Thursday, April 26, 2012

Ódio à poesia



Não me fales poeticamente,
disse ela, eu não sou flor de
nenhum paraíso; se o contacto
da minha pele provoca em ti
devaneios espirituais, se a
contemplação do meu rosto te
leva a acreditar que em mim se
esconde a pureza por corromper
do ser com os seus mistérios
divinos, inefáveis, desperta
para a realidade: de nós não
há-de ficar nada, dos sonhos e 
do êxtase não há-de ficar nada;
o nosso destino é ser pó nas
rodas dos automóveis, pó na
beira dos caminhos; não, nem
sequer pétala fina de rosa
que alimente os devaneios
amorosos dos inocentes (eles,
como nós, só tarde hão-de
perceber que da nossa divina
carne não restará nada, que ao
nosso pressentimento da
eternidade só hão-de sobreviver,
apagadas, as frias cinzas).

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