Tuesday, June 21, 2011

Uma noite no palácio

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Tuesday, June 14, 2011

E nós falamos

As palavras saem da boca
da esfinge, mas todos dizem
que perceberam o seu sentido.
A esfinge somos nós, tenras
crianças: falamos como
respiramos, naturalmente.
Mais tarde as coisas complicam-se:
o que parecia simples e natural
- o sentido das palavras -
revela-se confuso e incerto,
obscuro até. Há quem aprenda
a andar de bicicleta, a pilotar um
barco ou um avião. Mas quem pensa
que tem de aprender a falar? Quem
entende que as palavras são, por
vezes, um ruído saído da alma,
rude e indecifrável, outras vezes
um esgar de desespero, um
grito insensato de alegria? E
tantas vezes a maneira que nós
temos de dizer o que não pode
ser dito. Falar pode ser tão
natural como respirar. E escapa-nos
o sentido das frases, o poder que
elas têm de provocar a mudança 
no espírito daqueles que nos amam.
Acerca daqueles que usam as
palavras para ocultar do nosso
olhar perplexo o rosto da 
verdade podíamos falar; mas
preferimos não dizer nada.  

Anna Netrebko - O mio Babbino Caro - 2005

Tuesday, June 07, 2011

A cómoda inglesa (3)

Na cómoda inglesa tu guardavas
as palavras. E eu as fotografias.
Imagens do silêncio e das tardes
que tu passavas a andar pelas ruas
da cidade, afogueada, à procura de um
destino. Cartas escritas a ninguém
porque não havia quem as pudesse
decifrar, o sonho transfigurava
todas as confidências. Eu também
não me aproximava da verdade, embora
tentasse captar na máquina fotográfica
as sombras, a luz, o contorno dos rostos
e dos objectos. Encostada à parede, a arca
dos segredos calava-se, as gavetas rangiam
quando tentávamos abri-las. Resistiam
sem razão à nossa curiosidade, à inocência
com que insistíamos em acreditar que o
destino se pode perseguir, talvez decifrar.
Um dia, iludida com o amor, começaste
a ouvir os meus Nocturnos de Chopin.
E olhavas para mim como se eu ti-
vesse de me alegrar contigo. Achei-
-te infantil, sorri, mas não disse nada.
Desviavas-te do nosso caminho, mas eu
não me importei. Aonde é que o caminho
ia? Alguém um dia no futuro entenderia
o mistério dos rostos desconhecidos,
os gestos e as cores, as palavras incoe-
rentes? Eu não sabia responder. Nem
tentava. E tu tinhas adormecido, o teu
rosto repousava, perturbado, no
travesseiro. Foi há quanto tempo?


Lisboa, 20 de Setembro de 2004

Beethoven: String Quartet nº 7, Op. 59/1 (III)

Sunday, June 05, 2011

Mudam-se os tempos

A linguagem da paixão é imoral, imortal, boçal,
sobrenatural. Tanto se lhe dá. Ele, pensativo.
Sentou-se num banco da cozinha ao serão.
Ironicamente. Pudera. Quem sofre, alienado,
baralha-se. Quem não sente, morde-se. Recusar.
Sempre. Suicidar-se está longe de ser uma ofensa.
Ficam as putas e os vermes à solta, sem o nosso
carinho ancestral. É triste, é pena. Sobrevivem
os virtuosos? Sei lá. Masturbar-se obriga a adiar a
dissecação do cadáver, essa vocação. Tão amado,
tão apalpado e apaparicado, o odioso. Repelente.
Esguicham-lhe dos olhos esvaziados os esperma-
tozóides, essa praga. O rosto do mundo. Deus, ó
Deus, se existes, restitui-me a inocência, restaura-me
ignorante. O amor. Não me o negues, ó Deus dos
bordéis que proteges da destruição todos os vícios.
Não, não quero a redenção através do sucesso. Never.
Chupa-chupa? Quadradinhos de marmelada? E o
chocolate em pó? Bolos enrolados da infância.
Fuck you. You will not get me. But you can try.
Connard, vas-y si t'as le courage, couillon. Putain.
Êxtase. Blow job com sabor a chocolate. Podia ser.
À bela, repousada sombra dos plátanos. Deitados
na relva. Eu por mim. Mas não tenho o controle dos
sabores do meu corpo nem dos meus líquidos. Nem me
interessa. Tu preferias, talvez. Contenta-te com o que
há. Não desesperes. Vai chupando. Soluça de alegria.
Oh, espasmos. Inundações. Tocam os clarins, nasceu o
senhor. O reizinho nu. Ó, os teus triunfos. A tua sedução.
Palo Alto. Firme. O teu mérito escondido nas alcovas
dos hotéis de terceira categoria. Nem lençóis. Não se
sentia puta, mas. Há toda uma literatura sobre a
vaidade humana e sobre o nosso ondular soberano
nos carrosséis de cartolina. Por baixo, nos alicerces da
casa, fornicam os ratos. Nas praças antigas da cidade
sorriem com dentes muito sexuais as desamparadas da
inteligência, as tolinhas da província. Cabras, filhas de
cabras, pastam nos jardins de Belém, com os Jerónimos
ao fundo. Mé. Mé. Mé. Camões ainda acreditava no
amor. Linguagem profunda do conhecimento. O jovem
futuro casal sem futuro, que se lambia mutuamente a
pele suja em orgias alccolicamente românticas, foi
fazer compras à Ikea. Cama, mesa, cadeiras. Belo
jardim nas traseiras. Rãs aos saltinhos. A menina
camponesa cumprimenta o patrãozinho que lhe
há-de ir ao cu. Se o papá soubesse. Para consumo
artístico, o amor? E o casamento? Com flores.
Rendinhas. Talheres de prata. Loiça de Vista Alegre.
Brancura. Sou totalmente ignorante em questão de
contratos, de objectivos. De drogas, de excrementos,
nada sei. Sim, sou burro. Há especialistas, porém.
Não creio? Eu? Que parvoíce, claro que sim. Sou crente.
A vida nunca se sepultou no túmulo da arte. Jamais.
É uma recusa inabalável. Dela, da vida. Sensatez, porém,
decisiva. Sim, eu sei. Sim, a arte. Sim, talvez o sublime.
Religiosamente. Amen. Relações que se prestam a
eternas investigações e argumentos. Sábias descrições.
Sapientes durante uns segundos, um século. E depois
o barco, todos os botes se afundam. Carregados de
conceitos, de verdades, de consolações, de frutos
desprezíveis do tempo que passou. Por nós. E a roupa
gasta, abandonada, fora de moda. Proteger-me do
entusiasmo e das fontes secas. Perigo. Sim, pensei nisso.
Seriamente. A ostra. Sem pérola. Apesar de praticarem
também a ironia, embelezam o lixo da linguagem
em versos sexualmente impotentes, cheios de remela.
As macacas do nariz, ó menino do coro, ó rapaz, ó
rapazinho. Ó grilo. Não as puxes para baixo. Nem às
calças, nunca as baixes ao entardecer, quando vais
na rua a caminho do pub. Quem te vir pode enganar-se
a teu respeito. Quem pode circular na rua nua? Só tu.
Comprometer-te? Para nada. Estiveste no restaurante,
querias levar-me lá para eu acreditar. Perguntamos ao
garçon, vais ver que não te menti. Pois. Não sabem.
Não se apercebem. Infinitamente dóceis. Manter a forma.
O que se crê linguagem poética serve para distrair do
que podia ter alguma importância se. Se se. Se em vez
desta realidade nos tivessem dado outra como exemplo
do mundo. Embustes. Pesadelos. Tudo fora do tom. Anda,
vem jantar, ó bajuladora, ó leprosa, ó espermatozóide
vencedor da maratona daquela tarde. Traz as mamas
jovens à vista no decote de seda. Ó campeão olímpico,
vem connosco. Traz a bandeira nacional, símbolo da
nossa unidade inalterável. Perder sem sentimento de
culpa? Talvez ao alcance de alguns. Será. Não estou
seguro. As medalhas contam. Os melhores provavel-
mente. O que dão a ver aos outros aqueles que, pelo
contrário, etc.? Cegos. Manetas. Dançarinos. Coxos.
Zeros. Emlambuzados. Vêem as sombras das árvores
na floresta negra? E o meu perfil de gato anestesiado,
de cão subjugado. Vêem? Aqueles a quem uma
tenebrosa lucidez. Sabe-se, assusta. É inacessível.
É um edifício. Sobe-se, desce-se. Tropeça-se nas
escadas. É-se vítima da velocidade do elevador.
Zzzzz por aí abaixo. Catrapuz. A irregularidade
das montanhas. Declives súbitos. A cor dos
sentimentos? Vertigens. Vómitos. Remorsos.
Sem provas. Espíritos fracos. Sem salvação.
Pesados, no entanto sem força. Sugados pelo
vazio do precipício, ventos irascíceis da eternidade.
Engolidos. De que serve entender? Blasfemar?
Sem se distanciar? Sem ter influência? Sem agir?
Por muito que tenham desconstruído. Pensei um
pouco. Abri uma garrafa de vinho, comecei a beber.
O destino? O sentido? Como se me importassem
ainda os pormenores. Ela falou-me das minhas mãos
como se eu. Enfim. E dos meus olhos como se eu.
Enfim. E do meu corpo, não sei quê, momento
privilegiado. O meu corpo de cão ensimesmado.
Levitra, disse eu, meio cínico, enigmático. Eu cioso.
Estou-me perfeitamemte nas tintas para as razões do
desejo. Odeio o sexo em si mesmo. Altivo, caricatural,
arcebispo de catedral ruidosa. Ao que a gente tem de
descer para alcançar a dignidade social. Merecer a
puríssima óstia. Quase sete dólares, imagine-se. Não
vale a pena exagerar. A minha transpiração: era o
ressentimento, era vingança. Fácil, aliás. Sem hesitações.
Recompus-me, refiz-me um ego novo, capaz de durar.
Depois neguei tudo. Detestei-me. Impuro. Sem ideal nem
refúgio que. Nada de pessoal. Juro. Trágico ainda: os
que imaginam que falar, babar-se, redime da morte.
A morte, dizem, é ficção ainda, puro remastigar de
papel, uma osga abstracta. Uma ostra em que ninguém
consegue penetrar. É preciso a faca. E então começa
a esfarelar-se o cálcio branco nos rebordos. Foge-lhe
a forma. Nem consigo imaginar. Muito curioso. Falta-
me o rigor científico. Distraio-me entre nada e o infinito.
Obsessão da doença. Não fui eu quem começou. Juro.

Do livro inédito Café Mojo, a publicar para o ano

Friday, June 03, 2011

Schubert: Die Mainacht

Knut Hamsun: The tears well up in my eyes

The thought of God began to occupy me. It seemed to me in the highest degree indefensible of Him to interfere every time I sought for a place, and to upset the whole thing, while all the time I was but imploring enough for a daily meal.

I had remarked so plainly that, whenever I had been hungry for any length of time, it was just as if my brains ran quite gently out of my head and left me with a vacuum--my head grew light and far off, I no longer felt its weight on my shoulders, and I had a consciousness that my eyes stared far too widely open when I looked at anything.

I sat there on the seat and pondered over all this, and grew more and more bitter against God for His prolonged inflictions. If He meant to draw me nearer to Him, and make me better by exhausting me and placing obstacle after obstacle in my way, I could assure Him He made a slight mistake. And, almost crying with defiance, I looked up towards Heaven and told Him so mentally, once and for all.

Fragments of the teachings of my childhood ran through my memory. The rhythmical sound of Biblical language sang in my ears, and I talked quite softly to myself, and held my head sneeringly askew. Wherefore should I sorrow for what I eat, for what I drink, or for what I may array this miserable food for worms called my earthy body? Hath not my Heavenly Father provided for me, even as for the sparrow on the housetop, and hath He not in His graciousness pointed towards His lowly servitor? The Lord stuck His finger in the net of my nerves gently--yea, verily, in desultory fashion--and brought slight disorder among the threads. And then the Lord withdrew His finger, and there were fibres and delicate root-like filaments adhering to the finger, and they were the nerve-threads of the filaments. And there was a gaping hole after the finger, which was God's finger, and a wound in my brain in the track of His finger. But when God had touched me with His finger, He let me be, and touched me no more, and let no evil befall me; but let me depart in peace, and let me depart with the gaping hole. And no evil hath befallen me from the God who is the Lord God of all Eternity.

The sound of music was borne up on the wind to me from the Students' Allée. It was therefore past two o'clock. I took out my writing materials to try to write something, and at the same time my book of shaving-tickets [Footnote: Issued by the barbers at cheaper rates, as few men in Norway shave themselves.] fell out of my pocket. I opened it, and counted the tickets; there were six. "The Lord be praised," I exclaimed involuntarily; "I can still get shaved for a couple of weeks, and look a little decent"; and I immediately fell into a better frame of mind on account of this little property which still remained to me. I smoothed the leaves out carefully, and put the book safely into my pocket.

But write I could not. After a few lines nothing seemed to occur to me; my thought ran in other directions, and I could not pull myself together enough for any special exertion.

Everything influenced and distracted me; everything I saw made a fresh impression on me. Flies and tiny mosquitoes stick fast to the paper and disturb me. I blow at them to get rid of them--blow harder and harder; to no purpose, the little pests throw themselves on their backs, make themselves heavy, and fight against me until their slender legs bend. They are not to be moved from the spot; they find something to hook on to, set their heels against a comma or an unevenness in the paper, or stand immovably still until they themselves think fit to go their way.

These insects continued to busy me for a long time, and I crossed my legs to observe them at leisure. All at once a couple of high clarinet notes waved up to me from the bandstand, and gave my thoughts a new impulse. 

Despondent at not being able to put my article together, I replaced the paper in my pocket, and leant back in the seat. At this instant my head is so clear that I can follow the most delicate train of thought without tiring. As I lie in this position, and let my eyes glide down my breast and along my legs, I notice the jerking movement my foot makes each time my pulse beats. I half rise and look down at my feet, and I experience at this moment a fantastic and singular feeling that I have never felt before--a delicate, wonderful shock through my nerves,as if sparks of cold light quivered through them--it was as if catching sight of my shoes I had met with a kind old acquaintance, or got back a part of myself that had been riven loose. A feeling of recognition trembles through my senses; the tears well up in my eyes, and I have a feeling as if my shoes are a soft, murmuring strain rising towards me. "Weakness!" I cried harshly to myself, and I clenched my fists and I repeated "Weakness!" I laughed at myself, for this ridiculous feeling, made fun of myself, with a perfect consciousness of doing so, talked very severely and sensibly, and closed my eyes very tightly to get rid of the tears.

Knut Hamsun, Hunger, 1890