Tuesday, July 19, 2011

E se não fossem as palavras



As árvores: nunca se queixam.
Os rios: recebem a água e levam-na
ao seu destino, sem se desviar do
curso. As casas: um dia chega a ruína.
Esta é a ordem: o céu lá em cima, a
terra debaixo dos nossos pés. Mas
nós, porque nos queixamos? Quem
decidiu que conheceríamos a dor
depois da alegria, a dúvida depois
da certeza fez o melhor que podia.
O amor e o ódio amenizam com 
a sua violência a monotonia do tédio.
Não nos prendem à terra as raízes
do sangue, não são irrefutáveis as
razões da ira nem as inclinações
do coração. E por isso receamos
perder-nos. Como se fosse tão 
incerto o nosso destino como a
aparente inconstância dos elementos:
o ar, a água, o fogo, a terra. Mas
o sol e a chuva não vêm por acaso.
E nós, além da dor, do medo e da
excitação do desejo e da alegria,
que podemos esperar? Viver na
incerteza é a nossa condição. As
árvores, os rios, as montanhas
e o mar não receiam. Estão onde
têm de estar, vão aonde têm de
ir, nascem e morrem diante dos
nossos olhos sem explicação. A
explicação existe, mas quem
pensa em explicar uma manhã
de sol ou uma tarde de chuva?
Com firme monotonia os rios
atravessam as planícies e correm
entre as montanhas. E as árvores,
circunspectas, seguras nas suas
raízes, resistem à tempestade
e permanecem silenciosas e 
tranquilas na sua imobilidade.
Por vezes uma árvore sucumbe
e cai, derrotada, mas a quem
lembraria lamentar a sua má
sorte? Quem interroga é 
porque pode interrogar.
Mas não é seguro que
responder-lhe havia de 
esclarecer o  mistério. Não
há mistério: a perplexidade é
uma forma de ignorância. E o
sofrimento, a desolação da
carne e do espirito, explica-se?
A água e o fogo não interrogam.

O nosso destino está cheio
de palavras, elas crescem como
os cogumelos entre os troncos
dos pinheiros na floresta perto
do mar. No nosso coração
irrompem sem cessar, como 
estações do ano, as dúvidas,
ele bate apressado ou quase
adormece na sua apatia. Não,
a paz não lhe é acessível.

Na tarde de Verão o meu espírito,
sem inquietação, observava o
mundo à sua volta. Era o seu
mundo e ele entrava em relação
com ele. Possuía-o? O que é
possuir? O que será possuir?
Tranquilo como uma árvore
segura do seu destino, como a
água do rio a quem nunca
preocupa a finalidade da
viagem, eu atravessava as ruas
e as praças, às vezes sentava-me
num café e lia. Talvez, por vezes,
em segundos imperceptíveis, se
visse nos meus lábios o esboço 
de um sorriso. Mas logo a seguir 
eles fechavam-se com prudência,
modestos. Arrependiam-se? O 
meu espírito, a morada do Ser.
Se não fossem as palavras só ele
saberia, na sua solidão, o que há
a saber, só ele sentiria na sua
carne, como se fosse um corpo,
o que se pode sentir. E tudo
o que não podemos deixar de 
pensar. Se perguntava, porém,
não era por acreditar que
se pode responder. Se lhe
inspirava comparações a
condição das árvores e dos
rios não era para se consolar: não
manchavam a sua pureza a inveja
nem uma ambição despropositada.
A nós não nos foi concedida a
impassibilidade que habita o destino
dos elementos. Podemos aprender?
A contemplação da verdade pode
assemelhar-se a uma aprendizagem:
todos os dias repetimos o que já
sabíamos e facilmente se esquece.


Sunday, July 17, 2011

Algumas pessoas, algumas cidades

Algumas pessoas, algumas cidades
atravessam a nossa existência; e da
sua travessia fica-nos no espírito, como
se ele fosse um corpo, a confusa e nítida
recordação. O próprio corpo, atento, sente
na sua carne, como se ela fosse espírito,
passar as emoções, elas circulam nele
como num rio que abre o seu peito de
água a quem ousa mergulhar na sua
imprevisível vontade de abraçar. As
praças, entre as paredes com janelas
das velhas casas, abrem a sua intimidade
aos passos ávidos e ao olhar irreverente
do curioso caminhante. Ele não tem pressa,
os seus passos não perseguem um destino
certo, nenhum lugar ou amor espera por ele.

Pedra amarela polida pelo tempo, pelo sol
e pela chuva. Nela a memória dos homens
e mulheres, das crianças que já morreram
ou nos observam pelos vidros, por detrás
das cortinas brancas. Somos habitados. O
viajante é habitado por emoções e sentimentos,
ele sorri ou observa, circunspecto, sem ele o ter
decidido assaltam-no talvez as perguntas ou
inquietam-no não se sabe que conclusões.
Há as ruas e as árvores que a ladeiam com
a sua sombra. Nos cafés riem raparigas
suavemente, rapazes bebem cerveja e falam.
Nós passamos, quem deu pela nossa existência?
Mas os ruídos e as cores da tarde ou da noite,
os movimentos ou a imobilidade dos braços, os
olhares daqueles que nos cafés e nas ruas com
ancestrais fontes eram a vida, eram o enigma,
eram a prova da nossa própria existência, são
agora, na cidade e nas suas ruas, nas suas casas,
a nossa recordação da pessoa que um dia fomos.
E quem éramos, realmente? Sabemos? Não se
pode prever que papel hão-de desempenhar na
nossa existência as casas e os rostos, os cheiros
e a música que de todos os lados vêm romper
o lago de areia lisa do silêncio. E das paixões
que, invisíveis, iam agitando os corações e os
espíritos em intrigas que nos eram desconhecidas
nós nada vimos e nunca poderemos falar. Nós
passámos e as cidades atravessaram o nosso
destino como se ele fosse um corpo. Como a
paixão de uma ou de muitas mulheres se
intrometeu no nosso destino para nos ensinar
o que é o amor e nos deixar entrever o que será
a morte, as cidades atravessaram-nos. Porque o
amor com que nós sonhamos, aquele de que se
alimentava a nossa imaginação, era apenas uma
ideia. Coisa livresca, afinal. O que era o amor
nós aprendemo-lo com aquelas que nos amaram.
Tê-las conhecido e ter sido amado por elas fez-nos
talvez lamentar os exageros despropositados da
alegria e da dor. E sem razão rimos, outras vezes
apeteceu-nos chorar. No seu ventre onde fermenta
a escuridão, a paixão guarda, escondida dos olhares
que não a sabem ver e ainda não a poderiam
compreender, a tortura do ciúme e a incapacidade
de alguma vez chegar. Maldição é viajar sem destino
que seja certo? Primeiro elas apunhalaram-nos com
o calor húmido da sua excitação imerecida e sem
limites. E depois, a frio, talvez sem premeditação,
arrancaram-nos do coração e do espírito o espinho
maligno da ilusão, o mal-entendido da esperança.
E um dia finalmente ficámos a saber o que é a
fidelidade e o que é a traição. Mestra da sabedoria,
a traição é uma semente que germinou na terra dos
sentimentos mais puros. Viveu escondida nos sorrisos
e no apetite devorador e insensato dos desejos
veementes. Mas a nós foi-nos revelado o segredo.

Nada é o que parecia ser. A aprendizagem nunca
terá fim. E quem tem culpa de não poder amar
duradoiramente? Os anos vão passando e nós não
queremos conformar-nos com a degradação do
projecto e do ideal. Mas morrer passa tão
despercebido. A folha caiu da árvore e o céu não
escureceu, irritado ou surpreendido, nenhum
soluço ou grito de revolta ou dor rompeu a
serenidade do fim da tarde na cidade que
adormecia no seu silêncio. Tendo recebido a
dádiva da revelação, nós entendemos que a nossa
aprendizagem do amor e da morte não ficará
imperfeita. Nem se poderá dizer que ficou incompleta
a nossa educação. Ver de perto a fronteira nebulosa
que separa a verdade da mentira, o amor do desamor,
a devoção do desprezo, transformou-nos. A ser
atravessados pelas cidades e pelo amor das
mulheres, íamos ficando adultos. E uma noite,
finalmente, perplexos no meio da avenida
da cidade desconhecida, noutro país, noutro
continente, pudemos gritar: sou um homem enfim,
já sei que tudo me pode acontecer. Entendemos que
o amor tal como o tínhamos imaginado não existe
verdadeiramente. Nada é como nos ensinaram ou
nós o quisemos aprender. Penetrar nos atalhos
tortuosos da nossa humanidade é uma ocupação
interminável. Somos o bem e o mal, generosos
no amor e na distracção, heróis e cobardes.
E na carne do espírito habituamo-nos à decepção
e a não esperar. É como aprender a falar. Em cada
episódio da nossa existência restaura-se a ingénita
ignorância. O sentido das palavras deixou de estar
preso à terra das origens, às raízes das árvores no país
da infância. A certeza e a dúvida não passam de acidentes
no caminho que leva à ignorância, essa sabedoria. E
desvendar é uma ocupação que nunca terá fim. Mas
o mistério existe, existirá o enigma? A tudo o que
nos acontece nós chamamos o nosso destino.
Colamos as palavras e as imagens recortados no
filme inacabado, recordações do dia ou da noite em
sucessivas estações, queremos escapar à confusão
e à desordem que sempre nos ameaçam. Para que não
fiquem perdidos na imensidão do caos os episódios
da história, nós procuramos ou inventamos o todo
em que se inserem as partes. As ruas da cidade,
os seus cafés, as árvores da avenida e os seus
transeuntes ressurgem do esquecimento, cheias de
alma. As palavras daquela que nós amámos, os seus
gestos e as expressões do seu rosto podem permanecer
para sempre incompreensíveis. Nós mesmos já não
sabemos se é acertado chamar amor ao que
sentimos nem como interpretar as frases que
nos pareceu que ouvimos. Mas o que aconteceu,
o que nós pensámos do que aconteceu, o que nós
vimos e ouvimos não pode ser apagado da memória
nem perde a sua realidade. O corpo e o espírito foram
atravessados pelo movimento da vida. Pelas sombras
e pela luz. Pelo sussurro do vento nas folhas das árvores,
pelo cantar da água discreta nas fontes e nos pequenos
rios. Pela inocência. E tantas vezes renunciámos ao amor.
O que não aconteceu também faz parte da história.
O que é o remorso? Porque é impossível esquecer?


Monday, July 11, 2011

A casa e a poesia



A casa: lugar dos segredos
inconfessáveis. Quem teria
tempo e a atenção necessária
para ouvir? As paredes, cúmplices, 
calam-se. E no entanto elas sabem,
guardaram na memória a recordação
dos gestos e das palavras. E, discretas,
assistem em silêncio ao regresso daquele
que tinha partido para sempre. Deixara-o só  
a traição: o amor puro corrompera-se, o seu
rosto sublime manchado pela mentira e pela 
perdição. E ele, então, reconhecendo a sua
ignorância, abandonara a casa. Era preciso
recomeçar, noutros lugares, com outras
pessoas, a aprendizagem. Talvez o destino
pudesse ser diferente. E a verdade, resgatada, 
teria o mesmo rosto. Mas não há, à nossa
espera, outros caminhos. Nem outras
casas são mais adequadas à habitação 
do que a casa antiga, aquela a que nos
tínhamos afeiçoado. A casa onde 
chegara ao fim a ilusão do amor
resistira à destruição. E ele, o foragido,
decidira regressar. À procura
de quê? Da ideia do amor 
antiga? Dnovo entre as paredes
protectoras, confundiam-se no seu
espírito o tempo passado e o tempo
presente. Ele sabia que os mortos não
ressuscitam do túmulo em que se
encerraram, que cada um de nós, 
incapaz de entender o que se passa, 
persegue teimosamente a fábula de 
um destino cheio de coerência. Não há
redenção. Mas do passado irrompia
ainda, como uma água limpa da
fonte inesgotável, a recordação do
amor. É esse o milagre: pertencer.
É essa a coragem: não duvidar.  

Não, não tenho nada a ver com os poetas
cuja única vocação é duvidar, dizia
ele. Eles destroem tudo aquilo em que
tocam, é essa a sua única obsessão. A
existência  é, para eles, uma ofensa à
inteligência, uma afronta ao nosso
orgulho. Isto é, uma ficção arbitrária
e inconsequente. Falta-lhes a coragem
para viver e desculpam-se com a falta de 
sentido do que existe. Mas o que existe
não precisa de ter sentido, basta-lhe
existir. De criar sentido não nos
ocupamos nós, incansavelmente?
E no excesso de sentido encontramos,
então, a ausência do sentido. Basta de
contestar e de se queixar. Rilke é o poeta.
Não Pessoa, que nunca coube na casa e
sempre preferiu refugiar-se no jardim a
olhar para tudo de longe, com o seu olhar
falsamente habitado pelas paixões que
lhe eram inacessíveis. Incapaz de perceber
e de pertencer, ele portou-se como a criança
insuportável e birrenta a quem todos os
brinquedos aborreciam - e que não queria
sentar-se à mesa. Rilke é o poeta. Ele
sobreviveu às dúvidas e ao desencanto, não
abandonou a casa nem se queixou de Deus.
Ele sabia que a única existência é aquela
que nos ofereceram e que rebelar-se não
era a solução nem a salvação. Rebelar-se 
contra quem? Deus não existe. Por detrás
da aparência de tudo pode revelar-se um
dia, inexoravelmente, o vazio de tudo. Mas
ele sabia que abandonar o barco no meio
da tempestade ou lançar-se no vazio do 
precipício seria ausentar-se definitivamente
do lugar de habitação - e para sempre
pôr termo à aventura e à paixão, renunciar.
Pertencendo, ele não quis que pensassem que
não pertencia. Renunciou a ser admirado pela
sua inteligência, glorificado pela sua lucidez?
Chamar ficção à existência não é renunciar?
Porque existir pode ser uma paixão. Basta
aceitar o que nos acontece, sem revolta contra
o criador. Pobre criador, que não tinha previsto
a rebeldia e a ingratidão do animal inteligente.
Mas o amor existe e o sofrimento existe, não
são apenas uma ficção da inteligência. E de
que serve a lucidez? É sabedoria recusar
a vida? Porque a realidade é real, embora
sejam vagas e facilmente nos enganem 
as palavras com que a evocamos. Assusta-nos
a falta de sentido. Mas o sentido não somos
nós? Em vez de duvidar, podemos acreditar
e podemos aceitar. E deixaremos de recear que
nos tomem por ingénuos, que nos acusem de
sermos tolos. O mistério existe e pode ser
desvendado. Desvendar não é o nome que
devíamos dar àquilo a que chamamos a
vida? E mais tarde, de novo, a verdade pode
ser corrigida. Repetidamente aprender. Pode
ser assim eternamente, não tem importância.
Estar vivo é o milagre, ir pelos caminhos
do campo ou da cidade à procura do sentido
do que nos acontece é o milagre. Aceitar. A
humildade torna possível o contentamento. E os
mais pobres de todos os pobres transformam-se
nos mais ricos de todos os ricos, naqueles a quem
foi concedido o privilégio. Aceitar e então
prosseguir, dentro da casa, sem remorsos, a 
aventura. A casa. Deixar de duvidar. Nela
tem lugar a perseguição daquilo a que
chamamos a felicidade. O que é ser feliz
não se pode descrever: a dor é uma forma
apaixonada de estar e de pertencer, um
atalho na perseguição obscura do que
não tem nome e escapa ao entendimento.  
Quem, iludido com o sentido das 
palavras no dicionário, incapaz de se
elevar acima do mal-entendido da
linguagem, pode, sem preconceitos, 
entender o seu destino?  Quem,
realmente, sem se deixar intimidar?