e de solidão ou sofrimento que nos aproximamos de zonas do ser inacessíveis a outras pessoas e até a nós próprios, pois quando tudo parece estar a correr bem, cada coisa no seu sítio, tranquilamente, sem perturbar a ordem das outras coisas no universo, a gente adormece, deixa-se anestesiar. Não devias deixar-me acreditar que o que eu escrevo serve para alguma coisa, progride nalguma direcção, na direcção de alguma terra ou água, floresta ou jardim que valha a pena explorar, além de me libertar momentaneamente da consciência aguda, do fardo insuportável da derrota e da dor da impotência. Não sei se fico mais feliz por entender as coisas como as entendo, por falar delas como falo, não sei, sinceramente, mas não importa, neste momento é assim.

Remorsos, tenho tantos remorsos. Porquê? Não sei. Se pudesse voltar atrás e recomeçar tudo de novo. Não sei se queria, mas é o que sinto às vezes, e penso que seria mais modesto, mais atento, mais humano, mais generoso, teria em consideração a morte dos outros, o fardo deles e não apenas o meu, não me comportaria como uma espécie de deus adolescente, irascível apesar de amante, provavelmente distraído do amor sem se dar conta disso.

E de onde me vem a necessidade de corrigir o erro se não é do conhecimento que eu adquiri enfim acerca da vida, uma vida onde nada se repete, onde as possibilidades de encontrar o amor e de se entregar a objectivos por que vale a pena lutar são raras? Talvez me tenha saído das entranhas onde estava escondida esta insaciável necessidade de falar, de escrever. Mas o que eu digo, o que eu escrevo, o que eu penso, tudo o que tenho feito e pensado ultimamente, não será inútil, não será continuar a entranhar-se na obsessão e prolongar o mal-entendido? É possível, é realmente possível, tu achas, redimirmo-nos dos erros que cometemos?  Falar sobre o que já passou mas não foi esquecido, reordenar no nosso espírito o que aconteceu desordenadamente resolve algum problema?

Tu, paciente do outro lado, continuaste a ouvir-me, e repetiste que as minhas contradições eram, são, enormes e bem visíveis, e que eu nunca sacrifiquei nada na minha vida a essa mulher que tinha uma devoção sem fim por ti, eu sei, eu falei com ela, ela deixou tudo para ir ter contigo e tu o que é que lhe deste, o que é que sacrificaste, em que é que os teus hábitos mudaram, vocês os homens não têm consciência de tudo o que as mulheres abandonam, sacrificam muitas vezes, para vos amar, para vos seguir.

Eu queria protestar, defender-me, explicar que tinha feito o que podia, que não era selvagem nem nenhum monstro mas que por razões que me escapavam, que eu não conseguia identificar nem portanto tentar entender, as coisas se tinham deteriorado, e sim eu amo-a disse eu com uma lágrima a descer no lado esquerdo da minha face, mas a pessoa que eu amo não é a pessoa de quem me separei há uns meses, essa não a amo, a que eu amo é outra, é aquela que eu conheci antes de ela ter cometido o pecado original que havia de fazer apodrecer lentamente as nossas relações, aquilo a que no início chamámos o amor, a paixão, a alegria, e que desapareceu, eu acho que esperei muito tempo por ela depois de ela se ter perdido nas brumas confusas de uma montanha inacessível ao meu olhar.

Tu, do outro lado do oceano, insististe cruelmente que eu não a tinha amado o suficiente, que até tinha mostrado em público várias vezes a pouca consideração que tinha por uma mulher que visivelmente me amava, e que mesmo depois de ter errado teve a coragem de voltar para ti, só que tu nunca lhe perdoaste, e foi isso que vos separou, e agora alegra-te ou chora porque nunca mais hás-de pegar-lhe na mão, ela não deixa, nem a vais beijar nunca mais, ela não deixa, tu para ela morreste, mete-te isso na cabecinha, a vossa história, a dos dois, acabou.

Eu não protestei porque talvez fosse verdade, talvez eu fosse o grande, o principal responsável por tudo aquilo de que ela me acusava. Eu lamentava profundamente não ter sabido ser melhor, tinha mesmo pena e não entendia sequer o que é que acontecera, porque razão acontecera o que tinha acontecido, mas paciência, sorry, é assim, que se há-de fazer agora.

Do outro lado do oceano ela disse de novo que eu tinha dado muito pouco para a relação com a mulher que me amara tanto, e a mim apeteceu-me protestar e dizer porra merda tu não sabes tu não estiveste cá e depois as coisas não se deterioram assim como tu pensas, positivista é o que tu és, e não te dás conta, tu uma mulher inteligente, que não é num momento preciso que se pode identificar, não é por uma razão clara que se possa nomear, a que se possa dar um nome, que as coisas se deterioram, não, minha querida, não é possível escrever na certidão de óbito do amor a data exacta nem a razão exacta do falecimento, eu acho que é pouco a pouco, sem a gente se dar conta, que o amor se vai destruindo, estragando, desaparecendo, é em coisas sem importância nenhuma, em incidentes irrisórios, em coisas mínimas, realmente nada de grave aparentemente, mas o animalzinho de pele branca imaculada, cheio de saúde, cheio de força, cheio de desejos, de focinho jovem e luzidio que apetece beijar, vai-se transformando noutra coisa, e essa outra coisa nós não sabemos que nome dar-lhe, ficamos perdidos, é subitamente um bicho difícil de classificar, e como tratar com ele, o que nos perturba bastante, e nos começa a preocupar de maneira vaga, imprecisa, e a interferir com tudo o resto na nossa existência, e então, talvez por comodismo, ou será por preguiça, ou ignorância, por incapacidade, concluímos que o amor morreu e que não há necessidade de chamar nenhuma ambulância para o reanimar, para tentar salvá-lo, porque é tarde de mais, o momento da salvação passou, não há nada a fazer.

Creio que podes estar de acordo comigo, comentei eu a seguir à minha tirada, o que eu disse, aliás, não entra em contradição com as tuas observações, repara que se àquilo em que o amor se transformou pudéssemos dar um nome, se a falar o pudéssemos nomear, se lhe pudéssemos tirar uma fotografia ou fazê-lo passar pelos raios x, provavelmente encontrávamos uma solução, e o amor que já não era amor mas um corpo, um ser vivo, um objecto, talvez uma espécie de castanha que caiu no caminho da floresta, com casca mas sem vida, um objecto desconhecido, diferente, geométrico, até surpreendente, mas que ninguém sabia como nomear nem entender, animal provavelmente, doença pura ou monstro vigoroso, mas se o pudéssemos ver, identificar, talvez também pudéssemos compreendê-lo e salvá-lo. Quem sabe se debaixo da sua pele não estava escondido, envergonhado, cheio de medo, aterrorizado, um resto, talvez os olhos ou a boca, ou as mãozinhas, do animal de pele branca imaculada, quem sabe, um resto ainda daquele que tinha sido o amor verdadeiro, e talvez a partir desse resto pudesse renascer, forte, novo, para durar, o velho amor, depois da sua transformação, da sua passagem arriscada, perigosa, pelo corpo do monstro, depois da sua crise dolorosa e quase fatal mas que nos escapara e que fizera com que o ser doente não tivesse encontrado lugar, no nosso universo claramente definido e demarcado, onde habitar, onde esperar, onde sobreviver, por isso nós não o quisemos ver, preferimos ignorá-lo, repudiá-lo, afastá-lo de vez e com raiva, com um pontapé, do nosso caminho, era preciso eliminá-lo, não é, e depressa, para ele não nos incomodar demasiado, expulsá-lo da nossa vida para que não fosse posto em causa o que já sabíamos, isto é, que o amor nasce e morre, que começa e acaba, e que é possível fazer afirmações destas com a certeza científica que os médicos usam nas certidões de óbito.

Falámos, como nós falámos esta noite, agora estou cansado e tu também deves estar, para ti são horas de ir trabalhar, para mim são horas de dormir, felizes aqueles que já estão no seu dia, a preenchê-lo correctamente, aqueles a quem se pede, de quem se espera, que só vejam o que é visível, que só saibam o que se aprendeu na escola ou com o pai e a mãe, felizes esses, os simples, para quem as palavras têm apenas um significado e o resto é vício de infelizes, é especulação de gente complicada. Mas eles existem ou são uma invenção da nossa arrogância?



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