Saturday, March 10, 2012

Ela fazia anos

Era o dia dos teus anos.
Que eram teus, evidentemente.
E a ninguém tinhas de explicar
o que fizeras, o que fazias deles.
Um dia viveste e eu conheci-te.
Um dia morreste e eu não te
esqueci verdadeiramente, a intriga
do teu destino fascinava-me.
Às vezes odiava-te, outras
vezes ainda te amava. Mas
fiquei calado; se eu falasse,
tu não me entendias. Assim
iam passando os teus anos 
e os meus, cada um de nós
abandonado ao seu destino.
Habitou-te o anjo com a
sua inocência divina.
Um dia, porém, o anjo
atravessou os pântanos e
as florestas, chegou à
porta da casa enegrecido
pelo rigor da intempérie
e pelo pó escuro dos
caminhos. Tentei
reconhecer-te. Tu
afastaste-te, desagradada,
achavas-te bela nos teus
trajes de bruxa desgrenhada
que atravessara as montanhas
enlameadas. Ah, as viagens e 
os anos, o que eles fazem de
nós, aquilo em que nos
transformam. É inacreditável,
meu amor que já não o és, que
na verdade nunca o foste senão
por engano. Engano meu, tu não
sabias o que é o amor. Aprendeste 
entretanto? Claro que não acredito,
mas também não tem importância.
Viver por engano não é um risco
que todos nós corremos? E quem
sabe se o engano não está em
mim, que não entendo a cara
renovada da tua pureza, o novo
bater do teu coração, ah, sim,
livre enfim das confusões
e da maldição das paixões 
que nos arrastam, indecisos,
pelas ruas de cidades inabitáveis.
Happy birthday, anyway.

Agosto, 31, 2011


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