Monday, April 25, 2011

O certo e o errado

What is the general mark of the solution’s having been found?
(Wittgenstein, Zettel: 196)


O que é que está certo? O que é que está errado? Não estou a falar da minha vida neste momento. Ou estou? Eu posso estar certo, faço o que tenho de fazer. Mas o mundo pode estar errado, os outros podem estar errados. E tudo corre mal por causa disso. Ou menos bem. Não é que eu não faça concessões. Eu faço-as. Só que nem sempre basta. A dado momento o que parecia estar a correr bem já está a correr mal.

O que é correr bem? O que é correr mal? Nós planeámos e agora estamos atentos, confiamos, tudo vai acontecendo como previsto. Ou nós confiamos, estamos descansados, mas num minuto ou um dia percebemos: o que está a acontecer está errado, não nos faz felizes, as expectativas não se realizaram.

É possível que a minha adaptação à realidade tenha diminuído à medida que os anos passam. O mundo muda, as pessoas mudam, os governos mudam, a ciência fala de mudanças. E eu, teimosamente, permaneço no meu ponto de vista, limito-me a aperfeiçoá-lo. Não tenho suficientemente em conta o que acontece no exterior, não entro em sintonia com o movimento que anima os objectos em relação aos quais eu me constituo como sujeito. E depois, um dia, cansado de me dar conta de que as coisas não me correm como eu esperaria ou desejava, estou sentado à mesa de um café, indiferente, aborrecido, num estado de espírito de tanto se me dá isto como aquilo. Penso em jantar, concluo que não tenho apetite. Penso em beber, não me apetece. Penso em pessoas, não quero ver ninguém, já não espero nada dos outros. Só um grande acontecimento, imprevisível, poderia modificar o meu estado de espírito. Mas teria de ser um acontecimento extraordinário. Muito extraordinário. E acontecimentos extraordinários são raros. Além disso a minha cumplicidade é necessária, pois se não entendo o que há de extraordinário no que está a acontecer é como se nada estivesse a acontecer.

Estava neste estado de espírito quando entrou na minha vida uma rapariga que a poderia transformar. Já não sei bem como é que a conheci, mas uma tarde, inesperadamente, dei por mim e estávamos ambos sentados no chão em frente de uma lagoa, perto do mar. Os olhos dela, os lábios dela, a pele fina do rosto, o desenho nítido das sobrancelhas eram de uma perfeição perturbadora. Eu olhava para ela e estava inquieto. Ela olhava-me nos olhos sem receio nem maldade, prestava-me atenção. Eu achava que não merecia tanta curiosidade, ela estava a ser generosa comigo. Mas não nego que me sentia bem. Pensava: olha para mim, dá-te conta das rugas que os anos foram desenhando à volta dos meus olhos; mas ela não parecia interessada em olhar para mim com lucidez. Continuava a sorrir-me, a olhar-me nos olhos, a inquietar-me. Pensei que era melhor cortar o mal pela raiz, ir-me embora. Eu mal a conhecia, ela tinha-me sido apresentada por uma colega quando eu ia a sair da biblioteca da universidade e elas as duas a entrar. E agora tinha-a encontrado de novo na biblioteca, no sétimo andar, na secção dos livros de crítica literária. Saímos os dois com livros na mão e fomos sentar-nos na relva em frente da lagoa. O dia estava bonito, a temperatura amena. Vou-me embora, pensei eu, não quero sarilhos, eu não acredito no amor ou se acredito faço mal porque o amor, a esperança no amor, a fé no amor só duram um instante, o tempo que leva a ignorância a desfazer-se. Vou-me embora, tenho de me ir embora.

Mas não fui. Não tive coragem. Estava curioso, a querer ver o que acontecia, o que poderia acontecer, como é que as coisas entre nós podiam evoluir se eu não desaparecesse já? Provavelmente estava. Mas estava sobretudo a saborear, com um prazer sublime, a companhia dela. Depois de ter pensado que devia ir para casa, que não me convinha nada meter-me de novo em complicações sentimentais, houve um momento em que cedi, decidi despreocupar-me. Perdi o medo, queria lá saber das consequências. Ela fazia nascer em mim uma curiosidade intensa, que ao mesmo tempo me alegrava e me deixava infeliz. A beleza dela, a sua juventude comoviam-me. Eu não ignorava o sofrimento que pode provocar em nós a impossibilidade de possuir, não ignorava a dor que nasce de descobrirmos que é impossível, apesar da nossa vontade e dos nossos esforços, entrar em relação com outra pessoa. Apesar disso não me fui embora. Ela não se apaixonaria por mim e mesmo que me amasse eu sabia que o amor não podia durar. Mas eu estava seduzido pelo som da sua voz, pela limpidez dos seus olhos, imaginava-me a beijar a boca dela, a ser acariciado pelas suas mãos. Apetecia-me dizer-lhe ao ouvido baixinho palavras ternas, queria apertá-la contra mim. E por isso, meio perdido de mim mesmo, complacente, fui ficando.

Íamos conversando de tudo e de nada, sem pressas. O sol estava um pouco forte, batia-nos nos olhos, mas não tinha importância. Algumas gaivotas esvoaçavam sobre a água da lagoa, guinchavam desagradavelmente, mas não tinha importância. E então entendi: aquele rosto tranquilo e perfeito, o olhar tão franco, a boca que me sorria com candura tinham-me trazido à memória a recordação de alguém que eu tinha amado muito. Alguém que eu tinha perdido, não sei se por eu ser estouvado se por ela ser meio doida, se por o amor não passar de um malentendido passageiro em que nós depositamos esperanças insensatas. Quando nos separámos ela já deixara de ser a adolescente inocente e pura que eu tinha conhecido, evoluíra, transformara-se noutra pessoa, uma estranha. Uma estranha que não se interessava o suficiente por mim, que não percebia que eu a amava, que me fazia infeliz. Eu olhava para ela, comparava a tresloucada em que ela se transformara com a rapariga encantadora e afável que tinha conhecido alguns anos antes e apetecia-me chorar de raiva por não ter sido capaz de prever nem de evitar a sua perdição, a sua degradação física e moral. Ela perdera a noção do bem e do mal, tornara-se invejosa e quezilenta, passava o tempo a queixar-se. De tudo e de toda a gente. E agora, inesperadamente, o acaso introduzira-a pela segunda vez na minha vida, ainda inocente, ainda sincera, ainda por corromper. Estremeci. Não sei se comecei a confundir no meu espírito o rosto e a pessoa que tinham ficado gravados na memória com o rosto e a pessoa que tinha na minha frente. Por momentos creio que foi o que aconteceu. Depois tomei consciência da dualidade, dos dois planos em que alternadamente me situava. Os sentimentos antigos e os sentimentos actuais distinguiam-se mal, mas eu percebi que me dava um prazer desconhecido ou esquecido a confusão em que caíra e a que me abandonava voluptuosamente. O que é o amor, além de ser um devaneio da nossa imaginação febril? Entre nós já não há amor, já não há paixão, o amor é outra coisa, dissera ela antes de nos separarmos. Eu não sabia onde ela estava, nunca mais ouvira falar dela. Apetecia-me perguntar-lhe se tinha encontrado noutra pessoa o amor que já não existia entre nós. Mas também podia acontecer que ela só viesse a entender o amor como eu o entendia muitos anos mais tarde, quando eu já tivesse morrido.

Fui-me apercebendo de que ela era inteligente, discreta, um pouco tímida. Tínhamos começado por nos sentar lado a lado, mas pouco a pouco eu ficara quase na frente dela e de costas para a lagoa. Achava-a tão bonita. Estava seduzido, cheio de admiração. Estava subjugado, a olhá-la com uma atenção intensa. Tão intensa que o seu rosto, os seus olhos, a sua boca me davam por momentos a impressão de estarem dentro de mim, de fazer parte de mim. Existe em nós, escondido, secreto, ignorado, um ser mais profundo a que os olhos dão acesso? Eram esses seres enigmáticos, indefiníveis, o dela e o meu, que comunicavam entre si numa linguagem que era inacessível à nossa consciência?

Pensei que nunca mais me esqueceria dela nem daquele momento privilegiado que o céu me enviara sem eu estar à espera. A sua inteligência, a força do seu olhar, a sua beleza intimidavam-me e eu disse-lho. Ela corou e confessou que não era assunto em que não tivesse pensado, embora não entendesse como é que podia intimidar as pessoas, os homens sobretudo. Falou como se estivesse a pedir desculpa por ser como era. Eu ri-me e comentei que lidar com a intimidação faz parte das regras do jogo. Ela, a sorrir: que jogo? Eu, a sorrir: o jogo da vida. Continuámos a falar, mas falámos de quê? Ela ouvia-me, eu ouvia-a. Mas ouvíamos as palavras como palavras, isto é, como sons com um sentido mais ou menos seguro? E sabíamos o que estávamos a dizer? E o que estávamos a dizer era coerente, as ideias encadeavam-se com lógica e com intenção?

A tarde avançou, o ar refrescou. Era preciso fazer qualquer coisa. Estávamos ali há quase duas horas, tempo de mais para duas pessoas que não se conheciam. Era arriscado. Eu sabia que se continuássemos a falar me apeteceria levá-la comigo para casa, me apeteceria jantar com ela, me apeteceria dormir com ela, abandonar-me irresponsavelmente ao prazer milagroso do amor novo. Se continuássemos a conversar em breve chegaria o momento em que eu seria incapaz de me separar dela. Atemorizou-me a ideia do sofrimento que havia de abater-se sobre mim se depois de termos estado tão próximos um do outro, se depois daquela intimidade, eu tivesse de ir sozinho para casa. Depois de termos começado a descobrir-nos um ao outro que sentido tinha interrompermos o desejo e o prazer doloroso desse instante que nunca mais poderia repetir-se? Não tinha sentido nenhum.

Vendo-me calado, ela perguntou-me se eu era uma pessoa melancólica. Surpreendeu-me a pergunta e o interesse dela? Creio que não. Respondi que não sabia, talvez ela pudesse sabê-lo melhor do que eu. Ela olhou-me e calou-se. Está a fazer-se tarde, vai arrefecer, daqui a pouco estamos cheios de frio, disse eu. Eu não tenho frio, disse ela. Mas eu tinha começado a levantar-me e ela levantou-se também, sacudiu umas ervas da saia. Eu não tinha frio. Queria ir-me embora porque tinha percebido que a situação estava a apodrecer como uma maçã com bicho. Se eu a queria voltar a ver e a falar com ela tinha de interromper o encantamento, por muito que me custasse. Foi isso que pensei, foi o que fiz. Começámos a caminhar. O ombro dela e o meu tocavam-se de vez em quando. Eu gostava desse contacto. Tive medo de nunca mais a ver. Olhava para o rosto dela de lado e ela sorriu-me. Crescera entre nós uma cumplicidade, uma familiaridade que me agradavam. Ela já me fazia uma falta terrível. Como é que era possível em tão pouco tempo terem-se criado laços tão intensos? Na verdade, se as coisas fossem como deviam ser, não devia ter havido interrupção. Eu devia corrigir a decisão que tomara e abraçar-me já a ela, beijá-la na boca, apertá-la contra mim. Não era preciso falar. Mas as regras são as regras e quem tem a coragem ou o talento necessários para as desrespeitar? Eu tinha de portar-me bem e ela também, tínhamos de ignorar o que sentíamos, o desejo e o amor, a curiosidade e a inquietação, tínhamos de ir caminhando entre as árvores quase à beira do mar como se nada tivesse acontecido, estivesse a acontecer ou pudesse acontecer entre nós. Para onde fugira o meu heroísmo teórico de defensor da sinceridade e da verdade nas relações entre as pessoas? Devia pedir-lhe o número de telefone, mas senti-me tímido. Ou era preguiça? Se a deixava ir-se embora sem combinar nada provavelmente nunca mais a via.

Parámos numa esquina onde havia um café, pensei em convidá-la a entrar. Pareceu-me que não vinha a propósito, que não tinha sentido, eu já não sabia que dizer-lhe, estava cansado e confuso. Sem pensar estendi a mão e acariciei-lhe o cabelo. Ela não reagiu, limitou-se a olhar-me muito séria. Beijo-a? Aproximei-me dela, dei-lhe um beijo na testa. Ela continuava sem reagir, nem que sim nem que não. Pus-lhe o braço à volta dos ombros e ia dar-lhe um beijo na cara mas não sei o que aconteceu e beijei-lhe a orelha. Ela riu-se, pareceu-me meio embaraçada com a situação. Não tive coragem para mais. Recomeçámos a andar. Mais à frente ela parou. Olhámos um para o outro. Eu não disse nada, ela disse que ia para a esquerda. E eu? Eu ia para a direita, respondi. Despedimo-nos, hesitantes. Voltei a acariciar-lhe o cabelo desajeitadamente, dei-lhe outro beijo atrapalhado e casto na testa. Vi-a afastar-se, não me mexi, fiquei ali parado no meio do passeio, atordoado, fora da realidade. Senti-me exausto. Passou uma senhora e cumprimentou-me, respondi-lhe, mas eu sabia lá quem é que ela era. Nem queria saber. E então tomei uma decisão. Comecei a correr na direcção que ela seguira. Acabava de entender que era importante eu continuar a dormir em paz, a ler em paz, a ouvir música em paz. Não queria desordem nos meus dias, nem viver de falsas promessas de felicidade. Ir para casa ainda meio febril e cheio de inquietações amorosas era errado, eu já sabia que não jantava, que ia dormir mal. E de manhã acordava convencido de ter enfim encontrado a mulher da minha vida e de estar apaixonado. Não havia razão para isso, era um exagero. Quantas vezes tinha caído na mesma armadilha? E depois sofria, desiludido. A noite entretanto começava a cair. Era absolutamente necessário que eu a reencontrasse e pudesse olhar de novo para ela, que falássemos pelo menos dois minutos. Queria observá-la friamente, imparcialmente, vê-la com olhos despidos de paixão. Tinha de perceber que ela era apenas uma rapariga igual a tantas outras, sem nada que a tornasse mais atraente ou mais interessante do que as outras que se cruzavam comigo nas ruas da cidade monótona. Continuei a correr, não a via longe nem perto. E se já não conseguisse alcançá-la? E se ela já se tinha metido por uma das transversais?

O que é correr-nos a vida bem? O que é correr-nos a vida mal? O que é o certo? O que é o errado?

Do livro Regresso à Casa da Montanha, a publicar

Amália Rodrigues: Sei finalmente

Sunday, April 17, 2011

Musset: Fool that I am

Was it so difficult to make a woman speak in spite of herself? This woman was my mistress; I must be very weak if I could not gain my point. I turned over on the sofa with an air of indifference.

"Very well, my dear," said I, gayly, "this is not a time for confidences, then?"

She looked at me in astonishment.

"And yet," I continued, "we must some day come to the truth. Now I believe it would be well to begin at once; that will make you confiding, and there is nothing like an understanding between friends."

Doubtless my face betrayed me as I spoke these words; Brigitte did not appear to understand and kept on walking up and down.

"Do you know," I resumed, "that we have been together now six months? The life we are leading together is not one to be laughed at. You are young, I also; if this kind of life should become distasteful to you,are you the woman to tell me of it? In truth, if it were so, I would confess it to you frankly. And why not? Is it a crime to love? If not, it is not a crime to love less or to cease to love at all. Would it be astonishing if at our age we should feel the need of change?"

She stopped me.

"At our age!" said she. "Are you addressing me? What comedy are you now playing, yourself?"

Blood mounted to my face. I seized her hand. "Sit down here," I said, "and listen to me."

"What is the use? It is not you who speak."

I felt ashamed of my own strategy and abandoned it.

"Listen to me," I repeated, "and come, I beg of you, sit down near me. If you wish to remain silent yourself, at least hear what I have to say."

"I am listening, what have you to say to me?"

"If some one should say to me: 'You are a coward!' I, who am twenty-two years of age and have fought on the field of honor, would throw the taunt back in the teeth of my accuser. Have I not within me the consciousness of what I am? It would be necessary for me to meet my accuser on the field, and play my life against his; why? In order to prove that I am not a coward; otherwise the world would believe it. That single word demands that reply every time it is spoken, and it matters
not by whom."

"It is true; what is your meaning?"

"Women do not fight; but as society is constituted there is no being,of whatever sex, who ought to submit to the indignity involved in an aspersion on all his or her past life, be that life regulated as by a pendulum. Reflect; who escapes that law? There are some, I admit;but what happens? If it is a man, dishonor; if it is a woman, what? Forgiveness? Every one who loves ought to give some evidence of life,some proof of existence. There is, then, for woman as well as for man, a time when an attack must be resented. If she is brave, she rises, announces that she is present and sits down again. A stroke of the sword is not for her. She must not only avenge herself, but she must forge her own arms. Someone suspects her; who? An outsider? She may hold him in contempt--her lover whom she loves? If so, it is her life that is in question, and she may not despise him."

"Her only recourse is silence."

"You are wrong; the lover who suspects her casts an aspersion on her entire life. I know it. Her plea is in her tears, her past life, her devotion and her patience. What will happen if she remains silent? Her lover will lose her by her own act and time will justify her. Is not that your thought?"

"Perhaps; silence before all."

"Perhaps, you say? Assuredly I will lose you if you do not speak; my resolution is made: I am going away alone."

"But, Octave--"

"But," I cried, "time will justify you! Let us put an end to it; yes or no?"

"Yes, I hope so."

"You hope so! Will you answer me definitely? This is doubtless the last time you will have the opportunity. You tell me that you love me, and I believe it. I  suspect you; is it your intention to allow me to go away and rely on time to justify you?"

"Of what do you suspect me?"

"I do not choose to say, for I see that it would be useless. But, after all, misery for misery, at your leisure; I am as well pleased. You deceive me, you love another; that is your secret and mine."

"Who is it?" she asked.

"Smith."

She placed her hand on her lips and turned aside. I could say no more; we were both pensive, our eyes fixed on the floor.

"Listen to me," she began with an effort, "I have suffered much. I call heaven to bear me witness that I would give my life for you. So long as the faintest gleam of hope remains, I am ready to suffer anything; but, although I may rouse your anger in saying to you that I am a woman, I am nevertheless a woman, my friend. We can not go beyond the limits of human endurance. Beyond a certain point I will not answer for the consequences. All I can do at this moment is to get down on my knees before you and beseech you not to go away."

She knelt down as she spoke. I arose.

"Fool that I am!" I muttered, bitterly; "fool, to try to get the truth from a woman! He who undertakes such a task will earn naught but derision and will deserve it! Truth! Only he who consorts with chambermaids knows it, only he who steals to their pillow and listens to the unconscious utterance of a dream, hears it. He alone knows it who makes a woman of himself, and initiates himself into the secrets of her cult of inconstancy! But man, who asks for it openly, he who opens a loyal hand to receive that frightful alms, he will never obtain it! They are on guard with him; for reply he receives a shrug of the shoulders, and, if he rouses himself in his impatience, they rise in righteous indignation like an outraged vestal, while there falls from their lips the great feminine oracle that suspicion destroys love, and they refuse to pardon an accusation which they are unable to meet. Ah! just God! How weary I am! When will all this cease?"

"Whenever you please," said she, coldly; "I am as tired of it as you."

"At this very moment; I leave you forever, and may time justify you! Time! Time! Oh! what a cold lover! Remember this adieu. Time! and thy beauty, and thy love, and thy happiness, where will they be? Is it thus, without regret, you allow me to go? Ah! the day when the jealous lover will know that he has been unjust, the day when he shall see proofs, he will understand what a heart he has wounded, is it not so? He will bewail his shame, he will know neither joy nor sleep; he will live only in the memory of the time when he might have been happy. But, on that day, his proud mistress will turn pale as she sees herself avenged; she will say to herself: 'If I had only done it sooner!' And believe me, if she loves him, pride will not console her."

I tried to be calm, but I was no longer master of myself, and I began to pace the floor as she had done. There are certain glances that resemble the clashing of drawn swords; such glances Brigitte and I exchanged at that moment. I looked at her as the prisoner looks on her at the door of his dungeon. In order to break her sealed lips and force her to speak I would give my life and hers.

"What do you mean?" she asked. "What do you wish me to tell you?"

"What you have on your heart. Are you cruel enough to make me repeat it?"

"And you, you," she cried, "are you not a hundred times more cruel? Ah! fool, as you say, who would know the truth! Fool that I should be if I expected you to believe it! You would know my secret, and my secret is that I love you. Fool that I am! you will seek another. That pallor of which you are the cause, you accuse it, you question it. Like a fool, I have tried to suffer in silence, to consecrate to you my resignation; I have tried to conceal my tears; you have played the spy, and you have counted them as witnesses against me. Fool that I am! I have thought of crossing seas, of exiling myself from France with you, of dying far from all who have loved me, leaning for sole support on a heart that doubts me. Fool that I am! I thought that truth had a glance, an accent, that could not be mistaken, that would be respected! Ah! when I think of it, tears choke me. Why, if it must ever be thus, induce me to take a step that will forever destroy my peace? My head is confused, I do not know where I am!"

She leaned on me weeping. "Fool! Fool!" she repeated, in a heartrending voice.

Saturday, April 16, 2011

Anna Akhmatova: How Many Demands...


How many demands the beloved can make!
The woman discarded, none.
How glad I am that today the water
Under the colorless ice is motionless.

And I stand - Christ help me! -
On this shroud that is brittle and bright,
But save my letters
So that our descendants can decide,

So that you, courageous and wise,
Will be seen by them with greater clarity.
Perhaps we may leave some gaps
In your glorious biography?

Too sweet is earthly drink,
Too tight the nets of love.
Sometime let the children read
My name in their lesson book,
And on learning the sad story,
Let them smile shyly. . .
Since you've given me neither love nor peace
Grant me bitter glory. 

Wednesday, April 06, 2011

Duas palavras


Gostava de conhecer o sentido das palavras. Uma palavra, porém, cada palavra, é um mistério. Vê-se-lhe o rosto, o corpo, a forma, o fato. A aparência, que nunca muda. Mas não se vê nem se suspeita o que está lá dentro, aquilo que é alguma coisa em si mesmo e não o invólucro de outra coisa. Eu sei o que estou a dizer. Passei a vida a falar, anos e anos. Agora já entendi que me comportei como uma criança: sem saber o que fazia, brinquei com barras de dinamite num canto da sala. Entenderam-me, desentenderam-me, eles a mim e eu a eles. O mal-entendido foi permanente. A ignorância total. Usámos as palavras sem saber exactamente o sentido ou os sentidos que se escondiam lá dentro. Nem suspeitámos que existisse de maneira tão explícita qualquer coisa que se pudesse considerar como o “lá dentro”, a “alma”, o “ser verdadeiro” das palavras. Tudo parecia tão simples e evidente. Como se sentir fosse o bastante para saber.

Acordei para a realidade. Abriu-se-me mais uma janela através da qual se pode olhar o mundo de outra perspectiva. Nasceram-me olhos novos. Como é que as coisas aconteceram? Aconteceram em minutos. Um amigo meu, que é sensato, pôs-se a falar ao meu lado, eu estava distraído, já o conheço há tanto tempo. Ele ia falando e eu, sem lhe dar grande atenção, ia pensando não sei em quê, noutras coisas, em nada. Duas palavras, porém, duas palavras ditas várias vezes por ele, não sei a que propósito mas com algum ênfase, conseguiram romper a cortina espessa da minha indiferença. Ouvi-as sem ouvir o resto. Freud, chamado para aqui, talvez encontrasse uma explicação convincente e interessante para o meu comportamento. Eu não encontrei nenhuma.

        As palavras foram: obsessão, perdão. Rimam. Terá sido porque rimam que as ouvi e me detive nelas? Não sei. Só sei que as duas palavras me bateram nos ouvidos e através dos ouvidos penetraram na zona do meu espírito onde se processam as interrogações. Comecei a reflectir. Obsessão. Perdão. É tão fácil esvaziar uma palavra de sentido. Basta repeti-la várias vezes. Vamos por partes, pensei eu. Estará ele a acusar-me de ser uma pessoa obsessiva, de ser escravo de alguma obsessão? Não quis perguntar-lhe, mas parti do princípio que era isso que ele me estava a querer dizer: tens uma obsessão. Ou mais do que uma, várias, sabe-se lá.

Obsessão o que é? Uma mania? Um pensamento dominante e intenso? Certamente. Pode ser. Mas há manias e manias, pensamentos e pensamentos. Nem todas, nem todos se equivalem. Seja como for, obsessão, já se percebeu, não é comportamento normal, é vício. Isto é, deformação. Isto é, erro, pecado, asneira, atitude que merece ser criticada e tem de ser corrigida. Obsessão é qualquer coisa que não se admite, que tem de ser censurada.

Não sei se o meu amigo estava a olhar para mim com ar de censura porque eu, como já disse, mal o ouvia, não olhava para ele com atenção. Estava distraído a pensar noutras coisas. Perdido nas minhas fantasias, completamente ausente. Teria ele vindo falar comigo, perguntei-me então, teria ele vindo passar a tarde comigo para me transmitir uma mensagem muito importante mas que tinha, para não provocar reacção agressiva ou melindre, de ser dissimulada em conversa banal? Estaria o meu velho amigo preocupado com a minha saúde, com o andamento da minha vida? Alguém lhe falara de mim como se eu estivesse doente e ele acorrera, prestável como sempre, disposto a ajudar? Não encontrei resposta para tais perguntas. Mas pensei que devia ser isso. Ele viera para me dar uma lição. Duas lições. Uma lição sobre a palavra “obsessão” e outra lição sobre a palavra “perdão”. Sobre as palavras e sobre as coisas, evidentemente. Virei-me para ele:
- Obsessão?
Ele olhou para mim e repetiu com suavidade:
- Obsessão.
- E qual é a obsessão? – perguntei eu.
- E qual é a obsessão? – repetiu ele paternalmente, como se estivesse ainda a pensar no que havia de dizer.
- Sim, qual é a minha obsessão? - perguntei eu.
- As tuas obsessões variam. Variam pouco, mas vão variando. Só que andam todas à volta do mesmo poço ou da mesma árvore. Como a aranha que só vê a teia que construiu, que passa o tempo a vigiá-la obsessivamente, sem olhos nem atenção para mais nada, assim és tu. À volta do poço, à volta da árvore. Não largas, não despegas. Não te cansas. Nós, os teus amigos, falamos nisso. Estamos preocupados. O teu universo, que era vasto, reduziu-se. Deixaste de ver ao longe, só sabes ver o que está perto. E o que está perto está tão perto que está dentro de ti. Não descolas. A obsessão entranhou-se-te no espírito, já faz parte de ti, da tua personalidade.
Ouvi, não fiquei indiferente:
- E foi por isso que vieste almoçar comigo, tomar café comigo, para me dares uma lição de bom senso, para me criticares?
Ele, sem se comover:
- Não tomes as coisas assim. Abre-te, descontrai, esquece, não penses tanto. É só isso: não penses. Porque de se pensar tanto nasce a intensidade do pensar. E de pensar excessivamente num único assunto nascem a obsessão e a cegueira. O mundo encolhe, reduz-se, atrofia-se, assemelha-se a uma batata seca. Uma coisa sem força, vaga, inútil, aborrecida.
- O meu mundo é uma batata seca, é isso?
- Não desconverses. Tu sabes bem que não é isso, tu entendeste perfeitamente o que eu queria dizer.
Calei-me. Provavelmente tinha entendido. O universo das minhas preocupações ultimamente era reduzido. A solidão e o tédio não explicavam tudo. A maturidade também não. Ou explicavam? Ou ficamos assim, com interesses reduzidos, quando nos cansamos, quando as desilusões se acumulam? Eu não queria admiti-lo, dar o braço a torcer, era isso? Talvez. Pensei um pouco, olhei para ele, que continuava com ar de sábio grego da antiguidade, e decidi passar à palavra seguinte. Perguntei-lhe:
- Perdão?
- Perdão porquê?
- Não estou a pedir perdão. Estou a retomar a conversa. Tu queres que eu perdoe, deve ter sido por isso que vieste falar comigo hoje. Ao teu velho amigo, hoje, estava reservado o papel do discípulo, o papel do estudante, o papel do aprendiz, o papel do pecador. O papel daquele que tem de ser corrigido e punido.
Ele, imperturbável:
- Não exageremos, não exageremos. Tu fabricas literatura sem esforço e sem parar, tudo te serve. Excesso de actividade mental, excesso de imaginação.
Eu:
- O que é perdoar?
Ele calou-se, fixou o olhar nas casas do outro lado da avenida. Depois repetiu, calmamente:
- O que é perdoar?
Eu:
- Ninguém me pediu perdão por nada, de nada.
Ele, meio arrogante:
- E é preciso pedir?
Eu, meio irritado:
- Quer dizer que eu tenho de adivinhar? Eu não sou o Espírito Santo. Não é preciso pedir? Ninguém diz nada, ninguém pede nada, e nós, espontaneamente, decidimos ser generosos, perdoamos. Perdoamos o quê?
- Literatura, já estás outra vez a fabricar literatura. Nunca te cansas.
Fiz que não ouvi.
- O perdão é coisa que se ofereça, coisa que se dê sem razão? Como dar o que ninguém nos pediu? Dá-lo a quem? Para quê?
- Não penses tanto. Não compliques. Perdoa e pronto.
Não respondi. Perdoa e pronto? Depois queixei-me:
- Perdoar é esquecer ? Eu não me esqueci. Fizeram-me mal, atiraram-me com uma pedra, deitaram-me a casa abaixo - e eu esqueço-me? Faço de conta que não houve mudanças sérias na minha vida, que não me aconteceu nada? Que interessante. Excessivamente interessante.
O chato continuou:
- Perdoa e pronto.
- Ninguém me pediu nada.
- Perdoa. É melhor para ti e para os outros. Toda a gente erra. Quem te fez mal merece que continues a dar-lhe tanta importância? Esquece.
- Talvez o ódio seja a última forma de amar quem nos fez mal.
- Literatura, tudo isso é apenas literatura. Não contes comigo para jogar esse jogo.
- Dar o feito por não feito e o dito por não dito? Enterrar tudo? A Deus pede-se perdão e não se sabe se ele o concede. Parte-se do princípio que ele é generoso na sua majestade e perdoa à nossa insignificância os erros que cometemos. Mas eu não sou Deus. Deus provavelmente sabe o que é perdoar. Eu não sei. Será deitar a ofensa para o caixote do lixo como se fosse lixo, como se ela cheirasse mal e já não pudéssemos suportar o seu odor nauseabundo? Como é que se perdoa? Porque é que se perdoa? O que é que acontece depois de se ter perdoado? Explica-me, talvez eu aprenda. O que é que se ganha, o que é que se perde, o que é que muda por perdoarmos?
- Não te zangues, não vale a pena.
- Porque é que a hipótese de eu não perdoar te incomoda tanto? Tens medo que Deus te peça contas por não me teres catequizado o suficiente?
- Eu não acredito na existência de Deus. Fiquemos cá por baixo, entre nós. Perdoar pode ser esquecer, pode ser compreender. Pode ser descobrir atenuantes para a ofensa. Pode ser dar o benefício da dúvida. Pode ser simplesmente um gesto magnânimo, de cariz divino. Imitamos Deus por instantes. Engrandecemo-nos.
Vai ver se está a chover na China, pensei eu. Vai tomar banho no Tamisa. Perdoa tu a quem te ofendeu. Eu já perdoei o suficiente. A mim nunca ninguém me perdoou nada.
           Estava irritado. Era melhor calar-me, não dizer nada. Estava a ferver por dentro. Sabia que não tinha razão: também a mim alguém me deve ter perdoado alguma coisa e nunca se perdoa o suficiente. Apesar disso, embora admitisse que estava a pensar e a agir erradamente, não mudei de opinião. E disse-lhe:
- Imagina uma pedra dura, granito por exemplo. Grava nela, com arte e paciência, uma palavra, uma frase. Grava profundamente, com paixão, porque a chuva e o vento são lentos mas eficazes a destruir - e tu queres que a ferida da pedra dure.
- Está bem, gravo. E depois?
- E depois pede à pedra que se esqueça daquilo que gravaste nela, que dê o gravado por não gravado, que te perdoe ter sido massacrada. A pedra, se falasse, mandava-te dar uma volta.
Ouviu-me sem me olhar, não me respondeu, deixou-me sozinho com o problema por resolver. Perdão... Perdoar... Com toda a honestidade, o sentido da palavra escapava-me. Não pode ser esquecer. Ou pode? Esquecer é tirar existência ao que existe, é apagar de vez. Por acidente, por doença, podem apagar-se da nossa memória alguns acontecimentos, os nomes, as imagens, a recordação dos sentimentos. Talvez haja medicamentos que consigam, sem ser necessário um acidente ou a doença, o mesmo resultado. Não sei. Mas se perdoar é esquecer e apagar, o perdão não depende de mim nem é acontecimento que possa ter lugar por decisão minha. Eu posso tomar a decisão de esquecer, de acordo, mas não tenho o poder de fazer com que ela se realize. Posso querer esquecer e não conseguir. Portanto, se perdoar é esquecer, ou apagar, ou enterrar, perdoar está fora do meu alcance. Ponto final. Não se fala mais no assunto.
Foi isso que lhe expliquei. E ele, casmurro, sempre sisudo sem deixar de se mostrar afável, mal olhava para mim. Não me queria ver. Depois saiu-se com esta:
- Não sei o que é perdoar. Mas talvez seja diferente de esquecer. Talvez seja reconhecer a imperfeição humana, a dos outros e a nossa. A tua e a dela.
Dei um salto na cadeira.
- A dela? A minha?
Ele não respondeu, não se mexeu na cadeira. Impassível sempre. Casmurro. Cabrão.
Eu sei que sou imperfeito. Sofro com isso, como muita gente sofre por não ser como gostaria de ser. Nunca exigi a ninguém que fosse, na sua relação comigo, consigo ou com a vida, perfeito. Não é coisa que se exija, em que se pense, pois não? Nunca fui um monstro de rigidez moral. Com os erros e os anos aprendi a ser mais justo, mas também fiquei mais tolerante. A minha imperfeição e a dos outros é um facto indiscutível, nem vale a pena perder mais tempo com o assunto. Mas há limites.
Ele, como se me ouvisse pensar:
- Há limites? Claro que há limites para a imperfeição. Mas para o perdão? Haverá limites para o perdão? Haverá condições? Para o perdão não pode haver condições. Perdoa-se, é tudo.
Nem respondi. Deixei de olhar para ele, desinteressei-me das suas reacções. Ele continuou a lengalenga:
- A magnanimidade de quem perdoa não impõe limites nem condições.
          Falar é fácil. Teorizar é fácil. Vai-te reciclar, pensei eu. Mas não disse nada. Viver, amar, sofrer, não são teoria, não são ideias, não são palavreado. Depois disse:
- Viver dói na carne. Sofrer dói na carne. E dói no espírito. Como perdoar? É impossível.
Ele, já meio vencido:
- Vai ver ali à cervejaria da esquina se eu lá estou. És insuportável.
E calou-se outra vez. Apeteceu-me ir-me embora. Não tinha de o aturar. A amizade não justifica tudo, ele estava a abusar da minha benevolência. Mas fiquei. Calado, mas sem deixar de me interrogar, de pensar. Foi ele que voltou à carga:
- Perdoar pode ser reconhecer a impossibilidade de negar, de atenuar ou de apagar o erro. E no entanto lançar sobre aquele que errou um olhar humano de compreensão. De dor, talvez. Mas sobretudo de compaixão. Compaixão sem orgulho, pura cumplicidade na paixão uma vez mais, a última talvez.
Eu percebia o que ele queria dizer. Ele tinha razão, eu estava de acordo com ele. E estar de acordo com ele agradou-me bruscamente, senti-me inteligente e generoso, moralmente superior. Mas eu não tinha mudado de ideias. Não havia em mim qualquer desejo ou intenção de lançar sobre quem me tinha ofendido um olhar de perdão. Havia de odiá-la o resto da minha vida. Não todos os dias, certamente, seria cansativo e tenho mais que fazer e em que pensar. Mas o ódio permaneceria em surdina no fundo da minha consciência e havia de subir à superfície com alguma regularidade. Quando não tivesse outra ocupação, por exemplo, ou nos momentos de tédio. O que ela me fizera não tinha perdão. Vivi anos e anos no erro, a perder tempo de vida por causa dela. Esquecer e perdoar seria admitir que ela tinha sido apenas um erro banal na minha vida.
Ele, ao meu lado:
- Não é que eu tivesse esperança de te convencer, de te ver mudar de ideias. Mas pelo menos tentei. E não foi por ela que o fiz, ela não me interessa muito nem me parece que mereça a atenção que lhe estás a dar. Fi-lo por ti. Eras tu que ficavas mais leve, mais feliz. Não queres entender.
As pessoas não sabem o que dizem, não sabem do que falam. Pegam nos factos sem saber o que está lá dentro, o que se passou. É como pegar nas palavras sem ter ideia dos sentidos que por detrás do seu rosto sempre igual se escondem. Pegam nos factos brutos, no que pensam que se passou, na história que eles próprios começaram a contar, e falam, falam. Sabem o que é a dor? Não sabem. Sabem das dores deles, não das dos outros. Sabem o sabor das lágrimas? Não sabem. Sabem o que é ter perdido tudo? Não sabem nada. Mas falam. Virei-me pare ele:
- Eu não sou Deus. E ninguém me pediu perdão. Esta conversa é absurda. O que é que te deu?
Ele levantou-se, com um sorriso benevolente e discreto de filósofo grego no rosto de casmurro, apertou-me a mão e foi-se embora. Fiquei sozinho na esplanada do café. Acendi um cigarro. À minha volta rapazes e raparigas, estudantes da universidade que ficava perto, iam e vinham, com os seus risos e brincadeiras. O que é perdoar? Creio que é apenas esquecer. Mas esquecer, já o disse antes, não depende de uma decisão ou desejo meus. Perdoar também pode ser olhar para baixo, para a imperfeição e a maldade, e perdoá-las. Mas eu não sei olhar para baixo. Definitivamente, perdoar não está ao meu alcance, não faz parte dos meus projectos. Eu não sou Deus. Levantei-me também, fui à minha vida.

Do livro Um Animal de Pele Branca, Imaculada, a publicar em breve pelas edições OVNI