Thursday, April 26, 2012

O Barão e Hamsun


Nao sei se Branquinho da Fonseca leu Knut Hamsun mas suspeito que sim. A obra prima que é O Barão (acabo de reler em inglês, na tradução do meu colega Cota Fagundes que o Center for Portuguese Studies na UCSB, por iniciativa minha, publicou há anos) pode ter tido em Hamsun - em PAN? e noutras obras, eventualmente - uma inspiração.

Não é por essa razão, evidentemente, que penso que Branquinho da Fonseca leu Hamsun, mas é interessante constatar que a dado momento o barão faz o elogio da mulher brasileira e o inspector de escolas (que é quem narra a história de Branquinho da Fonseca) diz-lhe que discorda dele e que prefere as escandinavas e as alemãs. Mas em Portugal e em Inglaterra Hamsun, então já traduzido em 27 línguas, foi provavelmente vitima das péssimas traduções que fizeram da obra dele: não foi popular nos dois países. Em Portugal os neo-realistas desprezaram-no, mas se o tivessem lido a sério teriam compreendido que ele era capaz, muito melhor do que eles, de pôr a nu os mecanismos da transformação social provocados pelo capitalismo. Entretanto na Alemanha, na Rússia e na América, Hamsun era admirado e considerado pelos grandes autores desses países como um génio do romance, alguém que abrira o caminho para o romance moderno. Quando Hamsun fez 70 anos as homenagens sucederam-se internacionalmente (mas na data exacta ele fugiu de casa e foi esconder-se num hotel desconhecido com a mulher e um dos filhos porque não era "a Wonder of the World or a Tourist Attraction"). Entre os escritores que exprimiram publicamente nessa ocasião a sua admiração contam-se Thomas Mann, Herman Hesse, Robert Musil, Stefan Zweig. Também o leram e admiraram Kafka, Brecht, Hemingway, Henry Miller, Gorki, André Gide (além de Einstein e Schoenberg, que não eram exactamente escritores). Schoenberg referiu-se a Hamsun como "a spiritual giant". Gorki, que via em Hamsun a prova de que o romance se podia renovar sem cair no experimentalismo de Proust e Joyce, escreveu-lhe: "deixe-me dizer-lhe com toda a sinceridade, neste momento você é o maior artista europeu e não há ninguém que se possa comparar consigo". Robert Ferguson (Enigma, The Life of Knut Hamsun): "All of the German tributes have in common this celebration of the spiritual aristocrat in Hamsun. For the contributors he stands as as the great example of the unyielding and uncompromising artist, indifferent to misunderstanding, one who sacrificed everything for his art and won the victory."

Em princípio tenho pouca paciência para escritores como pessoas. Já tenho o meu eu suficientemente complicado a dar-me trabalho, eles que não me aborreçam com a toilette e a ascensão ou divulgação do deles. Mas tenho alguns amigos mais jovens que escrevem. Para esses sublinho a frase de Robert Ferguson acerca de Hamsun: "indifferent to misunderstading". Os cãezinhos da crítica dos jornais e da universidade que ladrem à vontade, quem tem de escrever, se puder, escreve - e deve escrever respeitando a sua própria ideia do que é a literatura. Os génios, evidentemente, somos nós, não são eles, que têm menos leituras do que nós, menos diplomas do que nós, menos experiência da vida do que nós, e ainda por cima andam com o juízo perturbado pelas rivalidades que mantêm com gente igual a eles. :-) 


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