Sunday, March 27, 2011

A ferida


Como uma ferida na pele irrompe a poesia:
excrescência, tumor, borrão na página.
Viver é outra coisa? Distinguir: o prurido
do adolescente que se embala na cresta de
dores irreverentes e a maldição do sábio
ignorante a quem atormenta a sua ignorância.
Mas ambos são cegos e impotentes. Aqueles que
não entendem festejam com palavras a ilusão
dos sentimentos; e na pele daqueles a quem
flagelam dores sem nome vai-se abrindo a ferida
irremediavelmente. Mas os caminhos aonde nos levam
de palavra em palavra? E abre-se mais tarde o livro
da sabedoria diante de nós, que fomos adolescentes
fervorosos. Tarde de mais? Oh, não, não se deve
renunciar! A ferida na pele transformou-se em dor
espiritual, magoa o próprio pensamento. O homem
ferido não se cansa de procurar e nunca encontra. Ou
aproxima-se da  verdade, que é saber que nenhuma
verdade dura o bastante para servir de remédio à
maldição? A ferida na pele vai entrando pelo corpo
e irrompeu das entranhas do entendimento?
Ela pode iluminar com o seu fulgor incómodo
e belo a existência daqueles a quem não nascem,
na pele, as feridas. Eles, então, tomam posse,
sem receio, talvez sem se darem conta do que
está a acontecer, da ferida alheia. Sem tomar
forma de que serve o que nos acontece? E 
entendem, mais tarde, que a ferida alheia não era
uma ferida alheia, mas a ferida que eles próprios,
sem o saberem, traziam escondida no mistério
da sua existência. A poesia é a arte dorida
do conhecimento: não uma ciência nem um
tratado sobre as dores da alma; apenas
investigação, esforço para a compreensão
do corpo da ferida. A ferida nasce sem pedir
licença, é a forma que toma a incompreensão
do destino. E perturba no espírito aquele que agora
transporta na pele a mancha vermelha, o inchaço
e o pus, talvez a maldição de todas as existências. 

2 comments:

Adão said...

Marvelous, João! :)
Abraço

J. Camilo said...

Abraços! :-) Estás bem? Não te perdes? Não te percas!