Sunday, March 27, 2011

A ferida


Como uma ferida na pele irrompe a poesia:
excrescência, tumor, borrão na página.
Viver é outra coisa? Distinguir: o prurido
do adolescente que se embala na cresta de
dores irreverentes e a maldição do sábio
ignorante a quem atormenta a sua ignorância.
Mas ambos são cegos e impotentes. Aqueles que
não entendem festejam com palavras a ilusão
dos sentimentos; e na pele daqueles a quem
flagelam dores sem nome vai-se abrindo a ferida
irremediavelmente. Mas os caminhos aonde nos levam
de palavra em palavra? E abre-se mais tarde o livro
da sabedoria diante de nós, que fomos adolescentes
fervorosos. Tarde de mais? Oh, não, não se deve
renunciar! A ferida na pele transformou-se em dor
espiritual, magoa o próprio pensamento. O homem
ferido não se cansa de procurar e nunca encontra. Ou
aproxima-se da  verdade, que é saber que nenhuma
verdade dura o bastante para servir de remédio à
maldição? A ferida na pele vai entrando pelo corpo
e irrompeu das entranhas do entendimento?
Ela pode iluminar com o seu fulgor incómodo
e belo a existência daqueles a quem não nascem,
na pele, as feridas. Eles, então, tomam posse,
sem receio, talvez sem se darem conta do que
está a acontecer, da ferida alheia. Sem tomar
forma de que serve o que nos acontece? E 
entendem, mais tarde, que a ferida alheia não era
uma ferida alheia, mas a ferida que eles próprios,
sem o saberem, traziam escondida no mistério
da sua existência. A poesia é a arte dorida
do conhecimento: não uma ciência nem um
tratado sobre as dores da alma; apenas
investigação, esforço para a compreensão
do corpo da ferida. A ferida nasce sem pedir
licença, é a forma que toma a incompreensão
do destino. E perturba no espírito aquele que agora
transporta na pele a mancha vermelha, o inchaço
e o pus, talvez a maldição de todas as existências. 

You Took Advantage of Me (1955) by Art Tatum

Saturday, March 26, 2011

A questão do sentido das palavras

1. É impossível dizer com clareza científica qual é o sentido de uma palavra. O sentido de uma palavra pode estar indicado num dicionário, mas o sentido é sempre coisa puramente mental (invisível). É impossível comparar o sentido de uma palavra em momentos e usos diferentes como se pode comparar uma mesa com outra mesa. Não há fotografias do sentido das palavras e o dicionário de sinónimos é apenas isso: remete para outras palavras de que também não se pode ver o sentido porque o sentido não tem existência física e portanto não se pode ver. Sabendo isso, os filósofos falam, apesar de tudo, como se o sentido das palavras tivesse existência real e material (a que se poderia tirar uma fotografia), falam como se o problema do sentido das palavras fosse suficientemente ultrapassável.

2. As palavras têm para nós sentido suficiente para sabermos que estamos a falar de cadeiras e não de automóveis. Mas não têm sentido suficiente para sabermos de maneira segura, rigorosa, científica, de que é que estamos a falar quando falamos da dor ou da alegria, do amor ou do ódio. O nosso conhecimento do sentido das palavras é portanto limitado e relativamente vago, embora não impeça a comunicação. Há palavras sobre cujo sentido (referente) nos podemos entender sem grande preocupação: mesa, cadeira, montanha, casa, este, aquele, ele, ela, referem-se a coisas ou pessoas que pelo menos no contexto em que surgem devem ser facilmente identificadas - e se há dúvidas elas podem esclarecer-se facilmente. 


3. O grau de entendimento sobre o sentido das palavras tem a ver, evidentemente, com a complexidade do seu sentido. Deve ser possível estabelecer uma hierarquia de dificuldades relacionada com o estatuto gramatical de cada palavra. Nem tudo o que eu estou a escrever me exige o mesmo grau de preocupação com o sentido do que estou a dizer, embora deva ser verdade que se pode assimilar a questão da clareza do sentido das minhas frases ao meu uso particular da sintaxe: à maneira como construo as minhas frases ou as organizo, à minha escolha dos verbos, dos substantivos, dos adjectivos, dos advérbios. A questão do sentido das frases é semelhante à questão do sentido das palavras, como já se percebeu.

4. Na troca de palavras entre duas pessoas há dois mundos em confronto (ou comunicação ou contacto).  Na realidade o contacto não existe, só existe o que permite o contacto: a linguagem e outros sistemas satélites da linguagem que permitem organizar a experiência segundo certos princípios e portanto comunicar. Mas os princípios e os sistemas que organizam a experiência também não podem ser identificados nem analisados em acção de maneira rigorosa, exaustiva, científica. Nem eles nem as relações que mantêm entre si. São suficientemente conhecidos para permitir a comunicação (e os mal-entendidos) mas não para que se descreva o seu mecanismo nem o seu funcionamento de maneira total, científica, rigorosa.

5. Cada um de nós é proprietário do sentido das palavras que conhece e utiliza. Sabemos que as palavras vêm da língua e lhe pertencem. Sabemos que se deve respeitar de algum modo a indicação sugerida pelo dicionário. Uma mesa não é uma cadeira nem um pontapé é um beijo. Mas somos nós que fabricamos para uso próprio, de acordo com o que nos parece serem as regras de utilização das palavras por outras pessoas, o sentido das palavras.

6. Não controlamos o conhecimento que temos do sentido das palavras. Não podemos assegurar que a mesma palavra dita por nós em duas situações diferentes teve exactamente o mesmo sentido nos dois casos (depois de eu ter amado o amor para mim é uma coisa diferente de antes de ter amado; e se eu amar muitas vezes as diferentes experiências amorosas modificam de cada vez a minha concepção anterior do amor). Se alargarmos a experiência a trocas de palavras com outras pessoas o problema torna-se anda mais  evidente. No meio de uma discussão sobre o ódio a seria útil a dado momento puxar da fotografia do sentido da palavra ódio, exibi-lo, comparar o nosso ódio com o ódio de outra pessoa. Mas não é possível.

7. O sentido das palavras impõe-se-nos com frequência de maneira imperceptível, automática ou quase automática. Mas há casos em que paramos para reflectir ou perguntar. Porque será?

8. Cada um de nós é uma fábrica de sentido das palavras. Recebemos o objecto que é a palavra das outras pessoas mas ao apropriarmo-nos dela damos-lhe uma existência nova e única, sem sequer termos consciência disso. A palavra chega e será integrada no sistema ou modelo abstracto da linguagem em nós. Já existe a "família" em que elas se vão integrar porque já estão lá outras palavras (na origem, evidentemente, há uma primeira palavra ainda à procura do seu lugar; mas a "família" é de qualquer modo constituída progressivamente e dinamicamente). A companhia que as palavras se fazem umas às outras não é, evidentemente, uma companhia pacífica, sem consequências. A forma que toma a contaminação é imprevisível mas é uma fatalidade a que não se escapa porque nem nós nem as palavras somos entidades fixas, tudo está sempre em movimento. O que vem complicar ainda mais a questão problemática do sentido das palavras. 


9. Ninguém pode transmitir de maneira rigorosa, científica, absolutamente clara e segura, o sentido de uma palavra a outra pessoa. Posso emprestar o meu automóvel a um amigo, mas não lhe posso emprestar o sentido de uma palavra porque se o possuo não o posso transformar num objecto que se empreste. O sentido das palavras é e permanece sempre uma coisa mental. E privada, apesar de em parte se poder, coincidindo ou divergindo em proporções difíceis ou impossíveis de medir, partilhar.

10. As palavras vivem em nós com o sentido que nós entendemos que trazem consigo quando as adoptamos mas que vai mudando mais ou menos com a experiência. Porque nós somos seres vivos transformados permanentemente pela experiência. Se fosse possível escrever  a história do sentido das palavras em cada um de nós ver-se-ia que ele tem uma relação mais ou menos marcada (cientificamente impossível de descrever mas susceptível de alguma forma de descrição) com a sucessão das nossas experiências. Através da experiência, vivendo, eu "aprendo" o sentido das palavras. Aprendo? Reavalio? Modifico? O que herdei transforma-se. Como é que se transforma e qual é o resultado da transformação talvez se possa entender de certo modo. Mas não há ciência que possa descrever rigorosamente, exaustivamente, o que se passa.


Amália Rodrigues: Saudades de ti

Thursday, March 24, 2011

Musset: Poor Boy

I sat down on the other side of the room, determined not to rise until
I had learned what I wished to know. She appeared to be reflecting, and
walked back and forth before me.

I followed her with an eager eye, while her silence gradually increased
my anger. I was unwilling to have her perceive it and was undecided what
to do. I opened the window.

"You may drive off," I called to those below, "and I will see that you
are paid. I shall not start to-night."

"Poor boy!" repeated Brigitte. I quietly closed the window and sat down
as if I had not heard her; but I was so furious with rage that I
could hardly restrain myself. That cold silence, that negative force,
exasperated me to the last point. Had I been really deceived and
convinced of the guilt of a woman I loved I could not have suffered
more. As I had condemned myself to remain in Paris, I reflected that I
must compel Brigitte to speak at any price. In vain I tried to think of
some means of forcing her to enlighten me; for such power I would have
given all I possessed. What could I do or say? She sat there calm and
unruffled, looking at me with sadness. I heard the sound of the horses'
hoofs on the paving as the carriage drew out of the court. I had merely
to turn my hand to call them back, but it seemed to me that there was
something irrevocable about their departure. I slipped the bolt on the
door; something whispered in my ear: "You are face to face with the
woman who must give you life or death."

While thus buried in thought I tried to invent some expedient that
would lead to the truth. I recalled one of Diderot's romances in which
a woman, jealous of her lover, resorted to a novel plan, for the purpose
of clearing away her doubts. She told him that she no longer loved him
and that she wished to leave him. The Marquis des Arcis (the name of the
lover) falls into the trap, and confesses that he himself has tired of
the liaison. That piece of strategy, which I had read at too early an
age, had struck me as being very skilful, and the recollection of it at
this moment made me smile. "Who knows?" said I to myself. "If I should
try this with Brigitte, she might be deceived and tell me her secret."

My anger had become furious when the idea of resorting to such trickery
occurred to me. Was it so difficult to make a woman speak in spite of
herself? This woman was my mistress; I must be very weak if I could not
gain my point. I turned over on the sofa with an air of indifference.

"Very well, my dear," said I, gayly, "this is not a time for
confidences, then?"

She looked at me in astonishment.

"And yet," I continued, "we must some day come to the truth. Now I
believe it would be well to begin at once; that will make you confiding,
and there is nothing like an understanding between friends."

Doubtless my face betrayed me as I spoke these words; Brigitte did not
appear to understand and kept on walking up and down.

"Do you know," I resumed, "that we have been together now six months?
The life we are leading together is not one to be laughed at. You are
young, I also; if this kind of life should become distasteful to you,
are you the woman to tell me of it? In truth, if it were so, I would
confess it to you frankly. And why not? Is it a crime to love? If not,
it is not a crime to love less or to cease to love at all. Would it be
astonishing if at our age we should feel the need of change?"

Confessions of a Child of the Century

Wednesday, March 23, 2011

Proibido de escrever

O meu médico proibiu-me de escrever. Acha que é uma perda de tempo, que não é saudável, que reconstruir ou imaginar histórias é uma atitude infantil. Mas, doutor, protestei eu, que mal há em ser-se infantil? Eu acho óptimo que se seja infantil. A pureza das crianças... Não, meu amigo, interrompeu-me ele, não, não e não. Escrever faz mal aos nervos, estraga a saúde, tem consequências nefastas na vida das pessoas. O senhor nem imagina em que é que se mete quando começa a escrever. Estou a falar da sua mania de escrever histórias, romances, poemas, evidentemente. Porque escrever uma receita para comprimidos ou fazer uma lista de coisas a comprar no supermercado não se pode considerar que seja exactamente escrever. O escrever que faz mal e que tem de proibir-se, que eu lhe proíbo a si, é o escrever que nasce da imaginação. Porque imaginar afasta-nos da realidade, desregula o sistema nervoso, não é saudável. Além de nos fazer perder tempo, um tempo que podíamos dedicar a assuntos mais sérios. Já vi pela sua cara de desagrado que não o convenço. Mas se não está de acordo comigo, explique-me por que razão é que as crianças têm medo da escuridão? A gente sabe que elas não gostam de ficar sozinhas quando as metemos na cama à noite, que frequentemente têm pesadelos. Que às vezes começam a gritar e a chamar por nós se no escuro do quarto ou da casa ouvem ou crêem ouvir um ruído qualquer. Porque será, já pensou? A resposta é simples: excesso de imaginação. Porque nada se passa realmente, nada está a acontecer, mas as crianças põem-se a inventar e a recriar à noite, no escuro, quando ficam sós, a partir das histórias que ouvem durante o dia e de tudo aquilo que viram, põem-se a inventar fantasmas, monstros, episódios e mundos horríveis. Tudo coisas, meu amigo, que me dará o prazer de confirmar que não existem. Tudo invenções que perturbam o sono e consequentemente a saúde. E que, inevitavelmente, terão uma influência nefasta no futuro das pessoas. Experiências péssimas para a saúde física e moral, não duvide. Fica decidido, o meu amigo não discute comigo e a receita é: não escreve nem mais uma linha a partir de hoje.

Saí do consultório meio confuso e hesitante, com vontade de rir. O meu médico, afinal, era um tipo muito mais original e curioso do que eu imaginava. O homem não quer que eu escreva? Acha infantil? Ó doutor, por favor, tome juízo. Assim que cheguei a casa sentei-me num sofá ao lado da janela e continuei a reflectir no assunto. Apetecia-me rir, ri-me. O conselho era estapafúrdio. Claro que eu não ia levar o homem a sério. A comparação com as crianças, que ele inventara, era forçada, literária, pouco convincente. As crianças imaginam porque faz parte da nossa natureza imaginar. E se imaginam a existência de fantasmas, de monstros, de mundos horrorosos, é porque no fundo da alma humana, tão naturais como a vocação para imaginar, se agitam os nossos medos ancestrais: de ser torturados, humilhados, cortados em postas, vencidos, devorados. Ter medo é natural. Não são apenas as crianças que têm medo da escuridão, aliás. Os adultos também não se sentem à vontade quando não podem ver o que está à sua volta. E se um ramo de árvore treme com o vento na escuridão da noite e eles andarem de espingarda na mão, podemos estar seguros, pode estar seguro, meu caro doutor, de que disparam logo na direcção da árvore. Imaginaram lá um monstro que, pouco cauteloso, tocou com a cabeça no que estava quieto e mudo, fazendo um ruído suspeito. Considerei o assunto arrumado e o médico um brincalhão. Nem sequer um homem extravagante, apenas um brincalhão. Da próxima vez que nos encontrássemos havíamos de rir às gargalhadas da partida que ele me pregara. E fui para o meu escritório ler Gogol.

Aí a meio da tarde, cansado de ler, fechei o livro, acendi um cigarro e fiquei a olhar pela janela os ramos do plátano do jardim. Depois fui à cozinha e voltei com um copo de limonada na mão. Sentei-me e automaticamente, sem pensar nem decidir nada, peguei na caneta que estava em cima da secretária e preparei-me para escrever no caderno que estava a usar nesse momento. E aí, pensando no que me dissera o médico, parei, fiquei com a mão suspensa em cima do papel. Ri-me, deliciado, de mim mesmo e do médico. Mas quando parei de rir e quis escrever, já não me lembrava do que ia escrever. O que me obrigou a reflectir, evidentemente. Afinal, para que é que eu escrevia? Porquê? De que é que eu falava nas minhas histórias? Nas minhas histórias eu falava de desencontros amorosos, de mal-entendidos entre um homem e uma mulher, da solidão dolorosa que sucede a uma ruptura, da falta de lógica dos sentimentos e dos comportamentos, por exemplo. Para tentar entender o que nos acontece, eu ia reconstruindo ou inventando, compondo e fazendo a montagem dos episódios. Era, pensava eu, uma maneira de contribuir para o esclarecimento ou uma melhor compreensão de comportamentos e de acontecimentos que podiam parecer banais ou sem interesse para quem os contemplava de fora, mas que se revelavam com frequência trágicos para aqueles que os protagonizavam. Veio-me então uma ideia que classifiquei imediatamente de absurda: tu escreves para te vingar da vida e da tua incapacidade de resolver satisfatoriamente os problemas em que as relações amorosas te enredam; tu escreves para te vingar das pessoas que não soubeste amar ou das pessoas que se intrometeram nas tuas relações amorosas. Que parvoíce, comentei eu. Um pouco mais tarde, porém, e para que não me culpassem de estar a ser parcial e pouco rigoroso na minha análise, aceitei rever a questão. Isto é, admiti a possibilidade de estar a escrever para me vingar da vida, para me redimir da minha incapacidade de amar e até para ridicularizar as personagens que faziam parte da história contada ou evocada. Mas com uma condição: essa justificação da escrita como um acto de vingança não poderia nunca ser considerada a explicação principal e muito menos a única. Quando muito seria uma hipótese complementar, a pôr ao lado das explicações mais sérias e verosímeis já encontradas antes. Como tenho a mania da honestidade e gosto de me criar problemas, dei por mim então a pensar por que razão recusara de início tão veementemente e tão depressa a possibilidade de estar a escrever, de eventualmente sempre ter escrito, para me vingar da vida e de não entender nada do amor. Ao reagir tão firmemente contra essa possibilidade, não estaria eu a querer esconder de mim próprio alguma coisa que me incomodava, uma verdade que não queria encarar? Não cheguei a nenhuma conclusão nessa tarde nem nessa noite. E fui deitar-me, já tarde, depois de ter visto um filme na televisão, sem querer dar demasiada importância ao assunto.

Na minha vida havia várias mulheres. Mas eu recordava-me sobretudo de duas. Porque tinham sido as únicas com quem eu vivera, com quem partilhara uma casa e os meus dias e noites durante anos. É provável que a dor que sucede à separação seja proporcional em intensidade à duração da relação que terminou, mas não estou seguro disso. Com a primeira mulher eu já fizera as pazes, agora éramos amigos, e eu ia de vez em quando passar uns dias com ela. Os anos de crise, porém, tinham sido muito duros, sobretudo os primeiros. Os problemas com ela tinham começado porque um dia de Verão, sentado em casa à noite a aborrecer-me, eu decidi que ela não me amava o suficiente. Comecei a investigar, a comparar, a lembrar-me de relações que ela tinha tido com outros homens antes e depois de me conhecer. Eu queria conhecer a verdade, a verdade toda. Queria estar seguro, completamente seguro, sem margem para dúvidas, de que era mais amado do que eles o tinham sido. Discutimos muito, eu uma vez dei-lhe uma estalada, outra vez deixei-a fechada à chave em casa enquanto fui tomar café ao centro da cidade. Ela dizia que eu tinha transformado a vida dela num inferno. Devia ser verdade. Mas eu também sofri muito e a minha obsessão com a verdade e com a pureza absoluta do amor exclusivo ia dando comigo em doido. Com a segunda mulher eu vivera menos tempo. A separação deixou-me muito amargo, com enorme sentimento de culpa e numa solidão desesperante e incompreensível. Tinha a impressão de ter deixado atrás de mim qualquer coisa por acabar, por entender, por aprofundar, por aperfeiçoar. Só depois de nos termos separado pela terceira e última vez é que me dei conta de que lhe queria mais do que parecia e do que eu mesmo pensava. Comecei a ter remorsos de a ter tratado mal ou pelo menos de não a ter tratado tão bem como devia. Sejamos sinceros e imparciais, porém: talvez ela não merecesse melhor. Quando eu a conheci ela era jovem, inexperiente e pura. A dado momento não sei o que é que lhe deu, transformou-se numa pessoa cínica, interesseira, calculista. Envelheceu, emagreceu, perdeu a graça. Certos dias ficava com uma carinha de bruxa. Eu sentia muita ternura por ela, mas era-me impossível continuar a amá-la como a amara no princípio. Ela não se deixava amar. Ainda tentei, tentei várias vezes, mas ela parecia não entender as nossas relações. E depois portou-se mal comigo. Foi desleal, foi falsa, foi hipócrita. Mentir e ocultar às pessoas o que andava a tramar nas costas delas tornou-se a sua especialidade. Estava a vingar-se de quê ou de quem? Alguém estaria a manipulá-la, a exercer sobre ela uma influência nefasta? Haveria na infância dela uma explicação para tal comportamento? Eu não a conhecia. E se os vícios e a falta de carácter dela diminuíam a intensidade do meu remorso, nem por isso me deixavam menos ferido e menos frustrado.

Inspirado na minha experiência da vida conjugal, eu tinha escrito há alguns anos e recentemente algumas peças de teatro e alguns contos. Interroguei-me: é possível que eu tenha escrito para me vingar? Ou escrevi para tentar entender o que se passara e tornar as coisas mais claras no meu espírito? Lembrei-me que escrever também pode ser uma forma de exorcismo: a ficção inspirada na realidade pode servir para nos livrarmos dos fantasmas que inventámos, para os desancarmos sem dó nem piedade. Porque é inegável: quando a paixão decidiu levar-nos à perdição, nós agigantamos tudo, conferimos uma importância excessiva aos incidentes mais insignificantes. E de pessoas banalíssimas, normalíssimas, fazemos monstros odiosos. Eu tinha plena consciência disso, mas confesso que tendo por vezes escrito em cima dos acontecimentos, ou muito pouco tempo depois de eles terem tido lugar, posso ter cedido nalguns casos à tentação da caricatura e da vingança. Não me serviu de nada, porque o que está perdido, está perdido. Mas mesmo sendo verdade que eu me servi em parte da escrita como forma de exorcismo, mesmo sendo verdade que eu usei a ficção para me vingar da vida e das frustrações do amor, não me parecia apesar de tudo que tinham sido essas as grandes razões que me tinham levado a escrever. Não sei explicar por que razão se escreve, mas sei que ao escrever eu também não era particularmente tolerante comigo mesmo nem com os meus erros. E sei que à medida que ia escrevendo me ia sentindo mais leve, mais amável, mais predisposto a amar a humanidade e mesmo as pessoas que me tinham magoado ou tornado infeliz. O que devia provar que não era por vingança que eu escrevia. A vingança, sabe-se, é azeda como o vinagre. E deixa remorsos. Ora eu, depois de ter escrito, sentia-me purificado e ligeiro como uma borboleta. Perguntei-me a dado momento se ao escrever sobre as minhas relações reais ou fictícias com uma mulher eu não estava de algum modo a tentar corrigir os erros que cometera, a querer aperfeiçoar e sublimar através da escrita o que fora confuso, doloroso e desagradável como experiência vivida. Isto é, a experiência era uma espécie de narrativa imperfeita, desordenada. E o meu trabalho de escrita consistia em corrigir, tentar eliminar e superar essa imperfeição através da reflexão. Para que se entendesse convenientemente o que, em estado bruto, antes de ser filtrado e iluminado pela escrita, poderia ser opaco ou mal compreendido. Se eu conseguisse diminuir a confusão e o caos que caracterizam os infortúnios que nos acontecem, talvez houvesse depois menos sofrimento nas recordações que nos ficaram. Não sei se tinha razão em pensar assim. Nessa noite fui deitar-me a meditar ainda no problema que o brincalhão do médico me obrigara inesperadamente a enfrentar.

Passaram uns dias, de vez em quando eu voltava às minhas reflexões. Entretanto, ou porque estivesse indeciso sobre os motivos que me levavam a pegar na caneta e a encher páginas e páginas de palavras, ou porque essas meditações me ocupavam excessivamente o espírito e a atenção, deixei temporariamente - ou cautelosamente - de escrever. Tinha de novo consulta marcada com o médico na sexta-feira e voltei lá com muita vontade de discutir. Assim que me viu, ele disparou: nem uma palavra, nem uma linha? Cumpriu à letra a minha proibição? Apertei-lhe a mão, dei uma gargalhada e sentei-me. Contei-lhe o que se passara, isto é, de que modo eu fora progressivamente abandonando a vontade de me rir para começar a interrogar-me sobre o sentido profundo da sua proibição. Sobretudo, confessei-lhe, o senhor obrigou-me a reflectir sobre as razões por que escrevo. Se a sua brincadeira tinha como objectivo fazer-me duvidar e obrigar-me a pensar, tenho de confessar, caro doutor, que conseguiu. Eu não brinco com coisas sérias, meu amigo, respondeu ele. E de facto não se ria, não deu mostras de achar piada à minha observação. Fiquei sem saber o que pensar nem como agir. Conheço-o há muito tempo, continuou ele de semblante um pouco carregado. Há três ou quatro anos você separou-se de uma mulher de quem pretende ter gostado muito, mas que praticamente pôs fora da sua casa para poder estar só, que era o que você imaginava que era a sua vocação. Ora o que é que aconteceu depois disso? Tudo o que você escreve é, de uma maneira ou de outra, um longo lamento, perfeitamente aberrante e nada lúcido, sobre essa perda memorável. Que você quando entra na casa de banho a veja ainda na banheira a rir-se para si e a convidá-lo para se meter lá dentro com ela, talvez seja aceitável e em todo o caso não é grave. Que você, quando está a lavar a loiça, a sinta ao seu lado na cozinha a fazer o jantar ou a arrumar os pratos e os copos nos armários, também se pode compreender. Quero eu dizer que tudo isso, o seu comportamento, é estranho e pouco saudável, mas esses exageros da imaginação infelizmente acontecem a muita gente. Eu até lhe desculpo que apesar de terem passado vários anos desde que você e essa mulher se separaram você continue a falar para o lugar dela na cama, embora ela esteja a dormir noutro sítio e você nem saiba onde. Ficou-lhe o hábito, paciência. Em resumo, você sente-se só e ela faz-lhe companhia. Mas, meu amigo, sejamos realistas, tudo isso são alucinações. Ora essas alucinações são precisamente o que eu encontro, permanentemente, como motivação mais evidente da sua escrita. A razão pela qual lhe proibi e proíbo seriamente de escrever, pelo menos durante um ano – repare que já cedi e que a minha proibição agora é temporária, quando inicialmente era definitiva – é simples: eu não quero que você passe tanto tempo na companhia dessa defunta senhora. Basta, já chega. Que ela seja parte das suas alucinações e ande lá pela sua casa nua ou vestida a fazer-lhe companhia, enfim, acho absurdo mas posso perdoar-lhe, a natureza humana é fraca. O que não posso admitir é que você continue a frequentá-la, a querer estar sempre com ela. Ela não merece. Eu ia protestar, explicar que não era bem assim, que eu às vezes era injusto nas minhas críticas, que também tínhamos sido felizes, que ela tinha muitas qualidades que eu apreciava, às vezes punha-se a dançar na sala depois de jantar com uma graça infantil que me comovia, eu não me tinha esquecido desse lado da sua personalidade. Ele interrompeu-me logo: ora, você mesmo é que me disse que ela era um estupor, portanto não me venha com histórias agora. Repare que ela lhe mentiu gravemente pelo menos três vezes. E não tenho em conta as pequeninas mentiras com que ela o mantinha iludido porque você mesmo, pelo menos nas histórias que já publicou e que eu li, decidiu considerá-las insignificantes. Ainda não percebeu que essa mulher era uma pessoa sem escrúpulos, uma tolinha - provavelmente uma tarada! - e que o tratou como se o meu amigo fosse estúpido? Teve mil oportunidades de se portar honestamente consigo e desperdiçou-as todas. Todas. Nunca se corrigiu, nunca entendeu o que é ser adulta e responsável. O culpado de tudo, na versão dela, era sempre o meu amigo. É o carácter dela, nada a fazer. Ela não mudará nunca. Ora a escrita, nos últimos anos, tem-lhe servido a si - de maneira talvez inconsciente, mas não importa - para prolongar, sem grande interesse nem proveito para ninguém, uma relação que já morreu e que nada nem nenhum livro poderá corrigir ou ressuscitar. Você peca por excesso de imaginação. Vício infantil, pernicioso. Bondade sua. Parvoíce, meu amigo. Seja sensato. Deixe a mulher em paz, o destino dela a levará aonde ela tem de ir. E viva o senhor em paz também. Faça uma pausa nessa obsessão despropositada. Não imagine tanto, não se recorde tanto, use os olhos para olhar à sua volta e a cabeça para pensar noutras coisas. Gosta de puzzles? Gosta de matemática? Aprenda matemática, é inofensivo e entretém muito o raciocínio. Jogue futebol também, ande de bicicleta. Vá nadar, caramba. Mas fica proibido de escrever, porque você, quando escreve, tem tendência a procurar más companhias. Ora eu não o quero em más companhias, não o quero perturbado pelos excessos da imaginação, não o quero alucinado. Considere esses livros que com uma obsessão maníaca tem andado a escrever nos últimos anos como assunto terminado. Falhado, talvez, paciência, mas são coisas que acontecem, ninguém é perfeito, a perfeição é difícil de alcançar. Terminado, ouviu? Nem mais uma linha. Acabou-se o amor, acabou-se o romance, acabou-se a ilusão. Portanto acabou-se a literatura. Ponto final. Eu ouvia-o irritado, incrédulo, com cara de parvo. O homem ultrapassara os limites do bom senso e eu não lhe achava piada nenhuma. Permaneci céptico, mostrei-me desagradado. O que é que ele, coitado, percebia de escrita e das razões que levam um ser humano a escrever? Médico, contenta-te em falar do corpo, pensei eu. Mas não tive coragem de o dizer. Despedi-me com o rosto fechado, olhando-o nos olhos com dureza, sem mostrar simpatia. Já percebera: tinha de mudar de médico. O homenzinho afinal não era brincalhão. Era arrogante, prepotente, ingénuo, meio doido. Quando me levantei para me ir embora recomendou-me jovialmente que não deixasse de tomar o anti-depressivo. Tanta confiança em si e tanta jovialidade voltaram a incomodar-me, pareceram-me uma provocação. Quem é que o indivíduo imaginava que era, afinal? Pelo menos teve a gentileza de não se referir de novo à proibição da escrita quando me apertou a mão para se despedir.

Mudei de médico, nunca mais lá voltei. Mas pouco a pouco, depois desse episódio que eu achava burlesco, começou a invadir-me e a paralisar-me, quando tentava escrever, um forte sentimento de culpabilidade. O que é que eu estava a querer corrigir, emendar ou negar, enquanto escrevia?  De quem é que eu estava a vingar-me? Estava a ajustar as contas com quem? O que é que a escrita substituía na minha vida monótona, falhada e vazia? Senti-me cobarde, inútil, preguiçoso. Senti-me vaidoso, arrogante, pretensioso. Falar, sozinho em casa, era a minha única profissão, o meu único talento. Os meus livros nem sequer se vendiam muito, não eram populares. Os escritores conhecidos, que nalguns casos até tinham começado a escrever depois de mim e tinham plagiado o meu estilo, consideravam-me um escritor insignificante. Escrever, no silêncio sepulcral das noites infindáveis, era no entanto a minha principal  ocupação na vida. Na minha vida, que entretanto ia passando. Pouca gente me lia, os jornais e as revistas não falavam de mim, o que eu dizia não tinha  grandes consequências? Mas eu, generosamente, estupidamente, teimosamente, escravo de uma vocação absurda e aparentemente niilista, sacrificava a minha vida à literatura. Não que a falta de sucesso popular me importasse ou afectasse grandemente, mas os meus editores, que tinham apostado no meu sucesso, tinham esperado mais de mim. A minha solidão pareceu-me, enquanto eu assim me interrogava, ansiosamente, uma coisa dolorosa e despropositada. Escrever para quê? A mulher que me inspirava tantas páginas, que me obrigava a tantas reflexões, deixara de me interessar, eu já enterrara o cadáver da nossa relação no cemitério do esquecimento há muito tempo. Porque é que eu escrevia? Se é verdade que eu continuava a acreditar no amor, não é menos verdade que nunca acreditei na imortalidade. O debate interior prolongou-se assim, por vezes dolorosamente, durante algumas semanas. Não é fácil admitir que desperdiçámos anos de vida - de uma vida que é breve – ocupados com parvoíces e entretidos com ninharias. Tendo enfim chegado a uma conclusão, uma tarde arrumei as canetas e os cadernos numa gaveta que fechei à chave e decidi arranjar trabalho como vendedor de automóveis.

Meses depois, já adaptado à minha nova realidade, estava eu a discutir com um colega, diante de um catálogo da Mercedes, as consequências das inovações electrónicas dos novos modelos, sobretudo nos travões, quem é que eu vi chegar com ar risonho? O saudoso doutor. Como eu gostei de o ver. Ele também me viu e veio logo ao meu encontro. Apertou-me a mão, riu-se jovialmente: deixa-me acreditar que seguiu o meu conselho e se deixou de infantilidades? Ri-me com ele, bati-lhe nas costas carinhosamente, invadido por sentimentos de gratidão, e vendi-lhe um BMW preto. Isto foi há uns seis meses. Esta manhã, estava a tomar um café e a ler o jornal aqui no stand, dei com a notícia da sua morte. Vinha da praia, espetou-se com o BMW contra um camião perto de Vila do Conde a noite passada. A nossa existência na terra é tão frágil, num instante acaba tudo.

Do livro de histórias Um Animal de Pele Branca, Imaculada
a publicar em breve pela OVNI 

Alfred Schnittke: Piano Quintet (3. Andante)

Monday, March 14, 2011

Musset: If you love me...

She gave evidence of more tenderness, more confidence than ever. She clapped her hands gleefully at the prospect of a happy journey; in short, she was all love, or at least apparently all love. I can not tell how I suffered at the sight of that factitious joy; there was in that grief which crazed her something more sad than tears and more bitter than reproaches. I would have preferred to have her cold and indifferent rather than thus excited; it seemed to me a parody of our happiest moments. There were the same words, the same woman, the same caresses; and that which, fifteen days before would have intoxicated me with love and happiness, repeated thus, filled me with horror.  
"Brigitte," I suddenly inquired, "what secret are you concealing from me? If you love me, what horrible comedy is this you are enacting before me?"  
"I!" said she, almost offended. "What makes you think I am acting?"  
"What makes me think so? Tell me, my dear, that you have death in your soul and that you are suffering martyrdom. Behold my arms are ready to receive you; lean your head on me and weep. Then I will take you away, perhaps; but in truth, not thus." 
"Let us go, let us go!" she again repeated.  
"No, on my soul! No, not at present; no, not while there is between us a lie or a mask. I like unhappiness better than such cheerfulness as yours."  
She was silent, astonished to see that I had not been deceived by her words and manner and that I saw through them both. 
"Why should we delude ourselves?" I continued.  
"Have I fallen so low in your esteem that you can dissimulate before me? That unfortunate journey, you think you are condemned to it, do you? Am I a tyrant, an absolute master? Am I an executioner who drags you to punishment? How much do you fear my wrath when you come before me with such mimicry? What terror impels you to lie thus?"  
"You are wrong," she replied; "I beg of you, not a word more."  
"Why so little sincerity? If I am not your confidant, may I not at least be your friend? If I am denied all knowledge of the source of your tears, may I not at least see them flow? Have you not enough confidence in me to believe that I will respect your sorrow? What have I done that I should be ignorant of it? Might not the remedy lie right there?"  
"No," she replied, "you are wrong; you will achieve your own unhappiness as well as mine if you press me farther. Is it not enough that we are going away?"  
"And do you expect me to drag you away against your will? Is it not evident that you have consented reluctantly, and that you already begin to repent? Great God! What is it you are concealing from me? What is the use of playing with words when your thoughts are as clear as that glass before which you stand? Should I not be the meanest of men to accept at your hands what is yielded with so much regret? And yet how can I refuse it? What can I do if you refuse to speak?"  
"No, I do not oppose you, you are mistaken; I love you, Octave; cease tormenting me thus."  
She threw so much tenderness into these words that I fell down on my knees before her. Who could resist her glance and her voice?  
"My God!" I cried, "you love me, Brigitte? My dear mistress, you love me?"  
"Yes, I love you; yes. I belong to you; do with me what you will. I will follow you, let us go away together; come, Octave, the carriage is waiting."

Confessions of a Child of the Century


Saturday, March 12, 2011

Fado da Sugestão (Edmundo de Bettencourt)

Anna Akhmatova: Fame is like smoke

Fame is like smoke,


I couldn't care less.


To both my lovers


I brought happiness.


One is still living,


In love with a blonde,


The other, in a snow square,


Has turned into bronze.


(Winter 1914)


Anna Akhmatova

Ahmad Jamal - On Green Dolphin Street

Monday, March 07, 2011

World of appearances


I said: you are so beautiful; it hurts. She blushed and she said nothing. I had seen her at the Campus but I don’t think she saw me. I said: want to have dinner with me in a very good restaurant? She said: how can I help you? I said: a single espresso. She said: two dollars twelve. I gave her the money and dropped a quarter in the tips glass. Then I looked on her eyes and I said it again: let’s have dinner together, you are so beautiful, it hurts, you may know many things that I ignore and need to know. She blushed again, the poor baby. She said: I was born in Prague, I was two years old when we came to the United States. And she went to the coffee machine to make my espresso. I smiled. I thought: I’m too old for her, it’s true, but the last time I heard someone make that stupid comment it was a girl who had a husband much younger than me and he left her, so, nobody really knows for how long love may last. I was not at all thinking about love though. I am just curious about other people's life. Is there any mystery worth attention and some passion beyond that one? She brought me the espresso and I said: thank you, you are so beautiful, like an Egyptian Nephertitis, it really hurts. She didn’t say anything; she just stayed there looking at me. She was so shy, just a baby. A good girl, really. I said: sometimes I can’t sleep at night; but I cannot expect anybody to love me anymore; you could teach me all the mysterious things you are the only one to know so much about. She didn’t say anything. But she didn't leave either. She remained there, her hands on the counter, staring at me from an indiscernible distance with her stunning eyes. As if neither she nor me belonged to this world of appearances. Later I went home and I felt so lonely. But, Gosh, I finally was able to talk to her and have her talk to me for about ten minutes. Things didn't happen exactly as I say but they could and we are allowed to invent a bit in order to make other people believe that life makes a lot of sense, aren't we? 

Questions and answers


"the ties between language and thought, on the one hand, 
and external affairs, on the other, are so pervasive that no 
aspect of thought as usually conceived is untouched. "

Donald Davidson, "Knowing One's own mind"
(Subjective, Intersubjective, Objective, 
Clarendon Press, Oxford, 2001)

M. – Can it be that talking about different things we are using the same words?

W. – What do you mean?

M. – I mean exactly that: the same word, referring to different things.

W. – Can we listen to the same music, sitting for example side by side, or not, and feel different things?

M. – I guess that it’s exactly what I was trying to say.

W. – Can we look at the same person, watch the same sun and the same mountains and the same ocean and have different opinions about it all?

M. – We sure do. We do it all the time. But why are you just repeating what I say? Are you submitting me to a test?

W. – What is a test? What do you have in mind now? If I say yes it doesn’t prove that we are talking abut the same thing. The same word may have a meaning for me and another meaning for you. Depending on my intentions or on your intentions. Isn’t it what you are suggesting? I am learning with you.

M. – – Oh, darling, shut up, please. I am having enough problems already with my first question; don’t make it more difficult with your concerns. I am not thinking about any test in particular. I don’t need to test you, do I? You don't need to test me, do you?

W.  – I was trying to help. I am sorry. Did I hurt your feelings? I apologize.

M. – Don’t even talk about feelings. Or, if you prefer, we can restart our discussion with just that word. What do you mean by feelings?

W. – What are you referring to when you talk about feelings?

M. – Hmm… Do you think we can explain what we mean, you and me, by feelings? I will not even try. Sure, we know that we are not talking about oranges and strawberries, about baseball or basketball. But what else do we know? Not much more.

W. – You ask the question knowing in advance that you cannot answer it?

M. – That’s how it is, mon amour. That’s how it works. Frequently the question is also the answer.


Saturday, March 05, 2011

Alfred Schnittke: Serenade (III)

Musset: You lie so well!

I have now to recount what happened to my love, and the change that took place in me. What reason can I give for it? None, except as I repeat the story and as I say: "It is the truth." For two days, neither more nor less, I was Madame Pierson's lover. One fine night I set out and traversed the road that led to her house. I was feeling so well in body and soul that I leaped for joy and extended my arms to heaven. I found her at the top of the stairway leaning on the railing, a lighted candle beside her. She was waiting for me, and when she saw me ran to meet me.

She showed me how she had changed her coiffure which had displeased me, and told me how she had passed the day arranging her hair to suit my taste; how she had taken down a villainous black picture-frame that had offended my eye; how she had renewed the flowers; she recounted all she had done since she had known me, how she had seen me suffer and how she had suffered herself; how she had thought of leaving the country, of fleeing from her love; how she had employed every precaution against me; how she had sought advice from her aunt, from Mercanson and from the cure; how she had vowed to herself that she would die rather than yield, and how all that had been dissipated by a single word of mine, a glance, an incident; and with every confession a kiss.

She said that whatever I saw in her room that pleased my taste, whatever bagatelle on her table attracted my attention, she would give me; that whatever she did in the future, in the morning, in the evening, at any hour, I should regulate as I pleased; that the judgments of the world did not concern her; that if she had appeared to care for them, it was only to send me away; but that she wished to be happy and close her ears, that she was thirty years of age and had not long to be loved by me. "And you will love me a long time? Are those fine words, with which you have beguiled me, true?" And then loving reproaches because I had been late in coming to her; that she had put on her slippers in order that I might see her foot, but that she was no longer beautiful; that she could wish she were; that she had been at fifteen. She went here and there, silly with love, rosy with joy; and she did not know what to imagine, what to say or do, in order to give herself and all that she had.

I was lying on the sofa; I felt, at every word she spoke, a bad hour of my past life slipping away from me. I watched the star of love rising in my sky, and it seemed to me I was like a tree filled with sap that shakes off its dry leaves in order to attire itself in new foliage. She sat down at the piano and told me she was going to play an air by Stradella. More than all else I love sacred music, and that morceau which she had sung for me a number of times gave me great pleasure.

"Yes," she said when she had finished, "but you are very much mistaken, the air is mine, and I have made you believe it was Stradella's."

"It is yours?"

"Yes, and I told you it was by Stradella in order to see what you would say of it. I never play my own music when I happen to compose any; but I wanted to try it with you, and you see it has succeeded since you were deceived."

What a monstrous machine is man! What could be more innocent? A bright child might have adopted that ruse to surprise his teacher. She laughed heartily the while, but I felt a strange coldness as if a dark cloud had settled on me; my countenance changed:

"What is the matter?" she asked. "Are you ill?"

"It is nothing; play that air again."

While she was playing I walked up and down the room; I passed my hand over my forehead as if to brush away the fog; I stamped my foot, shrugged my shoulders at my own madness; finally I sat down on a cushion which had fallen to the floor; she came to me. The more I struggled with the spirit of darkness which had seized me, the thicker the night that gathered around my head.

"Verily," I said, "you lie so well? What! that air is yours? Is it possible you can lie so fluently?"

Confessions of a Child of the Century