Saturday, March 17, 2012

O apagador de memórias


Fede Galizia

Naquela segunda-feira à tarde, eram três menos um quarto, o psicoterapeuta pegou numa caixa preta de plástico um pouco mais pequena do que uma caixa de fósforos das grandes, talvez do tamanho de um ipod. Eu já estava sentado numa cadeira em frente dele na sala do costume, a que tinha uma janela que dava para a rua. Ele disse-me: pegue neste dois fios. Eu peguei neles e na extremidade dos fios havia uma espécie de peixinho pequeno oval de plástico. Ele mexeu num interruptor, eu tinha já os peixinhos de plástico bem fechados nas mãos, um em cada, e comecei a sentir vibrações que chegavam a um ritmo regular, alternadamente na mão esquerda e na mão direita.

Ele disse: isto é um apagador de recordações, um eraser, tudo o que quiser apagar da sua memória pode ser apagado. Eu acreditei nele, em parte porque já tinha visto na internet que outras pessoas também acreditavam nessa cura milagrosa, embora cientificamente inexplicável.

A sessão tinha sido prevista com antecedência e eu tinha chegado cheio de curiosidade. Nem digo de esperança, só de curiosidade. Mas o tempo ia passando, a conversa amolecia - e nada. Perguntei-lhe enquanto ele falava comigo quando é que começávamos com essa máquina de apagar as recordações desagradáveis. Ele disse: espere um pouco, primeiro temos de preparar o terreno. E acrescentou: diga-me o que sente quando pensa nessa mulher de quem se separou. Eu disse: sinto muitas coisas diferentes e contraditórias, depende dos dias e dos momentos. Às vezes apetece-me chorar, outras vezes odeio-a, outras vezes acho que já devia ter-me separado dela há mais tempo. Ele disse: se lhe apetece chorar, então chore, berre, pinte a manta, vocifere. Chorar faz bem. Eu disse: pois, mas creio que já chorei o bastante, há dias segui o seu conselho e fui até lá acima à montanha. Insultei-a, chorei enquanto conduzia o carro e dava as curvas, a estrada era estreita e eu cruzava outros carros e pensava nela que tinha estado ali comigo tantas vezes, chamava-a e dizia-lhe palavras cheias de ternura e amor, depois logo a seguir lembrava-lhe da leviandade com que ela tinha impedido as nossas relações de se terem desenvolvido serenamente. Mas agora já não me apetece chorar.

Então o que é que lhe apetece fazer agora, perguntou ele. Eu respondi: apetece-me que me deixem em paz, quero afastar-me desta história, esquecer essa mulher, esses anos, esses mal-entendidos, esses excessos, essa insensatez, já basta. Apetecia-me que ela tomasse juízo e entendesse uma série de coisas em vez de fazer asneiras a seguir umas às outras. Porque ela é da minha família, entende? Ele disse: muito bem, mas então diga-me o que sente exactamente quando pensa nela e o que é que sentiu quando ela lhe telefonou há dias. Eu reflecti um pouco e disse: fiquei sobretudo muito irritado, muito zangado, não estava à espera de a ouvir. Ela afastou-se de mim, imagina que já não me ama. E só diz coisas sem sentido. No fim de mais uma conversa absurda e insensata proibi-a de me telefonar. Óptimo, comentou ele, ficar zangado, irritado, enfurecer-se, também é uma solução. De qualquer modo, não se preocupe demasiado. Claro, vá agindo com coerência, mantenha-se zangado por exemplo. Mas o mais importante é que nós vamos apagar isso tudo da sua memória e acabar com o problema.

Podemos começar? Feche os olhos e respire fundo. Respire a um ritmo regular, sempre profundamente. Sinta as vibrações nas suas mãos, respire ao ritmo dessas vibrações. Ele já tinha adaptado a velocidade e o intervalo das vibrações ao ritmo que eu escolhera. Varia com as pessoas, disse ele, é uma coisa muito subjectiva. Eu escolhi um ritmo relativamente pausado, não gosto de correrias, e depois começámos. Eu estava muito sério, muito concentrado, de olhos fechados. Seguindo as suas ordens pensei primeiro em coisas agradáveis, depois em coisas medianamente desagradáveis, depois em coisas muito desagradáveis, depois de novo em coisas agradáveis. E ia respirando fundo, ao ritmo das vibrações. Podemos apagar tudo, tinha ele dito, isto é um eraser, um apagador. Eu tinha lido na internet que de facto era possível cortar a comunicação e portanto a relação entre os acontecimentos e as reacções emocionais a esses acontecimentos. Diziam os artigos que eu li que através de movimentos oculares, usando uma lâmpada, ou através de vibrações, enquanto se recordavam acontecimentos traumáticos, se podia mudar, deslocar na memória a posição dos acontecimentos que ela guardara - e dessa maneira romper com as relações automáticas, pavlovianas provavelmente, entre o acontecimento e a reacção emocional que lhe estava associada.

Apeteceu-me rir? Antes pelo contrário, levei tudo muito a sério. Não tinha descoberto na internet inúmeros, incontáveis especialistas do apagador de memórias dolorosas em vários países? Se tanta gente acreditava na eficácia dessa terapia, quem era eu para contestá-la? Só no dia seguinte à noite, em casa, é que pensei bruscamente que podia ser a segunda vez que este tipo me estava a enrolar. Sem eu me dar conta, fazia-me comportar-me de maneira ridícula, infantilmente. A primeira vez, há muitos anos, surpreendera-me com um tiro de pistola de carnaval ou de criança. Tinha-me mandado sentar no chão e disse: você fecha os olhos e pensa em coisas desagradáveis, no que o faz sofrer, nessas recordações monstruosas que lhe envenenam a vida. Quando ouvir um ruído que eu vou fazer, muda rapidamente de pensamento e imagina-se num sítio de que goste, num lugar agradável onde está feliz a fazer o que lhe dá prazer.

Agora, mais de dez anos depois, a cena parecia repetir-se. Só que a brincadeira desta vez era com uma caixinha de plástico que devia ter pilhas lá dentro e não com uma pistola de criança ou de carnaval. Ele, que entretanto também envelhecera, adquirira certamente mais experiência, modernizara-se. O aparelho novo, a que ele chamava eraser, era uma prova disso.

Eu tinha ido vê-lo meio desconfiado e curioso, a pensar: desta vez como é que ele vai resolver o problema, o meu grave problema, o que é que ele vai inventar? Aí à segunda ou terceira sessão pensei: acho que me enganei, ele está a fazer-me perguntas que me parecem sem grande interesse, parece um psicólogo tradicional, aburguesou-se, perdeu o talento. O que é que eu estou aqui a fazer, isto não avança.

Eu perdera o meu tempo a contar-lhe os meus problemas, às vezes minuciosamente, e ele, o americano aparentemente ingénuo, em vez de estar a ouvir o que eu dizia, de prestar-me atenção, de me levar a sério, estava era a magicar a maneira de me apanhar na minha própria armadilha para me fazer compreender uma vez mais a estupidez das minhas ambições e da minha visão idealizada dos especialistas do sofrimento psíquico. Provavelmente já me tinha curado, sem eu me dar conta, da infelicidade que me apoquentava os dias e as noites.

Era evidente que eu me deixara enrolar mais uma vez. Sem me aperceber de nada. Só depois de algumas semanas é que pressenti que alguma coisa tinha estado a acontecer enquanto eu pensava que não estava a acontecer nada. Com que então, apagador de memórias? E eu, infantilmente, acreditara. Acreditei em tudo, fiquei à espera de ver os meus problemas desaparecerem: apagados, enviados para longe, enterrados definitivamente, graças à caixinha mágica e às suas vibrações. Só algumas horas depois da cena ridícula, tendo entendido a esparrela em que caíra, é que desconfiei de tudo e percebi que a terapia chegara ao fim. Os meus problemas estavam resolvidos porque, não sendo problemas, não se podiam resolver; e porque, não se podendo resolver, não eram problemas. O que eu tinha diante de mim era apenas a minha vida estúpida e não podia escapar-lhe. Era com ela que eu tinha de lidar. Sozinho, porque Deus não existe e os psicoterapeutas têm poderes muito limitados.  

No comments: