Monday, July 11, 2011

A casa e a poesia



A casa: lugar dos segredos
inconfessáveis. Quem teria
tempo e a atenção necessária
para ouvir? As paredes, cúmplices, 
calam-se. E no entanto elas sabem,
guardaram na memória a recordação
dos gestos e das palavras. E, discretas,
assistem em silêncio ao regresso daquele
que tinha partido para sempre. Deixara-o só  
a traição: o amor puro corrompera-se, o seu
rosto sublime manchado pela mentira e pela 
perdição. E ele, então, reconhecendo a sua
ignorância, abandonara a casa. Era preciso
recomeçar, noutros lugares, com outras
pessoas, a aprendizagem. Talvez o destino
pudesse ser diferente. E a verdade, resgatada, 
teria o mesmo rosto. Mas não há, à nossa
espera, outros caminhos. Nem outras
casas são mais adequadas à habitação 
do que a casa antiga, aquela a que nos
tínhamos afeiçoado. A casa onde 
chegara ao fim a ilusão do amor
resistira à destruição. E ele, o foragido,
decidira regressar. À procura
de quê? Da ideia do amor 
antiga? Dnovo entre as paredes
protectoras, confundiam-se no seu
espírito o tempo passado e o tempo
presente. Ele sabia que os mortos não
ressuscitam do túmulo em que se
encerraram, que cada um de nós, 
incapaz de entender o que se passa, 
persegue teimosamente a fábula de 
um destino cheio de coerência. Não há
redenção. Mas do passado irrompia
ainda, como uma água limpa da
fonte inesgotável, a recordação do
amor. É esse o milagre: pertencer.
É essa a coragem: não duvidar.  

Não, não tenho nada a ver com os poetas
cuja única vocação é duvidar, dizia
ele. Eles destroem tudo aquilo em que
tocam, é essa a sua única obsessão. A
existência  é, para eles, uma ofensa à
inteligência, uma afronta ao nosso
orgulho. Isto é, uma ficção arbitrária
e inconsequente. Falta-lhes a coragem
para viver e desculpam-se com a falta de 
sentido do que existe. Mas o que existe
não precisa de ter sentido, basta-lhe
existir. De criar sentido não nos
ocupamos nós, incansavelmente?
E no excesso de sentido encontramos,
então, a ausência do sentido. Basta de
contestar e de se queixar. Rilke é o poeta.
Não Pessoa, que nunca coube na casa e
sempre preferiu refugiar-se no jardim a
olhar para tudo de longe, com o seu olhar
falsamente habitado pelas paixões que
lhe eram inacessíveis. Incapaz de perceber
e de pertencer, ele portou-se como a criança
insuportável e birrenta a quem todos os
brinquedos aborreciam - e que não queria
sentar-se à mesa. Rilke é o poeta. Ele
sobreviveu às dúvidas e ao desencanto, não
abandonou a casa nem se queixou de Deus.
Ele sabia que a única existência é aquela
que nos ofereceram e que rebelar-se não
era a solução nem a salvação. Rebelar-se 
contra quem? Deus não existe. Por detrás
da aparência de tudo pode revelar-se um
dia, inexoravelmente, o vazio de tudo. Mas
ele sabia que abandonar o barco no meio
da tempestade ou lançar-se no vazio do 
precipício seria ausentar-se definitivamente
do lugar de habitação - e para sempre
pôr termo à aventura e à paixão, renunciar.
Pertencendo, ele não quis que pensassem que
não pertencia. Renunciou a ser admirado pela
sua inteligência, glorificado pela sua lucidez?
Chamar ficção à existência não é renunciar?
Porque existir pode ser uma paixão. Basta
aceitar o que nos acontece, sem revolta contra
o criador. Pobre criador, que não tinha previsto
a rebeldia e a ingratidão do animal inteligente.
Mas o amor existe e o sofrimento existe, não
são apenas uma ficção da inteligência. E de
que serve a lucidez? É sabedoria recusar
a vida? Porque a realidade é real, embora
sejam vagas e facilmente nos enganem 
as palavras com que a evocamos. Assusta-nos
a falta de sentido. Mas o sentido não somos
nós? Em vez de duvidar, podemos acreditar
e podemos aceitar. E deixaremos de recear que
nos tomem por ingénuos, que nos acusem de
sermos tolos. O mistério existe e pode ser
desvendado. Desvendar não é o nome que
devíamos dar àquilo a que chamamos a
vida? E mais tarde, de novo, a verdade pode
ser corrigida. Repetidamente aprender. Pode
ser assim eternamente, não tem importância.
Estar vivo é o milagre, ir pelos caminhos
do campo ou da cidade à procura do sentido
do que nos acontece é o milagre. Aceitar. A
humildade torna possível o contentamento. E os
mais pobres de todos os pobres transformam-se
nos mais ricos de todos os ricos, naqueles a quem
foi concedido o privilégio. Aceitar e então
prosseguir, dentro da casa, sem remorsos, a 
aventura. A casa. Deixar de duvidar. Nela
tem lugar a perseguição daquilo a que
chamamos a felicidade. O que é ser feliz
não se pode descrever: a dor é uma forma
apaixonada de estar e de pertencer, um
atalho na perseguição obscura do que
não tem nome e escapa ao entendimento.  
Quem, iludido com o sentido das 
palavras no dicionário, incapaz de se
elevar acima do mal-entendido da
linguagem, pode, sem preconceitos, 
entender o seu destino?  Quem,
realmente, sem se deixar intimidar?


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