Monday, June 07, 2010

Acerca da arte e da vida em geral (1)

Arte. Qualidade e Intensidade da experiência: da emoção ou do entendimento. O sensível e o inteligível. O grave e o sublime, mas também a claridade ou a sombra das cores ou dos sons. Pode-se sentir sem entender, felizmente, ou pelo menos sem ter palavras claras para explicar o que se sente; fica para decifrar mais tarde. Pode-se entender sem sentir; mas entender sem sentir ainda terá a ver com a experiência da arte? Sim, mesmo quando se entende sem a intensidade da emoção pode ainda sentir-se como se sente diante de uma obra de arte. A frieza com que, dominando o que sinto, te escutei contar o que aconteceu entre ti e esse homem com quem estavas no café e por causa de quem nos íamos separar em breve foi uma obra-prima da minha sensibilidade e da minha inteligência. Era como estar a ler Dostoiewski ou Rilke. Atento a cada frase, a cada gesto, às subtilezas escondidas  e ambíguas da linguagem e da exibição.  Intenso.  Mas as minhas emoções estavam controladas. 
 
Às vezes recordo-me de ti: das tuas mentiras, das trapalhadas em que me metias, dos dramas da falta de lealdade (devias andar à procura de qualquer coisa; mas do quê? do sentido das palavras, provavelmente).  Eram páginas de romance ou de novela de escritor que sabe narrar factos de maneira que eu me interesse por eles. Claro, tu não estavas a escrever senão a ficção da tua vida e da minha, mas qual é a diferença? Foi assim que acabei por entender que o que ainda resta das nossas relações, além da recordação agradável e ligeira - meio insignificante talvez, porque quase infantil - de alguns sorrisos e viagens, reside - sim, habita... - agora na memória que me ficou dos episódios repetidos e burlescos do desajuste, na memória da intensidade das emoções  simultaneamente certas e despropositadas (mas que felizmente existiram). Foi isso - o mal, a dor, o erro, a paciente construção e reconstrução do desastre, o desmascarar  inevitável mas impiedoso das ilusões - que a memória reteve, num processo semelhante ao que me impede de esquecer episódios de um romance de Dostoievski ou de uma história de Tchekov. Não há muita diferença realmente entre o que eu sentia nesses momentos de desvario e estupidez do meu e do teu espírito e aquilo que sinto quando leio (Tolstoi)  ou oiço (Beethoven) A Sonata de Kreutzer, quando releio Mysteries ou Hunger ou Pan de Knut Hamsun, quando me concentro num quadro de Picasso ou de Modigliani: tudo escrita intensa, narração convincente e problemática da vida. Por isso não me esqueço do que vivi.  Foi tinta preta em página branca. Assimilei (li) e recordo-me. Era a minha vida a sério e a tua que estavam revolucionadas. E a razão por que me é indiferente a maior parte da literatura portuguesa actual - e não só -  por exemplo, deve ser a mesma por que há tanta gente e tantas ocorrências que não me tocam ou não me interessam: só nos fixamos no que consegue dizer-nos respeito, na peça de teatro em que somos de alguma maneira e por alguma razão também actores e não apenas passivos espectadores; o resto, repetição da banalidade da vida e do mundo, passa-nos ao lado, mal retém a nossa atenção distraída com "o essencial".

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