Wednesday, March 14, 2012

A ignorância



Edward Munk

A ignorância sim a ignorância disse Z. também serve para a gente ir fazendo muita coisa para ir vivendo para ir construindo o nosso destino e fazer carreira está a ver sem ignorância sem inocência sem ingenuidade e alguma arrogância da nossa parte como nos atreveríamos a exprimir o nosso ponto de vista publicamente sem temor como nos atreveríamos se tivéssemos lido todos os livros sequer a falar meu amigo quanto mais a escrever a ignorância é que nos salva da inércia e do desespero absolutos é ela que nos permite agir e não estou a dizer nada que não se saiba só que a gente não toma consciência disso é preciso ir vivendo e a gente vive é preciso ir fazendo e a gente faz mas agora com a experiência já percebi que há que ser modesto a gente sabe pouco muito pouco cada vez se me torna mais difícil dizer alguma coisa sem duvidar sem ver o que está para lá do que eu digo a relativizar as minhas afirmações a minha pretensa ciência sobre o mundo sobre a vida sobre mim mesmo sobre os outros há um lado positivo nisso a gente estuda trabalha aprende enfim alguma coisa claro e se não fôssemos ignorantes não progredíamos não aprendíamos não agíamos ficávamos sentados ao sol o dia inteiro e pronto.

O outro H. estava sentado a ouvir e sorria e ele Z. ia falando ambos a fumar na esplanada do café eram seis da tarde mais um dia igual aos outros que se ia aproximando do fim e na cidade tranquilamente indiferentemente na aparência a vida continuava e então ele o outro H. disse tem toda a razão e pense também no amor o próprio amor meu amigo se não fôssemos ignorantes inocentes ingénuos tão jovens não podíamos amar é evidente se quer saber também tenho muitas dúvidas e muitos remorsos e já não sei se deva acreditar pode ser que a minha experiência pessoal seja mais negativa do que a de outras pessoas ou então esqueci-me e estou a deformar as coisas mas como é que se sai da solidão explique-me há momentos em que não há saída o amor ou a ilusão do amor são as grandes saídas claro mas não depende de nós exactamente essas coisas não se decidem nem se controlam por isso eu pergunto-me quando não se acredita com razão ou sem ela no amor de alguém quando sabemos pensamos que na realidade as pessoas cada um de nós só se amam a si próprias só nos amamos a nós próprios eu pergunto-me qual é a saída então qual é?

Z. sorriu por sua vez e disse pois talvez não sei sei lá não me custa nada estar de acordo consigo estava a pensar que as circunstâncias vão mudando e condicionam os nossos sentimentos e a nossa visão do mundo de nós mesmos e dos outros mas a verdade é que seja qual for a circunstância a gente necessita de companhia de atenção de uma voz que nos tenha em conta de uns ouvidos que estejam interessados no que nós dizemos mesmo se não dizemos nada de importante de umas mãos que nos toquem de um corpo que se deixe olhar e acariciar é sexta-feira à tarde por exemplo chega-se a casa a semana de trabalho terminou e a única companhia que temos é a da rapariga no filme que passa na televisão não está certo é injusto é assustador é terrível mas que fazer a culpa deve ser nossa não soubemos precaver-nos contra esse abandono em que subitamente nos encontramos e então sentamo-nos no sofá deixamo-nos cair no sofá a olhar para a parede ou para a televisão e a ouvir a rapariga no filme falar e a ouvi-la rir-se e interrogamo-nos sobre o que é a vida o que é viver o que estamos aqui a fazer e lembramo-nos da garrafa de whisky que está no armário mas quem é que teve a ideia de nos meter nestes sarilhos sem fim e não há resposta e a sexta-feira vai avançando e a solidão vai aumentando fica gigantesca ameaçadora medonha e temos um pavor monstruoso da noite e do futuro de todas as noites que vão vir e da escuridão desabitada do deserto do futuro e então sem piedade de nós os erros que cometemos se é que foram erros sabe-se lá nunca se pode saber torturam-nos pesam-nos na memória ah as viagens desperdiçadas ah os momentos de irritação absurda ah as paisagens que mal vimos ah as pessoas que não soubemos apreciar ou amar ah o egoísmo em que nos afundámos e sentimo-nos tão estúpidos tão miseráveis claro que é pior ainda se acreditamos que a culpa é nossa se pensamos que nos foi dada uma oportunidade ou duas ou três e não as aproveitámos não soubemos fazer o necessário ou não pudemos ou não nos deixaram claro que a culpa nem sempre é nossa não pode ser toda nossa mas que importa depois do erro ou da derrocada saber de quem é a culpa a verdade é que estamos sós ninguém se interessa por nós as pessoas os outros querem lá saber aliás nós não teríamos paciência para os aturar se eles quisessem consolar-nos ou quisessem intrometer-se na nossa vida nós próprios queremos lá saber dos outros e da vida deles que se lixem como nós nos lixamos cada um de nós vive na sua prisão de vidro como uma aranha melancólica e solitária e misteriosa no canto da casa e lá dentro do caixão de vidro sentimo-nos como insectos imundos às vezes e sentimos o corpo cheio de veneno de porcarias de objectos estranhos e então aspiramos bruscamente quase com desespero à ligeireza e ao bem-estar que sucede à purificação meu deus meu deus imaginamo-nos culpados de não ter sabido lidar com o destino de não entendermos de não termos entendido o que havia a entender a vida o sentido e a importância da vida escaparam-nos enquanto era tempo de entender não entendemos e se pensamos na morte sabemos que se morrêssemos nesse momento alguma coisa muitas coisas ficariam por confessar e por compreender e por fazer algumas pessoas nunca saberiam o que ainda temos para lhes dizer e é terrível pensar que não podemos voltar cá de novo para viver e tirar partido da experiência anterior pois é temos de aceitar que é assim só se vive uma vez enquanto se está vivo ainda se pode emendar o que se fez antes nem sempre é certo mas enfim a possibilidade de redenção teoricamente existe só que. Olhe às vezes penso que se tivéssemos coragem se tivéssemos tomates mudávamos radicalmente a nossa maneira de viver íamos por exemplo morar para outro sítio e então começávamos a viver de outra maneira devíamos não é ou se não queremos mudar de vida corrigir esta merda de destino em que sufocamos pelo menos podíamos ir embebedar-nos num bar ruidoso ao lado de gente tão só tão perdida tão atormentada como nós mas o hábito o comodismo o tédio o snobismo a preguiça o desprezo o desinteresse um resto de dignidade ou de esperança ou talvez o duro ascetismo que nos impomos sei lá não fazemos nada suportamos tudo como se fosse inevitável um destino de cadela em resumo ficamos em casa a aborrecer-nos vamos ficando em casa e o tempo passa inutilmente.

O peso da solidão é de facto assustador eu próprio certas noites se lhe contasse mas prefiro nem falar nisso certas coisas devem permanecer privadas e há dias imagine disse H. eu estava a jantar sozinho num restaurante em vez de ir para casa bruscamente cortei à direita no semáforo a solidão metia-me medo e fui ao restaurante assim que entrei senti-me melhor havia luz a rapariga que me servia sorria era simpática atenciosa mais tarde vi que numa mesa ao lado a dois metros estavam duas pessoas a mãe e a filha a jantar também ambas loiras e a dado momento a mãe levantou-se um pouco arrastou-se no banco de coiro e perguntou-me se eu estava sozinho eu já tinha olhado para elas mas distraí-me a pensar na minha vida e eu surpreendido disse que sim que estava sozinho e ela perguntou se eu não queria fazer-lhes companhia a ela e à filha e eu nem tive tempo de pensar aceitei e fui sentar-me ao lado delas estivemos a conversar durante meia hora pelo menos a mãe é professora e a filha é estudante a miúda tinha uma maturidade impressionante entendia tudo estava atenta e não se mostrava intimidada estava à vontade e nem se pôs com garridices de adolescente tonta antes pelo contrário falava com a mesma convicção que a mãe impressionou-me muito dezassete anos apenas caramba e tão séria tão responsável depois eu tive de me ir embora mas ficámos de nos encontrar noutro dia para conversarmos nunca me tinha acontecido nada assim foi uma coisa estranha diferente inesperada será que a solidão se lê no rosto das pessoas na maneira de olhar e de comer é possível ou é deus que existe e decidiu por momentos abrandar a sua cólera quem sabe terem-me estendido a mão falado comigo nesse dia pacificou-me reconciliou-me com a vida e comigo mesmo pode ter sido uma cilada mais uma armadilha do destino e a solidão vir a ser muito pior se houver alguma desilusão mais tarde mas enfim se não corremos riscos para que serve estar vivo e também não podemos saber não acha? a mãe ficou de me telefonar para a semana provavelmente vou tomar um café com elas estou curioso quem sabe se não é o princípio de uma amizade diferente interessante enriquecedora a mim dava-me jeito ter assim uma espécie de família perto de mim com quem conviver os meus filhos estão na europa e só os vejo uma vez por ano enfim vamos ver o que acontece não espero nada mas estou curioso é natural.


H. levantou-se apertou a mão a Z. bateu-lhe no ombro num gesto de modesta solidariedade disse agora tenho de ir prometi à minha vizinha uma viúva que acaba de perder o marido que a levava ao supermercado a pobre da mulher  não tem saído de casa continua pesarosa numa dor sem limites dá-me pena vê-la assim. Z. viu-o aproximar-se do carro entrar no carro e pouco depois desaparecer na rua que levava ao Jardim Botânico.  



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