Tuesday, March 13, 2012

o amor








no que respeita ao amor é melhor considerar
cada relação como uma etapa da volta ao mundo
em oitenta dias. disciplinadas as surpresas e as
expectativas talvez se possa atenuar o fervor
do entusiasmo e limitar os erros da cegueira inicial.
convém apanhar um táxi ou o autocarro e desaparecer
antes de se ter manifestado o rancor que sucede
à frustração final. quem sabe amar? bla bla bla.
qualquer ilusão de eternidade está excluída.
ficam as cervejas as águas minerais com gás
as laranjadas frescas a nostalgia das tardes
passadas à sombra debaixo das árvores.
nalguns casos a excitação da clandestinidade
fez passar por amor a boçalidade do vício.
noutros casos a traição mútua dos amantes
já era notória à mesa do restaurante. pode
ir-se de barco de automóvel de balão de
mão dada ou de avião. eu prefiro a bicicleta.
o mais importante em questões de amor não
é certamente o volume de líquidos produzido.
nem o número de setas que atingiram o alvo
e fizeram sangrar com tanta pena nossa quem
nós amávamos ternamente. o que conta é nuns
casos o que aconteceu e noutros o que não
aconteceu. cada relação é uma história com o seu
dna específico impossível de identificar. o ódio e
a paixão não se podem avaliar pelas aparências.
eu nunca amei de gôndola embora tenha estado
em veneza. porquê? não calhou não era o meu
estilo. ainda estou a tempo eu sei esperam
por mim as mãos que necessitam de acariciar
os lábios que nunca chegaram a confessar o
grande segredo o rosto que nunca se revelou
na sua nudez sem arte. e só eu saberei decifrar
a dor e o exagero do êxtase inexistente soprar
com assobios escapando-se por entre os meus
dentes os orgasmos simulados ou alcançados à
custa de cansativo trabalho de carpintaria corporal. 
o corpo é um motor dividido em peças algumas 
acessíveis e outras nem sequer visíveis e por vezes a 
ferrugem ameaça e os parafusos soltam-se  as latas 
batem com ruídos roufenhos assustadores. os meus 
dedos porém são puros não aprenderam a fazer 
cócegas preferem secar as lágrimas que os fantasmas 
do sonho me deixaram em herança e que escorrem
das paredes brancas em noite de chuva e vendaval.
ao crepúsculo os meus olhos debruçam-se da varanda
e na rua deserta e húmida revivem memórias da infância.
o sol entretanto vai desaparecendo mais um dia morto
assassinado e ninguém o chora ninguém o lamenta. ser
condenado a viver quem não sabe amar que tortura. eu
todos os dias faço um pequeno esforço para entender
a situação e anoto num caderno os sorrisos que recebi
os olhares que encontraram o meu a maneira como me
falaram avalio atribuo pontos classifico não me esqueço
nunca da menina que não me deixa pagar o café que é
boazinha comigo sem eu saber porquê queria que ela
fosse a minha companheira de infância companheira
de todas as brincadeiras todas as tardes queria ir com
ela de mãos dadas comprar rebuçados à mercearia e ir
pelo campo subir às montanhas a dedicação dela
havia de salvar a minha vida do desastre limpá-la de
detritos ela seria amiga sem deixar de ser amante
do seu corpo irradiaria a ternura como uma água
um bálsamo uma celestial consolação estou atento
e disposto enfim a assumir o desejo falta-me aprender
tanta coisa eu vivia adormecido anestesiado no vício
de passar o tempo lengalenga tédio como curar-se
de tanta distracção como eliminar a recordação dos
anos de oiro e marfim nos braços da bruxa de farrapos
que à porta do castelo assustava os pássaros e nós
tomámos a sombra do espantalho pela figura ideal da
amada fiel sublime divina e pura. amar muito e
privadamente ver de perto recolhido em silêncio
religioso os rostos as mãos as pernas os peitos
que respiram suavemente sentir o perfume natural
do corpo concentrar-se em pormenor na amada
não se distrair da densidade do ser nela não se
desencorajar com os obstáculos com a falta de
luz com os ruídos com as vozes que da rua tentam
corromper-nos fazer de nós bonecos de carrossel.

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