Monday, March 19, 2012

O morto



Simon Vouet





What wound cuts deeper than a loved one
turned against you? Spit her out,
like a mortal enemy - let the girl go.

Creon (Sophocles Antigone)



Eu escrevia sobretudo para uma pessoa que provavelmente não me lia nem se interessava pelo que eu tinha a dizer. Ela inspirava-me. Saber que a pessoa a quem nos dirigimos nos ignora é estimulante. Há sempre a possibilidade de alguém a informar do que se passa: há um homem que parece que está a falar de ti e para ti, já viste o que ele escreve? Ou então ela está no café ou no comboio e alguém está a ler um jornal, uma revista ou um livro. Ela olha distraidamente, dá-se conta de que certas frases lhe soam a coisa conhecida, interessa-se, tenta ver o que é, acaba por perguntar: o que é que está a ler, posso ver? Seria esta a melhor maneira de chegar aos olhos e ao espírito daquela para quem escrevemos humildemente, sem esperar recompensa. Deve ser por isso que eu escrevo, na esperança de um dia lhe virem a cair nas mãos os meus desabafos, a notícia da minha amargura.

Telefonar-lhe não adiantaria: ela diria uma vez mais palavras que não me interessam, havia de mentir. Nunca conheci ninguém que mentisse tão convictamente, creio que ela própria acaba por acreditar nas mentiras que inventa e por tomá-las sinceramente pela verdade. Pauvre petite. Escrever-lhe cartas para casa não o faço, traria outros problemas: gastar selos, gastar tinta, levar as cartas ao correio, aborrecê-la, meter a mãe desconfiada nesta trapalhada. Ufa. Mas se escrevo aqui, quase em segredo, longamente, para um destinatário meio irreal que talvez nem exista, não incomodo ninguém, não estou a pedir nada a ninguém, não reivindico nada. Tenho tempo de pensar, de organizar as minhas ideias, de avaliar os meus sentimentos para tentar percebê-los. Essa maneira de passar o tempo faz-me correr o risco de reacender fogueiras antigas, apagadas. Mas é um risco que eu ainda assumo com prazer. E de resto, se não me apetece, não escrevo. Se escrevo, escrevo o que me apetece - e ao contrário de muita gente escrevo sobre o que sei, não necessito de inventar literatices artificiais. É essa a minha disciplina. Embora às vezes me escape o sentido das suas obsessões, que nunca acabarei de investigar, sei que a minha imaginação opera com método, impedindo-me de escrever ao acaso sobre assuntos fúteis.

Um cadáver é um objecto desagradável, incómodo, temos de reconhecer. Está a mais, mas ainda ninguém nos livrou da sua presença de boneco inútil. Se amámos o vivo que agora é cadáver, mais dura se torna a experiência: o que se mexia, deixou de mexer; o que sorria, tem os lábios cerrados para sempre; o que nos olhava, tem os olhos fechados. Não adianta tentar ressuscitá-lo. O cadáver está morto, rígido, frio. O que existia deixou de existir. Agora temos um pedaço de matéria com a forma do que existiu e que tinha um nome. O nome vem-nos ainda aos lábios, timidamente, com vergonha. De que serve? De nada. O morto não nos ouve, não responde.

Apetece fugir, ir para longe, esquecer que em tempos, ainda ontem, conhecíamos o vivo, estávamos com ele. Não suportamos o morto enquanto morto durante muito tempo, por muito amor ou amizade que lhe tenhamos tido. Por ora ele tem ainda a forma de qualquer coisa que se pode identificar, lembra o vivo. Mas a sua imobilidade e indiferença à nossa presença deixa-nos inquietos, perplexos, desagrada-nos. Em breve a matéria começará a desfazer-se, a apodrecer. Da pele fresca e dos olhos expressivos vão escorrendo os líquidos, os vermes agitam-se, os odores espalham-se. Essa parte da vida e da morte do cadáver já se passa às escondidas, ainda bem. Nós já estamos longe, com a nossa dor e o alívio de nos termos afastado do lugar incómodo.

Eu sei, usar metáforas tão cruas para falar do amor revela mau gosto. Mas devo dizer que não estava a falar apenas metaforicamente. No meu espírito a indefinição e confusão das fronteiras entre um morto de carne que eu via na minha imaginação com a ajuda da memória e o morto invisível (o do amor que me deixara de luto) eram a realidade da minha experiência, era o que me estava a acontecer. Eu estava num estado de confusão tal que não distinguia os dois cadáveres um do outro, para mim tudo era morte, tudo era perda da forma, aniquilamento pelo desfazer da matéria. Estava errado? Não creio, acho até que atingi por momentos um estado de lucidez pouco normal.

Aquela que eu amara ou tentara amar fugira-me com o corpo e deixara-me como herança generosa o espírito, a alma. Que terá acontecido ao corpo neste seis meses, perguntava-me eu. Não tinha resposta que se pudesse confirmar cientificamente, mas imaginava as transformações que esse corpo começara a sofrer: ela engordara, tinha-mo dito ao telefone antes de desaparecer nos pinhais da sua quinta na Beira; os seus lábios e tudo o que no seu corpo podia abrir-se ao desejo ou à consolação de outro corpo já tinham, noutras cidades, noutros restaurantes, noutros hotéis, recomeçado novo ciclo de dádivas e devoções, de aberturas e oclusões; e certamente começara de novo a mentir. Mas eu que sabia? Estava apenas a inventar.

De qualquer modo, onde estava o morto? Isto é, aquilo que fora o nosso amor durante anos de entendimento e de desentendimento, de reencontros felizes, de mal-entendidos e de traições? Onde é que ela o enterrara? Com a ajuda de quem, pronunciando que orações ou imprecações rituais? Não sei, ela não me informou e eu não lhe perguntei nem me apetece perguntar-lhe. Deixarei o morto em paz, mas não me esquecerei de que metade do morto me pertence, é carne da minha carne, espírito do meu espírito. Ela enterrou a parte dela e a minha parte do morto no mesmo sítio sem as separar, imagino. Mas não me disse onde. Não critico, não condeno, mas também não sei se deva aprovar. Talvez tenha havido abuso da parte dela ao usufruir e dispor sozinha do cadáver, ao enterrar sem me informar, provavelmente em companhia de alguém que eu não aprovaria, o nosso morto comum, a última coisa que nesta vida nos ligou.

Quanto a mim, já expliquei: eu vivo apenas com o fantasma do morto, espécie de ser vivo apesar de tudo. Não sei onde está enterrado o morto, mas o fantasma simpatiza comigo, ficou do meu lado. Não posso assegurar, porém, que este mesmo fantasma ou outro não estejam a fazer-lhe companhia a ela. E se for o caso, nada exclui que ela se interrogue também sobre o que é que eu fiz do morto, onde é que o enterrei sem a consultar, sem lhe dizer nada. Podia escrever-lhe um postal ilustrado e dizer: já te esqueceste que o enterrámos, ao nosso querido e malfadado morto, na Mulholland Drive quando lá passámos no início do Verão passado? Tens a memória curta?

Mas que sentido tem esta ficção louca? Eu não me lembro de nada, não sei onde está enterrado o cadáver do nosso defunto amor, isto é tudo delírio conscientemente produzido. Ela, que o matou, é que sabe onde ele está. Ela matou-o e eu preferi que ela se fosse também embora, ficar ao pé de mim nessas circunstâncias era deselegante. Quanto a mim ela deve ter escondido o corpo lá na quinta do pai, debaixo de alguma oliveira. Longe da casa, para os cães não andarem por lá a focinhar e escarafunchar, acabando por trazer o morto cá para cima, expondo-o à curiosidade malsã das pessoas. Que morto é aquele, perguntava logo a mãe. E ela, a farsante, fazia-se desentendida, olhava teatralmente de lado, respondia: que morto? não vejo morto nenhum, que raio de conversa é essa? Ou então: ah isso foi um morto que apareceu por aí e eu disse aos empregados que o enterrassem antes que ele começasse a apodrecer e a infestar-nos com maus cheiros. Metia-se no carro e ia à vida dela, indiferente, sem remorsos.


E o espírito, que foi feito do espírito do morto do amor, o que é que lhe aconteceu, que destino foi o seu? Eu imaginava que ele sobrevivia ao meu lado encerrado numa redoma de vidro onde o enclausurara para evitar que se oxidasse. Por outras palavras: eu vivia com o fantasma de um vivo que na realidade já estava morto. E colocara o espírito invisível do morto em cima da minha mesa de trabalho, onde escrevia. O morto era o meu amor por ela, o nosso amor um pelo outro. O fantasma era só meu, vivia comigo e consolava-me, enganando-me permanentemente com astúcias imprevisíveis. Mas quem me garante que o espírito do amor, invisível, se encontrava de facto aprisionado na redoma de vidro? A minha fé é que era imensa, talvez tresloucada. Ela, imaginava eu numa das minhas versões da história, nada sabia da existência do espírito do amor que eu conseguira proteger da fuga, da dispersão ou da desagregação. E nada sabia também da existência do meu fantasma do nosso amor. Noutra versão eu admitia, porém, como bom filólogo, que ela também teria um fantasma ao seu serviço, fantasma do nosso amor morto que ela imaginava, ingrata e pouco lúcida, ter sido eu a enterrar. E quem sabe se numa das suas caixas de cremes ou de jóias não sobrevivia, receoso, envergonhado, escondido, o espírito do morto?

O fim desta história, infelizmente, não pode ser escrito aqui neste momento. Nem tudo o que vai acontecer aconteceu ainda. Os mortos deixam memórias imprevisíveis, interferem ainda com a existência dos vivos durante algum tempo, por vezes até durante muito tempo e eternamente. E eu já disse que em vez de inventar prefiro falar do que sei, não disse? Prometo no entanto que se tiver notícias do paradeiro e do estado de conservação do morto darei informação neste lugar. E digo a mesma coisa no que diz respeito ao fantasma que por ora se tem revelado simpático comigo mas sobre cujo comportamento futuro nada posso prever nem portanto adiantar.

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