Wednesday, March 23, 2011

Proibido de escrever

O meu médico proibiu-me de escrever. Acha que é uma perda de tempo, que não é saudável, que reconstruir ou imaginar histórias é uma atitude infantil. Mas, doutor, protestei eu, que mal há em ser-se infantil? Eu acho óptimo que se seja infantil. A pureza das crianças... Não, meu amigo, interrompeu-me ele, não, não e não. Escrever faz mal aos nervos, estraga a saúde, tem consequências nefastas na vida das pessoas. O senhor nem imagina em que é que se mete quando começa a escrever. Estou a falar da sua mania de escrever histórias, romances, poemas, evidentemente. Porque escrever uma receita para comprimidos ou fazer uma lista de coisas a comprar no supermercado não se pode considerar que seja exactamente escrever. O escrever que faz mal e que tem de proibir-se, que eu lhe proíbo a si, é o escrever que nasce da imaginação. Porque imaginar afasta-nos da realidade, desregula o sistema nervoso, não é saudável. Além de nos fazer perder tempo, um tempo que podíamos dedicar a assuntos mais sérios. Já vi pela sua cara de desagrado que não o convenço. Mas se não está de acordo comigo, explique-me por que razão é que as crianças têm medo da escuridão? A gente sabe que elas não gostam de ficar sozinhas quando as metemos na cama à noite, que frequentemente têm pesadelos. Que às vezes começam a gritar e a chamar por nós se no escuro do quarto ou da casa ouvem ou crêem ouvir um ruído qualquer. Porque será, já pensou? A resposta é simples: excesso de imaginação. Porque nada se passa realmente, nada está a acontecer, mas as crianças põem-se a inventar e a recriar à noite, no escuro, quando ficam sós, a partir das histórias que ouvem durante o dia e de tudo aquilo que viram, põem-se a inventar fantasmas, monstros, episódios e mundos horríveis. Tudo coisas, meu amigo, que me dará o prazer de confirmar que não existem. Tudo invenções que perturbam o sono e consequentemente a saúde. E que, inevitavelmente, terão uma influência nefasta no futuro das pessoas. Experiências péssimas para a saúde física e moral, não duvide. Fica decidido, o meu amigo não discute comigo e a receita é: não escreve nem mais uma linha a partir de hoje.

Saí do consultório meio confuso e hesitante, com vontade de rir. O meu médico, afinal, era um tipo muito mais original e curioso do que eu imaginava. O homem não quer que eu escreva? Acha infantil? Ó doutor, por favor, tome juízo. Assim que cheguei a casa sentei-me num sofá ao lado da janela e continuei a reflectir no assunto. Apetecia-me rir, ri-me. O conselho era estapafúrdio. Claro que eu não ia levar o homem a sério. A comparação com as crianças, que ele inventara, era forçada, literária, pouco convincente. As crianças imaginam porque faz parte da nossa natureza imaginar. E se imaginam a existência de fantasmas, de monstros, de mundos horrorosos, é porque no fundo da alma humana, tão naturais como a vocação para imaginar, se agitam os nossos medos ancestrais: de ser torturados, humilhados, cortados em postas, vencidos, devorados. Ter medo é natural. Não são apenas as crianças que têm medo da escuridão, aliás. Os adultos também não se sentem à vontade quando não podem ver o que está à sua volta. E se um ramo de árvore treme com o vento na escuridão da noite e eles andarem de espingarda na mão, podemos estar seguros, pode estar seguro, meu caro doutor, de que disparam logo na direcção da árvore. Imaginaram lá um monstro que, pouco cauteloso, tocou com a cabeça no que estava quieto e mudo, fazendo um ruído suspeito. Considerei o assunto arrumado e o médico um brincalhão. Nem sequer um homem extravagante, apenas um brincalhão. Da próxima vez que nos encontrássemos havíamos de rir às gargalhadas da partida que ele me pregara. E fui para o meu escritório ler Gogol.

Aí a meio da tarde, cansado de ler, fechei o livro, acendi um cigarro e fiquei a olhar pela janela os ramos do plátano do jardim. Depois fui à cozinha e voltei com um copo de limonada na mão. Sentei-me e automaticamente, sem pensar nem decidir nada, peguei na caneta que estava em cima da secretária e preparei-me para escrever no caderno que estava a usar nesse momento. E aí, pensando no que me dissera o médico, parei, fiquei com a mão suspensa em cima do papel. Ri-me, deliciado, de mim mesmo e do médico. Mas quando parei de rir e quis escrever, já não me lembrava do que ia escrever. O que me obrigou a reflectir, evidentemente. Afinal, para que é que eu escrevia? Porquê? De que é que eu falava nas minhas histórias? Nas minhas histórias eu falava de desencontros amorosos, de mal-entendidos entre um homem e uma mulher, da solidão dolorosa que sucede a uma ruptura, da falta de lógica dos sentimentos e dos comportamentos, por exemplo. Para tentar entender o que nos acontece, eu ia reconstruindo ou inventando, compondo e fazendo a montagem dos episódios. Era, pensava eu, uma maneira de contribuir para o esclarecimento ou uma melhor compreensão de comportamentos e de acontecimentos que podiam parecer banais ou sem interesse para quem os contemplava de fora, mas que se revelavam com frequência trágicos para aqueles que os protagonizavam. Veio-me então uma ideia que classifiquei imediatamente de absurda: tu escreves para te vingar da vida e da tua incapacidade de resolver satisfatoriamente os problemas em que as relações amorosas te enredam; tu escreves para te vingar das pessoas que não soubeste amar ou das pessoas que se intrometeram nas tuas relações amorosas. Que parvoíce, comentei eu. Um pouco mais tarde, porém, e para que não me culpassem de estar a ser parcial e pouco rigoroso na minha análise, aceitei rever a questão. Isto é, admiti a possibilidade de estar a escrever para me vingar da vida, para me redimir da minha incapacidade de amar e até para ridicularizar as personagens que faziam parte da história contada ou evocada. Mas com uma condição: essa justificação da escrita como um acto de vingança não poderia nunca ser considerada a explicação principal e muito menos a única. Quando muito seria uma hipótese complementar, a pôr ao lado das explicações mais sérias e verosímeis já encontradas antes. Como tenho a mania da honestidade e gosto de me criar problemas, dei por mim então a pensar por que razão recusara de início tão veementemente e tão depressa a possibilidade de estar a escrever, de eventualmente sempre ter escrito, para me vingar da vida e de não entender nada do amor. Ao reagir tão firmemente contra essa possibilidade, não estaria eu a querer esconder de mim próprio alguma coisa que me incomodava, uma verdade que não queria encarar? Não cheguei a nenhuma conclusão nessa tarde nem nessa noite. E fui deitar-me, já tarde, depois de ter visto um filme na televisão, sem querer dar demasiada importância ao assunto.

Na minha vida havia várias mulheres. Mas eu recordava-me sobretudo de duas. Porque tinham sido as únicas com quem eu vivera, com quem partilhara uma casa e os meus dias e noites durante anos. É provável que a dor que sucede à separação seja proporcional em intensidade à duração da relação que terminou, mas não estou seguro disso. Com a primeira mulher eu já fizera as pazes, agora éramos amigos, e eu ia de vez em quando passar uns dias com ela. Os anos de crise, porém, tinham sido muito duros, sobretudo os primeiros. Os problemas com ela tinham começado porque um dia de Verão, sentado em casa à noite a aborrecer-me, eu decidi que ela não me amava o suficiente. Comecei a investigar, a comparar, a lembrar-me de relações que ela tinha tido com outros homens antes e depois de me conhecer. Eu queria conhecer a verdade, a verdade toda. Queria estar seguro, completamente seguro, sem margem para dúvidas, de que era mais amado do que eles o tinham sido. Discutimos muito, eu uma vez dei-lhe uma estalada, outra vez deixei-a fechada à chave em casa enquanto fui tomar café ao centro da cidade. Ela dizia que eu tinha transformado a vida dela num inferno. Devia ser verdade. Mas eu também sofri muito e a minha obsessão com a verdade e com a pureza absoluta do amor exclusivo ia dando comigo em doido. Com a segunda mulher eu vivera menos tempo. A separação deixou-me muito amargo, com enorme sentimento de culpa e numa solidão desesperante e incompreensível. Tinha a impressão de ter deixado atrás de mim qualquer coisa por acabar, por entender, por aprofundar, por aperfeiçoar. Só depois de nos termos separado pela terceira e última vez é que me dei conta de que lhe queria mais do que parecia e do que eu mesmo pensava. Comecei a ter remorsos de a ter tratado mal ou pelo menos de não a ter tratado tão bem como devia. Sejamos sinceros e imparciais, porém: talvez ela não merecesse melhor. Quando eu a conheci ela era jovem, inexperiente e pura. A dado momento não sei o que é que lhe deu, transformou-se numa pessoa cínica, interesseira, calculista. Envelheceu, emagreceu, perdeu a graça. Certos dias ficava com uma carinha de bruxa. Eu sentia muita ternura por ela, mas era-me impossível continuar a amá-la como a amara no princípio. Ela não se deixava amar. Ainda tentei, tentei várias vezes, mas ela parecia não entender as nossas relações. E depois portou-se mal comigo. Foi desleal, foi falsa, foi hipócrita. Mentir e ocultar às pessoas o que andava a tramar nas costas delas tornou-se a sua especialidade. Estava a vingar-se de quê ou de quem? Alguém estaria a manipulá-la, a exercer sobre ela uma influência nefasta? Haveria na infância dela uma explicação para tal comportamento? Eu não a conhecia. E se os vícios e a falta de carácter dela diminuíam a intensidade do meu remorso, nem por isso me deixavam menos ferido e menos frustrado.

Inspirado na minha experiência da vida conjugal, eu tinha escrito há alguns anos e recentemente algumas peças de teatro e alguns contos. Interroguei-me: é possível que eu tenha escrito para me vingar? Ou escrevi para tentar entender o que se passara e tornar as coisas mais claras no meu espírito? Lembrei-me que escrever também pode ser uma forma de exorcismo: a ficção inspirada na realidade pode servir para nos livrarmos dos fantasmas que inventámos, para os desancarmos sem dó nem piedade. Porque é inegável: quando a paixão decidiu levar-nos à perdição, nós agigantamos tudo, conferimos uma importância excessiva aos incidentes mais insignificantes. E de pessoas banalíssimas, normalíssimas, fazemos monstros odiosos. Eu tinha plena consciência disso, mas confesso que tendo por vezes escrito em cima dos acontecimentos, ou muito pouco tempo depois de eles terem tido lugar, posso ter cedido nalguns casos à tentação da caricatura e da vingança. Não me serviu de nada, porque o que está perdido, está perdido. Mas mesmo sendo verdade que eu me servi em parte da escrita como forma de exorcismo, mesmo sendo verdade que eu usei a ficção para me vingar da vida e das frustrações do amor, não me parecia apesar de tudo que tinham sido essas as grandes razões que me tinham levado a escrever. Não sei explicar por que razão se escreve, mas sei que ao escrever eu também não era particularmente tolerante comigo mesmo nem com os meus erros. E sei que à medida que ia escrevendo me ia sentindo mais leve, mais amável, mais predisposto a amar a humanidade e mesmo as pessoas que me tinham magoado ou tornado infeliz. O que devia provar que não era por vingança que eu escrevia. A vingança, sabe-se, é azeda como o vinagre. E deixa remorsos. Ora eu, depois de ter escrito, sentia-me purificado e ligeiro como uma borboleta. Perguntei-me a dado momento se ao escrever sobre as minhas relações reais ou fictícias com uma mulher eu não estava de algum modo a tentar corrigir os erros que cometera, a querer aperfeiçoar e sublimar através da escrita o que fora confuso, doloroso e desagradável como experiência vivida. Isto é, a experiência era uma espécie de narrativa imperfeita, desordenada. E o meu trabalho de escrita consistia em corrigir, tentar eliminar e superar essa imperfeição através da reflexão. Para que se entendesse convenientemente o que, em estado bruto, antes de ser filtrado e iluminado pela escrita, poderia ser opaco ou mal compreendido. Se eu conseguisse diminuir a confusão e o caos que caracterizam os infortúnios que nos acontecem, talvez houvesse depois menos sofrimento nas recordações que nos ficaram. Não sei se tinha razão em pensar assim. Nessa noite fui deitar-me a meditar ainda no problema que o brincalhão do médico me obrigara inesperadamente a enfrentar.

Passaram uns dias, de vez em quando eu voltava às minhas reflexões. Entretanto, ou porque estivesse indeciso sobre os motivos que me levavam a pegar na caneta e a encher páginas e páginas de palavras, ou porque essas meditações me ocupavam excessivamente o espírito e a atenção, deixei temporariamente - ou cautelosamente - de escrever. Tinha de novo consulta marcada com o médico na sexta-feira e voltei lá com muita vontade de discutir. Assim que me viu, ele disparou: nem uma palavra, nem uma linha? Cumpriu à letra a minha proibição? Apertei-lhe a mão, dei uma gargalhada e sentei-me. Contei-lhe o que se passara, isto é, de que modo eu fora progressivamente abandonando a vontade de me rir para começar a interrogar-me sobre o sentido profundo da sua proibição. Sobretudo, confessei-lhe, o senhor obrigou-me a reflectir sobre as razões por que escrevo. Se a sua brincadeira tinha como objectivo fazer-me duvidar e obrigar-me a pensar, tenho de confessar, caro doutor, que conseguiu. Eu não brinco com coisas sérias, meu amigo, respondeu ele. E de facto não se ria, não deu mostras de achar piada à minha observação. Fiquei sem saber o que pensar nem como agir. Conheço-o há muito tempo, continuou ele de semblante um pouco carregado. Há três ou quatro anos você separou-se de uma mulher de quem pretende ter gostado muito, mas que praticamente pôs fora da sua casa para poder estar só, que era o que você imaginava que era a sua vocação. Ora o que é que aconteceu depois disso? Tudo o que você escreve é, de uma maneira ou de outra, um longo lamento, perfeitamente aberrante e nada lúcido, sobre essa perda memorável. Que você quando entra na casa de banho a veja ainda na banheira a rir-se para si e a convidá-lo para se meter lá dentro com ela, talvez seja aceitável e em todo o caso não é grave. Que você, quando está a lavar a loiça, a sinta ao seu lado na cozinha a fazer o jantar ou a arrumar os pratos e os copos nos armários, também se pode compreender. Quero eu dizer que tudo isso, o seu comportamento, é estranho e pouco saudável, mas esses exageros da imaginação infelizmente acontecem a muita gente. Eu até lhe desculpo que apesar de terem passado vários anos desde que você e essa mulher se separaram você continue a falar para o lugar dela na cama, embora ela esteja a dormir noutro sítio e você nem saiba onde. Ficou-lhe o hábito, paciência. Em resumo, você sente-se só e ela faz-lhe companhia. Mas, meu amigo, sejamos realistas, tudo isso são alucinações. Ora essas alucinações são precisamente o que eu encontro, permanentemente, como motivação mais evidente da sua escrita. A razão pela qual lhe proibi e proíbo seriamente de escrever, pelo menos durante um ano – repare que já cedi e que a minha proibição agora é temporária, quando inicialmente era definitiva – é simples: eu não quero que você passe tanto tempo na companhia dessa defunta senhora. Basta, já chega. Que ela seja parte das suas alucinações e ande lá pela sua casa nua ou vestida a fazer-lhe companhia, enfim, acho absurdo mas posso perdoar-lhe, a natureza humana é fraca. O que não posso admitir é que você continue a frequentá-la, a querer estar sempre com ela. Ela não merece. Eu ia protestar, explicar que não era bem assim, que eu às vezes era injusto nas minhas críticas, que também tínhamos sido felizes, que ela tinha muitas qualidades que eu apreciava, às vezes punha-se a dançar na sala depois de jantar com uma graça infantil que me comovia, eu não me tinha esquecido desse lado da sua personalidade. Ele interrompeu-me logo: ora, você mesmo é que me disse que ela era um estupor, portanto não me venha com histórias agora. Repare que ela lhe mentiu gravemente pelo menos três vezes. E não tenho em conta as pequeninas mentiras com que ela o mantinha iludido porque você mesmo, pelo menos nas histórias que já publicou e que eu li, decidiu considerá-las insignificantes. Ainda não percebeu que essa mulher era uma pessoa sem escrúpulos, uma tolinha - provavelmente uma tarada! - e que o tratou como se o meu amigo fosse estúpido? Teve mil oportunidades de se portar honestamente consigo e desperdiçou-as todas. Todas. Nunca se corrigiu, nunca entendeu o que é ser adulta e responsável. O culpado de tudo, na versão dela, era sempre o meu amigo. É o carácter dela, nada a fazer. Ela não mudará nunca. Ora a escrita, nos últimos anos, tem-lhe servido a si - de maneira talvez inconsciente, mas não importa - para prolongar, sem grande interesse nem proveito para ninguém, uma relação que já morreu e que nada nem nenhum livro poderá corrigir ou ressuscitar. Você peca por excesso de imaginação. Vício infantil, pernicioso. Bondade sua. Parvoíce, meu amigo. Seja sensato. Deixe a mulher em paz, o destino dela a levará aonde ela tem de ir. E viva o senhor em paz também. Faça uma pausa nessa obsessão despropositada. Não imagine tanto, não se recorde tanto, use os olhos para olhar à sua volta e a cabeça para pensar noutras coisas. Gosta de puzzles? Gosta de matemática? Aprenda matemática, é inofensivo e entretém muito o raciocínio. Jogue futebol também, ande de bicicleta. Vá nadar, caramba. Mas fica proibido de escrever, porque você, quando escreve, tem tendência a procurar más companhias. Ora eu não o quero em más companhias, não o quero perturbado pelos excessos da imaginação, não o quero alucinado. Considere esses livros que com uma obsessão maníaca tem andado a escrever nos últimos anos como assunto terminado. Falhado, talvez, paciência, mas são coisas que acontecem, ninguém é perfeito, a perfeição é difícil de alcançar. Terminado, ouviu? Nem mais uma linha. Acabou-se o amor, acabou-se o romance, acabou-se a ilusão. Portanto acabou-se a literatura. Ponto final. Eu ouvia-o irritado, incrédulo, com cara de parvo. O homem ultrapassara os limites do bom senso e eu não lhe achava piada nenhuma. Permaneci céptico, mostrei-me desagradado. O que é que ele, coitado, percebia de escrita e das razões que levam um ser humano a escrever? Médico, contenta-te em falar do corpo, pensei eu. Mas não tive coragem de o dizer. Despedi-me com o rosto fechado, olhando-o nos olhos com dureza, sem mostrar simpatia. Já percebera: tinha de mudar de médico. O homenzinho afinal não era brincalhão. Era arrogante, prepotente, ingénuo, meio doido. Quando me levantei para me ir embora recomendou-me jovialmente que não deixasse de tomar o anti-depressivo. Tanta confiança em si e tanta jovialidade voltaram a incomodar-me, pareceram-me uma provocação. Quem é que o indivíduo imaginava que era, afinal? Pelo menos teve a gentileza de não se referir de novo à proibição da escrita quando me apertou a mão para se despedir.

Mudei de médico, nunca mais lá voltei. Mas pouco a pouco, depois desse episódio que eu achava burlesco, começou a invadir-me e a paralisar-me, quando tentava escrever, um forte sentimento de culpabilidade. O que é que eu estava a querer corrigir, emendar ou negar, enquanto escrevia?  De quem é que eu estava a vingar-me? Estava a ajustar as contas com quem? O que é que a escrita substituía na minha vida monótona, falhada e vazia? Senti-me cobarde, inútil, preguiçoso. Senti-me vaidoso, arrogante, pretensioso. Falar, sozinho em casa, era a minha única profissão, o meu único talento. Os meus livros nem sequer se vendiam muito, não eram populares. Os escritores conhecidos, que nalguns casos até tinham começado a escrever depois de mim e tinham plagiado o meu estilo, consideravam-me um escritor insignificante. Escrever, no silêncio sepulcral das noites infindáveis, era no entanto a minha principal  ocupação na vida. Na minha vida, que entretanto ia passando. Pouca gente me lia, os jornais e as revistas não falavam de mim, o que eu dizia não tinha  grandes consequências? Mas eu, generosamente, estupidamente, teimosamente, escravo de uma vocação absurda e aparentemente niilista, sacrificava a minha vida à literatura. Não que a falta de sucesso popular me importasse ou afectasse grandemente, mas os meus editores, que tinham apostado no meu sucesso, tinham esperado mais de mim. A minha solidão pareceu-me, enquanto eu assim me interrogava, ansiosamente, uma coisa dolorosa e despropositada. Escrever para quê? A mulher que me inspirava tantas páginas, que me obrigava a tantas reflexões, deixara de me interessar, eu já enterrara o cadáver da nossa relação no cemitério do esquecimento há muito tempo. Porque é que eu escrevia? Se é verdade que eu continuava a acreditar no amor, não é menos verdade que nunca acreditei na imortalidade. O debate interior prolongou-se assim, por vezes dolorosamente, durante algumas semanas. Não é fácil admitir que desperdiçámos anos de vida - de uma vida que é breve – ocupados com parvoíces e entretidos com ninharias. Tendo enfim chegado a uma conclusão, uma tarde arrumei as canetas e os cadernos numa gaveta que fechei à chave e decidi arranjar trabalho como vendedor de automóveis.

Meses depois, já adaptado à minha nova realidade, estava eu a discutir com um colega, diante de um catálogo da Mercedes, as consequências das inovações electrónicas dos novos modelos, sobretudo nos travões, quem é que eu vi chegar com ar risonho? O saudoso doutor. Como eu gostei de o ver. Ele também me viu e veio logo ao meu encontro. Apertou-me a mão, riu-se jovialmente: deixa-me acreditar que seguiu o meu conselho e se deixou de infantilidades? Ri-me com ele, bati-lhe nas costas carinhosamente, invadido por sentimentos de gratidão, e vendi-lhe um BMW preto. Isto foi há uns seis meses. Esta manhã, estava a tomar um café e a ler o jornal aqui no stand, dei com a notícia da sua morte. Vinha da praia, espetou-se com o BMW contra um camião perto de Vila do Conde a noite passada. A nossa existência na terra é tão frágil, num instante acaba tudo.

Do livro de histórias Um Animal de Pele Branca, Imaculada
a publicar em breve pela OVNI 

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