Wednesday, April 06, 2011

Duas palavras


Gostava de conhecer o sentido das palavras. Uma palavra, porém, cada palavra, é um mistério. Vê-se-lhe o rosto, o corpo, a forma, o fato. A aparência, que nunca muda. Mas não se vê nem se suspeita o que está lá dentro, aquilo que é alguma coisa em si mesmo e não o invólucro de outra coisa. Eu sei o que estou a dizer. Passei a vida a falar, anos e anos. Agora já entendi que me comportei como uma criança: sem saber o que fazia, brinquei com barras de dinamite num canto da sala. Entenderam-me, desentenderam-me, eles a mim e eu a eles. O mal-entendido foi permanente. A ignorância total. Usámos as palavras sem saber exactamente o sentido ou os sentidos que se escondiam lá dentro. Nem suspeitámos que existisse de maneira tão explícita qualquer coisa que se pudesse considerar como o “lá dentro”, a “alma”, o “ser verdadeiro” das palavras. Tudo parecia tão simples e evidente. Como se sentir fosse o bastante para saber.

Acordei para a realidade. Abriu-se-me mais uma janela através da qual se pode olhar o mundo de outra perspectiva. Nasceram-me olhos novos. Como é que as coisas aconteceram? Aconteceram em minutos. Um amigo meu, que é sensato, pôs-se a falar ao meu lado, eu estava distraído, já o conheço há tanto tempo. Ele ia falando e eu, sem lhe dar grande atenção, ia pensando não sei em quê, noutras coisas, em nada. Duas palavras, porém, duas palavras ditas várias vezes por ele, não sei a que propósito mas com algum ênfase, conseguiram romper a cortina espessa da minha indiferença. Ouvi-as sem ouvir o resto. Freud, chamado para aqui, talvez encontrasse uma explicação convincente e interessante para o meu comportamento. Eu não encontrei nenhuma.

        As palavras foram: obsessão, perdão. Rimam. Terá sido porque rimam que as ouvi e me detive nelas? Não sei. Só sei que as duas palavras me bateram nos ouvidos e através dos ouvidos penetraram na zona do meu espírito onde se processam as interrogações. Comecei a reflectir. Obsessão. Perdão. É tão fácil esvaziar uma palavra de sentido. Basta repeti-la várias vezes. Vamos por partes, pensei eu. Estará ele a acusar-me de ser uma pessoa obsessiva, de ser escravo de alguma obsessão? Não quis perguntar-lhe, mas parti do princípio que era isso que ele me estava a querer dizer: tens uma obsessão. Ou mais do que uma, várias, sabe-se lá.

Obsessão o que é? Uma mania? Um pensamento dominante e intenso? Certamente. Pode ser. Mas há manias e manias, pensamentos e pensamentos. Nem todas, nem todos se equivalem. Seja como for, obsessão, já se percebeu, não é comportamento normal, é vício. Isto é, deformação. Isto é, erro, pecado, asneira, atitude que merece ser criticada e tem de ser corrigida. Obsessão é qualquer coisa que não se admite, que tem de ser censurada.

Não sei se o meu amigo estava a olhar para mim com ar de censura porque eu, como já disse, mal o ouvia, não olhava para ele com atenção. Estava distraído a pensar noutras coisas. Perdido nas minhas fantasias, completamente ausente. Teria ele vindo falar comigo, perguntei-me então, teria ele vindo passar a tarde comigo para me transmitir uma mensagem muito importante mas que tinha, para não provocar reacção agressiva ou melindre, de ser dissimulada em conversa banal? Estaria o meu velho amigo preocupado com a minha saúde, com o andamento da minha vida? Alguém lhe falara de mim como se eu estivesse doente e ele acorrera, prestável como sempre, disposto a ajudar? Não encontrei resposta para tais perguntas. Mas pensei que devia ser isso. Ele viera para me dar uma lição. Duas lições. Uma lição sobre a palavra “obsessão” e outra lição sobre a palavra “perdão”. Sobre as palavras e sobre as coisas, evidentemente. Virei-me para ele:
- Obsessão?
Ele olhou para mim e repetiu com suavidade:
- Obsessão.
- E qual é a obsessão? – perguntei eu.
- E qual é a obsessão? – repetiu ele paternalmente, como se estivesse ainda a pensar no que havia de dizer.
- Sim, qual é a minha obsessão? - perguntei eu.
- As tuas obsessões variam. Variam pouco, mas vão variando. Só que andam todas à volta do mesmo poço ou da mesma árvore. Como a aranha que só vê a teia que construiu, que passa o tempo a vigiá-la obsessivamente, sem olhos nem atenção para mais nada, assim és tu. À volta do poço, à volta da árvore. Não largas, não despegas. Não te cansas. Nós, os teus amigos, falamos nisso. Estamos preocupados. O teu universo, que era vasto, reduziu-se. Deixaste de ver ao longe, só sabes ver o que está perto. E o que está perto está tão perto que está dentro de ti. Não descolas. A obsessão entranhou-se-te no espírito, já faz parte de ti, da tua personalidade.
Ouvi, não fiquei indiferente:
- E foi por isso que vieste almoçar comigo, tomar café comigo, para me dares uma lição de bom senso, para me criticares?
Ele, sem se comover:
- Não tomes as coisas assim. Abre-te, descontrai, esquece, não penses tanto. É só isso: não penses. Porque de se pensar tanto nasce a intensidade do pensar. E de pensar excessivamente num único assunto nascem a obsessão e a cegueira. O mundo encolhe, reduz-se, atrofia-se, assemelha-se a uma batata seca. Uma coisa sem força, vaga, inútil, aborrecida.
- O meu mundo é uma batata seca, é isso?
- Não desconverses. Tu sabes bem que não é isso, tu entendeste perfeitamente o que eu queria dizer.
Calei-me. Provavelmente tinha entendido. O universo das minhas preocupações ultimamente era reduzido. A solidão e o tédio não explicavam tudo. A maturidade também não. Ou explicavam? Ou ficamos assim, com interesses reduzidos, quando nos cansamos, quando as desilusões se acumulam? Eu não queria admiti-lo, dar o braço a torcer, era isso? Talvez. Pensei um pouco, olhei para ele, que continuava com ar de sábio grego da antiguidade, e decidi passar à palavra seguinte. Perguntei-lhe:
- Perdão?
- Perdão porquê?
- Não estou a pedir perdão. Estou a retomar a conversa. Tu queres que eu perdoe, deve ter sido por isso que vieste falar comigo hoje. Ao teu velho amigo, hoje, estava reservado o papel do discípulo, o papel do estudante, o papel do aprendiz, o papel do pecador. O papel daquele que tem de ser corrigido e punido.
Ele, imperturbável:
- Não exageremos, não exageremos. Tu fabricas literatura sem esforço e sem parar, tudo te serve. Excesso de actividade mental, excesso de imaginação.
Eu:
- O que é perdoar?
Ele calou-se, fixou o olhar nas casas do outro lado da avenida. Depois repetiu, calmamente:
- O que é perdoar?
Eu:
- Ninguém me pediu perdão por nada, de nada.
Ele, meio arrogante:
- E é preciso pedir?
Eu, meio irritado:
- Quer dizer que eu tenho de adivinhar? Eu não sou o Espírito Santo. Não é preciso pedir? Ninguém diz nada, ninguém pede nada, e nós, espontaneamente, decidimos ser generosos, perdoamos. Perdoamos o quê?
- Literatura, já estás outra vez a fabricar literatura. Nunca te cansas.
Fiz que não ouvi.
- O perdão é coisa que se ofereça, coisa que se dê sem razão? Como dar o que ninguém nos pediu? Dá-lo a quem? Para quê?
- Não penses tanto. Não compliques. Perdoa e pronto.
Não respondi. Perdoa e pronto? Depois queixei-me:
- Perdoar é esquecer ? Eu não me esqueci. Fizeram-me mal, atiraram-me com uma pedra, deitaram-me a casa abaixo - e eu esqueço-me? Faço de conta que não houve mudanças sérias na minha vida, que não me aconteceu nada? Que interessante. Excessivamente interessante.
O chato continuou:
- Perdoa e pronto.
- Ninguém me pediu nada.
- Perdoa. É melhor para ti e para os outros. Toda a gente erra. Quem te fez mal merece que continues a dar-lhe tanta importância? Esquece.
- Talvez o ódio seja a última forma de amar quem nos fez mal.
- Literatura, tudo isso é apenas literatura. Não contes comigo para jogar esse jogo.
- Dar o feito por não feito e o dito por não dito? Enterrar tudo? A Deus pede-se perdão e não se sabe se ele o concede. Parte-se do princípio que ele é generoso na sua majestade e perdoa à nossa insignificância os erros que cometemos. Mas eu não sou Deus. Deus provavelmente sabe o que é perdoar. Eu não sei. Será deitar a ofensa para o caixote do lixo como se fosse lixo, como se ela cheirasse mal e já não pudéssemos suportar o seu odor nauseabundo? Como é que se perdoa? Porque é que se perdoa? O que é que acontece depois de se ter perdoado? Explica-me, talvez eu aprenda. O que é que se ganha, o que é que se perde, o que é que muda por perdoarmos?
- Não te zangues, não vale a pena.
- Porque é que a hipótese de eu não perdoar te incomoda tanto? Tens medo que Deus te peça contas por não me teres catequizado o suficiente?
- Eu não acredito na existência de Deus. Fiquemos cá por baixo, entre nós. Perdoar pode ser esquecer, pode ser compreender. Pode ser descobrir atenuantes para a ofensa. Pode ser dar o benefício da dúvida. Pode ser simplesmente um gesto magnânimo, de cariz divino. Imitamos Deus por instantes. Engrandecemo-nos.
Vai ver se está a chover na China, pensei eu. Vai tomar banho no Tamisa. Perdoa tu a quem te ofendeu. Eu já perdoei o suficiente. A mim nunca ninguém me perdoou nada.
           Estava irritado. Era melhor calar-me, não dizer nada. Estava a ferver por dentro. Sabia que não tinha razão: também a mim alguém me deve ter perdoado alguma coisa e nunca se perdoa o suficiente. Apesar disso, embora admitisse que estava a pensar e a agir erradamente, não mudei de opinião. E disse-lhe:
- Imagina uma pedra dura, granito por exemplo. Grava nela, com arte e paciência, uma palavra, uma frase. Grava profundamente, com paixão, porque a chuva e o vento são lentos mas eficazes a destruir - e tu queres que a ferida da pedra dure.
- Está bem, gravo. E depois?
- E depois pede à pedra que se esqueça daquilo que gravaste nela, que dê o gravado por não gravado, que te perdoe ter sido massacrada. A pedra, se falasse, mandava-te dar uma volta.
Ouviu-me sem me olhar, não me respondeu, deixou-me sozinho com o problema por resolver. Perdão... Perdoar... Com toda a honestidade, o sentido da palavra escapava-me. Não pode ser esquecer. Ou pode? Esquecer é tirar existência ao que existe, é apagar de vez. Por acidente, por doença, podem apagar-se da nossa memória alguns acontecimentos, os nomes, as imagens, a recordação dos sentimentos. Talvez haja medicamentos que consigam, sem ser necessário um acidente ou a doença, o mesmo resultado. Não sei. Mas se perdoar é esquecer e apagar, o perdão não depende de mim nem é acontecimento que possa ter lugar por decisão minha. Eu posso tomar a decisão de esquecer, de acordo, mas não tenho o poder de fazer com que ela se realize. Posso querer esquecer e não conseguir. Portanto, se perdoar é esquecer, ou apagar, ou enterrar, perdoar está fora do meu alcance. Ponto final. Não se fala mais no assunto.
Foi isso que lhe expliquei. E ele, casmurro, sempre sisudo sem deixar de se mostrar afável, mal olhava para mim. Não me queria ver. Depois saiu-se com esta:
- Não sei o que é perdoar. Mas talvez seja diferente de esquecer. Talvez seja reconhecer a imperfeição humana, a dos outros e a nossa. A tua e a dela.
Dei um salto na cadeira.
- A dela? A minha?
Ele não respondeu, não se mexeu na cadeira. Impassível sempre. Casmurro. Cabrão.
Eu sei que sou imperfeito. Sofro com isso, como muita gente sofre por não ser como gostaria de ser. Nunca exigi a ninguém que fosse, na sua relação comigo, consigo ou com a vida, perfeito. Não é coisa que se exija, em que se pense, pois não? Nunca fui um monstro de rigidez moral. Com os erros e os anos aprendi a ser mais justo, mas também fiquei mais tolerante. A minha imperfeição e a dos outros é um facto indiscutível, nem vale a pena perder mais tempo com o assunto. Mas há limites.
Ele, como se me ouvisse pensar:
- Há limites? Claro que há limites para a imperfeição. Mas para o perdão? Haverá limites para o perdão? Haverá condições? Para o perdão não pode haver condições. Perdoa-se, é tudo.
Nem respondi. Deixei de olhar para ele, desinteressei-me das suas reacções. Ele continuou a lengalenga:
- A magnanimidade de quem perdoa não impõe limites nem condições.
          Falar é fácil. Teorizar é fácil. Vai-te reciclar, pensei eu. Mas não disse nada. Viver, amar, sofrer, não são teoria, não são ideias, não são palavreado. Depois disse:
- Viver dói na carne. Sofrer dói na carne. E dói no espírito. Como perdoar? É impossível.
Ele, já meio vencido:
- Vai ver ali à cervejaria da esquina se eu lá estou. És insuportável.
E calou-se outra vez. Apeteceu-me ir-me embora. Não tinha de o aturar. A amizade não justifica tudo, ele estava a abusar da minha benevolência. Mas fiquei. Calado, mas sem deixar de me interrogar, de pensar. Foi ele que voltou à carga:
- Perdoar pode ser reconhecer a impossibilidade de negar, de atenuar ou de apagar o erro. E no entanto lançar sobre aquele que errou um olhar humano de compreensão. De dor, talvez. Mas sobretudo de compaixão. Compaixão sem orgulho, pura cumplicidade na paixão uma vez mais, a última talvez.
Eu percebia o que ele queria dizer. Ele tinha razão, eu estava de acordo com ele. E estar de acordo com ele agradou-me bruscamente, senti-me inteligente e generoso, moralmente superior. Mas eu não tinha mudado de ideias. Não havia em mim qualquer desejo ou intenção de lançar sobre quem me tinha ofendido um olhar de perdão. Havia de odiá-la o resto da minha vida. Não todos os dias, certamente, seria cansativo e tenho mais que fazer e em que pensar. Mas o ódio permaneceria em surdina no fundo da minha consciência e havia de subir à superfície com alguma regularidade. Quando não tivesse outra ocupação, por exemplo, ou nos momentos de tédio. O que ela me fizera não tinha perdão. Vivi anos e anos no erro, a perder tempo de vida por causa dela. Esquecer e perdoar seria admitir que ela tinha sido apenas um erro banal na minha vida.
Ele, ao meu lado:
- Não é que eu tivesse esperança de te convencer, de te ver mudar de ideias. Mas pelo menos tentei. E não foi por ela que o fiz, ela não me interessa muito nem me parece que mereça a atenção que lhe estás a dar. Fi-lo por ti. Eras tu que ficavas mais leve, mais feliz. Não queres entender.
As pessoas não sabem o que dizem, não sabem do que falam. Pegam nos factos sem saber o que está lá dentro, o que se passou. É como pegar nas palavras sem ter ideia dos sentidos que por detrás do seu rosto sempre igual se escondem. Pegam nos factos brutos, no que pensam que se passou, na história que eles próprios começaram a contar, e falam, falam. Sabem o que é a dor? Não sabem. Sabem das dores deles, não das dos outros. Sabem o sabor das lágrimas? Não sabem. Sabem o que é ter perdido tudo? Não sabem nada. Mas falam. Virei-me pare ele:
- Eu não sou Deus. E ninguém me pediu perdão. Esta conversa é absurda. O que é que te deu?
Ele levantou-se, com um sorriso benevolente e discreto de filósofo grego no rosto de casmurro, apertou-me a mão e foi-se embora. Fiquei sozinho na esplanada do café. Acendi um cigarro. À minha volta rapazes e raparigas, estudantes da universidade que ficava perto, iam e vinham, com os seus risos e brincadeiras. O que é perdoar? Creio que é apenas esquecer. Mas esquecer, já o disse antes, não depende de uma decisão ou desejo meus. Perdoar também pode ser olhar para baixo, para a imperfeição e a maldade, e perdoá-las. Mas eu não sei olhar para baixo. Definitivamente, perdoar não está ao meu alcance, não faz parte dos meus projectos. Eu não sou Deus. Levantei-me também, fui à minha vida.

Do livro Um Animal de Pele Branca, Imaculada, a publicar em breve pelas edições OVNI

1 comment:

bruno said...

abraço, João. aguardo o lançamento.