Sunday, October 16, 2011

O que é a poesia?


Além do que é permitido
Pouco a pouco, poesia, perdi os meus ares tímidos,
falei-te como se já nos conhecêssemos há muito tempo
ou tivéssemos andado à noite pelos bares de Lisboa
a afogar em álcool a solidão e a mediocridade da vida.
Eu, que pouco bebo e raramente saio depois de jantar.
A ti, que és recatada e conservas protegido em ti
o pudor que tinge de vermelho as faces adolescentes.
Agora sei que tenho de punir-me por ter ousado
tratar-te sem respeito nem sentido das conveniências.
Nem todas as palavras te podem ser dirigidas;
mas tu baixavas os olhos quando eu me esquecia
de que a banalidade da vida fere a tua pureza.
Não foi por mal que fui além do que é permitido:
à força de me encontrar contigo à mesa dos cafés
devo ter-me convencido de que a nossa intimidade
tornava inútil o meu acanhamento.
E repugnou-me inverter a ordem das palavras na frase
para disfarçar a simplicidade do que tinha a dizer-te.
Senti sinceramente que tu não apreciarias esse e
outros dar de ancas despropositados de adolescente
ingenuamente perversa e na realidade tola,
essa prova de mau gosto de tempos idos,
esse snobismo de pacotilha de épocas que já passaram.
Mas pergunto-me se não me enganei, estou cheio de dúvidas
Que pensarão de mim aqueles que foram testemunhas
do à vontade com que me debrucei sobre o teu ombro?
Eles, que souberam manter-se nos limites da boa educação
e na tua presença sempre se comportaram
como diante da filha de treze anos que tinham em casa
e que só pouco a pouco deverá ir adquirindo experiência?
A maldade do mundo é imensa, mas preservaram-te dela.
E eu falava-te de tudo como se te fosse possível ouvir-me,
cheguei a inventar histórias e aventuras que nunca vivi
só para te ver sorrir e procurar o brilho do meu olhar.
E dei vida a personagens que nunca existiram,
a sentimentos que eram o contrário do que eu sentia,
a fantasmas alheios à minha própria imaginação.
Não tinha os mesmos direitos que um autor de romances?
Não mais, porém, repetirei a ofensa antiga.
Na ingenuidade pálida do teu rosto
deixarei de ter prazer em ver a perturbação.
Sufocarei em mim tudo o que ainda podia confessar-te,
não irei sentar-me perto de ti quando te vir de longe
e me apetecer de novo procurar a tua companhia.
Dessa maneira tentarei merecer o teu perdão,
simultaneamente farei o possível por educar-me.
E quem sabe se um dia, tendo caído seriamente em mim,
não serei digno de voltar a olhar-te nos olhos, de respirar
de perto o ar que acaba de sair da tua boca?

In A Mala dos Marx Brothers, Editorial Caminho, Lisboa, 1988, ps. 82-83

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