Tuesday, October 02, 2012

Os anjos


A essência dos anjos. Eles riem,
mas discretamente: como uma
sombra no jardim onde vivem
as densas árvores. Quem os
ouve? Nós, a quem pesa o
corpo e a quem a alma inspira
dúvidas e atormenta? E
invejamos a sua condição:
são-lhes poupadas a idade
e  a lenta decadência dos
movimentos, a frouxidão
do pensamento. Depois dos
anos em que, como se fôssemos
imortais, nos alegrámos
com a incomparável beleza
do mundo, o seu esplendor.
Tudo, nesse tempo inocente,
parecia ter sido criado para
festejar a nossa humana glória,
para desafiar a temível força
dos nossos braços e das nossas
pernas. Não éramos deuses?

Os anjos: um ideal. A maldade da
ambição é-lhes desconhecida. E a
crueldade da vitória. Eles não
necessitam de mentir, de espezinhar.
Nem de cuspir com desdém no rosto
dos inimigos. Protege-os da inveja e
do ódio uma barreira invisível. Nesse
espaço para além do espaço, puros,
despreocupados, eles sorriem e às
vezes, suavemente, riem. Vêem-nos?
Mas nós não os vemos. Imaginamos
a sua face imaterial para nos consolarmos
da nossa invencível, tão pesada
irrealidade? Ela envolve-nos nas
suas promessas de eternidade.
Quem tem certezas e a ciência
suficiente para, tendo chegado
a entender, explicar o que se
passa? Os anjos: nós, como
queríamos ser. Eles não existem,
provavelmente. Ou somos nós
que não passamos de um sonho
dos deuses que também não
existem, embora nas praças
antigas das cidades destruídas,
mutiladas, as suas estátuas nos
façam crer que eles são, desde
os séculos mais antigos, parte
irrecusável do nosso destino. Se
eles falassem, anjos ou deuses,
e nos revelassem as palavras que,
pronunciadas ou secretamente
balbuciadas, encheram de sentido
as vidas antigas, a dos filósofos
e a  dos músicos, a dos homens
e a das mulheres de quem
ninguém conservou a memória,
que provavelmente ninguém
amou nem fez estremecer. Os
anjos e os deuses são parte do
nosso destino. Por isso nós os
evocamos e  de noite, em estações
dominadas por todos os excessos,
eles nos visitam, para nos atormentar
com a sua perfeição ou, vendo-nos
duvidar,  nos pôr a mão pacificadora
no ombro. Mortais, só pressentimos a
intemporal essência dos anjos porque
nos foi concedida a capacidade de
comparar. Imaginar uma sublime
existência está ao nosso alcance.

Olham-nos com atenta admiração os
cães e provavelmente estremecem
diante do nosso poder outros animais.
Nos olhos deles descortinamos um
espanto semelhante àquele com
que, na nossa ambiciosa modéstia,
nos fixamos na figura exemplar e
invejada dos anjos. A eles, aos animais,
não lhes pesa não serem senão parte
insignificante da nossa existência?
Não os ofende não poderem sentar-se
à mesa connosco e partilhar, entre risos
e no calor das confidências, a carne e o
peixe, o vinho e as laranjas? Aos olhos
deles a nossa existência está cheia de
privilégios imerecidos. E eles assistem,
irritados mas silenciosos, às nossa
queixas. Porque não nos aperfeiçoamos
a entender o Ser em si mesmo, nas suas
múltiplas, imprevistas manifestações?
Aspiramos à sublime transparência
dos anjos, à perfeição sem lacunas
dos deuses, à irrealidade. Com que direito,
se desperdiçar todas as oportunidades é
a nossa vocação mais evidente? Os
animais  olham-nos com a intensidade
com que nos olham as pessoas. Mas
nós recusamos-lhes a capacidade de
sentir e de entender. Tamanha é a nossa
arrogância. Os anjos, se nos falassem,
não teriam razão de queixa da nossa
soberba, nada diriam da nossa cegueira
e da nossa pressa? Mas os anjos não se
queixam, os anjos não falam. Ou não
chega aos nossos ouvidos exacerbados
pelos ruídos da cansativa luta pela
existência o som, a música da sua voz.
Porque para ouvir é necessário estar
atento. E distrai-nos do que acontece
à nossa volta, dos convites do Ser a
aceder a outra realidade, a algazarra
das metas a perseguir, das corridas a
ganhar. Nós, tantas vezes vitoriosos
dos despiques insensatos por um
triunfo, tantas vezes abatidos pelas
aparentes derrotas da ambição. Se
aprendêssemos a ver e a ouvir, se
não nos cansasse a ilusória
monotonia com que se sucedem as
estações na sua fiel regularidade. Se
aprendêssemos, antes de morrer, a viver. 

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