Friday, March 16, 2012

equívoco

Winterhalter


a gente fala, quem nos ouve? entre as pessoas que nos ouvem, quem prestou atenção e foi seguindo sem se perder o que nós dissemos? entre estes últimos, quem entendeu o sentido das nossas frases?

a gente escreve, quem nos lê? quem nos leu, leu-nos como? quem não nos leu sabendo que nós escrevemos, porque não nos leu?

se eu quisesse escrever uma história, podia ter começado assim, com estas perguntas. o leitor, provavelmente, interrogava-se logo de início aonde é que eu o queria levar, que intenção oculta e só mais tarde visível me levara a começar a minha história daquela maneira. e eu talvez respondesse que embora me ocupasse o espírito uma questão particular não podia, sinceramente ou honestamente, isolá-la tão depressa, afirmar que fora ela que me levara a escrever.

fiz várias perguntas mas tenho de confessar que naquele momento inicial só uma me interessava: porque não me lêem algumas pessoas que sabem que eu escrevo? porque me ignoram? porque não sei nada delas? onde se meteram? porque desapareceram do meu universo e é como se já tivessem morrido?

vivo longe das cidades, comunico com pouca gente. no que eu escrevo a imaginação tem um lugar importante. saio da minha casa no sopé da montanha, vou pelos caminhos e veredas, assobio. ou, calado, vou embebido nos meus pensamentos. recordo-me de mulheres e homens que conheci, de cidades onde vivi, de fronteiras que atravessei. mal dou por mim cheguei ao cimo de uma colina onde há uma fonte. paro, meto a boca à água fria, sacio-me. a água escorre-me pelo queixo, rio-me, depois limpo-me com a mão. é a minha vida verdadeira, sem imaginação. vida de vagabundo feliz. mas em casa, sentado perto da janela a olhar para os pinheiros, ponho-me a escrever. escrevo, escrevo, é um vício. encontrei uma mulher, ela interessa-se por mim, diz que talvez me ame. fico surpreendido, começo a imaginar o amor. um amor que nunca vivi mas finalmente vou conhecer, graças a essa mulher fora do comum que inesperadamente cruzou a minha vida. passo a manhã e a tarde a escrever o que ela diz e o que eu respondo, o que ela pensa e o que eu penso, a tentar perceber o que ela sente e o que eu sinto. à noite, quando me deito para dormir, estou inquieto. apaixonei-me. a minha vida mudou.

na manhã seguinte acordo sozinho na minha cama e penso: onde é que ela está, porque não disse nada ainda? levanto-me preocupado, tomo um duche, faço a barba, tomo o pequeno-almoço. e ela sem dar sinal de vida. saio pelos caminhos e veredas, desta vez vou à aldeia mais próxima comprar cigarros. vou atento, olho para os lados como se esperasse descobrir alguém ou alguma coisa, não assobio nem canto, não consigo distrair-me nem pensar. estou à espera de quê? procuro e não encontro. na aldeia, depois de comprar cigarros, sento-me num café a ler o jornal. não consigo concentrar-me, os meus olhos levantam-se constantemente das letras e perdem-se no ar. isto não tem sentido, digo para mim mesmo. decido voltar a casa.

em casa a inquietação continua. para lhe escapar sento-me à mesa de trabalho ao lado da janela e começo a escrever. ela vem logo ter comigo, pergunta-me por onde é que andei, estava à minha espera há tanto tempo. eu rio-me e digo como é que eu podia saber que estavas aqui à minha espera, não estou habituado a tanta fidelidade, mal nos conhecemos ainda. passo a tarde a ouvir o que ela diz, a dizer-lhe o que eu penso. a dado momento ela olha para mim e diz que me acha adorável. porquê, pergunto eu, o que é que eu tenho de adorável? ela não me responde. apeteceu-me beijá-la mas receei ofendê-la, conhecemo-nos há tão pouco tempo. estou impressionado com a maneira como ela me olha, com o que ela diz, com a sua misteriosa personalidade. não sei o que me vai acontecer, mas vai acontecer-me qualquer coisa.

quando abandonei a mesa de trabalho fiquei outra vez sozinho. apetecia-me falar com ela mas não posso ser eu o único a tomar a iniciativa. ela pode telefonar e não telefona. pode enviar-me um email ou uma mensagem pelo telemóvel e não o faz. porque é que tenho de ser eu sempre dar o primeiro passo? chegou a noite, senti-me triste. não, não eram horas de me sentar de novo à mesa de trabalho. seria, além disso, ceder, fazer-lhe concessões, quebrar as minhas regras de conduta. não é orgulho, é respeito. eu não exijo nada, só quero o que me derem espontaneamente, de livre vontade. fui deitar-me sozinho a pensar nela. ama-me? vai amar-me? poderei contar com ela? como saber?

a minha história, afinal, não era acerca de quem podia ler-me e não me lê. dei-me conta agora de que é acerca de quem poderia telefonar-me ou escrever-me e não o faz, deixando-me numa solidão insuportável.

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