Thursday, October 04, 2012

Sor Juana Inés de la Cruz: Consuela a un Celoso

QUE CONSUELA A UN CELOSO 
EPILOGANDO LA SERIE DE LOS AMORES


Amor empieza por desasosiego,

solicitud, ardores y desvelos;

crece con riesgos, lances y recelos;

susténtase de llantos y de ruego.


Doctrínanle tibiezas y despego,

conserva el ser entre engañosos velos,

hasta que con agravios o con celos

apaga con sus lágrimas su fuego.


Su principio, su medio y fin es éste:

¿pues por qué, Alcino, sientes el desvío

de Celia, que otro tiempo bien te quiso?


¿Qué razón hay de que dolor te cueste?

Pues no te engañó amor, Alcino mío,

sino que llegó el término preciso.

Tuesday, October 02, 2012

About death


M. - Maybe we are ware of it. Maybe we are not aware of it.
W. – What are you talking about?
M. – I am talking about death. It’s there, waiting for us. Our own death. Not death as an intangible concept. Death as something that will take place in our own life.
W. – Death sure is waiting for us. And so what? Nothing new.
M. – And so what? We keep wasting the opportunities of having a better life. We will never learn.
W. – You will never stop being an irredeemable romantic.
M. – There is no romanticism in my analysis of the situation.
W. – Can we change our lives just because we know that we are going to die?
M. – We can, but we will not. That’s what should bother me.
W. – Are you still talking about love?
M. – Is there anything else worth to be taken in consideration?
W. – And you think you are not in a romantic mood. 
M. – I wish I were always in what you call a romantic mood. But it only happens after I had a good dinner and drank two or three glasses of wine.
W. – We had a good diner, didn’t we? Enjoy it. Don’t bother thinking about death.
M. – Don’t you feel that we are too easily satisfied with what we got? Why don’t you leave everything you have, your forever-comfortable life, and come with me?
W. – Ha ha. You are so funny. Heading where? Where would you take me?
M. – I wish I knew.
W. - When we know in advance where we are going the journey stops being exciting? Is that what you mean?
M. – I don’t know what I mean, darling. I don’t even know what I would do with you if you suddenly changed your mind and out of curiosity or love for me wanted me to take you.
W. – How funny. Is it what you want? You aim at making me unhappy?
M. – How would I know? You have to try first and then see what happens. Unhappiness for the moment is just a word. And we fear words. We shouldn’t. Words always make things more or less interesting than they really are.
W. – Now I am waiting for you to say that you love me. I have been waiting for a while but nothing comes.
M. – Maybe I would love you. I don’t know.
W. – You are always so ignorant in what concerns your own feelings. If you don’t commit how can you expect the person you are wooing to commit?
M. – Forgive me. When I drink I start talking nonsense. Let’s go. Your husband may be waiting for us. 

Os anjos


A essência dos anjos. Eles riem,
mas discretamente: como uma
sombra no jardim onde vivem
as densas árvores. Quem os
ouve? Nós, a quem pesa o
corpo e a quem a alma inspira
dúvidas e atormenta? E
invejamos a sua condição:
são-lhes poupadas a idade
e  a lenta decadência dos
movimentos, a frouxidão
do pensamento. Depois dos
anos em que, como se fôssemos
imortais, nos alegrámos
com a incomparável beleza
do mundo, o seu esplendor.
Tudo, nesse tempo inocente,
parecia ter sido criado para
festejar a nossa humana glória,
para desafiar a temível força
dos nossos braços e das nossas
pernas. Não éramos deuses?

Os anjos: um ideal. A maldade da
ambição é-lhes desconhecida. E a
crueldade da vitória. Eles não
necessitam de mentir, de espezinhar.
Nem de cuspir com desdém no rosto
dos inimigos. Protege-os da inveja e
do ódio uma barreira invisível. Nesse
espaço para além do espaço, puros,
despreocupados, eles sorriem e às
vezes, suavemente, riem. Vêem-nos?
Mas nós não os vemos. Imaginamos
a sua face imaterial para nos consolarmos
da nossa invencível, tão pesada
irrealidade? Ela envolve-nos nas
suas promessas de eternidade.
Quem tem certezas e a ciência
suficiente para, tendo chegado
a entender, explicar o que se
passa? Os anjos: nós, como
queríamos ser. Eles não existem,
provavelmente. Ou somos nós
que não passamos de um sonho
dos deuses que também não
existem, embora nas praças
antigas das cidades destruídas,
mutiladas, as suas estátuas nos
façam crer que eles são, desde
os séculos mais antigos, parte
irrecusável do nosso destino. Se
eles falassem, anjos ou deuses,
e nos revelassem as palavras que,
pronunciadas ou secretamente
balbuciadas, encheram de sentido
as vidas antigas, a dos filósofos
e a  dos músicos, a dos homens
e a das mulheres de quem
ninguém conservou a memória,
que provavelmente ninguém
amou nem fez estremecer. Os
anjos e os deuses são parte do
nosso destino. Por isso nós os
evocamos e  de noite, em estações
dominadas por todos os excessos,
eles nos visitam, para nos atormentar
com a sua perfeição ou, vendo-nos
duvidar,  nos pôr a mão pacificadora
no ombro. Mortais, só pressentimos a
intemporal essência dos anjos porque
nos foi concedida a capacidade de
comparar. Imaginar uma sublime
existência está ao nosso alcance.

Olham-nos com atenta admiração os
cães e provavelmente estremecem
diante do nosso poder outros animais.
Nos olhos deles descortinamos um
espanto semelhante àquele com
que, na nossa ambiciosa modéstia,
nos fixamos na figura exemplar e
invejada dos anjos. A eles, aos animais,
não lhes pesa não serem senão parte
insignificante da nossa existência?
Não os ofende não poderem sentar-se
à mesa connosco e partilhar, entre risos
e no calor das confidências, a carne e o
peixe, o vinho e as laranjas? Aos olhos
deles a nossa existência está cheia de
privilégios imerecidos. E eles assistem,
irritados mas silenciosos, às nossa
queixas. Porque não nos aperfeiçoamos
a entender o Ser em si mesmo, nas suas
múltiplas, imprevistas manifestações?
Aspiramos à sublime transparência
dos anjos, à perfeição sem lacunas
dos deuses, à irrealidade. Com que direito,
se desperdiçar todas as oportunidades é
a nossa vocação mais evidente? Os
animais  olham-nos com a intensidade
com que nos olham as pessoas. Mas
nós recusamos-lhes a capacidade de
sentir e de entender. Tamanha é a nossa
arrogância. Os anjos, se nos falassem,
não teriam razão de queixa da nossa
soberba, nada diriam da nossa cegueira
e da nossa pressa? Mas os anjos não se
queixam, os anjos não falam. Ou não
chega aos nossos ouvidos exacerbados
pelos ruídos da cansativa luta pela
existência o som, a música da sua voz.
Porque para ouvir é necessário estar
atento. E distrai-nos do que acontece
à nossa volta, dos convites do Ser a
aceder a outra realidade, a algazarra
das metas a perseguir, das corridas a
ganhar. Nós, tantas vezes vitoriosos
dos despiques insensatos por um
triunfo, tantas vezes abatidos pelas
aparentes derrotas da ambição. Se
aprendêssemos a ver e a ouvir, se
não nos cansasse a ilusória
monotonia com que se sucedem as
estações na sua fiel regularidade. Se
aprendêssemos, antes de morrer, a viver.