Tuesday, June 07, 2011

A cómoda inglesa (3)

Na cómoda inglesa tu guardavas
as palavras. E eu as fotografias.
Imagens do silêncio e das tardes
que tu passavas a andar pelas ruas
da cidade, afogueada, à procura de um
destino. Cartas escritas a ninguém
porque não havia quem as pudesse
decifrar, o sonho transfigurava
todas as confidências. Eu também
não me aproximava da verdade, embora
tentasse captar na máquina fotográfica
as sombras, a luz, o contorno dos rostos
e dos objectos. Encostada à parede, a arca
dos segredos calava-se, as gavetas rangiam
quando tentávamos abri-las. Resistiam
sem razão à nossa curiosidade, à inocência
com que insistíamos em acreditar que o
destino se pode perseguir, talvez decifrar.
Um dia, iludida com o amor, começaste
a ouvir os meus Nocturnos de Chopin.
E olhavas para mim como se eu ti-
vesse de me alegrar contigo. Achei-
-te infantil, sorri, mas não disse nada.
Desviavas-te do nosso caminho, mas eu
não me importei. Aonde é que o caminho
ia? Alguém um dia no futuro entenderia
o mistério dos rostos desconhecidos,
os gestos e as cores, as palavras incoe-
rentes? Eu não sabia responder. Nem
tentava. E tu tinhas adormecido, o teu
rosto repousava, perturbado, no
travesseiro. Foi há quanto tempo?


Lisboa, 20 de Setembro de 2004

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