Monday, March 19, 2012

O morto



Simon Vouet





What wound cuts deeper than a loved one
turned against you? Spit her out,
like a mortal enemy - let the girl go.

Creon (Sophocles Antigone)



Eu escrevia sobretudo para uma pessoa que provavelmente não me lia nem se interessava pelo que eu tinha a dizer. Ela inspirava-me. Saber que a pessoa a quem nos dirigimos nos ignora é estimulante. Há sempre a possibilidade de alguém a informar do que se passa: há um homem que parece que está a falar de ti e para ti, já viste o que ele escreve? Ou então ela está no café ou no comboio e alguém está a ler um jornal, uma revista ou um livro. Ela olha distraidamente, dá-se conta de que certas frases lhe soam a coisa conhecida, interessa-se, tenta ver o que é, acaba por perguntar: o que é que está a ler, posso ver? Seria esta a melhor maneira de chegar aos olhos e ao espírito daquela para quem escrevemos humildemente, sem esperar recompensa. Deve ser por isso que eu escrevo, na esperança de um dia lhe virem a cair nas mãos os meus desabafos, a notícia da minha amargura.

Telefonar-lhe não adiantaria: ela diria uma vez mais palavras que não me interessam, havia de mentir. Nunca conheci ninguém que mentisse tão convictamente, creio que ela própria acaba por acreditar nas mentiras que inventa e por tomá-las sinceramente pela verdade. Pauvre petite. Escrever-lhe cartas para casa não o faço, traria outros problemas: gastar selos, gastar tinta, levar as cartas ao correio, aborrecê-la, meter a mãe desconfiada nesta trapalhada. Ufa. Mas se escrevo aqui, quase em segredo, longamente, para um destinatário meio irreal que talvez nem exista, não incomodo ninguém, não estou a pedir nada a ninguém, não reivindico nada. Tenho tempo de pensar, de organizar as minhas ideias, de avaliar os meus sentimentos para tentar percebê-los. Essa maneira de passar o tempo faz-me correr o risco de reacender fogueiras antigas, apagadas. Mas é um risco que eu ainda assumo com prazer. E de resto, se não me apetece, não escrevo. Se escrevo, escrevo o que me apetece - e ao contrário de muita gente escrevo sobre o que sei, não necessito de inventar literatices artificiais. É essa a minha disciplina. Embora às vezes me escape o sentido das suas obsessões, que nunca acabarei de investigar, sei que a minha imaginação opera com método, impedindo-me de escrever ao acaso sobre assuntos fúteis.

Um cadáver é um objecto desagradável, incómodo, temos de reconhecer. Está a mais, mas ainda ninguém nos livrou da sua presença de boneco inútil. Se amámos o vivo que agora é cadáver, mais dura se torna a experiência: o que se mexia, deixou de mexer; o que sorria, tem os lábios cerrados para sempre; o que nos olhava, tem os olhos fechados. Não adianta tentar ressuscitá-lo. O cadáver está morto, rígido, frio. O que existia deixou de existir. Agora temos um pedaço de matéria com a forma do que existiu e que tinha um nome. O nome vem-nos ainda aos lábios, timidamente, com vergonha. De que serve? De nada. O morto não nos ouve, não responde.

Apetece fugir, ir para longe, esquecer que em tempos, ainda ontem, conhecíamos o vivo, estávamos com ele. Não suportamos o morto enquanto morto durante muito tempo, por muito amor ou amizade que lhe tenhamos tido. Por ora ele tem ainda a forma de qualquer coisa que se pode identificar, lembra o vivo. Mas a sua imobilidade e indiferença à nossa presença deixa-nos inquietos, perplexos, desagrada-nos. Em breve a matéria começará a desfazer-se, a apodrecer. Da pele fresca e dos olhos expressivos vão escorrendo os líquidos, os vermes agitam-se, os odores espalham-se. Essa parte da vida e da morte do cadáver já se passa às escondidas, ainda bem. Nós já estamos longe, com a nossa dor e o alívio de nos termos afastado do lugar incómodo.

Eu sei, usar metáforas tão cruas para falar do amor revela mau gosto. Mas devo dizer que não estava a falar apenas metaforicamente. No meu espírito a indefinição e confusão das fronteiras entre um morto de carne que eu via na minha imaginação com a ajuda da memória e o morto invisível (o do amor que me deixara de luto) eram a realidade da minha experiência, era o que me estava a acontecer. Eu estava num estado de confusão tal que não distinguia os dois cadáveres um do outro, para mim tudo era morte, tudo era perda da forma, aniquilamento pelo desfazer da matéria. Estava errado? Não creio, acho até que atingi por momentos um estado de lucidez pouco normal.

Aquela que eu amara ou tentara amar fugira-me com o corpo e deixara-me como herança generosa o espírito, a alma. Que terá acontecido ao corpo neste seis meses, perguntava-me eu. Não tinha resposta que se pudesse confirmar cientificamente, mas imaginava as transformações que esse corpo começara a sofrer: ela engordara, tinha-mo dito ao telefone antes de desaparecer nos pinhais da sua quinta na Beira; os seus lábios e tudo o que no seu corpo podia abrir-se ao desejo ou à consolação de outro corpo já tinham, noutras cidades, noutros restaurantes, noutros hotéis, recomeçado novo ciclo de dádivas e devoções, de aberturas e oclusões; e certamente começara de novo a mentir. Mas eu que sabia? Estava apenas a inventar.

De qualquer modo, onde estava o morto? Isto é, aquilo que fora o nosso amor durante anos de entendimento e de desentendimento, de reencontros felizes, de mal-entendidos e de traições? Onde é que ela o enterrara? Com a ajuda de quem, pronunciando que orações ou imprecações rituais? Não sei, ela não me informou e eu não lhe perguntei nem me apetece perguntar-lhe. Deixarei o morto em paz, mas não me esquecerei de que metade do morto me pertence, é carne da minha carne, espírito do meu espírito. Ela enterrou a parte dela e a minha parte do morto no mesmo sítio sem as separar, imagino. Mas não me disse onde. Não critico, não condeno, mas também não sei se deva aprovar. Talvez tenha havido abuso da parte dela ao usufruir e dispor sozinha do cadáver, ao enterrar sem me informar, provavelmente em companhia de alguém que eu não aprovaria, o nosso morto comum, a última coisa que nesta vida nos ligou.

Quanto a mim, já expliquei: eu vivo apenas com o fantasma do morto, espécie de ser vivo apesar de tudo. Não sei onde está enterrado o morto, mas o fantasma simpatiza comigo, ficou do meu lado. Não posso assegurar, porém, que este mesmo fantasma ou outro não estejam a fazer-lhe companhia a ela. E se for o caso, nada exclui que ela se interrogue também sobre o que é que eu fiz do morto, onde é que o enterrei sem a consultar, sem lhe dizer nada. Podia escrever-lhe um postal ilustrado e dizer: já te esqueceste que o enterrámos, ao nosso querido e malfadado morto, na Mulholland Drive quando lá passámos no início do Verão passado? Tens a memória curta?

Mas que sentido tem esta ficção louca? Eu não me lembro de nada, não sei onde está enterrado o cadáver do nosso defunto amor, isto é tudo delírio conscientemente produzido. Ela, que o matou, é que sabe onde ele está. Ela matou-o e eu preferi que ela se fosse também embora, ficar ao pé de mim nessas circunstâncias era deselegante. Quanto a mim ela deve ter escondido o corpo lá na quinta do pai, debaixo de alguma oliveira. Longe da casa, para os cães não andarem por lá a focinhar e escarafunchar, acabando por trazer o morto cá para cima, expondo-o à curiosidade malsã das pessoas. Que morto é aquele, perguntava logo a mãe. E ela, a farsante, fazia-se desentendida, olhava teatralmente de lado, respondia: que morto? não vejo morto nenhum, que raio de conversa é essa? Ou então: ah isso foi um morto que apareceu por aí e eu disse aos empregados que o enterrassem antes que ele começasse a apodrecer e a infestar-nos com maus cheiros. Metia-se no carro e ia à vida dela, indiferente, sem remorsos.


E o espírito, que foi feito do espírito do morto do amor, o que é que lhe aconteceu, que destino foi o seu? Eu imaginava que ele sobrevivia ao meu lado encerrado numa redoma de vidro onde o enclausurara para evitar que se oxidasse. Por outras palavras: eu vivia com o fantasma de um vivo que na realidade já estava morto. E colocara o espírito invisível do morto em cima da minha mesa de trabalho, onde escrevia. O morto era o meu amor por ela, o nosso amor um pelo outro. O fantasma era só meu, vivia comigo e consolava-me, enganando-me permanentemente com astúcias imprevisíveis. Mas quem me garante que o espírito do amor, invisível, se encontrava de facto aprisionado na redoma de vidro? A minha fé é que era imensa, talvez tresloucada. Ela, imaginava eu numa das minhas versões da história, nada sabia da existência do espírito do amor que eu conseguira proteger da fuga, da dispersão ou da desagregação. E nada sabia também da existência do meu fantasma do nosso amor. Noutra versão eu admitia, porém, como bom filólogo, que ela também teria um fantasma ao seu serviço, fantasma do nosso amor morto que ela imaginava, ingrata e pouco lúcida, ter sido eu a enterrar. E quem sabe se numa das suas caixas de cremes ou de jóias não sobrevivia, receoso, envergonhado, escondido, o espírito do morto?

O fim desta história, infelizmente, não pode ser escrito aqui neste momento. Nem tudo o que vai acontecer aconteceu ainda. Os mortos deixam memórias imprevisíveis, interferem ainda com a existência dos vivos durante algum tempo, por vezes até durante muito tempo e eternamente. E eu já disse que em vez de inventar prefiro falar do que sei, não disse? Prometo no entanto que se tiver notícias do paradeiro e do estado de conservação do morto darei informação neste lugar. E digo a mesma coisa no que diz respeito ao fantasma que por ora se tem revelado simpático comigo mas sobre cujo comportamento futuro nada posso prever nem portanto adiantar.

Saturday, March 17, 2012

Erik Satie: Trois Morceaux en Forme de Poire

O apagador de memórias


Fede Galizia

Naquela segunda-feira à tarde, eram três menos um quarto, o psicoterapeuta pegou numa caixa preta de plástico um pouco mais pequena do que uma caixa de fósforos das grandes, talvez do tamanho de um ipod. Eu já estava sentado numa cadeira em frente dele na sala do costume, a que tinha uma janela que dava para a rua. Ele disse-me: pegue neste dois fios. Eu peguei neles e na extremidade dos fios havia uma espécie de peixinho pequeno oval de plástico. Ele mexeu num interruptor, eu tinha já os peixinhos de plástico bem fechados nas mãos, um em cada, e comecei a sentir vibrações que chegavam a um ritmo regular, alternadamente na mão esquerda e na mão direita.

Ele disse: isto é um apagador de recordações, um eraser, tudo o que quiser apagar da sua memória pode ser apagado. Eu acreditei nele, em parte porque já tinha visto na internet que outras pessoas também acreditavam nessa cura milagrosa, embora cientificamente inexplicável.

A sessão tinha sido prevista com antecedência e eu tinha chegado cheio de curiosidade. Nem digo de esperança, só de curiosidade. Mas o tempo ia passando, a conversa amolecia - e nada. Perguntei-lhe enquanto ele falava comigo quando é que começávamos com essa máquina de apagar as recordações desagradáveis. Ele disse: espere um pouco, primeiro temos de preparar o terreno. E acrescentou: diga-me o que sente quando pensa nessa mulher de quem se separou. Eu disse: sinto muitas coisas diferentes e contraditórias, depende dos dias e dos momentos. Às vezes apetece-me chorar, outras vezes odeio-a, outras vezes acho que já devia ter-me separado dela há mais tempo. Ele disse: se lhe apetece chorar, então chore, berre, pinte a manta, vocifere. Chorar faz bem. Eu disse: pois, mas creio que já chorei o bastante, há dias segui o seu conselho e fui até lá acima à montanha. Insultei-a, chorei enquanto conduzia o carro e dava as curvas, a estrada era estreita e eu cruzava outros carros e pensava nela que tinha estado ali comigo tantas vezes, chamava-a e dizia-lhe palavras cheias de ternura e amor, depois logo a seguir lembrava-lhe da leviandade com que ela tinha impedido as nossas relações de se terem desenvolvido serenamente. Mas agora já não me apetece chorar.

Então o que é que lhe apetece fazer agora, perguntou ele. Eu respondi: apetece-me que me deixem em paz, quero afastar-me desta história, esquecer essa mulher, esses anos, esses mal-entendidos, esses excessos, essa insensatez, já basta. Apetecia-me que ela tomasse juízo e entendesse uma série de coisas em vez de fazer asneiras a seguir umas às outras. Porque ela é da minha família, entende? Ele disse: muito bem, mas então diga-me o que sente exactamente quando pensa nela e o que é que sentiu quando ela lhe telefonou há dias. Eu reflecti um pouco e disse: fiquei sobretudo muito irritado, muito zangado, não estava à espera de a ouvir. Ela afastou-se de mim, imagina que já não me ama. E só diz coisas sem sentido. No fim de mais uma conversa absurda e insensata proibi-a de me telefonar. Óptimo, comentou ele, ficar zangado, irritado, enfurecer-se, também é uma solução. De qualquer modo, não se preocupe demasiado. Claro, vá agindo com coerência, mantenha-se zangado por exemplo. Mas o mais importante é que nós vamos apagar isso tudo da sua memória e acabar com o problema.

Podemos começar? Feche os olhos e respire fundo. Respire a um ritmo regular, sempre profundamente. Sinta as vibrações nas suas mãos, respire ao ritmo dessas vibrações. Ele já tinha adaptado a velocidade e o intervalo das vibrações ao ritmo que eu escolhera. Varia com as pessoas, disse ele, é uma coisa muito subjectiva. Eu escolhi um ritmo relativamente pausado, não gosto de correrias, e depois começámos. Eu estava muito sério, muito concentrado, de olhos fechados. Seguindo as suas ordens pensei primeiro em coisas agradáveis, depois em coisas medianamente desagradáveis, depois em coisas muito desagradáveis, depois de novo em coisas agradáveis. E ia respirando fundo, ao ritmo das vibrações. Podemos apagar tudo, tinha ele dito, isto é um eraser, um apagador. Eu tinha lido na internet que de facto era possível cortar a comunicação e portanto a relação entre os acontecimentos e as reacções emocionais a esses acontecimentos. Diziam os artigos que eu li que através de movimentos oculares, usando uma lâmpada, ou através de vibrações, enquanto se recordavam acontecimentos traumáticos, se podia mudar, deslocar na memória a posição dos acontecimentos que ela guardara - e dessa maneira romper com as relações automáticas, pavlovianas provavelmente, entre o acontecimento e a reacção emocional que lhe estava associada.

Apeteceu-me rir? Antes pelo contrário, levei tudo muito a sério. Não tinha descoberto na internet inúmeros, incontáveis especialistas do apagador de memórias dolorosas em vários países? Se tanta gente acreditava na eficácia dessa terapia, quem era eu para contestá-la? Só no dia seguinte à noite, em casa, é que pensei bruscamente que podia ser a segunda vez que este tipo me estava a enrolar. Sem eu me dar conta, fazia-me comportar-me de maneira ridícula, infantilmente. A primeira vez, há muitos anos, surpreendera-me com um tiro de pistola de carnaval ou de criança. Tinha-me mandado sentar no chão e disse: você fecha os olhos e pensa em coisas desagradáveis, no que o faz sofrer, nessas recordações monstruosas que lhe envenenam a vida. Quando ouvir um ruído que eu vou fazer, muda rapidamente de pensamento e imagina-se num sítio de que goste, num lugar agradável onde está feliz a fazer o que lhe dá prazer.

Agora, mais de dez anos depois, a cena parecia repetir-se. Só que a brincadeira desta vez era com uma caixinha de plástico que devia ter pilhas lá dentro e não com uma pistola de criança ou de carnaval. Ele, que entretanto também envelhecera, adquirira certamente mais experiência, modernizara-se. O aparelho novo, a que ele chamava eraser, era uma prova disso.

Eu tinha ido vê-lo meio desconfiado e curioso, a pensar: desta vez como é que ele vai resolver o problema, o meu grave problema, o que é que ele vai inventar? Aí à segunda ou terceira sessão pensei: acho que me enganei, ele está a fazer-me perguntas que me parecem sem grande interesse, parece um psicólogo tradicional, aburguesou-se, perdeu o talento. O que é que eu estou aqui a fazer, isto não avança.

Eu perdera o meu tempo a contar-lhe os meus problemas, às vezes minuciosamente, e ele, o americano aparentemente ingénuo, em vez de estar a ouvir o que eu dizia, de prestar-me atenção, de me levar a sério, estava era a magicar a maneira de me apanhar na minha própria armadilha para me fazer compreender uma vez mais a estupidez das minhas ambições e da minha visão idealizada dos especialistas do sofrimento psíquico. Provavelmente já me tinha curado, sem eu me dar conta, da infelicidade que me apoquentava os dias e as noites.

Era evidente que eu me deixara enrolar mais uma vez. Sem me aperceber de nada. Só depois de algumas semanas é que pressenti que alguma coisa tinha estado a acontecer enquanto eu pensava que não estava a acontecer nada. Com que então, apagador de memórias? E eu, infantilmente, acreditara. Acreditei em tudo, fiquei à espera de ver os meus problemas desaparecerem: apagados, enviados para longe, enterrados definitivamente, graças à caixinha mágica e às suas vibrações. Só algumas horas depois da cena ridícula, tendo entendido a esparrela em que caíra, é que desconfiei de tudo e percebi que a terapia chegara ao fim. Os meus problemas estavam resolvidos porque, não sendo problemas, não se podiam resolver; e porque, não se podendo resolver, não eram problemas. O que eu tinha diante de mim era apenas a minha vida estúpida e não podia escapar-lhe. Era com ela que eu tinha de lidar. Sozinho, porque Deus não existe e os psicoterapeutas têm poderes muito limitados.  

Friday, March 16, 2012

equívoco

Winterhalter


a gente fala, quem nos ouve? entre as pessoas que nos ouvem, quem prestou atenção e foi seguindo sem se perder o que nós dissemos? entre estes últimos, quem entendeu o sentido das nossas frases?

a gente escreve, quem nos lê? quem nos leu, leu-nos como? quem não nos leu sabendo que nós escrevemos, porque não nos leu?

se eu quisesse escrever uma história, podia ter começado assim, com estas perguntas. o leitor, provavelmente, interrogava-se logo de início aonde é que eu o queria levar, que intenção oculta e só mais tarde visível me levara a começar a minha história daquela maneira. e eu talvez respondesse que embora me ocupasse o espírito uma questão particular não podia, sinceramente ou honestamente, isolá-la tão depressa, afirmar que fora ela que me levara a escrever.

fiz várias perguntas mas tenho de confessar que naquele momento inicial só uma me interessava: porque não me lêem algumas pessoas que sabem que eu escrevo? porque me ignoram? porque não sei nada delas? onde se meteram? porque desapareceram do meu universo e é como se já tivessem morrido?

vivo longe das cidades, comunico com pouca gente. no que eu escrevo a imaginação tem um lugar importante. saio da minha casa no sopé da montanha, vou pelos caminhos e veredas, assobio. ou, calado, vou embebido nos meus pensamentos. recordo-me de mulheres e homens que conheci, de cidades onde vivi, de fronteiras que atravessei. mal dou por mim cheguei ao cimo de uma colina onde há uma fonte. paro, meto a boca à água fria, sacio-me. a água escorre-me pelo queixo, rio-me, depois limpo-me com a mão. é a minha vida verdadeira, sem imaginação. vida de vagabundo feliz. mas em casa, sentado perto da janela a olhar para os pinheiros, ponho-me a escrever. escrevo, escrevo, é um vício. encontrei uma mulher, ela interessa-se por mim, diz que talvez me ame. fico surpreendido, começo a imaginar o amor. um amor que nunca vivi mas finalmente vou conhecer, graças a essa mulher fora do comum que inesperadamente cruzou a minha vida. passo a manhã e a tarde a escrever o que ela diz e o que eu respondo, o que ela pensa e o que eu penso, a tentar perceber o que ela sente e o que eu sinto. à noite, quando me deito para dormir, estou inquieto. apaixonei-me. a minha vida mudou.

na manhã seguinte acordo sozinho na minha cama e penso: onde é que ela está, porque não disse nada ainda? levanto-me preocupado, tomo um duche, faço a barba, tomo o pequeno-almoço. e ela sem dar sinal de vida. saio pelos caminhos e veredas, desta vez vou à aldeia mais próxima comprar cigarros. vou atento, olho para os lados como se esperasse descobrir alguém ou alguma coisa, não assobio nem canto, não consigo distrair-me nem pensar. estou à espera de quê? procuro e não encontro. na aldeia, depois de comprar cigarros, sento-me num café a ler o jornal. não consigo concentrar-me, os meus olhos levantam-se constantemente das letras e perdem-se no ar. isto não tem sentido, digo para mim mesmo. decido voltar a casa.

em casa a inquietação continua. para lhe escapar sento-me à mesa de trabalho ao lado da janela e começo a escrever. ela vem logo ter comigo, pergunta-me por onde é que andei, estava à minha espera há tanto tempo. eu rio-me e digo como é que eu podia saber que estavas aqui à minha espera, não estou habituado a tanta fidelidade, mal nos conhecemos ainda. passo a tarde a ouvir o que ela diz, a dizer-lhe o que eu penso. a dado momento ela olha para mim e diz que me acha adorável. porquê, pergunto eu, o que é que eu tenho de adorável? ela não me responde. apeteceu-me beijá-la mas receei ofendê-la, conhecemo-nos há tão pouco tempo. estou impressionado com a maneira como ela me olha, com o que ela diz, com a sua misteriosa personalidade. não sei o que me vai acontecer, mas vai acontecer-me qualquer coisa.

quando abandonei a mesa de trabalho fiquei outra vez sozinho. apetecia-me falar com ela mas não posso ser eu o único a tomar a iniciativa. ela pode telefonar e não telefona. pode enviar-me um email ou uma mensagem pelo telemóvel e não o faz. porque é que tenho de ser eu sempre dar o primeiro passo? chegou a noite, senti-me triste. não, não eram horas de me sentar de novo à mesa de trabalho. seria, além disso, ceder, fazer-lhe concessões, quebrar as minhas regras de conduta. não é orgulho, é respeito. eu não exijo nada, só quero o que me derem espontaneamente, de livre vontade. fui deitar-me sozinho a pensar nela. ama-me? vai amar-me? poderei contar com ela? como saber?

a minha história, afinal, não era acerca de quem podia ler-me e não me lê. dei-me conta agora de que é acerca de quem poderia telefonar-me ou escrever-me e não o faz, deixando-me numa solidão insuportável.

Wednesday, March 14, 2012

A ignorância



Edward Munk

A ignorância sim a ignorância disse Z. também serve para a gente ir fazendo muita coisa para ir vivendo para ir construindo o nosso destino e fazer carreira está a ver sem ignorância sem inocência sem ingenuidade e alguma arrogância da nossa parte como nos atreveríamos a exprimir o nosso ponto de vista publicamente sem temor como nos atreveríamos se tivéssemos lido todos os livros sequer a falar meu amigo quanto mais a escrever a ignorância é que nos salva da inércia e do desespero absolutos é ela que nos permite agir e não estou a dizer nada que não se saiba só que a gente não toma consciência disso é preciso ir vivendo e a gente vive é preciso ir fazendo e a gente faz mas agora com a experiência já percebi que há que ser modesto a gente sabe pouco muito pouco cada vez se me torna mais difícil dizer alguma coisa sem duvidar sem ver o que está para lá do que eu digo a relativizar as minhas afirmações a minha pretensa ciência sobre o mundo sobre a vida sobre mim mesmo sobre os outros há um lado positivo nisso a gente estuda trabalha aprende enfim alguma coisa claro e se não fôssemos ignorantes não progredíamos não aprendíamos não agíamos ficávamos sentados ao sol o dia inteiro e pronto.

O outro H. estava sentado a ouvir e sorria e ele Z. ia falando ambos a fumar na esplanada do café eram seis da tarde mais um dia igual aos outros que se ia aproximando do fim e na cidade tranquilamente indiferentemente na aparência a vida continuava e então ele o outro H. disse tem toda a razão e pense também no amor o próprio amor meu amigo se não fôssemos ignorantes inocentes ingénuos tão jovens não podíamos amar é evidente se quer saber também tenho muitas dúvidas e muitos remorsos e já não sei se deva acreditar pode ser que a minha experiência pessoal seja mais negativa do que a de outras pessoas ou então esqueci-me e estou a deformar as coisas mas como é que se sai da solidão explique-me há momentos em que não há saída o amor ou a ilusão do amor são as grandes saídas claro mas não depende de nós exactamente essas coisas não se decidem nem se controlam por isso eu pergunto-me quando não se acredita com razão ou sem ela no amor de alguém quando sabemos pensamos que na realidade as pessoas cada um de nós só se amam a si próprias só nos amamos a nós próprios eu pergunto-me qual é a saída então qual é?

Z. sorriu por sua vez e disse pois talvez não sei sei lá não me custa nada estar de acordo consigo estava a pensar que as circunstâncias vão mudando e condicionam os nossos sentimentos e a nossa visão do mundo de nós mesmos e dos outros mas a verdade é que seja qual for a circunstância a gente necessita de companhia de atenção de uma voz que nos tenha em conta de uns ouvidos que estejam interessados no que nós dizemos mesmo se não dizemos nada de importante de umas mãos que nos toquem de um corpo que se deixe olhar e acariciar é sexta-feira à tarde por exemplo chega-se a casa a semana de trabalho terminou e a única companhia que temos é a da rapariga no filme que passa na televisão não está certo é injusto é assustador é terrível mas que fazer a culpa deve ser nossa não soubemos precaver-nos contra esse abandono em que subitamente nos encontramos e então sentamo-nos no sofá deixamo-nos cair no sofá a olhar para a parede ou para a televisão e a ouvir a rapariga no filme falar e a ouvi-la rir-se e interrogamo-nos sobre o que é a vida o que é viver o que estamos aqui a fazer e lembramo-nos da garrafa de whisky que está no armário mas quem é que teve a ideia de nos meter nestes sarilhos sem fim e não há resposta e a sexta-feira vai avançando e a solidão vai aumentando fica gigantesca ameaçadora medonha e temos um pavor monstruoso da noite e do futuro de todas as noites que vão vir e da escuridão desabitada do deserto do futuro e então sem piedade de nós os erros que cometemos se é que foram erros sabe-se lá nunca se pode saber torturam-nos pesam-nos na memória ah as viagens desperdiçadas ah os momentos de irritação absurda ah as paisagens que mal vimos ah as pessoas que não soubemos apreciar ou amar ah o egoísmo em que nos afundámos e sentimo-nos tão estúpidos tão miseráveis claro que é pior ainda se acreditamos que a culpa é nossa se pensamos que nos foi dada uma oportunidade ou duas ou três e não as aproveitámos não soubemos fazer o necessário ou não pudemos ou não nos deixaram claro que a culpa nem sempre é nossa não pode ser toda nossa mas que importa depois do erro ou da derrocada saber de quem é a culpa a verdade é que estamos sós ninguém se interessa por nós as pessoas os outros querem lá saber aliás nós não teríamos paciência para os aturar se eles quisessem consolar-nos ou quisessem intrometer-se na nossa vida nós próprios queremos lá saber dos outros e da vida deles que se lixem como nós nos lixamos cada um de nós vive na sua prisão de vidro como uma aranha melancólica e solitária e misteriosa no canto da casa e lá dentro do caixão de vidro sentimo-nos como insectos imundos às vezes e sentimos o corpo cheio de veneno de porcarias de objectos estranhos e então aspiramos bruscamente quase com desespero à ligeireza e ao bem-estar que sucede à purificação meu deus meu deus imaginamo-nos culpados de não ter sabido lidar com o destino de não entendermos de não termos entendido o que havia a entender a vida o sentido e a importância da vida escaparam-nos enquanto era tempo de entender não entendemos e se pensamos na morte sabemos que se morrêssemos nesse momento alguma coisa muitas coisas ficariam por confessar e por compreender e por fazer algumas pessoas nunca saberiam o que ainda temos para lhes dizer e é terrível pensar que não podemos voltar cá de novo para viver e tirar partido da experiência anterior pois é temos de aceitar que é assim só se vive uma vez enquanto se está vivo ainda se pode emendar o que se fez antes nem sempre é certo mas enfim a possibilidade de redenção teoricamente existe só que. Olhe às vezes penso que se tivéssemos coragem se tivéssemos tomates mudávamos radicalmente a nossa maneira de viver íamos por exemplo morar para outro sítio e então começávamos a viver de outra maneira devíamos não é ou se não queremos mudar de vida corrigir esta merda de destino em que sufocamos pelo menos podíamos ir embebedar-nos num bar ruidoso ao lado de gente tão só tão perdida tão atormentada como nós mas o hábito o comodismo o tédio o snobismo a preguiça o desprezo o desinteresse um resto de dignidade ou de esperança ou talvez o duro ascetismo que nos impomos sei lá não fazemos nada suportamos tudo como se fosse inevitável um destino de cadela em resumo ficamos em casa a aborrecer-nos vamos ficando em casa e o tempo passa inutilmente.

O peso da solidão é de facto assustador eu próprio certas noites se lhe contasse mas prefiro nem falar nisso certas coisas devem permanecer privadas e há dias imagine disse H. eu estava a jantar sozinho num restaurante em vez de ir para casa bruscamente cortei à direita no semáforo a solidão metia-me medo e fui ao restaurante assim que entrei senti-me melhor havia luz a rapariga que me servia sorria era simpática atenciosa mais tarde vi que numa mesa ao lado a dois metros estavam duas pessoas a mãe e a filha a jantar também ambas loiras e a dado momento a mãe levantou-se um pouco arrastou-se no banco de coiro e perguntou-me se eu estava sozinho eu já tinha olhado para elas mas distraí-me a pensar na minha vida e eu surpreendido disse que sim que estava sozinho e ela perguntou se eu não queria fazer-lhes companhia a ela e à filha e eu nem tive tempo de pensar aceitei e fui sentar-me ao lado delas estivemos a conversar durante meia hora pelo menos a mãe é professora e a filha é estudante a miúda tinha uma maturidade impressionante entendia tudo estava atenta e não se mostrava intimidada estava à vontade e nem se pôs com garridices de adolescente tonta antes pelo contrário falava com a mesma convicção que a mãe impressionou-me muito dezassete anos apenas caramba e tão séria tão responsável depois eu tive de me ir embora mas ficámos de nos encontrar noutro dia para conversarmos nunca me tinha acontecido nada assim foi uma coisa estranha diferente inesperada será que a solidão se lê no rosto das pessoas na maneira de olhar e de comer é possível ou é deus que existe e decidiu por momentos abrandar a sua cólera quem sabe terem-me estendido a mão falado comigo nesse dia pacificou-me reconciliou-me com a vida e comigo mesmo pode ter sido uma cilada mais uma armadilha do destino e a solidão vir a ser muito pior se houver alguma desilusão mais tarde mas enfim se não corremos riscos para que serve estar vivo e também não podemos saber não acha? a mãe ficou de me telefonar para a semana provavelmente vou tomar um café com elas estou curioso quem sabe se não é o princípio de uma amizade diferente interessante enriquecedora a mim dava-me jeito ter assim uma espécie de família perto de mim com quem conviver os meus filhos estão na europa e só os vejo uma vez por ano enfim vamos ver o que acontece não espero nada mas estou curioso é natural.


H. levantou-se apertou a mão a Z. bateu-lhe no ombro num gesto de modesta solidariedade disse agora tenho de ir prometi à minha vizinha uma viúva que acaba de perder o marido que a levava ao supermercado a pobre da mulher  não tem saído de casa continua pesarosa numa dor sem limites dá-me pena vê-la assim. Z. viu-o aproximar-se do carro entrar no carro e pouco depois desaparecer na rua que levava ao Jardim Botânico.  



Tuesday, March 13, 2012

o amor








no que respeita ao amor é melhor considerar
cada relação como uma etapa da volta ao mundo
em oitenta dias. disciplinadas as surpresas e as
expectativas talvez se possa atenuar o fervor
do entusiasmo e limitar os erros da cegueira inicial.
convém apanhar um táxi ou o autocarro e desaparecer
antes de se ter manifestado o rancor que sucede
à frustração final. quem sabe amar? bla bla bla.
qualquer ilusão de eternidade está excluída.
ficam as cervejas as águas minerais com gás
as laranjadas frescas a nostalgia das tardes
passadas à sombra debaixo das árvores.
nalguns casos a excitação da clandestinidade
fez passar por amor a boçalidade do vício.
noutros casos a traição mútua dos amantes
já era notória à mesa do restaurante. pode
ir-se de barco de automóvel de balão de
mão dada ou de avião. eu prefiro a bicicleta.
o mais importante em questões de amor não
é certamente o volume de líquidos produzido.
nem o número de setas que atingiram o alvo
e fizeram sangrar com tanta pena nossa quem
nós amávamos ternamente. o que conta é nuns
casos o que aconteceu e noutros o que não
aconteceu. cada relação é uma história com o seu
dna específico impossível de identificar. o ódio e
a paixão não se podem avaliar pelas aparências.
eu nunca amei de gôndola embora tenha estado
em veneza. porquê? não calhou não era o meu
estilo. ainda estou a tempo eu sei esperam
por mim as mãos que necessitam de acariciar
os lábios que nunca chegaram a confessar o
grande segredo o rosto que nunca se revelou
na sua nudez sem arte. e só eu saberei decifrar
a dor e o exagero do êxtase inexistente soprar
com assobios escapando-se por entre os meus
dentes os orgasmos simulados ou alcançados à
custa de cansativo trabalho de carpintaria corporal. 
o corpo é um motor dividido em peças algumas 
acessíveis e outras nem sequer visíveis e por vezes a 
ferrugem ameaça e os parafusos soltam-se  as latas 
batem com ruídos roufenhos assustadores. os meus 
dedos porém são puros não aprenderam a fazer 
cócegas preferem secar as lágrimas que os fantasmas 
do sonho me deixaram em herança e que escorrem
das paredes brancas em noite de chuva e vendaval.
ao crepúsculo os meus olhos debruçam-se da varanda
e na rua deserta e húmida revivem memórias da infância.
o sol entretanto vai desaparecendo mais um dia morto
assassinado e ninguém o chora ninguém o lamenta. ser
condenado a viver quem não sabe amar que tortura. eu
todos os dias faço um pequeno esforço para entender
a situação e anoto num caderno os sorrisos que recebi
os olhares que encontraram o meu a maneira como me
falaram avalio atribuo pontos classifico não me esqueço
nunca da menina que não me deixa pagar o café que é
boazinha comigo sem eu saber porquê queria que ela
fosse a minha companheira de infância companheira
de todas as brincadeiras todas as tardes queria ir com
ela de mãos dadas comprar rebuçados à mercearia e ir
pelo campo subir às montanhas a dedicação dela
havia de salvar a minha vida do desastre limpá-la de
detritos ela seria amiga sem deixar de ser amante
do seu corpo irradiaria a ternura como uma água
um bálsamo uma celestial consolação estou atento
e disposto enfim a assumir o desejo falta-me aprender
tanta coisa eu vivia adormecido anestesiado no vício
de passar o tempo lengalenga tédio como curar-se
de tanta distracção como eliminar a recordação dos
anos de oiro e marfim nos braços da bruxa de farrapos
que à porta do castelo assustava os pássaros e nós
tomámos a sombra do espantalho pela figura ideal da
amada fiel sublime divina e pura. amar muito e
privadamente ver de perto recolhido em silêncio
religioso os rostos as mãos as pernas os peitos
que respiram suavemente sentir o perfume natural
do corpo concentrar-se em pormenor na amada
não se distrair da densidade do ser nela não se
desencorajar com os obstáculos com a falta de
luz com os ruídos com as vozes que da rua tentam
corromper-nos fazer de nós bonecos de carrossel.

Dvorak: Piano Trio nr. 4, "Dumky" (II, III, IV) - Borodin Trio

Sunday, March 11, 2012

Viktor Shklovsky: Zoo or Letters Not About Love



The second letter from Alya. In this one, Alya asks me not to write her about love. The letter is tired. 


My dear, my own. Don’t write to me about love. Don’t. I’m very tired. As you yourself have said, I have come to the end of my tether. This daily grind pulls us apart. I do not love you and I will not love you. I fear your love; someday you will hurt me because of the way you love me now. Don’t carry on so. I still feel we have much in common. Don’t frighten me! As well as you know me, you still do all you can to frighten me, to repel me. Your love may be great, but it’s far from joyful. 

I need you; you know how to bring me out of myself. 

Don’t write me only about your love. Don’t make wild scenes on the telephone. Don’t rant and rave. You’re managing to poison my days. I need freedom—I refuse to account for my actions to anyone! 

Yes, you demand of me all of my time. Be light-hearted or else you’ll fail at love. With each day, you grow more melancholy. You should go to a sanatorium, my dear. 

I’m writing in bed, because yesterday I went dancing. Now I’m going to take a bath. Perhaps we’ll see each other today. 



Alya 


Zoo or letters not about love

Goleta Beach (California)












Saturday, March 10, 2012

Talvez para acreditar


Com sol ou com chuva a cidade
era um túmulo erguido na planície.
As pessoas amavam-se, provavelmente.
Mas o tédio corrompia todos os sentimentos.
Mesmo imaginar que a vida existia
para além dos muros invisíveis
da cidade era impossível. A morte
pairava com as suas asas negras
por cima das casas, a sua sombra
nas ruas estreitas inspirava o terror.
Por vezes eu próprio espreitava nos olhos
e no sorriso das raparigas uma
razão para duvidar, talvez para acreditar
que o pesadelo podia ter fim e de novo
a existência podia resplandecer com o brilho
antigo, o anterior à tomada de consciência.
Mas pesava como chumbo no meu
espírito a desolação, um cansaço
sem fim fazia do meu corpo ainda
cheio de desejos um objecto sem
futuro. Assim iam passando os dias.


CB, 1 de Setembro, 2011


Ela fazia anos

Era o dia dos teus anos.
Que eram teus, evidentemente.
E a ninguém tinhas de explicar
o que fizeras, o que fazias deles.
Um dia viveste e eu conheci-te.
Um dia morreste e eu não te
esqueci verdadeiramente, a intriga
do teu destino fascinava-me.
Às vezes odiava-te, outras
vezes ainda te amava. Mas
fiquei calado; se eu falasse,
tu não me entendias. Assim
iam passando os teus anos 
e os meus, cada um de nós
abandonado ao seu destino.
Habitou-te o anjo com a
sua inocência divina.
Um dia, porém, o anjo
atravessou os pântanos e
as florestas, chegou à
porta da casa enegrecido
pelo rigor da intempérie
e pelo pó escuro dos
caminhos. Tentei
reconhecer-te. Tu
afastaste-te, desagradada,
achavas-te bela nos teus
trajes de bruxa desgrenhada
que atravessara as montanhas
enlameadas. Ah, as viagens e 
os anos, o que eles fazem de
nós, aquilo em que nos
transformam. É inacreditável,
meu amor que já não o és, que
na verdade nunca o foste senão
por engano. Engano meu, tu não
sabias o que é o amor. Aprendeste 
entretanto? Claro que não acredito,
mas também não tem importância.
Viver por engano não é um risco
que todos nós corremos? E quem
sabe se o engano não está em
mim, que não entendo a cara
renovada da tua pureza, o novo
bater do teu coração, ah, sim,
livre enfim das confusões
e da maldição das paixões 
que nos arrastam, indecisos,
pelas ruas de cidades inabitáveis.
Happy birthday, anyway.

Agosto, 31, 2011


Monday, March 05, 2012

John Donne: The Indifferent


I CAN love both fair and brown ;
Her whom abundance melts, and her whom want betrays ;
Her who loves loneness best, and her who masks and plays ;
Her whom the country form'd, and whom the town ;
Her who believes, and her who tries ;
Her who still weeps with spongy eyes,
And her who is dry cork, and never cries.
I can love her, and her, and you, and you ;
I can love any, so she be not true.
Will no other vice content you ?
Will it not serve your turn to do as did your mothers ?
Or have you all old vices spent, and now would find out others ?
Or doth a fear that men are true torment you ?
O we are not, be not you so ;
Let me—and do you—twenty know ;
Rob me, but bind me not, and let me go.
Must I, who came to travel thorough you,
Grow your fix'd subject, because you are true ?
Venus heard me sigh this song ;
And by love's sweetest part, variety, she swore,
She heard not this till now ; and that it should be so no more.
She went, examined, and return'd ere long,
And said, "Alas ! some two or three
Poor heretics in love there be,
Which think to stablish dangerous constancy.
But I have told them, 'Since you will be true,
You shall be true to them who're false to you.' "