Saturday, February 27, 2010

Rilke: To Music

 Hans Memling, Musician Angels


 
Music: breathing of statues. Perhaps:
silence of paintings. You language where all language
ends. You time
standing vertically on the motion of mortal hearts.


Feelings for whom? 0 you the transformation
of feelings into what?-; into audible landscape.
You stranger: music. You heart-space
grown out of us. The deepest space in us,
Which, rising above us, forces its way out,­ -
holy departure:
when the innermost point in us stands
outside, as the most practiced distance, as the other
side of the air:
pure,
boundless,
no longer habitable.

Rilke, translated by Stephen Mitchell

1-Heifetz playing Brahms Sonata 1

Thursday, February 25, 2010

Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer

O meu Príncipe, que o cabrito tornara ainda mais alegre, trilhava a grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:

―Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia - continuava ele, remexendo a chávena- o Pessimismo é uma teoria bem consoladora para os que sofrem, porque desindividualisa o sofrimento, alarga-o até o tornar uma lei universal, a lei própria da Vida; portanto lhe tira o carácter pungente de uma injustiça especial, cometida contra o sofredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso vizinho - porque nos sentimos escolhidos e destacados para a infelicidade, podendo, como ele, ter nascido para a Fortuna. Quem se queixaria de ser coxo - se toda a humanidade coxeasse? E quais não seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e borrasca de um inverno especial, organizado nos céus para o envolver a ele unicamente - enquanto, em redor, toda a Humanidade se movesse na luminosa benignidade de uma Primavera?

―Com efeito, murmurei eu, esse sujeito teria imensa razão para urrar...

―E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo é excelente para os Inertes, porque lhes atenua o desgracioso delito da Inércia. Se toda a meta é um monte de Dor, onde a alma vai esbarrar, para quê marchar para a meta, através dos embaraços do mundo? E de resto todos os Líricos e Teóricos do Pessimismo, desde Salomão até ao maligno Schopenhauer, lançam o seu cântico ou a sua doutrina para disfarçar a humilhação das suas misérias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei Cósmica, e ornando assim com a auréola de uma origem quase divina as suas miúdas desgraçazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom Schopenhauer formula todo o seu schopenhauerismo quando é um filosófo sem editor, e um professor sem discípulos; e sofre horrendamente de terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige as suas contas em grego nos perpétuos lamentos da desconfiança; e vive nas adegas com o medo de incêndios; e viaja com um copo de lata na algibeira para não beber em vidro que beiços de leproso tivessem contaminado!... Então Schopenhauer é sombriamente Schopenhauerista. Mas apenas penetra na celebridade, e os seus miseráveis nervos se acalmam, e o cerca uma paz amável, não há então, em todo Frankfurt, burguês mais optimista, de face mais jocunda, e gozando mais regradamente os bens da inteligência e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco rei de Jerusalém, quando descobre esse sublime Retórico que o mundo é Ilusão e Vaidade? Aos setenta e cinco anos, quando o Poder lhe escapa das mãos trémulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna ridiculamente supérfluo. Então rompem os pomposos queixumes! Tudo é vaidade e aflição de espírito! nada existe estável sob o sol! Com efeito, meu bom Salomão, tudo passa - principalmente o poder de usar trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sultão asiático, besuntado de Literatura, a sua virilidade - e onde se sumirá o lamento do Ecclesiastes? Então voltará, em segunda e triunfal edição, o êxtase do Livro dos Cantares!...

Assim discursava o meu amigo no nocturno silêncio de Tormes. Creio que ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviais, profundas ou elegantes; mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e doçura.


Eça de Queirós, A Cidade e as Serras

Tuesday, February 23, 2010

Le sublime à bon marché

Après avoir poussé dans leurs débuts des maîtres contemporains, le marchand de tableaux, homme de progrès, avait tâché, tout en conservant des allures artistiques, d'étendre ses profits pécuniaires. Il recherchait l'émancipation des arts, le sublime à bon marché. Toutes les industries du luxe parisien subirent son influence, qui fut bonne pour les petites choses, et funeste pour les grandes. Avec sa rage de flatter l'opinion, il détourna de leur voie les artistes habiles, corrompit les forts, épuisa les faibles, et illustra les médiocres ; il en disposait par ses relations et par sa revue. Les rapins ambitionnaient de voir leurs oeuvres à sa vitrine et les tapissiers prenaient chez lui des modèles d'ameublement. Frédéric le considérait à la fois comme millionnaire, comme dilettante, comme homme d'action. Bien des choses, pourtant, l'étonnaient, car le sieur Arnoux était malicieux dans son commerce.


Flaubert, L'Éducation Sentimentale

Sunday, February 21, 2010

E três mil francos por mês, além das flores...

―Oh Jacinto! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te telefona, te telegrafa, te...?

―Diana?... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!

―Tua?

―Minha, minha... Não! tenho um bocado.

E como eu lamentava que o meu Príncipe, senhor tão rico e de tão fino orgulho, por economia de uma gamela própria, chafurdasse com outros numa gamela pública - Jacinto levantou os ombros, com um camarão espetado no garfo:

―Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter cortesãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, nesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavalos, os seus lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolência, é necessário que se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um sindicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental.  De resto não chafurdo. Pobre Diana!... Dos ombros para baixo nem sei se tem a pele cor de neve ou cor de limão.

Arregalei um olho divertido:

―Dos ombros para baixo?... E para cima?

―Oh! para cima tem pó d'arroz!... Mas é uma seca! Sempre bilhetes, sempre telefones, sempre telegramas. E três mil francos por mês, além das flores... Uma maçada!

E as duas rugas do meu Príncipe, aos lados do seu afilado nariz, curvado sobre a salada, eram como dois vales muito tristes, ao entardecer.


Eça de Queirós, A Cidade e as Serras

Saturday, February 20, 2010

That is the truth

You loved me. And your lies had their own probity.
There was a truth in every falsehood.

Marina Tsvetaeva, translated 
by Elaine Feinstein

Friday, February 19, 2010

L'apparition

Ce fut comme une apparition :

Elle était assise, au milieu du banc, toute seule ; ou du moins il ne distingua personne, dans l'éblouissement que lui envoyèrent ses yeux. En même temps qu'il passait, elle leva la tête ; il fléchit involontairement les épaules ; et, quand il se fut mis plus loin, du même côté, il la regarda.

Elle avait un large chapeau de paille, avec des rubans roses qui palpitaient au vent derrière elle. Ses bandeaux noirs, contournant la pointe de ses grands sourcils, descendaient très bas et semblaient presser amoureusement l'ovale de sa figure. Sa robe de mousseline claire, tachetée de petits pois, se répandait à plis nombreux. Elle était en train de broder quelque chose ; et son nez droit, son menton, toute sa personne se découpait sur le fond de l'air bleu.

Comme elle gardait la même attitude, il fit plusieurs tours de droite et de gauche pour dissimuler sa manoeuvre ; puis il se planta tout près de son ombrelle, posée contre le banc, et il affectait d'observer une chaloupe sur la rivière.

Jamais il n'avait vu cette splendeur de sa peau brune, la séduction de sa taille, ni cette finesse des doigts que la lumière traversait. Il considérait son panier à ouvrage avec ébahissement, comme une chose extraordinaire. Quels étaient son nom, sa demeure, sa vie, son passé ? Il souhaitait connaître les meubles de sa chambre, toutes les robes qu'elle avait portées, les gens qu'elle fréquentait ; et le désir de la possession physique même disparaissait sous une envie plus profonde, dans une curiosité douloureuse qui n'avait pas de limites.

Une négresse, coiffée d'un foulard, se présenta, en tenant par la main une petite fille, déjà grande. L'enfant, dont les yeux roulaient des larmes, venait de s'éveiller. Elle la prit sur ses genoux. " Mademoiselle n'était pas sage, quoiqu'elle eût sept ans bientôt ; sa mère ne l'aimerait plus ; on lui pardonnait trop ses caprices. " Et Frédéric se réjouissait d'entendre ces choses, comme s'il eût fait une découverte, une acquisition.

Il la supposait d'origine andalouse, créole peut-être ; elle avait ramené des îles cette négresse avec elle ?

Cependant, un long châle à bandes violettes était placé derrière son dos, sur le bordage de cuivre. Elle avait dû, bien des fois, au milieu de la mer, durant les soirs humides, en envelopper sa taille, s'en couvrir les pieds, dormir dedans ! Mais, entraîné par les franges, il glissait peu à peu, il allait tomber dans l'eau ; Frédéric fit un bond et le rattrapa. Elle lui dit :

-- " Je vous remercie, monsieur. "

Leurs yeux se rencontrèrent.

-- " Ma femme, es-tu prête ? " cria le sieur Arnoux, apparaissant dans le capot de l'escalier.

Flaubert, L'Éducation Sentimentale

Thursday, February 18, 2010

Be grateful that no one knows you

Young man anywhere, in whom something is welling up that makes you shiver, be grateful that no one knows you. And if those who think you are worthless contradict you, and if those whom you call your friends abandon you, and if they want to destroy you because of your precious ideas: what is this obvious danger, which concentrates you inside yourself, compared with the cunning enmity of fame, later, which makes you innocuous by scattering you all around?

Don't ask anyone to speak about you, not even contemptuously.

And when time passes and you notice that your name is circulating among men, don't take this more seriously than anything else you might find in their mouths. Think rather that it has become cheapened, and throw it away. Take another name, any other, so that God can call you in the night. And hide it from everyone.

R. M. Rilke, translated by Stephen Mitchell

Wednesday, February 17, 2010

Plaisir d'amour: Maggie Teyte (G. B. Martini)

For Heaven's sake

Hurriedly I asked the Virgin
to have mercy!
To have mercy and intercede
so that the girl I loved,
who was barely eighteen
and was walking about in deep despair,
not eating and not sleeping,
unhappy and in tears,
and would rather die,
should not, for Heaven's sake, be pregnant.

Jaroslav Seifert,
translateed by Ewald Osers

Monday, February 15, 2010

Fame is like smoke

Fame is like smoke,
I couldn't care less.
To both my lovers
I brought happiness.
One is still living,
In love with a blonde,
The other, in a snowy square,
Has turned into bronze.

Ana Akhmatova, translated
by D.M. Thomas

Sunday, February 14, 2010

You may be right

"Yes, you may be right:
the silence after love-making
resembles death."

Jaroslav Seifert
translated by Ewald Osers

Anita O'Day: Sometimes 'I'm Happy...

Friday, February 12, 2010

If I listened...

"But if I listened to the silence
and forced my pen -
what do you think you'd hear?"

Jaroslav Seifert
translated by Ewald Osers

Thursday, February 11, 2010

If love could fly

"If love could fly,
as of course it can't,
and didn't so often stay close to the ground,
it would be delightful to be enveloped
in its breeze."

Jaroslav Seifert
translated by Ewald Osers

Tuesday, February 09, 2010

On peut mettre de l'art partout

(Bonnard)

Frédéric s'était attendu à des spasmes de joie ; -- mais les passions s'étiolent quand on les dépayse, et, ne retrouvant plus Mme Arnoux dans le milieu où il l'avait connue, elle lui semblait avoir perdu quelque chose, porter confusément comme une dégradation, enfin n'être pas la même. Le calme de son coeur le stupéfiait. Il s'informa des anciens amis, de Pellerin, entre autres.

-- " Je ne le vois pas souvent " , dit Arnoux.

Elle ajouta :

-- " Nous ne recevons plus, comme autrefois !

Etait-ce pour l'avertir qu'on ne lui ferait aucune invitation ? Mais Arnoux, poursuivant ses cordialités, lui reprocha de n'être pas venu dîner avec eux, à l'improviste ; et il expliqua pourquoi il avait changé d'industrie.

-- " Que voulez-vous faire dans une époque de décadence comme la nôtre ? La grande peinture est passée de mode ! D'ailleurs, on peut mettre de l'art partout. Vous savez, moi, j'aime le Beau ! il faudra un de ces jours que je vous mène à ma fabrique. "

Et il voulut lui montrer, immédiatement, quelques-uns de ses produits dans son magasin à l'entresol.

Les plats, les soupières, les assiettes et les cuvettes encombraient le plancher. Contre les murs étaient dressés de larges carreaux de pavage pour salles de bain et cabinets de toilette, avec sujets mythologiques dans le style de la Renaissance, tandis qu'au milieu une double étagère, montant jusqu'au plafond, supportait des vases à contenir la glace, des pots à fleurs, des candélabres, de petites jardinières et de grandes statuettes polychromes figurant un nègre ou une bergère pompadour. Les démonstrations d'Arnoux ennuyaient Frédéric, qui avait froid et faim.

Il courut au Café Anglais, y soupa splendidement, et, tout en mangeant, il se disait :

-- " J'étais bien bon là-bas avec mes douleurs ! A peine si elle m'a reconnu ! quelle bourgeoise ! "


Gustave Flaubert, L'Éducation Sentimentale

Friday, February 05, 2010

Zbigniew Herbert

MR COGITO-THE RETURN

1

Mr Cogito
decided to return
to the stony lap
of his fatherland

the decision is dramatic
he will regret it greatly

he can however no longer
stand the colloquial turns
- comment allez-vous
- wiegeht's
- how are you

questions apparently simple
require convoluted answers

Mr Cogito will rip off
bandages of kind indifference
he has lost all faith in progress
he cares about his own wound

displays of abundance
fill him with boredom

he grew fond only
of a Doric column
a church in San Clemente
a portrait of a certain lady
a book he never finished
and a few other little items

so he returns

he now sees
the border
a plowed field
murderous watchtowers
a thicket of barbed wire

without a whisper
a bulletproof door
closes slowly behind him

now
he is
alone
in the treasure house
of all misfortune

2
so why does he return
he is asked by friends
from the better world

he might stay here
somehow settle in

entrust his wound
to the dry cleaner

leave it in the lounge
of an enormous airport

so why does he return

- to childhood waters
- to his tangled roots
- to memory's embrace
- to the hand the face
burned on time's grate

questions apparently simple
require convoluted answers

perhaps Mr Cogito returns
to give an answer

to promptings of terror
to impossible happiness
to a blowout of the blue
to a treacherous question

Zbigniew Herbert, The Collected Poems 1956-1998,
translated by Alissa Valles, Harper Collins, 2007

Anita O'Day: Crazy he calls me

Monday, February 01, 2010

John Donne: The Apparition



WHEN by thy scorn, O murd'ress, I am dead,
And that thou thinkst thee free

From all solicitation from me,

Then shall my ghost come to thy bed,
And thee, feign'd vestal, in worse arms shall see :

Then thy sick taper will begin to wink,

And he, whose thou art then, being tired before,

Will, if thou stir, or pinch to wake him, think

Thou call'st for more,

And, in false sleep, will from thee shrink :
And then, poor aspen wretch, neglected thou

Bathed in a cold quicksilver sweat wilt lie,

A verier ghost than I.
What I will say,
I will not tell thee now,

Lest that preserve thee ; and since my love is spent,
I'd rather thou shouldst painfully repent,

Than by my threatenings rest still innocent.