Friday, April 13, 2012

Pontes, transições



Simon Vouet

Não gosto de pessoas disse ele as pessoas aliás não existem são uma invenção fantasmas da nossa imaginação delirante coisas objectos bonecos animais de circo coloridos domesticados obedientes por vezes revoltados mas uma perfeita vigarice de qualquer modo um embuste uma trafulhice pura banha da cobra. A única coisa que existe já se sabe para além das aparências é o desejo a sede de sangue e de carne o interesse o dinheiro a carreira a ambição o disfarce as boas maneiras e as más maneiras tudo o que permite atingir os fins em vista para gozar o que se chama a vida. Ganhar dinheiro gastá-lo ser admirado respeitado temido invejado comer beber amar fornicar embebedar-se viajar esquecer a morte o nada o sem sentido em que nos afogamos.

Aquilo a que chamamos pessoas diz ele na realidade são máquinas programadas para representar a ficção da aparência de sentido para praticarem a rapina se exercerem na crueldade se exercitarem na masturbação na fornicação no disfarce na dissimulação chacais crocodilos sempre a estudar a maneira de se aproveitarem uns dos outros e pouco mais. Ele diz que sabe do que fala que viveu anos suficientes no meio dessa cambada ordinária ralé hipócrita devorada pela ambição exímia no subterfúgio sequiosa de dinheiro e de poder gente sem vontade nem inteligência para querer escapar à maldição. Homens e mulheres jovens e velhos o que os anima diz ele o que os excita os faz levantar-se da cama de manhã eu sei o que é. Não tenho saudades de ninguém diz ele nenhumas e de ninguém tant pis se me sinto definitivamente só fucking desiludido fucking desamparado não quero pertencer a essa raça desgraçada eles contaminam-me com a sua mediocridade com a sua miséria sem solução miséria que alimentam com o que consideram ser os seus sucessos as suas vitórias ralé mesquinha sem alma nem capacidade de entendimento para além do que aprenderam lhes ensinaram e eles próprios continuaram a aperfeiçoar não não tenho nada a ver com essa canalha para mim acabou.

Diz que também pensou durante muito tempo que era uma pessoa que viveu nessa ilusão comportava-se como se comportam as pessoas sentia como sentem as pessoas falava e ouvia como falam e ouvem as pessoas desejava e ambicionava o que as pessoas invejam e querem ter diz que tinha aprendido sem querer ou porque quisera todas as técnicas que se vestia como se vestem as pessoas que se ria e chorava como riem e choram as pessoas que dizia o que esperavam que ele dissesse e que ouvia como lhe tinham ensinado a ouvir com respeito e atenção sim ele tinha-se comportando durante anos sem fim como aquilo a que chamamos pessoas e não por exemplo como as vacas ou os caranguejos mas agora diz ele com convicção e os olhos brilhantes agora deixei de viver enganado estou só não tenho nada mas prefiro assim.

Como é que foi possível diz ele viver tantos anos sem me ter rido de mim mesmo excitando-me com invenções de ilusionista acreditando ingenuamente na comédia na manipulação na magnífica ficção universal tomando-a pelo que devia ser a vida deixando-me ludibriar até finalmente me aperceber um dia de que estava estávamos estamos todos a ser vítimas de uma enorme fucking vigarice de um infeliz desgraçado odioso fucking mal-entendido? Como é que foi possível o embuste ter durado tanto tempo? O sucesso? Qual sucesso? Tudo acaba em cinza e até chegarmos lá perdemo-nos em projectos insensatos em guerras e alianças que se fôssemos minimamente inteligentes entenderíamos como a prova definitiva e irrecusável da nossa insignificância. O próprio amor enfim aquilo a que chamamos o amor não passa de uma prova suplementar e desnecessária da nossa incapacidade de nos bastarmos a nós mesmos uma prova indiscutível da nossa fraqueza da nossa miserável situação e os enleios degradantes em que nos metemos não contribuem em nada para melhorar seja o que for. No estado actual das coisas tal como nós as entendemos estamos condenados de antemão a passar pela vida como um cego passa por uma planície iluminada pelo sol e como ele não vê é como se estivesse a atravessar o deserto um deserto negro sem luz nem sombras porque as árvores e as casas e tudo o que tem forma e cor escapa ao seu entendimento à sua percepção insuficiente. Diz ele.

Entendi enfim a trapalhada em que estava metido continua ele e perguntei-me enquanto na praia ao sol com uma toalha secava a transpiração no rosto e no pescoço quantos séculos lhes tinham sido necessários a essa gentalha a esses macacos pretensamente civilizados e instruídos a esses imbecis a esses infelizes a todos os filhos da mãe que nos precederam os antepassados enfim como lhes chamamos os condenados desde o início como nós a cooperar alegremente para tornar o produto credível e respeitável para convictamente naturalizar a mentira para tornar verosímil a ilusão para vender esforçadamente esse peixe podre que de qualquer modo não se podia devolver à procedência porque o lugar de origem o lugar da procedência era precisamente uma das zonas obscuras misteriosas inexplicáveis da questão.

Claro que sei o que pus de lado diz ele as crenças as crendices claro que sei o que recusei o que abandonei as casinhas onde se usufruía nebulosamente da organizada e falsa ordem da tranquilidade do tédio do conforto dos sentidos da ilusão de realidade. Não sou insensível acrescenta ele ao facto de a minha situação actual ser frágil trágica precária dramática mas já o era antes só que eu não o sabia. 


Confessa que não sabe se os problemas em que decidiu envolver-se a que não quis nem podia fugir têm solução nem se terá capacidade força inteligência meios competência e além disso vontade de compreender e ultrapassar a situação para eventualmente sobreviver no caso de haver solução. Há problemas graves vitais a resolver nenhuma astúcia me salvará diz ele se salvar-me vier a ser necessário se salvar-me for questão que se ponha e digo isto porque ainda não me libertei da maneira de pensar e de falar que aprendi e me levou me tem levado cheio de ilusões insensatas mas agora acabou tudo pelos caminhos escuros do erro.

Pode dizer-se que não sou ninguém que não sou uma pessoa e no entanto é inegável diz ele que existo que sou qualquer coisa mesmo se o que eu sou não tem definição nem nome nem sabe o que é. Existo o meu cérebro não deixou de funcionar nem o meu corpo de sentir nem eu deixei de estar na terra de ver árvores caminhos rios montanhas o céu nem de me interrogar nem de me inquietar. Não gosto de estar sozinho odeio estar sozinho e se me afastei foi por entender que não havia nem há outra solução viver como se não soubesse como se não tivesse aprendido como se não tivesse descoberto o que tinha de descobrir e compreender não me é possível acabou-se a confusão. Como poderia depois de ter posto a nu a falsidade o ridículo da situação continuar a falar com eles a repetir os gestos que eles repetem a sentir os sentimentos que eles sentem a desejar o que eles desejam a falar a linguagem que eles falam a esperar o que eles esperam?

Não consigo deixar de pensar evidentemente mas sei que pensar não me resolverá o problema diz ele porque o mecanismo do pensamento está viciado pelo hábito antigo pela organização antiga do sentido pelos nomes e pelas relações entre os nomes tudo coisas fabricadas aperfeiçoadas ao longo de séculos incalculáveis para nos deixar acreditar que éramos pessoas e que ser pessoa era aquilo que nós tentávamos ser ou possivelmente já acreditávamos que éramos uma forma de ser diferente da dos porcos da dos ratos da dos rios da das árvores da da trovoada.

Diz que evita pensar porque pensar nunca deixará de ser repetir o erro a mentira porque o que as pessoas consideram que é pensar o que designamos por pensar é como ele já disse e não se cansa de repetir um vício aprendido uma ilusão um agir inútil um jogo uma forma de distracção um enleio talvez uma forma de consolação um subterfúgio para evitar que tenha lugar aquilo que nem sabemos o que é e que seria o contrário de viver num mundo ilusório artificial inexistente falso mas bem estruturado por quem sabia como se submetem as vontades as sensibilidades os corpos e se enganam as crianças que nós nunca deixámos de ser.

Evito sentir como antes sentia diz ele isto é faço o que me é possível por não identificar nem interpretar nem compreender o que me acontece aquilo que se passa no meu corpo em mim o que se passa na minha cabeça deixo acontecer o que acontece evitando pensar nisso evitando compreender isto é evitando continuar a alimentar os erros antigos já identificados como tais.

Diz que durante muito tempo imaginou que tudo o que lhe ia acontecendo correspondia a uma entrada numa página precisa do dicionário no inventário no catálogo do que existe mas que na realidade não se passa em nós nada que tenha explicação que tenha definição que se possa dizer o que é e entender explicar a partir de experiências anteriores. Por isso diz ele não há gramática nem dicionário a gramática pode dar-nos a ilusão da ordem e do sentido mas é tudo fabricado para manter o erro e nos deixar enclausurados na mentira na ilusão. Pretender o contrário é mistificação uma forma de consolação um logro antes de morrer tinha de dizer isto com clareza.

Sei que estou num beco sem saída reconheço que a minha solidão é definitiva ninguém sabe onde eu estou diz ele onde encontrar-me parvo de todo não sou não há mais nada a dizer não há mais correcções a fazer essa história antiga não recomeçará não há nada a aperfeiçoar eu não sou nenhum livro que se poderia reeditar com correcções.

Não creio que esteja louco mas imagino que aqueles que consideramos loucos se devem sentir numa situação num estado de espírito bastante semelhantes aos meus diz ele. Conviver com quem não se dá conta do logro em que vive e que além disso se orgulha de ser o que é isto é coisa nenhuma embuste impostura é doloroso é impossível é insuportável está acima das minhas forças diz ele.

Diz que nos últimos meses que precederam a sua fuga e isolamento as pessoas lhe tinham começado a meter nojo ele perguntava-se como pudera deixar-se seduzir enganar durante tanto tempo como tinham podido gerações inteiras antes dele ter-se deixado enganar seduzir durante tanto tempo e também se interrogava incrédulo sobre se não estaria já denunciada nos livros a mentira secular milenar a ele custava-lhe custa-lhe acreditar que nos livros não esteja registada há muito tempo a conspiração a aldrabice a monstruosa indelicadeza.

Não cheguei a tratar mal ninguém diz ele porque pouco a pouco por instinto comecei a evitar a companhia das pessoas os lugares onde podia encontrá-las vê-las e ser visto por elas por isso não me sinto culpado de nada limito-me a estar no meu destino a assumir as minhas responsabilidades cada um que assuma as suas mas não quero interferir com o destino de ninguém já lhes basta a eles viverem na ignorância da sua miséria.

Uma das primeiras manifestações da explosão da sua nova lucidez diz ele ocorreu durante uma viagem de avião houve um instante em que depois de ter passado horas estúpidas num aeroporto depois de ter sido inspeccionado examinado humilhado vigiado se perguntou ali sentado o corpo humildemente vergonhosamente aninhado num espaço reduzido a não sabia quantos mil metros de altitude o que é que estava ali a fazer no meio daquela manada de porcos de bois de cangurus de filhos da mãe e de cabras sem vergonha aonde ia toda aquela gente que se imaginava gente e ele igual aos outros com ela o que é que os fazia correr viajar andar de um lado para o outro vestidos com roupa ridícula com malas e maletas atrás de gravata de saia de camisa fora das calças ou a exibir parte das mamas a mostrar as pernas a exibir o cu e sempre a comportarem-se de maneira inacreditável sorrindo ou dando-se importância o que é que explicava tanta azáfama tanto movimento tanta inquietação tanta ambição tanta vulgaridade tanta irresponsabilidade tamanha incapacidade de perceber tamanha inocência ou ignorância ou distracção. Pela primeira vez na minha vida diz ele vomitei durante a viagem o casal que ia sentado à minha esquerda fez uma careta de nojo por pouco não lhes explodia nas carinhas assustadas e bem educadinhas a mistura fedorenta e nojenta devolvida pelo meu estômago agoniado sólidos e líquidos amarelados esverdeados o que me deu um prazer enorme diz ele pois não tínhamos durante as sete horas passadas ali sentados no ramo daquela árvore voadora trocado uma única palavra quando eles tinham chegado eu já estava sentado e tive de me levantar para os deixar passar o rapaz disse logo para a rapariga senta-te no assento ao lado da janela o que me fez sorrir apesar de jovem o tipo já tinha sobre o ser humano conhecimentos apreciáveis protegeu logo o seu bocado de carne privada fez muito bem eu faria o mesmo não se deve confiar em ninguém nunca se sabe o que pode acontecer quando os corpos se aproximam excessivamente uns dos outros o risco de deixarmos de ser pessoas ameaça a animalidade espreita prestes a libertar-se sem vergonha ou com vergonha pouco importa do colete de forças da respeitabilidade dos bons costumes das boas maneiras. E é necessário proteger-se desse perigo dessa ameaça de resto não vale a pena perorar sobre estas questões diz ele com um sorriso meio cínico e cheio de pureza eu não tenho nada a ensinar a ninguém nós aprendemos depressa toda a gente aprende sem esrfoço essas estratégias de sobrevivência.

O problema agora que me libertei que me isolei que cortei todas as relações com o universo e a ordem de antigamente diz ele é não haver programação possível do futuro nem nunca mais entendimento credível compreensão suficiente avaliação verosímil do passado de que na verdade se pode dizer que fui desapossado. Por um lado é difícil repensar o que aconteceu sem cair na ilusão no erro de atribuir-lhe sentidos já desmascarados como inconcebíveis inaceitáveis ou sem se deixar corromper influenciar por eles. Por outro como imaginar o que poderá vir a ser o futuro uma vez posto de lado o modelo pernicioso de pensamento e de interpretação antigos antes de se ter encontrado recuperado qualquer coisa a que se poderia talvez chamar a ignorância a ingenuidade originais? Cabe-me portanto diz ele por um lado evitar eliminar as tendências antigas os hábitos os vícios que criavam o que se designava por a minha humanidade isto é tudo o que não passava de uma ilusória sabedoria e dignidade. E por outro escapar à ingenuidade ao erro tanto como à incapacidade de agir no dia a dia o que só será possível encontrando maneiras de continuar a pensar a interpretar a sentir - ou o que lhes corresponde e para que não há nome definição explicação e que não seja uma limitação da nossa vocação espontânea natural isto é que não seja uma deformação uma traição para com o ser para com o existir nossa única inocente ignorada original condição.

Não é minha intenção inventar uma nova língua ou linguagem ou filosofia nem criar nada que tenha sucesso que tenha futuro que se pretenda conhecimento transmissível diz ele antes pelo contrário já entendi que para escapar à mentira é preciso evitar tudo o que se assemelhe a uma tentativa de considerar semelhante ou relacionado aquilo que só acontece uma única vez. O que significa inevitavelmente o que implica definitivamente que não haverá construção memorização armazenagem possível da experiência em termos racionais. Perderei completamente a noção do tempo também? Recuperarei alguma forma de identidade? Devo imaginar que viver se transformará para mim numa experiência permanentemente inédita assustadora insegura imprevisível e ao mesmo tempo majestosamente infantil porque nada do que acontecer será modificado transfigurado deturpado com a ajuda do pretenso conhecimento adquirido através da experiência no passado? Não sei. Sei que não pedi para nascer diz ele que sobrevivi por acaso e também sei que fui vítima da minha inocência da minha ignorância vivi erradamente mea culpa. Entendi e aceitei que não estava em meu poder modificar as condições que me foram impostas e não há mais nada a acrescentar as coisas são o que são ponto final.

E depois de ter dito tudo isto a dado momento sem aviso nem explicação suplementar ou mais clara passou a mão pelo cabelo suspirou e concluiu: não me queixo porque não serviria de nada queixar-me a quem é que querem que eu me queixe isto é apenas uma constatação uma declaração de guerra um manifesto de independência.

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