Wednesday, April 11, 2012

Duvidar




Francesco Hayez


How does it come about that doubt
is not subject to arbitrary choice?

(Wittgenstein, Zettel: 409)


Por onde começar? Que dizer? Quero falar, mas não tenho assunto. Ou tenho assunto e faltavam-me as palavras. Não sei. O assunto é vasto como um mar sem fim, como uma planície a perder de vista, como uma cadeia da montanhas contra o céu do Norte. E eu não sei onde deter-me para a partir de um lugar fixo organizar o caos. Um lugar estável onde eu, pessoa que pensa e sente, sabe que está, se vê estar e deixa de ter a cabeça vazia.

A minha cabeça não está vazia. Mas é como se estivesse. Nenhum dos pensamentos que ocupam o seu espaço sobressai da confusão pastosa do indiferenciado. Sinto-me perdido. O tédio abate-me. Estou sem projectos, sem sentimentos, sem memória. É como se estivesse exausto ou fosse um livro que chegou ao fim. E agora? Alguém pode ajudar-me a sair daqui, deste lugar nenhum? Estendam-me a mão, dirijam-me uma palavra, talvez eu me ponha em movimento imediatamente, por puro instinto e sem necessitar de reflectir.

Alguém tem a chave que podia abrir uma porta. Essa porta daria para um quarto. Da janela desse quarto, protegido pelas paredes, eu observaria a complexa geometria do mundo que habitamos. Quem tem a chave? Não se sabe.

Ela ignora-me. Ela pretende nada saber dessa chave em particular. Oiço-a dizer: procura, o problema é teu, resolve-o. E abandona-me à minha sorte. Ao meu nada. Ao meu vazio. Ao meu medo. Acho cruel. E acho injusto. Que lhe custava fazer um esforço, meter a mão no bolso, tirar a chave, levar-me pela mão até à porta, abri-la, deixar-me entrar? Eu fugiria a este tédio, a esta desolação. A vida, outro capítulo do livro, irrompia bruscamente não se saberia de onde. Mas nada acontece. Ela diz: eu não tenho chave nenhuma, é um equívoco.

Quando a conheci ela prometeu-me tudo: as praias, as montanhas, as ilhas. Uma aventura permanente. O amor. E sorria timidamente enquanto ia descrevendo os lugares da felicidade terrestre. O futuro. Se eu me mostrava impaciente, ela corrigia-me: devagar se vai ao longe; se vamos depressa arriscamo-nos a ir pelo caminho errado. Tinha uma filosofia, experiência. Eu ouvia-a e acreditava no que ela dizia porque o que ela dizia tinha sentido. Estávamos onde, nesse tempo? Na cidade monótona. Íamos de casa para a universidade, para o café, ao cinema, ao centro da cidade, às compras. Depois voltávamos. Ela calava-se. Ficava sentada no canto da sala ou desaparecia no quarto dela. Não tinha nada a dizer e queria evitar dizer o que não tinha de ser dito. Deixava-me só, desolado, mas eu aprovava a sabedoria que ela me ia ensinando. E o tempo passava.

Uma noite ela não voltou a casa. Não telefonou. Não deu notícias. Eu podia preocupar-me se quisesse, mas ela achava que eu não tinha esse direito sobre a vida dela. E portanto não se preocupava que eu me preocupasse, o problema era só meu. Eu tinha o meu destino, que era só meu; ela tinha o dela, que era só dela. Entendido? Eu ouvia e dizia: sim, entendido. Mas a estação prometida nunca mais chegava: a das ilhas, a das montanhas, a das praias. A da aventura. A do amor. E quando ela me faltou eu fiquei desamparado. Comecei a confundir o dia com a noite, baralhei as horas, deixei de fazer a barba, esquecia-me de tomar banho. Saía de casa quando não devia, ficava em casa quando eram horas de ir à universidade. Faltei às aulas, nem pensei que se não faltasse podia encontrá-la. Desordem. Uma confusão total, a minha vida. Porque acreditei? Porque aceitei esperar? Acreditei em quê, estava à espera de quê? Podia responder a estas perguntas tão simples? Não podia. Seduzira-me a viagem pelas ilhas, a vagabundagem pelas montanhas, pelas praias. Não há grande explicação a encontrar. Aconteceu assim. Que posso dizer além disso? Nada. Ela voltou ao apartamento onde morava quando eu a conheci, perto da universidade, não muito longe do mar. Queria reflectir. Recebi uma carta a informar-me da sua decisão. Em que ponto estão as nossas relações? Não sei.

Da maneira como as coisas foram acontecendo podia ter chegado o tempo das dúvidas. Este. Tempo de incertezas, tempo cruel. Quem nos ensinou que a vida é fácil, que a felicidade está sempre à nossa espera ou ao alcance de dois passos? Engano. A vida é um parêntesis na morte. 

O que é duvidar? Eu olhava-me no espelho e perguntava-me: sabes quem és? Respondia: perfeitamente. Sentava-me numa cadeira e interrogava-me: alguém me amou, tenho provas disso, lembro-me? Olhava para um quadro e umas fotografias que estavam pendurados na parede, pensava um pouco, concluía: não estou seguro, nunca se sabe, mas é possível que me tenham amado; deve é ter sido há muito tempo. Uma voz falou na minha consciência: acho bem que duvides. E continuou: tudo na vida se assemelha a um sonho. Como distinguir o sonho da realidade? Não se pode. Ninguém pode. Portanto duvida.

Cansou-me a discussão, eu não tinha pedido a opinião a ninguém. Duvidar. Eu duvidara? Não creio. De que me serviria duvidar? Vejo o que vejo, sinto o que sinto, não duvido. Recordo o que recordo e não duvido. Alegro-me. Sofro. Duvido? Acho que não.

Já ficou claro: eu recusava-me teimosamente à dúvida. Eu sabia que a dúvida destrói, apaga, mata, nos deixa mais pobres. A dúvida trouxe o cadáver até à areia da praia, abandonou-o, desinteressou-se dele. Se duvido não vou, não creio, não amo. É isso que tu queres, que eu ponha em dúvida o amor? Queres sair da minha vida por essa porta? Ele duvida, posso ir-me embora. Não, ele não duvida, nunca duvidou, arranja outra desculpa para o deixares sozinho.

Eu não me quero ir embora, diz ela, eu estou apenas cansada. Choro de noite, vê os sulcos das lágrimas na minha cara, por baixo dos olhos. Durmo mal. Não sei porquê.

Se quiseres recuperar a tua liberdade, respondo eu, se quiseres que eu te esqueça, se quiseres que eu deixe de contar contigo e não tenha em conta o que dissemos um ao outro, afasta-te e não digas nada, não expliques, não te justifiques. Eu não sei se entendo, mas posso fazer um esforço. Mais tarde. Mas não me obrigues a duvidar porque eu não sei duvidar. De ti, em particular, não quero nem posso duvidar. Seria trair-te, diminuir-te, menosprezar-te. Seria duvidar de mim: existo, não existo? Seria perder a fé e a esperança: atrevo-me a sair de casa sem receio de ser atropelado por um autocarro?

O dia estava perdido. Durante uns minutos, talvez meia hora, escapei ao tédio, ao nada, ao vazio. Criei-me a mim mesmo, criei um espaço onde estar, escolhi algumas inquietações. Depois, distraído ainda da realidade real, acendi um cigarro. O fumo subia, desaparecia. O meu espírito diluía-se na desolação desabitada da tarde. Ela, onde estaria? Aquela de quem eu decidi não duvidar para que ela sobreviva? Pareceu-me que ao recordá-la a detestava. Incomunicabilidade total. Nunca nos entendemos, nem sequer nos devaneios. Mas não tinha nem tem importância. As palavras, que significação têm para ela? Talvez pudéssemos pôr-nos de acordo sobre o sentido de algumas palavras, as mais pensadas, as mais ditas: o amor; a amizade; a fidelidade. Com três palavras, se conseguimos chegar a um acordo, pode ir-se muito longe. Se nos entendemos sobre o sentido de uma palavra, de uma só, pousámos o pé finalmente em terreno sólido, a dúvida deixa de ser possível. A partir desse lugar fixo na terra firme podíamos proceder em seguida à revisão do sentido de outras palavras. Podíamos tentar entender, debatendo entre nós, o rosto da morte que se esconde por detrás da palavra morte. O rosto da paz e da alegria que se escondem por detrás das palavras paz e alegria. Podíamos aproximar-nos cautelosamente da dor, da palavra dor, e tentar tirar-lhe de cima o véu que a esconde do nosso olhar. Seguros de nós e um do outro poderíamos até começar a duvidar. Mas o amor, seguro de si, mostrava-se indiferente às dúvidas. Elas não o destruíam e ele brilhava nos nossos olhos.  

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