Thursday, June 10, 2010

Acerca da arte e da vida em geral (2)

A arte só tem interesse como arte – só é arte – se tem a capacidade de provocar em nós reacções vitais, isto é, comportamentos  (sentimentos, pensamentos... ) semelhantes aos provocados por acontecimentos das nossas relações com as pessoas, com a vida, com o mundo em que vivemos.  Comportamentos semelhantes não quer dizer repetitivos da banalidade, da insignificância em que, por incapacidade do interesse, da inteligência ou do sentir (falar da incapacidade do acontecimento em si mesmo seria absurdo, os acontecimentos nunca significam nada em si mesmos), podemos viver; à arte, precisamente, exige-se a capacidade de nos despertar da “sonolência” em que vegetamos, à arte exige-se que dê vida a tudo aquilo de que fala . Comportamentos semelhantes apenas na medida em que se assemelham aos que na nossa existência anterior às narrativas (à arte: os quadros, os poemas, os romances, as sinfonias, as sonatas e as óperas, etc.) que a ela se referem, nos tocam, nos interessam, se integram no universo do sentido que nos fomos construindo.  Que interesse têm as elucubrações ambiciosamente “poéticas” de quem não é capaz, como Shakespeare ou Rilke, como Eça ou Camões, de me falar de episódios ou formas da existência que consigam dizer-me respeito? Quem não se consegue fazer ouvir, quem não me obriga a pensar, quem não me faz sentir, quem não suscita em mim curiosidade nem inquietação, amor nem desamor, que me interessa? Nada. A maior parte do que pretende ser arte deve ser, aos olhos de Deus, apenas um balbuciar ingénuo nascido dos velhos mitos da profundidade e da beleza que caracterizam aquilo que designamos por nossa civilização (ou deveríamos dizer "a condição humana"? é em parte isso, mas só o é em parte, precisamente). O que nós fazemos não vale mais aos olhos de Deus, que tem sobre tudo  um conhecimento absoluto, do que valem aos nossos as infantilidades das crianças que estão a aprender a vida.

Demora muito tempo até a gente se dar conta de que na aspiração à arte há muita ambição e muita vaidade. E na aprendizagem cometem-se erros de avaliação que mais tarde, quando corrigidos, se esquecem de que tudo o que nos acontece está eternamente sujeito a reavaliação. De acordo, consumir o que consideramos insignificante faz parte da aprendizagem. De acordo, para Deus a arte nunca chega a existir, para Deus a arte e a filosofia são apenas enternecedoras, ingénuas e talvez dramáticas peripécias humanas, erros repetidos e tentativas vãs. Mas eu mesmo, à medida que envelheço, começo a adquirir algumas – pouquíssimas, eu sei... - qualidades dos deuses, o que explica o meu cepticismo e a minha insatisfação com grande parte dos produtos humanos. Quem não mostra saber mais do que eu sei para que me serve, que me interessa? Eu nem sequer saberia ensinar nada a quem não tem nada a ensinar-me.


Da minha vida recordo os acontecimentos e as pessoas que a marcaram, que a fizeram e a fazem aquilo que ela é. Contestaram-me ou confirmaram as minhas convicções, confortaram-me ou amaram-me, às vezes odiaram-me e outras vezes permitiram-me que amasse. Em resumo, deram pela minha existência, aceitaram-na, contaram comigo. Ajudaram-me a achar sentido à vida. Ajudaram-me a aprender, a compreender. Quantas vezes através do erro, que no entanto foi só meu? Recordo-me do que me trouxe alegria e do que me trouxe tristeza, do que me ajudou a consolidar os meus pontos de vista e do que me obrigou a revê-los e a corrigi-los. Também me recordo do que aconteceu sem eu lhe ter dado importância e lamento ter desperdiçado oportunidades de vir a ser melhor ou mais do que sou. Mas se eu digo que me recordo, não estou a contradizer-me? O remorso não faz parte da aprendizagem, não faz parte da “sabedoria”? Somos imperfeitos, desajustados do que nos acontece: como saber antes de saber, como compreender antes de compreender, como amar antes de ser tempo de amar? Para tudo se exige preparação e disponibilidade, alem de capacidades. Ora a luta pela vida – construir o futuro e o destino como nos ensinaram  - deixa-nos muitas vezes sem energia nem tempo para mais nada senão a parte do percurso traçado de antemão.

Estas reflexões são importantes para mim porque pela primeira vez devo ter enfim entendido de maneira simples e clara a relação entre a vida e a arte. Arte e vida, é tudo a mesma coisa. A alegria e a dor, a dúvida e a certeza participam das qualidades da arte. A arte só merece atenção e admiração porque é vida, isto é, manifestação da alegria e da dor, da dúvida ou da certeza. E a grande questão é sempre a do sentido de tudo. Estamos portanto sempre a agir e a pensar - na arte, na filosofia, nos acontecimentos da vida anteriores à arte que fala deles e os problematiza - dentro dos mesmos modelos. O problema é que nós nos deixamos facilmente corromper. Começamos a confundir as coisas ao ponto de imaginar que possa haver arte à margem da vida, arte que não seja ela mesma vida, expressão intensa da vida (da vida enquanto coisa conhecida e desconhecida). O grande mérito da arte, a sua única utilidade, é participar na revelação e na construção do sentido da vida.

A arte que não chega a ser arte imagino que será apenas ruído que não cresce nem se organiza o suficiente (nem sequer como ruído). Podemos sempre mudar de opinião. Mas é importante ter consciência de que só vivemos no presente. A memória do passado e a imaginação do futuro - e o que eu pensei  e senti ou venha a pensar ou sentir - só têm importância na medida em que o passado e o futuro fazem parte do meu presente como preocupações suas.  

Que estas reflexões não resolvem o problema da definição da arte é coisa que não creio que me escape. A questão da técnica ou a questão técnica são parte do problema, mas são também um capítulo à parte, a merecer tratamento competente e independente.Como é que se faz para que a arte se imponha com a mesma intensidade e seriedade  com que a vida se nos impõe? Fiz uma cadeira de Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa com o Professor Delfim Santos. Estudante de literatura, nunca mais me esqueci do choque e ensinamento que foi a primeira aula dele a que asssisti: "porque tudo é técnica: comer é uma técnica, escrever é uma técnica, andar é uma técnica, amar é uma técnica..." Já não sei se ele disse "é" ou se disse "exige", nem isso deve ter, agora, muita importância. Se ele não tivesse falecido no Verão a seguir, brutalmente, podia ter-me feito mudar de curso.

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