Friday, May 13, 2011

Post Scriptum



A gente publica um livro e ninguém o percebeu. Nem nós, que o escrevemos. Anos mais tarde as coisas esclarecem-se. Retrato Breve de J. B. (escrito em 1966/1ª edição publicada pela Paisagem em 1975, 2ª edição publicada pela FENDA em 2006) resumia na última página o problema: “Eu deveria por exemplo ter começado por precisar de maneira clara sobre os termos: dizer digo disse direi, etc. “ E os aparentes jogos de palavras ou brincadeiras com palavras ao longo da narrativa eram sintoma e indício do mesmo problema: as palavras, com o sentido que com elas recebemos daqueles que nos precederam, só com alguma sabedoria do leitor acabam por significar o que aquele que escreveu queria e esperava que elas significassem.


O problema era a escrita, era como dizer sem mal-entendidos ou com uma ambiguidade sempre controlada o que se queria dizer. Mas começa-se a escrever e que acontece? As frases, uma vez escritas, revelam bruscamente ter sentidos que não tínhamos previsto ou que não queremos. A linguagem é um instrumento impreciso de expressão e comunicação de sentidos. No que queremos que a linguagem diga sobre a realidade intromete-se a história passada das palavras, o que outras pessoas lhes fizeram dizer, o que nós sabemos delas. Muitas vezes as palavras e as frases, olhadas com os olhos inesperadamente novos daquele que as escreveu, provocam estranheza: não têm o sentido que pensávamos que elas tinham, a lógica que as justifica é apenas aparente. Há expressões que adoptámos sem pensar e sem sabermos como se banalizaram ou “institucionalizaram” e que uma vez que as escrevemos parece não terem sentido ou terem sentidos que contestam, complicam ou desmentem o seu uso corrente. Em vez de dizerem inocentemente o que nós pretendíamos e pensámos que elas iam dizer, as palavras começam a dizer outra coisa. E escrever transforma-se num exercício perigoso, frustrante. Ou numa brincadeira, tudo depende da nossa capacidade de nos satisfazermos ou não com o sentido comum das palavras e das frases, com o seu sentido mais aceite ou o mais aparente, com o sentido institucionalizado, aquele que parece evidente ou simples de entender.


Escrever deve ser isso, então: questionar o sentido aparente e mais evidente das palavras e das frases em que se pretende dizer ou comentar a realidade. Tentar, apesar das traições da linguagem, apesar das dúvidas, apesar da insatisfação, apesar da ambiguidade que ressurge a cada passo da frase acabada de escrever, prosseguir e criar, no meio das dificuldades que vão surgindo, uma história. É como caminhar numa vereda muito estreita à beira de um precipício. Por isso os escritores geniais são raros. E mesmo na obra de grandes escritores há falhas e indecisões.


Mas os problemas não acabaram, há mais. As cenas, os episódios, as personagens, não são, uma vez imaginadas e postas no papel, o que nós queríamos. As convenções irrompem de todos os lados, a coerência alcançada através da submissão à lógica mais corrente traz consigo a insignificância ou a banalidade. Como resolver o problema quando se é um jovem escritor à procura da obra e do sentido do mundo? E adopta-se uma estratégia curiosa (eu adoptei): em vez de continuar a navegar nas águas perigosas do senso comum em que a banalidade ou o mal-entendido espreitam a cada passo, começa-se a ter prazer em destruir as expectativas do leitor através da desmontagem irónica, senão sarcástica, da lógica dos comportamentos, da lógica que deveria conferir um sentido estável e coerente aos acontecimentos e à personalidade daqueles que neles estão envolvidos (como sujeitos activos ou passivos). E o que poderia ser uma novela ou um romance transforma-se na paródia da novela ou do romance. E o pobre aspirante a escritor vai circulando, perplexo, no universo que criou e que pode parecer, de repente, um universo totalmente louco ou pelo menos um tanto ou quanto louco ou excêntrico.


O mal-entendido está criado. Ninguém, ou quase ninguém, percebeu o livro (o Fernando Venâncio imagino que sim, claro... e uma estudante francesa, Isabelle Fauquet, aluna de João Carlos Pereira na Universidade de Lyon, percebeu-o em pormenor melhor do que ninguém, com uma minúcia e paciência pouco comuns). Nós mesmos só percebemos pouco a pouco, mais tarde, a dimensão do problema e a gravidade do que estava a acontecer enquanto escrevíamos. Não, a linguagem não é um brinquedo inofensivo. A literatura, a pureza da expressão ou a expressão exacta do que queremos dizer não estão facilmente ao nosso alcance.

1 comment:

Manuel Poppe said...

Um abraço.