Wednesday, April 04, 2012

Laura, Laura


 Simon Vouet


So, your name is Laura. Beautiful name. Lembrou-me logo Petrarca. A metafísica que, atiçado pela paixão ou desesperado perante a impossibilidade de a satisfazer, o poeta italiano foi aperfeiçoando com as suas reflexões, temos de reconhecer, é um acontecimento extraordinário. Espiritualizar o corpo e o desejo revela aspirações (e provavelmente frustrações) a que só um amor intenso e uma profunda meditação sobre o nosso destino podiam dar origem.

Você, então, chama-se Laura. Que nome bonito. Sabe que no século XIX Flaubert, um escritor francês, e Eça de Queirós e Machado de Assis, dois escritores de língua portuguesa, acabaram com o reinado do petrarquismo? A visão idealizada do amor do poeta italiano pareceu-lhes coisa de outros tempos, talvez até fruto de alguma ingenuidade. Não passava de uma ilusão constantemente desmentida pela experiência. Bastava a gente abrir os olhos e olhar à volta para se dar conta disso. Talvez seja possível amar a Deus sem se cansar dele, sem o trair, mas a nossa pobre condição humana, quando se trata de amar os nossos semelhantes, nem sempre se revela capaz de grandes feitos nem da mesma fidelidade. Por isso Flaubert, Eça e Machado, tendo compreendido o que se passa, se puseram a contar histórias de amor em que eram visíveis as confusões, os mal-entendidos e os lados menos idílicos das relações amorosas. 

O amor não é coisa simples. Pode começar por ser uma paixão sobrenatural, cheia de poesia, de fervores sinceros e de boas intenções. É um belo princípio para uma bela história, como convém. Mas mais tarde ou mais cedo tudo acaba por se complicar. E a magnífica história, cheia de tantos enlevos e promessas e que havia de durar eternamente, vê-se interrompida pelo tédio e pelo desinteresse. Esgotou-se a curiosidade, esgotou-se o desejo. A curiosidade e o desejo, porém, depressa descobrem, quando deixaram de receber recompensas, outros objectos de interesse à sua volta. E se não se teve a coragem para abandonar a pessoa que ainda nos fazia companhia, a que nos ligavam recordações e hábitos, a mentira e a traição são inevitáveis. Eu estou de acordo: as pessoas deviam separar-se antes de chegar a essa etapa desagradável. Não se devem misturar as coisas, não se deve pôr o corpo do amor novo em cima do corpo do amor moribundo. Mas se é assim que as coisas se passam o que é que nós, simples mortais, podemos fazer? Nada. E é melhor termos consciência disso do que vivermos iludidos. Vivam Flaubert, Eça e Machado.

O cinismo e o cepticismo, então, dominam as relações amorosas nos tempos que correm. É uma boa conclusão. E no entanto. E no entanto quem se atreveria a afirmar de maneira peremptória que nós deixámos de acreditar no amor como Petrarca acreditou? Quem, Laura?

Nunca tinha conhecido nenhuma Laura, sabe? Que os sonetos de Petrarca tenham sido sobretudo a expressão ou invenção de uma filosofia, isto é, um esforço sublime para escapar às leis da carne e ao pessimismo nascido da certeza da morte, é provável. Talvez a poesia seja, além de uma forma de conhecimento, uma forma de consolação. Talvez seja um estímulo que tenta elevar-nos a uma existência mais digna, sabe-se lá. Eu não sei. O que eu sei é que quando amamos e somos amados nos sentimos de bem com o mundo, felizes e poderosos como deuses a quem nada atemoriza.

L-a-u-r-a. Gosto de dizer o seu nome. Pode ser por causa da ligação com Petrarca. Mas Lacan não disse, misteriosamente, tornando tudo ainda mais simples ou mais complicado, que se há coisa que não existe são as relações amorosas? Não? Mas então o que é que se passa quando estamos apaixonados? É apenas um mal-entendido, são dois mal-entendidos simultâneos? Nestas questões é preferível evitar afirmações definitivas. No que me diz respeito, tenho de confessar, em questões de amor sou um ignorante, as complexidades do desejo e da vida afectiva escapam ao meu entendimento. Tenho muitas perguntas, muitas dúvidas, mas raramente encontro respostas. Pelo menos respostas  que me satisfaçam e que possam depois servir de ciência. Por isso é melhor calar-me, ficar-me por aqui. Acho melhor que seja cada um de nós a perceber a natureza das relações em que anda metido e a resolver o problema do amor à sua maneira (se é que, havendo problema, ele se pode resolver).

Você, Laura, nunca foi à Fontaine de Vaucluse, imagino. Se tivesse ido, tinham-lhe mostrado uma casita que está à beira da água que vem descendo, agitada, da gruta profunda lá em cima, no sopé da pequena montanha. Parece que Petrarca costumava passear nas margens do rio que ali nasce. E que quando vinha, provavelmente para escrever e meditar no lugar idílico, morava nessa casinha hoje modesta. A si não me recordo de quando é que a vi pela primeira vez, mas deve ter sido antes das férias do Verão. Talvez em Abril ou Maio. Eu não sabia o seu nome. Costumava ir ao café à tarde. Sentava-me na esplanada, saboreava a bica, bebia um copo de água. Fumava um cigarro, lia ou escrevia. Às vezes a menina que estava ao balcão a servir os cafés era já minha conhecida. Depois um dia você apareceu e eu devo ter registado a novidade.

Creio que gostei de si imediatamente. Discretamente bonita, tímida, sóbria mas elegante nos gestos e na maneira de vestir, reservada nas palavras, a sua presença chamou-me logo a atenção. Nessa altura eu aborrecia-me bastante em casa e vinha ao café sobretudo para ver outra rapariga que lá trabalhava, uma estudante de psicologia. Além de ser bela como as figuras adolescentes de alguns quadros italianos, essa menina irradiava, com o seu sorriso, as cores dos seus t-shirts e a sua vivacidade, alegria e sensualidade. E conversava connosco. Às vezes, farta de estar detrás do balcão a servir cafés com leite, vinha para a sala onde estavam as mesas e punha-se a varrer o chão diante de nós. Não sei se queria ser vista (como se fosse necessário ela ficar mais perto de nós para nós a vermos...). Mas ia varrendo suavemente o chão e sorria. Sim, sorria para mim quando se dava conta de que eu a observava, qual é o problema? Aconteceu várias vezes. Garridice perdoável, ela estava a descobrir o poder temível de que a investiam a sua esplendorosa juventude e a sua beleza cheia de cores. Eu adorava-a. Mesmo quando ela não parecia dar pela minha presença ou eu me esquecia de que ela estava detrás do balcão a servir cafés a outros clientes, eu sabia que ela estava lá e ela fazia-me boa companhia.

A sua aparição, Laura, tornou a situação ainda mais interessante para mim: em vez de uma boa companhia, eu passava a ter duas boas companhias. A proximidade da beleza faz-me feliz. A juventude, que é uma qualidade divina, extasia-me. Pode por momentos perturbar-me, pode mais tarde vir a fazer-me sofrer, mas rejuvenesce-me e põe-me de bem com a vida.

Um amigo com quem às vezes eu lá ia tomar um café à noite também estava encantado consigo, nós tínhamos falado nisso. Mas nessa ocasião, embora, como já disse, eu tenha gostado de si assim que a vi, creio que não tinha ainda prestado a devida atenção à sua beleza serena e silenciosa. Só recentemente, talvez por me ter separado da minha segunda mulher, é que comecei a olhar mais para si e a imaginar como seria bom conhecê-la de perto, falar consigo, irmos os dois passear para o campo.

Gostava de lhe tirar fotografias. O seu rosto pacífico e a sua timidez inspiram curiosidade. Com uma coragem de que não me julgava capaz neste momento, hoje até falei um pouco consigo. Perguntei-lhe outra vez o nome, voltei a referir-me a Petrarca e à Laura dele. Você ouviu-me e sorriu modestamente, baixando um pouco os olhos, como é seu costume. E quando nós dissemos, um amigo que me acompanhava e eu, que éramos portugueses, você disse ah! gostava tanto de ir a Lisboa, gostava tanto de ir a Portugal. A gente leva-a connosco da próxima vez, dissemos nós a brincar. Disse eu, na realidade, porque o meu amigo nem prestou atenção. Pouco depois, confiante, embalado pela conversa, surpreendido com a sua gentileza, pedi-lhe o seu telefone e você deu-mo sem hesitar. Fiquei surpreendido com o meu sucesso e dei-lhe o meu também. Foi fácil, foi simpático, eu fiquei contente. Depois, para estar seguro de que contava consigo, de que não estávamos ali num paleio inútil, perguntei: se a convidar para almoçar comigo, você vem? Of course, respondeu você logo. Não imagina como ao ouvi-la a minha tarde se encheu subitamente de cores e de música. Há quanto tempo é que eu não perguntava a uma rapariga aquilo que lhe perguntei a si? Nem me lembrava já.

A minha vida estava longe de ser um mar de rosas nesses meses e essa espécie de carinho que me chegou com a sua atenção fez-me bem. Muito bem. Fui para casa a pensar que apesar de estar a atravessar dias um pouco complicados sentia-me como um avião que atravessa uma zona de perturbação ou um barco que tem de fazer frente à tempestade - tudo acabaria por arranjar-se. O facto de você, Laura, me ter olhado, me ter ouvido, me ter falado, me ter prestado atenção, era um bom sinal, senão uma prova indiscutível de que eu estava de novo no bom caminho. A absurda solidão, as desilusões passadas seriam superadas. Quando fui para casa pareceu-me que o carro deslizava melhor no alcatrão, sem esforço, silenciosamente. E eu olhava para as árvores à beira da estrada e sorria de novo. Creio que até assobiei e cantei enquanto ia conduzindo de rua em rua a caminho de casa. Voi / che sapete /che cosa è amor...

Quando cheguei ao meu apartamento sentei-me diante do computador e fui logo procurar na internet informações mais detalhadas sobre Petrarca. Numa delas encontrei uma breve biografia do poeta e alguns sonetos traduzidos. Feliz, mandei-lhe imediatamente uma mensagem e o link para essa página. Aproveitei para lhe dizer que já a conhecia de vista desde o ano passado e que já então me tinha apetecido falar consigo. Desculpei-me de não o ter feito, confessando que às vezes, embora não sempre, sou meio tímido. Por outro lado, escrevi eu também na minha curta mensagem, nunca sei bem como comportar-me neste país, as pessoas parece que têm medo umas das outras e são muito desconfiadas. Disse-lhe que apreciava a sua modéstia e timidez e que achava que conhecê-la e poder falar consigo, Laura, era um privilégio. Provavelmente excedi-me em gentilezas e assustei-a. Você, Laura, às vezes parece um passarinho compenetrado não se sabe em que pensamentos. Quando nós falamos, podemos, sem nos darmos conta disso, assustá-la. No seu mundo protegido tudo deve ser serenidade e inocência. Obrigá-la a enfrentar a nossa bruta realidade não é uma boa ideia. Eu não devia ter falado tanto. O mundo pode ser complicado para mim, mas para si deve ser bastante mais simples.

Se a assustei, paciência. Eu não disse nem fiz nada de mal. Você não respondeu à minha mensagem e eu pensei que provavelmente não tinha ido ver o seu email. Lembrei-me de que você me tinha dito que andava à procura de um emprego e que ia mudar-se para casa de uma amiga. E de que você me tinha confessado a sua enorme frustração por não ter sido capaz, terminada a universidade, de encontrar um trabalho decente. Eu disse que gostaria de ajudá-la. Talvez um amigo meu precisasse de uma secretária, eu ia perguntar-lhe. Depois, receando aborrecê-la com a minha conversa, fui-me embora com o meu café e o meu copo de água sentar-me na esplanada lá fora.

À noite, preocupado com a hipótese de você não ter lido o seu email, decidi telefonar-lhe. Você atendeu com uma vozinha ténue, tímida, mas firme. Ouvi-la acariciou-me os ouvidos e a alma como um bálsamo. Quando se está muito tempo sozinho acontecem estes exageros. Também me fez pensar em duas mulheres que tinham sido importantes na minha vida, o que complicou mais as coisas. Elas também atendiam assim o telefone, com a voz ténue e quase tímida de uma criança. Perguntei-lhe o que estava a fazer e se estava a incomodar. Você disse que estava a ler um romance de Steinbeck e que eu não incomodava nada. Mas disse isso falando baixinho, eu ouvia-a mal. Houve uma pausa e eu ouvi-a dizer: e então? Aborreço-me bastante, a minha vida neste momento está um pouco complicada, disse eu. Você não comentou, não me perguntou porquê. Eu não me sentia muito seguro, estava ainda a tentar inventar qualquer coisa, encontrar um assunto que nos pusesse a falar descontraidamente. Perguntei-lhe se tinha recebido o meu email e você disse que sim mas que ainda não tinha tido tempo de trabalhar nisso, o que me pareceu curioso. A conversa estava assim, meio que anda, meio que não anda, você parecia que queria falar mas ao mesmo tempo eu tinha a impressão que havia um problema. Então eu perguntei-lhe se estava sozinha e você disse que não, que estava com o seu namorado. Estremeci. E percebi tudo de repente. Fiquei meio atrapalhado, reconheço. Em vez de continuar a conversa, tive medo, comportei-me como se me quisesse esconder, envergonhado, debaixo da mesa. Já me estou a meter de novo em complicações, pensei eu. Ah, você tem um namorado, murmurei enfim, já mais refeito do choque. E acrescentei, embaraçado: é que eu não sabia. E então pedi desculpa por ter incomodado. Não estava nada contente comigo. Você disse que estava tudo bem, que não tinha importância nenhuma, que não havia problema. Mas eu despachei-me a dizer que, sendo assim, visto que você estava acompanhada, a deixava em paz. Pedi desculpa pela interrupção, disse boa-noite e pousei o auscultador do telefone.

Fiquei desiludido comigo, senti-me estúpido. Que ela tivesse namorado ou não que me interessava a mim, o que é que eu tinha a ver com isso? Nada. Provavelmente era um namorado de passagem, nada de sério. Ela tinha-me dado o número de telefone, tinha-me prometido que ia almoçar comigo, o resto não tinha importância. Mas eu tinha-me comportado como um adolescente imbecil. Depois compreendi: o soit disant namorado, se estava sentado ou deitado ao lado dela ou perto, não percebeu patavina da nossa conversa. Ela nem sequer disse nada que deixasse entrever com quem estava a falar. O uso da expressão "ainda não tive tempo de trabalhar nisso", que não vinha nada a propósito, provava que ela tinha querido manter fora do alcance do outro a nossa conversa e a nossa breve relação. Que burro que eu era, que inexperiente. Nunca aprenderia a viver no meio desta gente. E por causa disso, por ser incompetente, tinha de me contentar com uma solidão desoladora. Ora de solidões desoladoras eu estava mais do que farto. Os anos que já perdera a viver longe de tudo o que me interessava, longe de pessoas cujo comportamento eu podia interpretar sem grande margem de erro, deixavam-me melancólico.

Fiquei sem saber o que fazer. Passaram uns dias e ela não respondia ao meu email, não me agradecia o livrinho com poemas de Petrarca que eu lhe tinha oferecido, no café, quando lá voltara no dia a seguir à nossa conversa telefónica. Neste país, se não telefonamos nem fazemos nada, somos uns anjinhos ou uns maricas, pensei eu. Mas se tentamos fazer alguma coisa, arriscamo-nos a passar por chatos ou, mesmo, por maníacos ou tarados. Nunca se pode saber, é preciso estar sempre a correr riscos. Eu pensava nestas coisas enquanto ia bebendo um vinho branco que a minha ex-mulher (a primeira) deixara no frigorífico quando passara uns dias na minha casa durante o Verão. Eram sete da tarde e a minha vida era tão absurda como imaginar uma barata a dançar o samba no cimo do Empire State Building. Vinham-me umas saudades monstruosas e um sentimento de culpa insuportável se me punha a pensar na minha segunda mulher, de quem acabava de me separar. Queria-a de volta, queria ir com ela às compras, esperar por ela enquanto ela via vestidos nas lojas. Fazia-me falta tê-la ao meu lado. Mas eu sabia que não podia fazer nada para a recuperar. Ela e eu tínhamos desperdiçado tantas oportunidades de compreender que mesmo discutindo, mesmo protestando, mesmo queixando-nos, nos amávamos e necessitávamos um do outro. Eu sabia qual era a minha parte de culpa ou de responsabilidade, mas havia outras pessoas que também tinham, involuntariamente talvez, contribuído para nos afastar um do outro. Às vezes eu explodia: é uma parva, teve o amor ao alcance da mão e estragou tudo, só fez asneiras. Podíamos ter sido felizes. Mas pronto, quero lá saber, agora não me apetece pensar mais no passado, recordar nada disso.

Laura, digo eu, apetecia-me telefonar-te, falar contigo. Mas esse teu namorado misterioso pode andar aí por perto e eu não tenho coragem para telefonar, não quero criar-te problemas ou ser simplesmente mal recebido. Além disso, se já te intimidei com as palavras inocentes que te escrevi na curta mensagem que te enviei, o risco de voltar a assustar-te obriga-me a não fazer absolutamente mais nada. Que chatice, nunca mais aprendo a comportar-me como deve ser.

Fiquei em casa a pensar nela, a lembrar-me de que no dia em que ela tinha falado comigo e me dera generosamente o número de telefone e o endereço de email, eu, enquanto ia conduzindo o automóvel, já estava a pensar que podia modificar a vida dela se ela deixasse. Que além de a amar a havia de proteger e ajudar, pôr fim às suas indecisões e confusões, aos seus problemas actuais. Comigo ela havia de descobrir coisas de cuja existência nem suspeitava. Havia de levá-la a Lisboa e viajaríamos semanas e semanas por Portugal, num carro alugado. Pelo Norte, pelo Centro, pelo Sul. A ideia de ter um ou dois filhos com ela deixou-me feliz, sonhador, encantado. Eu sei, sempre fui um exagerado. Mas se se entender que todos estes projectos são, em mim, manifestações agudas e irracionais de energia vital, provavelmente poderei ser desculpado. E pouco me importam já as histórias pessimistas do Flaubert, do Eça e do Machado. O amor existe, sere amado e amar ainda é possível, eu não tenho a mínima dúvida a esse respeito. E mesmo que seja apenas uma ilusão passageira também não tem importância, tudo na vida é mais ou menos passageiro - mas enquanto dura pelo menos põe-nos de bem com a vida.

Laura, Laura, onde estás? Que estás a fazer? Porque não me telefonas? Bastava passarmos uns momentos a conversar ao telefone para tu entenderes que não há qualquer razão para desconfianças ou receios. Eu não sou mau tipo, sou capaz de ser atencioso e até tenho algum sentido de humor, há quem me ache piada. E sou capaz de ser carinhoso se me deixam sê-lo. Queria levar-te a Itália e a França, procurar e descobrir contigo, deslumbrado e emocionado, o percurso de Petrarca, os caminhos por onde ele andou. Talvez, inspirado pelo brilho dos teus olhos, pelo esplendor da tua felicidade, fosse capaz de escrever eu mesmo alguns sonetos em que seria evocada a alegria do nosso amor, a grandeza sublime da nossa paixão. Laura, Laura. Eu dizia o teu nome na sala silenciosa e não acontecia nada. Não, nunca soube amar, pensei então. Nunca aprendi. Tive sorte, algumas mulheres perdoaram-me essa incapacidade, essa grave insuficiência, pelo menos durante algum tempo. Mas eu não merecia, nunca merecera nada.

O Pouilly Fumé acabou-se, fui à cozinha e tirei do frigorífico uma garrafa de Pinot Grigio. Abri-a, enchi um copo. Provei. Que diferença, meu Deus. E no entanto eu achava o Pinot Grigio em geral um substituto aceitável para o Chablis. Não tinha nada a ver, dava-me conta agora. Tudo me corria mal neste desgraçado sábado de Outubro. Laura, Laura, minha Laura, minha querida, balbuciei eu com emoção, olhando para o tecto da sala. Porque não me telefonas, meu amor? Mas não obtive resposta. Nada. Niente. Zéro. Rien du tout. Não ia desesperar, porém. Não é o meu género, nunca foi, sempre reagi às adversidades do destino com tenacidade. Não estou a pedir uma estátua nem medalhas para as minhas façanhas, essas palermices nunca me interessaram. Estou apenas a constatar, está bem? Pouco tempo passou ainda, apenas dois ou três dias sobre a nossa conversa e troca de números de telefone. Nada está por conseguinte perdido. É preciso é não ter pressa, manter a calma.

O sábado, esse sim, estava quase perdido. Mas ia passando. Eu ia bebendo o Pinot Grigio e fumando uns cigarros, convicto de que de uma maneira ou de outra, com Laura ou sem Laura, tudo acabaria por solucionar-se mais cedo ou mais tarde. Devia ter razão. E a verdade é que ela desapareceu do café, deve ter arranjado um emprego melhor. Nunca mais a vi e há-de atormentar-me para o resto da minha vida a recordação do meu fracasso.

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