Saturday, December 01, 2012

Pessoa desassossegado...


Na primeira página do Livro do Desassossego, que se pretende uma Autobiografia sem Factos (alguma coisa a ver com Wittgenstein, que diz no início do Tractatus que ”the world is the totality of facts”?), Bernardo Soares resume o seu problema: acreditar em Deus deixou de estar na moda - e “porque o espírito humano tende a criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus”. Mas ele, Bernardo, ajudante de guarda-livros, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais”, ficou, “como outros na orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência”. O que é que isto significa? Que depois de, servindo-se da conhecida ”técnica do projector” a que se refere Auerbach em Mimésis (1) , ter caricaturado grosseiramente o conceito de “Humanidade”, não resta ao desiludido Bernardo como solução senão entregar-se, como outros, “futilmente à sensação sem propósito, cultivada num epicurismo subtilizado, como convém aos nossos nervos cerebrais” (essa dos “nervos cerebrais” é Pessoa, e não só Bernardo Soares, no seu melhor estilo barroco, narcisista e bacoco).

Para quem escreveu em epígrafe, antes do início do livro, que a “autobiografia sem factos” trata de “impressões sem nexo, nem desejo de nexo”, o leitor pode ficar surpreendido por lhe ser oferecida de imediato, logo na primeira página, uma conclusão tão clara. Mas enfim, Pessoa é isso mesmo, a gente habitua-se às suas contradições: é tudo a brincar, não há que levar o que ele diz excessivamente a sério, ele deleita-se a entreter o leitor com minuciosas e estilisticamente elaboradas elucubrações pseudo-filosóficas. A solidão desse pobre lisboeta chamado Bernardo Soares era, evidentemente, terrível. O que, sem explicar tudo, explica evidentemente muita coisa. Um pouco mais tarde a gente entende melhor o problema e o projecto: “A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal”. A arte “casada com o pensamento” é bruscamente o estilo dos Pascoaes que Pessoa parecia detestar a fazer irrupção aqui, mais passons, há muitos outros exemplos no livro desse estilo literariamente antiquado que nada tem a ver com o Modernismo. Quanto ao conceito de realidade como "mácula" parece-me que também ajuda a entender bastante bem a maneira como estava estruturada a mente de Pessoa (argumento patológico - mas eles agarram-no logo como pensamento de filosofia elevada - fornecido àqueles que acham que a realidade é um obstáculo para a literatura). Em resumo: devíamos ser todos escritores. É a internacional socialista aplicada às razões por que se deve viver. Pessoa, perdão, Bernardo Soares, é um farsante.

No prefácio que antecede o livro diz Richard Zenith que “antes de os descontrutivistas chegarem para nos ensinar que não há nada hors-texte, Fernando Pessoa viveu, na carne - ou na sua anulação – , todo o drama de que eles apenas falam.” Pois. Sim, claro, "os desconstrutivistas". And what else, gente? O cínico mestre Zen, se ouvisse isto, provavelmente perguntava: “se não há nada hors-texte, de que é que falam os textos? e se não há nada “hors-texte” por que é que se preocupam tanto com ele e em negá-lo?”

(1) Ver Erich Auerbach, Mimésis, p. 403: “la technique du projecteur (...) consiste à mettre en lumière un petit fragment d’un vaste ensemble et à laisser dans l’ombre tout ce qui serait susceptible de l’expliquer, de l’intégrer dans un tout et de fournir un contrepoint à ce qui est isolé de la sorte. Si bien qu’on dit apparemment la vérité, car les choses qu’on affirme sont indéniables, alors qu’en réalité on fausse tout, car la vérité requiert toute la vérité et le rapport exact de ses parties. Le public ne cesse de se laisser prendre à ces artifices, surtout dans les temps troublés”.



(J. E. Soice, dos seus cadernos secretos)
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