Saturday, March 26, 2011

A questão do sentido das palavras

1. É impossível dizer com clareza científica qual é o sentido de uma palavra. O sentido de uma palavra pode estar indicado num dicionário, mas o sentido é sempre coisa puramente mental (invisível). É impossível comparar o sentido de uma palavra em momentos e usos diferentes como se pode comparar uma mesa com outra mesa. Não há fotografias do sentido das palavras e o dicionário de sinónimos é apenas isso: remete para outras palavras de que também não se pode ver o sentido porque o sentido não tem existência física e portanto não se pode ver. Sabendo isso, os filósofos falam, apesar de tudo, como se o sentido das palavras tivesse existência real e material (a que se poderia tirar uma fotografia), falam como se o problema do sentido das palavras fosse suficientemente ultrapassável.

2. As palavras têm para nós sentido suficiente para sabermos que estamos a falar de cadeiras e não de automóveis. Mas não têm sentido suficiente para sabermos de maneira segura, rigorosa, científica, de que é que estamos a falar quando falamos da dor ou da alegria, do amor ou do ódio. O nosso conhecimento do sentido das palavras é portanto limitado e relativamente vago, embora não impeça a comunicação. Há palavras sobre cujo sentido (referente) nos podemos entender sem grande preocupação: mesa, cadeira, montanha, casa, este, aquele, ele, ela, referem-se a coisas ou pessoas que pelo menos no contexto em que surgem devem ser facilmente identificadas - e se há dúvidas elas podem esclarecer-se facilmente. 


3. O grau de entendimento sobre o sentido das palavras tem a ver, evidentemente, com a complexidade do seu sentido. Deve ser possível estabelecer uma hierarquia de dificuldades relacionada com o estatuto gramatical de cada palavra. Nem tudo o que eu estou a escrever me exige o mesmo grau de preocupação com o sentido do que estou a dizer, embora deva ser verdade que se pode assimilar a questão da clareza do sentido das minhas frases ao meu uso particular da sintaxe: à maneira como construo as minhas frases ou as organizo, à minha escolha dos verbos, dos substantivos, dos adjectivos, dos advérbios. A questão do sentido das frases é semelhante à questão do sentido das palavras, como já se percebeu.

4. Na troca de palavras entre duas pessoas há dois mundos em confronto (ou comunicação ou contacto).  Na realidade o contacto não existe, só existe o que permite o contacto: a linguagem e outros sistemas satélites da linguagem que permitem organizar a experiência segundo certos princípios e portanto comunicar. Mas os princípios e os sistemas que organizam a experiência também não podem ser identificados nem analisados em acção de maneira rigorosa, exaustiva, científica. Nem eles nem as relações que mantêm entre si. São suficientemente conhecidos para permitir a comunicação (e os mal-entendidos) mas não para que se descreva o seu mecanismo nem o seu funcionamento de maneira total, científica, rigorosa.

5. Cada um de nós é proprietário do sentido das palavras que conhece e utiliza. Sabemos que as palavras vêm da língua e lhe pertencem. Sabemos que se deve respeitar de algum modo a indicação sugerida pelo dicionário. Uma mesa não é uma cadeira nem um pontapé é um beijo. Mas somos nós que fabricamos para uso próprio, de acordo com o que nos parece serem as regras de utilização das palavras por outras pessoas, o sentido das palavras.

6. Não controlamos o conhecimento que temos do sentido das palavras. Não podemos assegurar que a mesma palavra dita por nós em duas situações diferentes teve exactamente o mesmo sentido nos dois casos (depois de eu ter amado o amor para mim é uma coisa diferente de antes de ter amado; e se eu amar muitas vezes as diferentes experiências amorosas modificam de cada vez a minha concepção anterior do amor). Se alargarmos a experiência a trocas de palavras com outras pessoas o problema torna-se anda mais  evidente. No meio de uma discussão sobre o ódio a seria útil a dado momento puxar da fotografia do sentido da palavra ódio, exibi-lo, comparar o nosso ódio com o ódio de outra pessoa. Mas não é possível.

7. O sentido das palavras impõe-se-nos com frequência de maneira imperceptível, automática ou quase automática. Mas há casos em que paramos para reflectir ou perguntar. Porque será?

8. Cada um de nós é uma fábrica de sentido das palavras. Recebemos o objecto que é a palavra das outras pessoas mas ao apropriarmo-nos dela damos-lhe uma existência nova e única, sem sequer termos consciência disso. A palavra chega e será integrada no sistema ou modelo abstracto da linguagem em nós. Já existe a "família" em que elas se vão integrar porque já estão lá outras palavras (na origem, evidentemente, há uma primeira palavra ainda à procura do seu lugar; mas a "família" é de qualquer modo constituída progressivamente e dinamicamente). A companhia que as palavras se fazem umas às outras não é, evidentemente, uma companhia pacífica, sem consequências. A forma que toma a contaminação é imprevisível mas é uma fatalidade a que não se escapa porque nem nós nem as palavras somos entidades fixas, tudo está sempre em movimento. O que vem complicar ainda mais a questão problemática do sentido das palavras. 


9. Ninguém pode transmitir de maneira rigorosa, científica, absolutamente clara e segura, o sentido de uma palavra a outra pessoa. Posso emprestar o meu automóvel a um amigo, mas não lhe posso emprestar o sentido de uma palavra porque se o possuo não o posso transformar num objecto que se empreste. O sentido das palavras é e permanece sempre uma coisa mental. E privada, apesar de em parte se poder, coincidindo ou divergindo em proporções difíceis ou impossíveis de medir, partilhar.

10. As palavras vivem em nós com o sentido que nós entendemos que trazem consigo quando as adoptamos mas que vai mudando mais ou menos com a experiência. Porque nós somos seres vivos transformados permanentemente pela experiência. Se fosse possível escrever  a história do sentido das palavras em cada um de nós ver-se-ia que ele tem uma relação mais ou menos marcada (cientificamente impossível de descrever mas susceptível de alguma forma de descrição) com a sucessão das nossas experiências. Através da experiência, vivendo, eu "aprendo" o sentido das palavras. Aprendo? Reavalio? Modifico? O que herdei transforma-se. Como é que se transforma e qual é o resultado da transformação talvez se possa entender de certo modo. Mas não há ciência que possa descrever rigorosamente, exaustivamente, o que se passa.


No comments: