Monday, April 25, 2011

O certo e o errado

What is the general mark of the solution’s having been found?
(Wittgenstein, Zettel: 196)


O que é que está certo? O que é que está errado? Não estou a falar da minha vida neste momento. Ou estou? Eu posso estar certo, faço o que tenho de fazer. Mas o mundo pode estar errado, os outros podem estar errados. E tudo corre mal por causa disso. Ou menos bem. Não é que eu não faça concessões. Eu faço-as. Só que nem sempre basta. A dado momento o que parecia estar a correr bem já está a correr mal.

O que é correr bem? O que é correr mal? Nós planeámos e agora estamos atentos, confiamos, tudo vai acontecendo como previsto. Ou nós confiamos, estamos descansados, mas num minuto ou um dia percebemos: o que está a acontecer está errado, não nos faz felizes, as expectativas não se realizaram.

É possível que a minha adaptação à realidade tenha diminuído à medida que os anos passam. O mundo muda, as pessoas mudam, os governos mudam, a ciência fala de mudanças. E eu, teimosamente, permaneço no meu ponto de vista, limito-me a aperfeiçoá-lo. Não tenho suficientemente em conta o que acontece no exterior, não entro em sintonia com o movimento que anima os objectos em relação aos quais eu me constituo como sujeito. E depois, um dia, cansado de me dar conta de que as coisas não me correm como eu esperaria ou desejava, estou sentado à mesa de um café, indiferente, aborrecido, num estado de espírito de tanto se me dá isto como aquilo. Penso em jantar, concluo que não tenho apetite. Penso em beber, não me apetece. Penso em pessoas, não quero ver ninguém, já não espero nada dos outros. Só um grande acontecimento, imprevisível, poderia modificar o meu estado de espírito. Mas teria de ser um acontecimento extraordinário. Muito extraordinário. E acontecimentos extraordinários são raros. Além disso a minha cumplicidade é necessária, pois se não entendo o que há de extraordinário no que está a acontecer é como se nada estivesse a acontecer.

Estava neste estado de espírito quando entrou na minha vida uma rapariga que a poderia transformar. Já não sei bem como é que a conheci, mas uma tarde, inesperadamente, dei por mim e estávamos ambos sentados no chão em frente de uma lagoa, perto do mar. Os olhos dela, os lábios dela, a pele fina do rosto, o desenho nítido das sobrancelhas eram de uma perfeição perturbadora. Eu olhava para ela e estava inquieto. Ela olhava-me nos olhos sem receio nem maldade, prestava-me atenção. Eu achava que não merecia tanta curiosidade, ela estava a ser generosa comigo. Mas não nego que me sentia bem. Pensava: olha para mim, dá-te conta das rugas que os anos foram desenhando à volta dos meus olhos; mas ela não parecia interessada em olhar para mim com lucidez. Continuava a sorrir-me, a olhar-me nos olhos, a inquietar-me. Pensei que era melhor cortar o mal pela raiz, ir-me embora. Eu mal a conhecia, ela tinha-me sido apresentada por uma colega quando eu ia a sair da biblioteca da universidade e elas as duas a entrar. E agora tinha-a encontrado de novo na biblioteca, no sétimo andar, na secção dos livros de crítica literária. Saímos os dois com livros na mão e fomos sentar-nos na relva em frente da lagoa. O dia estava bonito, a temperatura amena. Vou-me embora, pensei eu, não quero sarilhos, eu não acredito no amor ou se acredito faço mal porque o amor, a esperança no amor, a fé no amor só duram um instante, o tempo que leva a ignorância a desfazer-se. Vou-me embora, tenho de me ir embora.

Mas não fui. Não tive coragem. Estava curioso, a querer ver o que acontecia, o que poderia acontecer, como é que as coisas entre nós podiam evoluir se eu não desaparecesse já? Provavelmente estava. Mas estava sobretudo a saborear, com um prazer sublime, a companhia dela. Depois de ter pensado que devia ir para casa, que não me convinha nada meter-me de novo em complicações sentimentais, houve um momento em que cedi, decidi despreocupar-me. Perdi o medo, queria lá saber das consequências. Ela fazia nascer em mim uma curiosidade intensa, que ao mesmo tempo me alegrava e me deixava infeliz. A beleza dela, a sua juventude comoviam-me. Eu não ignorava o sofrimento que pode provocar em nós a impossibilidade de possuir, não ignorava a dor que nasce de descobrirmos que é impossível, apesar da nossa vontade e dos nossos esforços, entrar em relação com outra pessoa. Apesar disso não me fui embora. Ela não se apaixonaria por mim e mesmo que me amasse eu sabia que o amor não podia durar. Mas eu estava seduzido pelo som da sua voz, pela limpidez dos seus olhos, imaginava-me a beijar a boca dela, a ser acariciado pelas suas mãos. Apetecia-me dizer-lhe ao ouvido baixinho palavras ternas, queria apertá-la contra mim. E por isso, meio perdido de mim mesmo, complacente, fui ficando.

Íamos conversando de tudo e de nada, sem pressas. O sol estava um pouco forte, batia-nos nos olhos, mas não tinha importância. Algumas gaivotas esvoaçavam sobre a água da lagoa, guinchavam desagradavelmente, mas não tinha importância. E então entendi: aquele rosto tranquilo e perfeito, o olhar tão franco, a boca que me sorria com candura tinham-me trazido à memória a recordação de alguém que eu tinha amado muito. Alguém que eu tinha perdido, não sei se por eu ser estouvado se por ela ser meio doida, se por o amor não passar de um malentendido passageiro em que nós depositamos esperanças insensatas. Quando nos separámos ela já deixara de ser a adolescente inocente e pura que eu tinha conhecido, evoluíra, transformara-se noutra pessoa, uma estranha. Uma estranha que não se interessava o suficiente por mim, que não percebia que eu a amava, que me fazia infeliz. Eu olhava para ela, comparava a tresloucada em que ela se transformara com a rapariga encantadora e afável que tinha conhecido alguns anos antes e apetecia-me chorar de raiva por não ter sido capaz de prever nem de evitar a sua perdição, a sua degradação física e moral. Ela perdera a noção do bem e do mal, tornara-se invejosa e quezilenta, passava o tempo a queixar-se. De tudo e de toda a gente. E agora, inesperadamente, o acaso introduzira-a pela segunda vez na minha vida, ainda inocente, ainda sincera, ainda por corromper. Estremeci. Não sei se comecei a confundir no meu espírito o rosto e a pessoa que tinham ficado gravados na memória com o rosto e a pessoa que tinha na minha frente. Por momentos creio que foi o que aconteceu. Depois tomei consciência da dualidade, dos dois planos em que alternadamente me situava. Os sentimentos antigos e os sentimentos actuais distinguiam-se mal, mas eu percebi que me dava um prazer desconhecido ou esquecido a confusão em que caíra e a que me abandonava voluptuosamente. O que é o amor, além de ser um devaneio da nossa imaginação febril? Entre nós já não há amor, já não há paixão, o amor é outra coisa, dissera ela antes de nos separarmos. Eu não sabia onde ela estava, nunca mais ouvira falar dela. Apetecia-me perguntar-lhe se tinha encontrado noutra pessoa o amor que já não existia entre nós. Mas também podia acontecer que ela só viesse a entender o amor como eu o entendia muitos anos mais tarde, quando eu já tivesse morrido.

Fui-me apercebendo de que ela era inteligente, discreta, um pouco tímida. Tínhamos começado por nos sentar lado a lado, mas pouco a pouco eu ficara quase na frente dela e de costas para a lagoa. Achava-a tão bonita. Estava seduzido, cheio de admiração. Estava subjugado, a olhá-la com uma atenção intensa. Tão intensa que o seu rosto, os seus olhos, a sua boca me davam por momentos a impressão de estarem dentro de mim, de fazer parte de mim. Existe em nós, escondido, secreto, ignorado, um ser mais profundo a que os olhos dão acesso? Eram esses seres enigmáticos, indefiníveis, o dela e o meu, que comunicavam entre si numa linguagem que era inacessível à nossa consciência?

Pensei que nunca mais me esqueceria dela nem daquele momento privilegiado que o céu me enviara sem eu estar à espera. A sua inteligência, a força do seu olhar, a sua beleza intimidavam-me e eu disse-lho. Ela corou e confessou que não era assunto em que não tivesse pensado, embora não entendesse como é que podia intimidar as pessoas, os homens sobretudo. Falou como se estivesse a pedir desculpa por ser como era. Eu ri-me e comentei que lidar com a intimidação faz parte das regras do jogo. Ela, a sorrir: que jogo? Eu, a sorrir: o jogo da vida. Continuámos a falar, mas falámos de quê? Ela ouvia-me, eu ouvia-a. Mas ouvíamos as palavras como palavras, isto é, como sons com um sentido mais ou menos seguro? E sabíamos o que estávamos a dizer? E o que estávamos a dizer era coerente, as ideias encadeavam-se com lógica e com intenção?

A tarde avançou, o ar refrescou. Era preciso fazer qualquer coisa. Estávamos ali há quase duas horas, tempo de mais para duas pessoas que não se conheciam. Era arriscado. Eu sabia que se continuássemos a falar me apeteceria levá-la comigo para casa, me apeteceria jantar com ela, me apeteceria dormir com ela, abandonar-me irresponsavelmente ao prazer milagroso do amor novo. Se continuássemos a conversar em breve chegaria o momento em que eu seria incapaz de me separar dela. Atemorizou-me a ideia do sofrimento que havia de abater-se sobre mim se depois de termos estado tão próximos um do outro, se depois daquela intimidade, eu tivesse de ir sozinho para casa. Depois de termos começado a descobrir-nos um ao outro que sentido tinha interrompermos o desejo e o prazer doloroso desse instante que nunca mais poderia repetir-se? Não tinha sentido nenhum.

Vendo-me calado, ela perguntou-me se eu era uma pessoa melancólica. Surpreendeu-me a pergunta e o interesse dela? Creio que não. Respondi que não sabia, talvez ela pudesse sabê-lo melhor do que eu. Ela olhou-me e calou-se. Está a fazer-se tarde, vai arrefecer, daqui a pouco estamos cheios de frio, disse eu. Eu não tenho frio, disse ela. Mas eu tinha começado a levantar-me e ela levantou-se também, sacudiu umas ervas da saia. Eu não tinha frio. Queria ir-me embora porque tinha percebido que a situação estava a apodrecer como uma maçã com bicho. Se eu a queria voltar a ver e a falar com ela tinha de interromper o encantamento, por muito que me custasse. Foi isso que pensei, foi o que fiz. Começámos a caminhar. O ombro dela e o meu tocavam-se de vez em quando. Eu gostava desse contacto. Tive medo de nunca mais a ver. Olhava para o rosto dela de lado e ela sorriu-me. Crescera entre nós uma cumplicidade, uma familiaridade que me agradavam. Ela já me fazia uma falta terrível. Como é que era possível em tão pouco tempo terem-se criado laços tão intensos? Na verdade, se as coisas fossem como deviam ser, não devia ter havido interrupção. Eu devia corrigir a decisão que tomara e abraçar-me já a ela, beijá-la na boca, apertá-la contra mim. Não era preciso falar. Mas as regras são as regras e quem tem a coragem ou o talento necessários para as desrespeitar? Eu tinha de portar-me bem e ela também, tínhamos de ignorar o que sentíamos, o desejo e o amor, a curiosidade e a inquietação, tínhamos de ir caminhando entre as árvores quase à beira do mar como se nada tivesse acontecido, estivesse a acontecer ou pudesse acontecer entre nós. Para onde fugira o meu heroísmo teórico de defensor da sinceridade e da verdade nas relações entre as pessoas? Devia pedir-lhe o número de telefone, mas senti-me tímido. Ou era preguiça? Se a deixava ir-se embora sem combinar nada provavelmente nunca mais a via.

Parámos numa esquina onde havia um café, pensei em convidá-la a entrar. Pareceu-me que não vinha a propósito, que não tinha sentido, eu já não sabia que dizer-lhe, estava cansado e confuso. Sem pensar estendi a mão e acariciei-lhe o cabelo. Ela não reagiu, limitou-se a olhar-me muito séria. Beijo-a? Aproximei-me dela, dei-lhe um beijo na testa. Ela continuava sem reagir, nem que sim nem que não. Pus-lhe o braço à volta dos ombros e ia dar-lhe um beijo na cara mas não sei o que aconteceu e beijei-lhe a orelha. Ela riu-se, pareceu-me meio embaraçada com a situação. Não tive coragem para mais. Recomeçámos a andar. Mais à frente ela parou. Olhámos um para o outro. Eu não disse nada, ela disse que ia para a esquerda. E eu? Eu ia para a direita, respondi. Despedimo-nos, hesitantes. Voltei a acariciar-lhe o cabelo desajeitadamente, dei-lhe outro beijo atrapalhado e casto na testa. Vi-a afastar-se, não me mexi, fiquei ali parado no meio do passeio, atordoado, fora da realidade. Senti-me exausto. Passou uma senhora e cumprimentou-me, respondi-lhe, mas eu sabia lá quem é que ela era. Nem queria saber. E então tomei uma decisão. Comecei a correr na direcção que ela seguira. Acabava de entender que era importante eu continuar a dormir em paz, a ler em paz, a ouvir música em paz. Não queria desordem nos meus dias, nem viver de falsas promessas de felicidade. Ir para casa ainda meio febril e cheio de inquietações amorosas era errado, eu já sabia que não jantava, que ia dormir mal. E de manhã acordava convencido de ter enfim encontrado a mulher da minha vida e de estar apaixonado. Não havia razão para isso, era um exagero. Quantas vezes tinha caído na mesma armadilha? E depois sofria, desiludido. A noite entretanto começava a cair. Era absolutamente necessário que eu a reencontrasse e pudesse olhar de novo para ela, que falássemos pelo menos dois minutos. Queria observá-la friamente, imparcialmente, vê-la com olhos despidos de paixão. Tinha de perceber que ela era apenas uma rapariga igual a tantas outras, sem nada que a tornasse mais atraente ou mais interessante do que as outras que se cruzavam comigo nas ruas da cidade monótona. Continuei a correr, não a via longe nem perto. E se já não conseguisse alcançá-la? E se ela já se tinha metido por uma das transversais?

O que é correr-nos a vida bem? O que é correr-nos a vida mal? O que é o certo? O que é o errado?

Do livro Regresso à Casa da Montanha, a publicar

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