Sunday, June 20, 2010

Culture and boredom


Mound of Butter, Antoine Vollon


Earlier I spoke of boredom as my greatest ally. Now I would like to advise you that each time you go to the theatre and you are bored, not to hide it, not to believe that you are the guilty party, that it is your fault. Do not let yourselves be truncheoned by the beautiful idea of 'culture'. Ask yourself the question; 'Is there something missing in me or in the show?' You have the right to challenge this insidious idea, socially accepted today, that 'cuIture' is automatically 'superior'. Naturally, culture is something very important, but the vague idea of culture that is not re-examined, renewed, is an idea used like a truncheon to prevent people from making legitimate complaints.
What is even worse is that culture is becoming considered like a fancy car or the 'best' table in a good restaurant, as an exterior sign of social success. This is the basic concept of corporate 'sponsoring.' The principle of the 'sponsor' is a miserable one. The only fundamental motivation for a sponsor of a theatrical occasion is to have an event to which he can bring his clients. This has its own logic, and as a consequence the performance must conform to the idea they have of culture: that it be prestigious and reassuringly boring. 

Peter Brook, There are no Secrets, Thoughts on Acting 
and Theatre, Methuen Drama, London, 1993

Thursday, June 10, 2010

Acerca da arte e da vida em geral (2)

A arte só tem interesse como arte – só é arte – se tem a capacidade de provocar em nós reacções vitais, isto é, comportamentos  (sentimentos, pensamentos... ) semelhantes aos provocados por acontecimentos das nossas relações com as pessoas, com a vida, com o mundo em que vivemos.  Comportamentos semelhantes não quer dizer repetitivos da banalidade, da insignificância em que, por incapacidade do interesse, da inteligência ou do sentir (falar da incapacidade do acontecimento em si mesmo seria absurdo, os acontecimentos nunca significam nada em si mesmos), podemos viver; à arte, precisamente, exige-se a capacidade de nos despertar da “sonolência” em que vegetamos, à arte exige-se que dê vida a tudo aquilo de que fala . Comportamentos semelhantes apenas na medida em que se assemelham aos que na nossa existência anterior às narrativas (à arte: os quadros, os poemas, os romances, as sinfonias, as sonatas e as óperas, etc.) que a ela se referem, nos tocam, nos interessam, se integram no universo do sentido que nos fomos construindo.  Que interesse têm as elucubrações ambiciosamente “poéticas” de quem não é capaz, como Shakespeare ou Rilke, como Eça ou Camões, de me falar de episódios ou formas da existência que consigam dizer-me respeito? Quem não se consegue fazer ouvir, quem não me obriga a pensar, quem não me faz sentir, quem não suscita em mim curiosidade nem inquietação, amor nem desamor, que me interessa? Nada. A maior parte do que pretende ser arte deve ser, aos olhos de Deus, apenas um balbuciar ingénuo nascido dos velhos mitos da profundidade e da beleza que caracterizam aquilo que designamos por nossa civilização (ou deveríamos dizer "a condição humana"? é em parte isso, mas só o é em parte, precisamente). O que nós fazemos não vale mais aos olhos de Deus, que tem sobre tudo  um conhecimento absoluto, do que valem aos nossos as infantilidades das crianças que estão a aprender a vida.

Demora muito tempo até a gente se dar conta de que na aspiração à arte há muita ambição e muita vaidade. E na aprendizagem cometem-se erros de avaliação que mais tarde, quando corrigidos, se esquecem de que tudo o que nos acontece está eternamente sujeito a reavaliação. De acordo, consumir o que consideramos insignificante faz parte da aprendizagem. De acordo, para Deus a arte nunca chega a existir, para Deus a arte e a filosofia são apenas enternecedoras, ingénuas e talvez dramáticas peripécias humanas, erros repetidos e tentativas vãs. Mas eu mesmo, à medida que envelheço, começo a adquirir algumas – pouquíssimas, eu sei... - qualidades dos deuses, o que explica o meu cepticismo e a minha insatisfação com grande parte dos produtos humanos. Quem não mostra saber mais do que eu sei para que me serve, que me interessa? Eu nem sequer saberia ensinar nada a quem não tem nada a ensinar-me.


Da minha vida recordo os acontecimentos e as pessoas que a marcaram, que a fizeram e a fazem aquilo que ela é. Contestaram-me ou confirmaram as minhas convicções, confortaram-me ou amaram-me, às vezes odiaram-me e outras vezes permitiram-me que amasse. Em resumo, deram pela minha existência, aceitaram-na, contaram comigo. Ajudaram-me a achar sentido à vida. Ajudaram-me a aprender, a compreender. Quantas vezes através do erro, que no entanto foi só meu? Recordo-me do que me trouxe alegria e do que me trouxe tristeza, do que me ajudou a consolidar os meus pontos de vista e do que me obrigou a revê-los e a corrigi-los. Também me recordo do que aconteceu sem eu lhe ter dado importância e lamento ter desperdiçado oportunidades de vir a ser melhor ou mais do que sou. Mas se eu digo que me recordo, não estou a contradizer-me? O remorso não faz parte da aprendizagem, não faz parte da “sabedoria”? Somos imperfeitos, desajustados do que nos acontece: como saber antes de saber, como compreender antes de compreender, como amar antes de ser tempo de amar? Para tudo se exige preparação e disponibilidade, alem de capacidades. Ora a luta pela vida – construir o futuro e o destino como nos ensinaram  - deixa-nos muitas vezes sem energia nem tempo para mais nada senão a parte do percurso traçado de antemão.

Estas reflexões são importantes para mim porque pela primeira vez devo ter enfim entendido de maneira simples e clara a relação entre a vida e a arte. Arte e vida, é tudo a mesma coisa. A alegria e a dor, a dúvida e a certeza participam das qualidades da arte. A arte só merece atenção e admiração porque é vida, isto é, manifestação da alegria e da dor, da dúvida ou da certeza. E a grande questão é sempre a do sentido de tudo. Estamos portanto sempre a agir e a pensar - na arte, na filosofia, nos acontecimentos da vida anteriores à arte que fala deles e os problematiza - dentro dos mesmos modelos. O problema é que nós nos deixamos facilmente corromper. Começamos a confundir as coisas ao ponto de imaginar que possa haver arte à margem da vida, arte que não seja ela mesma vida, expressão intensa da vida (da vida enquanto coisa conhecida e desconhecida). O grande mérito da arte, a sua única utilidade, é participar na revelação e na construção do sentido da vida.

A arte que não chega a ser arte imagino que será apenas ruído que não cresce nem se organiza o suficiente (nem sequer como ruído). Podemos sempre mudar de opinião. Mas é importante ter consciência de que só vivemos no presente. A memória do passado e a imaginação do futuro - e o que eu pensei  e senti ou venha a pensar ou sentir - só têm importância na medida em que o passado e o futuro fazem parte do meu presente como preocupações suas.  

Que estas reflexões não resolvem o problema da definição da arte é coisa que não creio que me escape. A questão da técnica ou a questão técnica são parte do problema, mas são também um capítulo à parte, a merecer tratamento competente e independente.Como é que se faz para que a arte se imponha com a mesma intensidade e seriedade  com que a vida se nos impõe? Fiz uma cadeira de Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa com o Professor Delfim Santos. Estudante de literatura, nunca mais me esqueci do choque e ensinamento que foi a primeira aula dele a que asssisti: "porque tudo é técnica: comer é uma técnica, escrever é uma técnica, andar é uma técnica, amar é uma técnica..." Já não sei se ele disse "é" ou se disse "exige", nem isso deve ter, agora, muita importância. Se ele não tivesse falecido no Verão a seguir, brutalmente, podia ter-me feito mudar de curso.

Monday, June 07, 2010

Acerca da arte e da vida em geral (1)

Arte. Qualidade e Intensidade da experiência: da emoção ou do entendimento. O sensível e o inteligível. O grave e o sublime, mas também a claridade ou a sombra das cores ou dos sons. Pode-se sentir sem entender, felizmente, ou pelo menos sem ter palavras claras para explicar o que se sente; fica para decifrar mais tarde. Pode-se entender sem sentir; mas entender sem sentir ainda terá a ver com a experiência da arte? Sim, mesmo quando se entende sem a intensidade da emoção pode ainda sentir-se como se sente diante de uma obra de arte. A frieza com que, dominando o que sinto, te escutei contar o que aconteceu entre ti e esse homem com quem estavas no café e por causa de quem nos íamos separar em breve foi uma obra-prima da minha sensibilidade e da minha inteligência. Era como estar a ler Dostoiewski ou Rilke. Atento a cada frase, a cada gesto, às subtilezas escondidas  e ambíguas da linguagem e da exibição.  Intenso.  Mas as minhas emoções estavam controladas. 
 
Às vezes recordo-me de ti: das tuas mentiras, das trapalhadas em que me metias, dos dramas da falta de lealdade (devias andar à procura de qualquer coisa; mas do quê? do sentido das palavras, provavelmente).  Eram páginas de romance ou de novela de escritor que sabe narrar factos de maneira que eu me interesse por eles. Claro, tu não estavas a escrever senão a ficção da tua vida e da minha, mas qual é a diferença? Foi assim que acabei por entender que o que ainda resta das nossas relações, além da recordação agradável e ligeira - meio insignificante talvez, porque quase infantil - de alguns sorrisos e viagens, reside - sim, habita... - agora na memória que me ficou dos episódios repetidos e burlescos do desajuste, na memória da intensidade das emoções  simultaneamente certas e despropositadas (mas que felizmente existiram). Foi isso - o mal, a dor, o erro, a paciente construção e reconstrução do desastre, o desmascarar  inevitável mas impiedoso das ilusões - que a memória reteve, num processo semelhante ao que me impede de esquecer episódios de um romance de Dostoievski ou de uma história de Tchekov. Não há muita diferença realmente entre o que eu sentia nesses momentos de desvario e estupidez do meu e do teu espírito e aquilo que sinto quando leio (Tolstoi)  ou oiço (Beethoven) A Sonata de Kreutzer, quando releio Mysteries ou Hunger ou Pan de Knut Hamsun, quando me concentro num quadro de Picasso ou de Modigliani: tudo escrita intensa, narração convincente e problemática da vida. Por isso não me esqueço do que vivi.  Foi tinta preta em página branca. Assimilei (li) e recordo-me. Era a minha vida a sério e a tua que estavam revolucionadas. E a razão por que me é indiferente a maior parte da literatura portuguesa actual - e não só -  por exemplo, deve ser a mesma por que há tanta gente e tantas ocorrências que não me tocam ou não me interessam: só nos fixamos no que consegue dizer-nos respeito, na peça de teatro em que somos de alguma maneira e por alguma razão também actores e não apenas passivos espectadores; o resto, repetição da banalidade da vida e do mundo, passa-nos ao lado, mal retém a nossa atenção distraída com "o essencial".

I'm no good

Saturday, June 05, 2010

La formatività


Che cos’è dunque quest’attività, che inerisce genericamente a tutta la vita spirituale, e che, se opportunamente specificata e diretta, costituisce ciò che propriamente chiamiamo “arte”? Dirò subito che a parer mio è la formatività (…). Se dovessi dare una rapida definizione del “formare”, non ne troverei una migliore di questa: formare significa fare, ma un tal fare che, mentre fa, inventa il modo di fare. Si tratta di fare, senza che il modo di fare sia predeterminato e imposto, sí che basti applicarlo per far bene: lo si deve trovare facendo, e solo facendo si può giungere a scoprirlo, sí che si tratta, propriamente, d’inventarlo, senza di che l’opera fallisce, e si disperde in tentativi slegati e abortivi.

Luigi Pareyson, Teoria dell’arte, Saggi di Estetica,
Marzorati Editore, Milano, 1965