Saturday, February 11, 2012

Acerca da pressuposta universalidade do gosto


A questão da suposta universalidade do gosto não pode ser resolvida pela referência às qualidades do objecto apenas. Parece-me que isso é evidente. A questão do gosto – a questão do prazer ou desprazer provocados pelo objecto – é sempre condicionada ao mesmo tempo pelas qualidades do objecto, por aquilo que ele é, e pelas qualidades do sujeito, por aquilo que constitui o sujeito enquanto tal (e que lhe permite relacionar-se com o objecto). Algumas qualidades do sujeito são em parte comuns a todos os sujeitos: todos sabemos caminhar, respirar, olhar, e se nos pisam o pé sentimos dor.  Mas o sujeito constituiu-se através da experiência e a experiência é sempre pessoal. Enquanto sujeito eu sou o resultado da minha experiência como sujeito: resultado de tudo o que me aconteceu, de tudo o que fiz ou não fiz, de tudo o que senti ou não senti, de tudo o que aprendi ou não apreendi, de tudo o que sei ou não sei, quer eu esteja consciente disso quer não. Por essa razão a relação que se estabelece entre o sujeito e o objecto é sempre a relação entre duas entidades dotadas de qualidades do Ser que escapam à universalidade. Essas qualidades do Ser são o resultado de algumas características do objecto e do sujeito anteriores à experiência: é um livro, é um quadro, é um filme; sei ler, tenho olhos para ver. Mas se o facto de eu ter olhos me permite contemplar um quadro, não basta para explicar de modo nenhum o que eu sinto ou penso quando ou enquanto olho o quadro. O facto de eu saber identificar os caracteres do alfabeto e poder ler um livro não explica de modo nenhum por que razão eu tenho prazer em ler Camões e não tenho prazer em ler outros poetas. As distintas qualidades ou modos de ser do sujeito e do objecto quando comparados com outros sujeitos e com outros objectos tornam privada e única a relação entre cada sujeito e cada objecto. Sendo única, ocorrendo apenas uma vez, essa relação entre o sujeito e o objecto não poderá nunca ser universal. As razões que permitem falar de  identidade de gosto ou de saber – identidade real ou aparente, total ou parcial - não são inacessíveis ao entendimento racional nem, consequentemente, à explicação. A universalidade não existe, é um conceito utópico. O consenso que permite falar de universalidade é uma construção social destinada a criar artificialmente uma comunidade ilusória. Esse consenso estabelece-se, nos melhores casos, tendo em consideração apenas algumas qualidades do objecto e algumas qualidades ou capacidades do sujeito. Nos piores casos o consenso nasce da simplificação abusiva e da manipulação superficial, senão comercial, das qualidades do objecto e das qualidades e capacidades do sujeito. É sempre mais fácil pôr de acordo cem sujeitos sobre quatro qualidades do objecto do que pôr de acordo um milhão de sujeitos sobre trinta qualidades do objecto. A universalidade das condições a priori do conhecimento e do gosto é uma utopia. Acreditar que existe uma faculdade do espírito especializada unicamente em sentir prazer ou desprazer, que actuaria independentemente de outras faculdades do espírito - como a de compreender e de conhecer, por exemplo – também me parece uma ilusão teórica. Sentir prazer e desprazer não acontece à margem de outras faculdades do sujeito nem é inacessível à explicação e ao conhecimento racional. 

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